23/03/2013

22/03/2013

Resumo...



O "Resumo - a poesia de 2012". Edição conjunta da FNAC e Documenta inclui 4 poemas editados pela Edições 50Kg pertencentes aos livros: "A Metafísica das T-Shirts Brancas" do Miguel Martins, e "Do Lado de Fora" do José Carlos Soares. Os meus parabéns aos autores. Deixo apenas mais uma nota para corrigir a localização da Edições 50Kg que é uma editora do Porto.


Amanhã, 23 de Março pelas 17h30...

Alberto Casiraghy no Porto


na Galleria Italiana ASCIP
Rua da Restauração, 409 , 1º
4050-605 Porto

18/03/2013

As edições da 50kg estarão por Coimbra...

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Astro físico...


HOMENAGEM A EDDINGTON

                A juventude dizia: Eu quero viver. A velhice dizia-o também. A juventude dizia: Vamos matar a velhice. A velhice dizia: A juventude mata-me. Mas, no fundo, era a velhice que matava a juventude com a astúcia lenta dos chineses.

                
O presente mantinha-se de pé, chamavam-lhe futuro e passado, ontem e amanhã. Sacrificavam-lhe homens e actos. E ele digeria tudo com o seu ventre repleto de astros mortos.

               
  O homem dizia: Estou preso entre quatro muros. E o tempo e o espaço diziam: Está livre, meu amigo, está livre. Não vê? Não vê que falta o quarto muro?

Jean Cocteau, “Tanta Coisa Para Dizer”, p.16, Língua Morta, 2012.

17/03/2013

«A Meio Caminho»...


      A MEIO CAMINHO dos vivos e dos mortos, e mais próximo destes, sinto por vezes uma singular quietude. Se morrer assim, será com a certeza de que a Fernanda me espera de braços abertos. A sua sabedoria, a sua ternura, o seu amor permitem-me continuar a viver; ela transmite-me a sua coragem de maneira tão evidente como o sol a luz e o calor. Ela vela por mim, se não como poderia eu, contra toda a lógica, continuar a durar?

Mas há dias de um vazio total. Não se passa nada. Esta desolação fascina-me: é cinzenta, monótona, feita de silêncio. Como se fosse o último dia, o dia a que mais nenhum se seguirá. Vagueio como um sonâmbulo e todos os lugares me parecem fora da realidade. Sinto-me sem desejo, numa atonia tal que nada consegue interessar-me, nem ontem, nem hoje, nem amanhã. Se o limbo existisse, seria assim, idêntico a estes momentos, de inapetência, de confusas divagações.

Horas perdidas, mas que me deixam contente. Estes tempos mortos dão mais intensidade aos tempos vivos do passado: não há música sem cesuras de silêncio.

O que me faz temer esta espécie de desfalecimentos é o facto de me separarem da Fernanda; a corrente já não passa ou passa debilmente. É só então que ela está entre os mortos, que se esquece de que eu existo.

Ernesto Sampaio, “Fernanda”, p.78, Fenda, 2005.

13/03/2013

Auto-retrato com ensaio crítico...

Carla Filipe «Para quando pedem a fotografia», retrato, 2012.

Segue-se um ensaio crítico de Rui Azevedo Ribeiro que saiu no número 26 da Revista AEL (ex: Artes&Leilões) em Maio de 2010 sobre alguns trabalhos de Carla Filipe. Para ser legível deve-se abrir a imagem num separador novo.




10/03/2013

04/03/2013

MY TOURISM CAMPAIGN...





MY TOURISM CAMPAIGN

Dear tourist and all,
For your nice home hall
We have a portuguese cock
That isn't really for suck

Despite your rich and deep wallet
You can buy it for a trifle
The cock will rise our economy
It's a lovely ‘china’, beware China imitations

On the desire that you travel across the country (with no exception)
Shouldn't lose time with this people (that eventually you will find)
They are just travel around them self (as usually makes this kind)
The circles are their place (they know nothing about interception)

They exist just to serve you, and if you feel the will to pay them
Do it with some spare change – is how they are used to
Knowing that this is our polity:
«Don´t feed the animals of the zoo!»


Rui Azevedo Ribeiro in the good use of macaronic Eras-mos Language



03/03/2013

do «Rumo ao Farol»...

 Francesc Català-Roca ©   


Aquele que desde a meninice desejava ser poeta se rendeu à evidência de que a criação poética corresponde à conquista e à utilização de uma magia verbal – a um uso supremo da linguagem. O estudo da retórica poética lhe transmitiu a convicção de que o poeta, essa criatura tão ciosa de sua identidade, ao produzir a sua obra tem a liberdade de um jogador de futebol ou de xadrez. Ela, a poesia, é construção e arquitetura. Ordem e desordem, razão e desrazão, contenção e transbordamento, rigor e desrigor, a Poesia é a arte de fazer versos, ou de saber fazer versos – é o exercício de uma competência e obedece a leis secretas (ou a uma única Lei) como o mundo em que vivemos, com as suas estações, a noite e o dia, a vida e a morte, o amor e o ódio. E também aprendeu que, através dos anos e dos séculos, a poesia não progride. As rupturas e mudanças, as revoluções estéticas mais desabridas e desnorteantes, as experimentações mais desvairadas, não têm o poder de proceder a metamorfoses; são apenas acréscimos, o incessante fluir de um processo, as novas etapas de uma tradição. Ou instantes ambiciosos ou frenéticos que o tempo, ou o vento, haverá de apagar.

Lêdo Ivo
in “Antologia Poética”, Edições Afrontamento, Porto, 2012.

01/03/2013

«O Juiz»...



O JUIZ


            O ódio que os poetas inspiram é tão grande que os amarram a uma espécie de rodas quadradas e os lançam do cimo de ladeiras que terminam em covas cheias de animais ferozes. Uma alegre multidão de feira assiste a este suplício. Nada a diverte mais do que os sobressaltos das rodas quadradas até à cova onde os animais esperam. Às vezes os animais ferozes deitam-se e lambem, os pés das vítimas. A multidão enraivecida insulta, então, os animais e chama-lhes cobardes. Já assisti a este suplício. Por sorte não me acusaram de ser poeta. Mas reparei que um dos juízes me observava com aversão, pelo canto do olho.

Jean Cocteau, “Tanta Coisa Por Dizer”, p. 24, Língua Morta, Lisboa, 2012.
Trad. de Inês Dias

Uma revelação...

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RETIRADO DAQUI

26/02/2013

"tristissimus hominum"(*)...


(*)"O mais triste dos homens". Foi o que Plínio, o Velho, chamou a Tibério na sua enciclopédia Naturalis Historiæ



Velhos livros Garnier bilingues latim-francês tornados penugentos pelo uso, a idade, o sol, o pó.

Li num desses velhos livros das edições Garnier que o imperador Tibério exigia – para guardar os rolos de imagens pornográficas que coleccionava – cilindros inteiramente amarelos e desprovidos de titulus a fim de que nada traísse a curiosidade que o obcecava.

Errava no império a que fugia.

Imperador desprezado, bicho-do-mato, detestando as cidades, que não queria império nenhum, que matou Deus, que fugiu da própria Roma.

Preferiu viver no mais alto de Capri, à sombra da rocha a pique sobre o mar.


*

Viver escondido – late – dizia Lucrécio.
Larvatus, dizia Descartes.


Pascal Quignard, “As Sombras Errantes – Último reino”, pp. 8-9, Gótica, Lisboa, 2003.
Trad. Maria da Piedade Ferreira.

22/02/2013

Das «Bestas Céleres»...


A LISTA DOS
MAIS VENDIDOS
o mercado e a produção da miséria subjectiva
por Marcia Tiburi

Na capa de um livro da classe de escrita denominada “autoajuda” encontramos a seguinte informação: “mais de 50 milhões de livros vendidos em 50 países”. A explicação numerária está curiosamente sob o nome do autor, bem no topo da capa, antes mesmo do título que, logo abaixo, parece ser relativamente menos importante do que os números que aparecem acima dele. Livros em geral, clássicos ou não, não trazem explicações dessa natureza que venham, como esta, sublinhar o nome do autor. Verdade é que escritores são valorizados por motivos estéticos e políticos que também podem representar algum tipo de capital. Mas justamente por implicarem outros valores não precisam apelar à quantidade vendida aqui ou acolá para despertar o desejo de compra.

Neste caso exemplar, o nome do autor está relacionado a uma quantidade, coisa que a explicação deixa claro. Trata-se de um best-seller, um livro muito vendido. Mas por que esta informação precisa estar em destaque?

Pelo mesmo motivo que jornais publicam listas de “mais vendidos”. E o que realmente importa nos chamados “mais vendidos”? É redundante, mas necessário dizer que os “mais vendidos” vendem mais. Que sejam lidos, ou não, é questão que não importa. Os mais vendidos não despertam o desejo de ler, mas o de comprar o que talvez até possa vir a ser lido.

O contraditório desejo das massas
Mais importante é entender que há uma manipulação das massas no ato de lançar e publicizar os números das vendas diante delas. Daí a função da lista estimulante. Massa é uma medida de quantidade populacional, sempre muita gente que pode ser manipulada porque, no contexto do todo, perde a sua capacidade de decisão no abandono de cada um à coletividade sem reflexão. Mas como isso acontece?

Assim como em uma eleição pesquisas de intenção podem mudar a orientação do voto, do mesmo modo, a lista de mais vendidos ajuda a vender qualquer coisa. A lógica é simples como aquela que verificamos ao ouvir do vendedor em uma loja: “essa camisa está vendendo muito”, “esse é o carro mais vendido da semana”. Frases como estas atingem um estranho desejo das massas localizado em cada indivíduo. O único desejo que sobrevive na massa deriva do medo de não fazer parte dela. Mas que desejo é esse que pode ser manipulado se desejo seria, justamente, aquilo que, no indivíduo concreto, não se deixaria manipular, enquanto a massa seria caracterizada pela ausência de desejo?

Ora trata-se do desejo que constitui a massa. Não o desejo de ter audiência para si, mas o desejo de ser parte da audiência de alguma coisa. O desejo de audiência é o desejo de fazer parte, de frequentar o clube, de entrar no estádio de futebol, de ver a novela que todos veem, de também ler o livro da lista dos mais vendidos. A lista aglutina a massa e assim conquista os indivíduos.

O pior dos livros, neste contexto, vende mais porque é, em algum sentido, mais barato. O mais barato é acessível a quem tem menos capital. Isso vale para a instância simbólica ou cultural. Quem não tem dinheiro, ou capital económico, não compra objetos caros. Quem não tem cultura, ou seja, capital cultural, não compra livros ou compra livros simbolicamente baratos, livros que cabem na sua ignorância do mundo dos livros.

O livro, que era um meio relativamente livre da indústria cultural, foi, como meio cultural, rebaixado à mercadoria e ao mercado. Há ainda livros simbolicamente muito caros que não podem ser comprados mesmo que custem apenas centavos ou sejam emprestados em bibliotecas. Livros que não cabem em listas porque exigem aquilo que se chamava alma e que hoje, na falta de nome melhor, pode ser compreendida como “riqueza subjetiva”, aquela que não vale nada no mundo da miséria inerente ao capitalismo.

Cada leitor tem o livro que merece e cada massa a lista própria de sua própria manipulação na qual cada um será subjetivamente enforcado sem chance de salvação. Aos mortos-vivos da cultura, boa leitura.

in revista CULT, nº175, p.19, Dezembro de 2012, São Paulo.
marciatiburi@revistacult.com.br


20/02/2013

«Pimenta à frente, e nus traseiros!... (*)»


(*) Foi a exclamação que tive ao deparar-me com o anúncio da nova exposição do Museu Leopoldo em Viena d'Austria... Após de há uns tempos atrás ter lido o poema do Alberto Pimenta que aqui reproduzo.

6

chama-se Tim
o homem
em exposição no museu
e adormece
depois do intervalo
do almoço

acorda-o
o vigilante
há um potencial comprador
que o quer ver
e ele acorda e
estende a língua

mas o interessado
não quer a língua
manda baixar as calças
quer ver o acabamento
da tatuagem das costas
que por morte do homem
é o que está à venda
com a pele das ditas

assim reza o contrato
talvez hoje ainda não
amanhã poderão ser milhões
para os artistas
Tim
o que forneceu
e Wim
o que adquiriu
grande gesto
aquela tela viva
que agora expõe no
L’
ouvre
mas ouvre o quê

a arte abriu
nos graffiti das cavernas
como abre
nos muros de hoje

nos museus
estão bens
da economia financeira
nem âme vivante

se além da pele
abrirem a cabeça destes dois
encontram um neuromealheiro
em forma de neuroporca
recém-parida

está bem
a arte de museu
foi até há pouco
carne à venda

por que não há-de sê-lo
outra vez

Alberto Pimenta, 
“De Nada”, pp28-29, Boca – palavras que alimentam, Lda., 2012.






info da expo: 


CENTRO NACIONAL DE CONTRACULTURA: UFFF finalmente cá estou eu no café Piolho em busc...

CENTRO NACIONAL DE CONTRACULTURA: UFFF finalmente cá estou eu no café Piolho em busc...: E STUPID A Ma ga zine é uma publicação Edições Mortas,  Black Sun editores e N edições. Colaboram neste primeiro número :   Al...

19/02/2013

Do homem da bicicleta...



Alfred Jarry

pormenor de OLFACTO dos "Cinco Sentidos" de Alfred Jarry ed- 100 cabeças da Landscape d'Antanho

OS CINCO SENTIDOS de Alfred Jarry
Tradução Luís França
Impresso por Luís Henriques, Luís França, Manuel Diogo e Ricardo Castro
edição 100 Cabeças

Ubu Rei
Pequena resenha: Alfred Jarry (1873-1907), escritor, poeta e dramaturgo francês, foi aluno de Henri Bergson, e o criador da 'Patafísica' definida no 'Gestos e Opiniões do Dr. Faustroll, Patafísico' como "a ciência das soluções imaginárias e das leis que regulam as excepções", algo que nem a física nem a metafísica podem responder. Depressa o caracterizaram como um homem sempre acompanhado por três atributos: a bicicleta, o revólver e o absinto (mas «merdre!», é preciso sempre desconfiar das caricaturas). Serviu de personagem a André Gide no romance «les Faux-Monnayeurs». A peça teatral "Ubu rei" é sem dúvida a sua obra literária mais conhecida. 

"- Merdre!" exclama o pai Ubu à mãe Ubu. «Merdre» é o termo que Jarry cunhou, um neologismo, milhares de vezes repetido. É também o décimo mês de treze no calendário patafísico.

18/02/2013

Ao contrário daquela editora que manda ler com um ípsilon...

A partir de hoje pode-se encontrar na Livraria Alfarrabista Chaminé da Mota títulos das Edições 50Kg. O que é um privilégio raro, pois segundo o Sr. Pedro Chaminé da Mota, "isto não é vocacionado para o  livro novo"... (Então para 'aqueles novíssimos' penso mesmo que «jamé!»). Tem bom gosto, mas isso já lhe advinhava...



16/02/2013

Sena dizia: a «Poetaria»...


cinco

poetria
sempre a poetria
a delicada hora da poetria
de preferência antes de jantar
porque a seguir
poetria bebe do fino
e depois às vezes
não sabe o que diz

de qualquer modo
a poetria
a que embala
as donas de casa
e tem banca no templo
ou vice-versa

essa
faz parte dos ciclos
menstruais nacionais
até o ministério gosta dela
porque ela é boa
doce como o porco e
trata as alterações biológicas
como coisa do espírito santo

quem aprecia congelados
tem ainda o festival
da poetria
pode-se vir
há muitas disputas
em directo
e também em playback

ah
aquela vida de artista
solene e graciosa
viajando com a mala
cheiinha de poetria
e de mash-ups
mais um grande festival
promete muitos rabos e orelhas

alguém disse uma vez
que a poetria está a anos-luz
que é uma supernova
quer dizer
brilha muito
aos olhos de todos
mas na verdade
já não existe

de facto ela
ainda dá ares de existir
meia moribunda
porque a sua função
era ampliar o mundo
não
reduzi-lo ao tamanho de cromos

não
não é uma supernova
tem a vida artificialmente prolongada

o que nos momentos próprios
chegou a fazer faísca
agora só faz bocejar
como andar em topless
entre nudistas
tal e qual queridos

adorais a valeta
a dos outros
a doença terminal
a dos outros
a loucura
a dos outros
daí a vossa melancolia de classe
a vosso medo de não ganhar
maior que a vossa tristeza de perder

a nós outros
o tempo
passa-nos por cima

a vocês
parece que não passa
fica em cima como o de Proust
o que costuma acontecer
nessa posição
é sabido
e é vossa conquista

se restassem deste mundo
só os livros de poesia
os arqueólogos mais tarde
pensariam
que neste tempo
não aconteceu nada
a não ser afiar os cabos das facas

as vossa leituras
são a ver o mar
mas a vossa poesia olha o mundo
como um ecrã de televisão
com um grande vazio de árvores

os pássaros quando aparecem
pousam no chão

com Schubert no ouvido
uma elegia
ao pássaro em cima do rochedo
podia vir a calhar
com os ecos uns dos outros

era bom
que o pássaro voasse

o problema é esse mesmo
ele não levanta voo

quando passar este tempo
de sombra total
do corpo e do espírito
vocês partirão
sem haver no cais
a despedir-se
nem terão já a quem acenar
com o vosso lenço de papel
manchado
de tinta de choco

o que nos divide é um véu espesso
não
não podemos ser amigos


Alberto Pimenta,
in “De Nada”, Boca – palavras que alimentam Lda., pp. 73-76, 2012.

«de nada»...


15/02/2013

«TRANSMIGRAÇÕES»


Perguntou-me outro dia uma jovem estudante – interpretando a minha indiferença pelos confortos e glórias do mercado como indiferença pela publicação – por que motivo não guardava eu os manuscritos na gaveta.
                
«As pobres criaturas iriam sufocar» – respondi. Esta frase ganhou entoações de susto. Para uma mera hipótese, pareceu-me bastante capaz de assassinatos. Descrevi a paisagem ressequida, as casas com bolores e vigas rebentadas, e as personagens hirtas, com as carnes desfeitas sobre esqueletos verdes, de boca aberta naquele grito uivante que sempre solta os emparedados já depois de lhes ter parado o coração.
                
Há algures, de onde emanam os poderes criadores, uma ficha trocada, um cabo mal metido. E essa gente, essas terras, essas cóleras, esses lugares transtornos amorosos – em vez de acontecerem no tempo e na matéria, com a sua existência benigna e humanal, vêm nascer parasitariamente dentro da minha ideia, desarranjando de tal modo as ordens, os fios naturais do pensamento, vivendo com tal folga à minha custa que o único remédio é atirar com elas para cima do papel, pô-las a circular e deixar que mereçam ternura, os despiques, o desprezo das várias sociedades que frequentam. Eu, quanto a mim, suspiro com alívio e penso nelas como em maçadores que no entanto alguma vez amámos: desejando que possam ser felizes e que não mais nos saltem ao caminho.
             
   Bem sei que isto parece perfeita impertinência: primeiro, porque vem a despropósito falar assim da escrita num tempo em que ao trabalho e à inteligência – e não à possessão por astros ignorados – é que usa atribuir-se a feitura de um texto; segundo, porque soa a desatino e de certa maneira a má educação pôr esta voz, num mundo em que as literaturas se transformam em coisas respeitáveis, a queixar-se da grande sem-cerimónia com que as personagens e os enredos se apresentam e dizem, tendo do bolo de Alice o modo imperativo: «Conta-nos». E eu, tão rapidamente quanto posso., lá as conto e as empurro para longe de mim.

Hélia Correia 
na nota introdutória a “Montedemo”, pp.9-10, Relógio D’Água, Lx, 1987. 

14/02/2013

Para Hoje e o Amanhã...

(...)
Doidejam besouros e abelhas nas rosas
volitam nas plantas as mariposas,
enquanto num tronco gargalha a cigarra.

José Apolinário Ramos, "Ontem e Hoje", p.38, Livraria Portugal, Lisboa, 1979. 

12/02/2013

«QUARTA-FEIRA DE CINZAS»...


Sonolências de palhaços,
Desvirgadas a chorar,
Olhos lentos, longos, lassos,
Serpentinas aos pedaços
Sonhos parados, cansaços,
Olhos de morta a cismar

– Pedaços de coisas mortas,
Esquecidos pelas portas –
Olheiras densas, cansadas,
Olhos de noites perdidas,
Serpentinas esmaiadas,
a baloiçar molemente,
E um frouxo riso murchando
Na boca de toda a gente.

António Pedro
in “Antologia Poética de António Pedro”, p.5,  Angelus Novus Editora, Braga, 1998.

10/02/2013

NATURAE, lembrar Olga Gonçalves...

Olga Gonçalves (Luanda, 1929 - Lisboa, 2004)

30 de Janeiro

                Os troncos afundam-se na escadaria no declive sumptuoso da superfície branca. São fantasmas, de costas geladas, vejo o lugar inteiro recolhendo os passos vagarosos da neve.

                A neve traz sucessivos dedos, figuras maiores como amantes fluídos que se concentram, se metem a caminho, para encontrarem fora dos astros a origem da fábula, da paródia, da tragédia do vaudeville.

                A neve escuta, e olha, regressa das cadeias abstractas onde também havia corações e noites de Agosto e a infância dos nomes em transformação.

                Na senda reclusa, o pinheiro argênteo feneceu. Dois homens hão-de chegar para cortá-lo. Desistiu, pensei. Cansou, atalhei remediando. Seria nas primeiras névoas de Novembro, foi nas branduras de Outubro. O pinheiro tornou-se num ramo de cabelos sem odor, irrompido de intrépida mudez. Mas agora, tão cândido por entre a cerração, grito de alvura, à despedida, sem nada já saber do apelo e da velocidade dos minutos, ainda os membros rendidos para o carambelo, asas púrpura de um cardeal a entrarem-lhe no corpo, ainda um pintarroxo a ver-se nos seus galhos, como em alcácer, como obra-prima no sítio de nascer.

                É meio-dia, bateu meio-dia no velho relógio sobre o jardim dos Prosoros. À distância, o sonho, com Moscow e a estonteada floresta passam, passa o limite lôbrego do rio. Abalada e giratória a luz vinda de todos os lados, a luz acordará Nicolai Lvovitch Tusenbach: «Uma árvore secou, mas eis que balança, a par das outras, tocadas pela brisa. Isto me diz que farei parte da vida mesmo depois de morrer»[1].

                O tempo caminhando, a flecha do tempo a consumar o fogo e a rebentar as trevas, tudo é terrível de ambíguo enojo, vamos decerto arder depois de florirmos íngremes de mensagens, voar na planície ignota, mas não seremos esquecidos, Olga Prosorov, o pintarroxo além, como em alcácer, a nossa ressurreição, vê.

Olga Gonçalves, ”Olotolilisobi”, pp. 65-66, Edições Afrontamento, col. Fixões/7, 1983, Porto.



[1] In “As Três Irmãs” de A. Tchekhov
Tradução livre de A.

06/02/2013

Novidades 50kg...


Título:  Bombo.
Autor: Rui Azevedo Ribeiro.
Editora: Edições 50kg
Local: Porto
Ano: Janeiro de 2013.
ISBN: 978-989-97891-3-5
Depósito Legal: 354145/13
PVP: €5
Tiragem: 100 exemplares

Pormenor de Bombo pág. 6

05/02/2013

04/02/2013

A Badalhoca vai abrir sucursal na rua da Picaria, brevemente

sucursal da mítica taberna do Porto na Rua da Picaria... BREVEMENTE

Taberna 'A Badalhoca

"Se é apreciador de bom presunto, esta histórica taberna não o vai desiludir. Desde 1929 que a "Badalhoca" faz as delícias de clientes de todos os estratos sociais, que apenas procuram uma coisa: o pão estaladiço recheado com o saboroso presunto fatiado. Os preços são convidativos e o ambiente é descontraído. A decoração é rústica, com pernas de presunto penduradas no teto e não faltam referências ao Boavista, o clube da casa."

Fonte do texto: http://escape.sapo.pt/porto/taberna-badalhoca-4014891

19/01/2013

«Este é o meu nome»...


No início não havia
mais que uma raiz de lágrimas          isto é, o meu país
e a distância era o meu cordão. Desatei-me
e no verdor árabe afundou-se-me o sol.
A civilização é uma maca, uma padiola,
                                                                              a cidade
                                                                              rosa pagã,
                                                                              tenda:

Assim começa ou termina o relato.
A distância era o meu cordão. Juntei os meus vínculos
eu, cratera astral,
e escrevi a cidade
(quando a cidade era uma caravana atracada e os seus lamentos
                                                                              fúnebres eram as muralhas da Babilónia),
escrevi a cidade

como ressumbra o alfabeto,
não para turvar as feridas
não para ressuscitar as múmias
antes para reviver as diferenças…          O sangue
une a rosa ao corvo          Para reduzir as pontes
e lavar os rostos tristes
exangues pelos séculos .
Escrevi a cidade

qual profeta que caminha até à morte
                                                               quero dizer, o meu país
o meu país eco
eco, eco…

A letra ba tirou o véu da cabeça
a xim é um montão de cabelos, fenece, fenece.
O álif, a primeira letra, fenece, fenece.
Ouço soluçar a ha.
enquanto a ra, como o crescente lunar,
afunda-se nas areias e com elas se funde,
fenece, fenece,
sangue coagulado que subitamente flui no deserto das palavras.

Sangue que tece desastres e trevas
Definha, desaparece,
esgotada já a magia da tua história!
Concede-nos o vosso perdão e a vossa graça,
ai, chifres das gazelas,
redondos olhos dos antílopes…

Vacilo, a cada instante te vejo, país meu,
                numa imagem.

Agora levo-te à minha frente, entre o meu sangue
e a minha morte: és rosa
                ou sepulcro?

Vejo-te, uma fileira de crianças arrastam
as suas entranhas, escutam e obedecem,
prosternam-se diante dos cadeados, mudam
de pele com cada golpe de chicote… Rosa
                ou sepulcro?

Feriste-me de morte, mataste as minhas canções
                És revolução?
                ou matadouro?
Vacilo, a cada instante te vejo, país meu,
                numa imagem…

Ali, com a tua história assassinada às costas,
vais perguntando à luz de choça em choça:

                «Disseram-me que tenho uma casa
como a minha casa em Jericó,
que tenho irmãos no Cairo
que a fronteira de Nazaré
está em Meca.
                Como é que se transformou o conhecimento
em grilhões
e a distância num cerco de fogo, em vítima?
Por isso rejeita o meu rosto a história?
Por isso não vejo nenhum sol árabe
no horizonte?»
Ah, se tivesse conhecido a comédia, a farsa!
(Podes chamá-la de sermão do califa, podes nomeá-la
vésperas ou Carnaval).
Têm dois maestros de coro:
um afia o gume à guilhotina
outro rebola no pó. Se tivesses conhecido
a farsa…

Como? Por onde resvalas-te
entre a nuca do decapitado e a lâmina da guilhotina? 

Adónis, in "Éste es mi nombre", pp.29-35, Allianza Editorial, Madrid, 2006
versão da tradução Castelhana de Frederico Arbós Ayuso por RAR.

15/01/2013

De «O Sentido da Neve»...


Nos últimos meses reli algumas das minhas novelas e foi estranho, não me lembrava dos demónios, demónios e anjos que nascem uns dos outros como numa gravura de Escher (e não me lembrava que os livros são feitos de tempo, alguns livros e estamos velhos, mais alguns e estamos mortos). O que terá acontecido à jovem que no fim de uma história entrava na vivenda do outro lado da rua? E quando passo na casa que há dois anos era a Villalilla (os lilases estão de novo em flor), lembrou-me de como me senti nos meses que se seguiram à escrita da novela, estava perdida e não consegui encontrar o caminho de volta, nunca consegui, não sei se eles ainda estão lá, sentados no muro do fundo do jardim, descendo o caminho nas rochas para mergulharem no mar. E Jane Frost, onde estará agora? No lugar onde a deixei, ela não podia escapar. Sentada junto à lareira no seu paraíso reencontrado, enquanto a neve cai lá fora. Acho que ela tinha algo de uma personagem de Ray, talvez o andar de vagabundo que sabe que não pode voltar a casa (como Robert Mitchum no princípio de The Lusty Men). E, no entanto, é possível voltar a casa, Jim Wilson e Jane Frost encontraram o caminho para casa… Mas eles são apenas fantasmas, por momentos esqueci-me de que eram eles os fantasmas. E vou ver novamente In a Lonely Place, ele chama-se Dixon Steele, é escritor, tem toda a solidão das personagens de Ray (e a amargura, e a violência, e o cansaço), sabe que a vida é impossível, mas ainda procura alguém, ainda acredita que o amor pode salvar. E, como Laurel Gray, eu gosto muito do seu rosto.

Ana Teresa Pereira, “O Sentido da Neve”, pp. 40-41, Relógio D’Água, Lisboa, 2005.

31/12/2012

Pormenor de 'Cornadas' de Rui Caeiro in "Ruindade".

Pormenor de 'Cornadas" de Rui Caeiro, in "Ruindade".

Título: Ruindade.
Autores: Rui Caeiro, Rui Pires Cabral, Rui Pedro Gonçalves, Rui Miguel Ribeiro e Rui Azevedo Ribeiro.
Editora: Edições 50kg
Local: Porto
Ano: Dezembro de 2012.
ISBN: 978-989-97891-2-8
Depósito Legal: 372713/12
PVP: €7,50