26/10/2018
25/10/2018
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“Os nazis inventaram as câmaras de gás e o Zyklon B como forma rápida e barata de matar uma grande quantidade de gente para salvar a raça ariana da degeneração. Os nazis julgavam que a raça ariana era de todas a melhor e que eles eram a melhor de todas as nações arianas porque sabiam fazer a guerra e o comércio e organizar convívios populares. (…) E das pessoas asfixiadas arrancavam os dentes de ouro e esfolavam algumas delas para com a pele fabricarem abajures para oficiais superiores e importantes agentes políticos. E antes de as enviarem para as câmaras de gás rapavam-lhes o cabelo que depois era aproveitado para rechear colchões ou fabricar perucas para bonecas. E os cientistas inventaram uma forma de com a gordura das pessoas asfixiadas se fabricar sabão para os soldados alemães. A cinco quilos de gordura acrescentavam-se dez litros de água e um quilo de soda cáustica a mistura era fervida numa caldeira durante três horas juntava-se uma pitada de sal levantava-se fervura e deixava-se arrefecer até formar uma crosta que era retirada cortada aos bocados e levada ao lume de novo e antes de arrefecer juntava-se um líquido especial para que o sabão não cheirasse mal. Em Gdansk um soldado alemão enlouqueceu porque antes da guerra tinha tido uma amante que não soubera que era judia e que depois fora levada para Auschwitz e os amigos lhe tinham dito a brincar que esse sabão com que já havia uma semana que se ensaboava era feito dessa amante que o sabiam pelo director da morgue de Gdansk para onde eram levados os cadáveres para deles se fazer sabão. Quanto ao soldado em seguida tiveram de o levar para um manicómio na Alemanha.”
Patrik
Ouředník,
“Europeana – uma breve história do século XX”, pp. 33-34,
Antígona Editores Refractários, Lisboa, 2017.
17/10/2018
16/10/2018
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Coimbra,
16 de Outubro de 1945
– Uma
cobra de água numa poça do choupal, a gozar o resto destes calores,
e umas meninas histéricas aos gritinhos, cheias de saber que o bicho
era tão inofensivo como uma folha.
Por
fidelidade a um mandato profundo, o nosso instinto, diante de certos
factos, ainda quer reagir. Mas logo a razão acode, e o uivo do
plasma acaba num cacarejo convencional. Todos os tratados e todos os
preceptores nos explicaram já quantas espécies de ofídios existem
e o soro que neutraliza a mordedura de cada um. Herdamos um mundo já
quase decifrado, e sabemos de cor as ervas que não devemos comer e
as feras que nos não podem devorar. Vivemos numa paz de animais
domésticos, vacinados, com dentes caninos a trincar pastéis de
nata, tendo aos pés, submissos, os antigos pesadelos da ignorância.
Passamos pela terra como espectros, indo aos jardins zoológicos e
botânicos ver, pacata e sàbiamente, em jaulas e canteiros, o que já
foi perigo e mistério. E, por mais que nos custe, não conseguimos
captar a alma do brinquedo esventrado. O homem selvagem, que teve de
escolher tudo, de separar o trigo do joio, de mondar dos seus
reflexos o que era manso e o que era bravo, esse é que possui
verdadeiramente a vida e o mundo. Diante duma natureza inteira e una,
também ele tinha necessàriamente de ser inteiro e uno. Sem amigos e
sem vizinhos, sòzinho contra
as árvores e contra as sombras, ele era uma fortaleza em si, tendo
na própria pele as ameias. Que totalidade a de um ser que não pode
confiar senão em si! Socialmente, seremos assim (e somos,
certamente) mais fáceis de conduzir, mais úteis, mais progressivos.
Mas, individualmente, a que distância estamos de um homem das
cavernas! Que tamanho o dele, a caçar bisões, e que pequenez a
nossa, a ganhar taças em torneios de tiro aos pombos!
O nosso gritinho de horror diante de qualquer lesma dá bem a
perdição a que chegámos. Civilizámo-nos, mas à custa da nossa
mais profunda integridade, dispersando-nos nas coisas que fomos
desvendando.
Na cobra de hoje ninguém viu sinceramente veneno ou orte. Vimos
todos, sim, o manual que aprendemos no liceu. E o estremecimento das
meninas histéricas, eco delido do uivo profundo de pavor e de
incerteza dos nossos antepassados, foi dum ridículo tal que
respingou outros aspectos e outros recantos da existẽncia. Que
espécie de sinceridade profunda, de lealdade incontroversa, haverá,
por exemplo, em acreditar em Deus com a bomba atómica na mão?
É bem que o homem faça todas as experiências, inclusivamente
consigo. Que liberte a energia das pedras e se liberte também a si
de todas as clausuras. Mas os instintos? Poderá, na verdade, ele
viver desfalcado dessa força que o fechava como um punho e lhe dava
uma coesão igual à dos átomos antes de serem bombardeados? Pelo
caminho que levamos, um dia virá em que tudo em nós será
consciência, compreensão e sabedoria. Mas nessa mesma hora
estaremos desmpregados no mundo. Todos os saberemos resolver a
equação da vida na ardósia negra onde dantes eram as trevas da
nossa virgindade criadora, mas talvez já não haja vida, então.
Miguel Torga,
“Diário III”, pp.
129-131,
1954, Coimbra.
14/10/2018
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Coimbra,
14 de Outubro de 1945
– Estes
novos fazem-me de fel e vinagre, e eu reajo, claro. Mas reajo só por
fora. Sou humano,
e não é agradável ouvir certos assobios. Por dentro, porém, estou
inteiramente com eles. Com quem hei-de estar eu, senão com quem tem
a natureza pelo seu lado? Mesmo que façam maus versos e péssima
prosa, eles é que têm vinte anos, é que vão trazer ao mundo a sua
primavera de agora. E eu, a dizer que não, bebo-lhes as palavras,
espreito-lhes os gestos, acompanho-os em todas as suas aventuras,
solidário com a verdade que não sabe cantar nem
descrever, mas que está espelhada na sua mocidade. Sei, de resto,
que a função de uma árvore nova não é dar bons frutos, mas
irradiar confiança. No pomar onde já todos os pólens se cruzaram,
é ela que traz a virgindade de uma promessa. Às vezes sai cereja
bichosa. Paciência. O seu corpo foi morada de uma inquietação, e,
enquanto o foi, teve a flâmula azul da vida a drapejar nos seus
ramos.
O facto de eu existir, é um argumento sólido para eu não abdicar;
mas o facto de um jovem existir ao meu lado, é um argumento para uma
conclusão mais sólida ainda: que a própria vida não abdicou, e
que é preciso ser-lhe fiel, acompanhando-a na sua esperança..
Miguel Torga,
“Diário III”, pág. 128,
1954, Coimbra.
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“Coimbra,
14 de Outubro de 1942 – (…) Vêem um pobre lírio a contar
uma anedota como nunca ouviram, a segredar-lhes um piedoso galanteio
como nunca nenhum namorado lhes disse, e no fim vem isto:
–
Que fantástico o senhor está hoje! Nem parece poeta!
Miguel
Torga, “Diário
II” 3ª ed. Revista, pág. 69, Coimbra Editora, 1960.
10/10/2018
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“Vila
Nova, 10 de Outubro de 1936 – Um
Diário não é isto. Diário é o daquele inglês que, para que
ninguém o lesse, até uma cifra inventou.
O que eu diria aqui se soubesse escrever em cifra!”
Miguel
Torga, “Diário I”, pág. 28, 1941, Coimbra.
28/09/2018
26/09/2018
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“Monsanto,
26 de Setembro de 1941 – … só não rezo porque não há
lages para certos joelhos…”
Miguel
Torga, “Diário
II” 3ª ed. Revista, pág. 13, Coimbra Editora, 1960.
24/09/2018
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Pinhão,
25 de Setembro de 1945
– Desço
mais uma vez a estrada que liga as frescuras da montanha a estes
calores tropicais, e novamente o velho problema da nossa incultura me
começa a moer. Não pode haver no mundo coisa mais bela do que o
vale do Pinhão, quando estas primeiras tintas do outono o visitam. A
gente olha de cima, e não está mais na terra. Debruça-se sobre um
abismo de cor, ao fim do qual dois rios se bebem com sede um do
outro. Mas há uma linha decente a dizer isto, não existe uma linha
decente a dizer isto, não existe uma lenda a almofodar tanta beleza,
nunca um poeta por aqui passou com a lira na mão. O
Reno tem castelos, tem Brentanos, tem Heines. O desgraçado Doiro tem
as suas pedras descarnadas como ossos secos num deserto. Tanto vinho
generoso que deu, tanta força a rasgar rochedos desde a nascente ao
mar, e nada. Nem uma pintura, nem um poema, nem uma história! Suor,
suor, suor, e a espadela dum barco rabelo, pesada como um lâtego, a
açoitar-lhe o lombo doirado. E o pior é que a desgraça visita
outros rios e outros vales da nossa terra. Sítios maravilhosos onde
nunca chegou a imaginação de um artista, regatos cristalinos que
nunca foram vistos por ninguém. O povo, fechado nos antolhos da sua
fome milenária, só vẽ courelas e água de regar courelas. E os
outros, os bem comidos e bebidos, e que por isso tinham a obrigação
de uma acuidade mais ampla, jamais tiveram verdadeiro carinho por
esta pátria que sugam desde que ela existe. Nem mandaram um artista
passeá-la, nem eles próprios se dignaram parar a liteira no alto
dum monte para olhar à volta. Vão gastar o cansaço dos servos nos
cafés de Paris, certos que têm bom gosto e são pessoas
civilizadas. E o nome com que designam a roça da sua grandeza, é
«província». Fecha nestas palavras o seu nojo pelos piolhos e pela
lepra que cultivam com um desvelo digno deles e, quando regressam,
ficam-se pela Capital. Ficam-se pela Babilónia da nossa perdição,
por essa Lisboa que Portugal inteiro sustenta, – enorme,
monstruosas e vazia cabeça de um pequeno corpo, de tal maneira
cansado de trabalhar, que nem tempo tem para olhar a formosura
natural que Deus lhe deu.
Miguel Torga, “Diário
III”, pp. 117-118, 1954, Coimbra.
13/09/2018
08/09/2018
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“Gerez,
8 de Setembro de 1942 – Passeio no jardim botânico. Cedros,
acácias, palmeiras, eucaliptos, e tudo me pareceu mais ou menos bem.
Mas de repente surgiu qualquer coisa a perturbar a harmonia. Vi
melhor, e era uma Ginkgo Biloba, que estava ali, trémula, delicada,
aflita, como uma deusa verdadeira num templo falso de exposição.
Aterrei-me. Sou assim: diante de uma bananeira, duma araucária, ou
de qualquer outra planta assim quente e distante, sinto-me em paz. No
meu sangue, os Incas, os Aztecas, os Guaranis, os Hotentotes, os
Senegaleses, e todas as outras raças de que a história seiscentista
reza, estão de facto conquistadas. Mas, com respeito aos Japoneses,
sinto que o tiro do Zeimoto não chegou. Por isso, sempre que me
aparece diante dos olhos um leque ou uma árvore assim, a sugerir
outra arquitectura, outra música, outra pintura e outra alma, é
como se visse o demónio em pessoa diante de mim.”
Miguel
Torga, “Diário
II” 3ª ed. Revista, pp. 64-65, Coimbra Editora, 1960.
05/09/2018
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S.
Vicente, 5 de Setembro de 1943
– Um
desgraçado com a doença de Ayerza. Que tristeza deve ser ligar o
nome a uma coisa destas! Sorte os astrónomos, que dão o seu a
estrelas!
Miguel Torga, “Diário
III”, pág. 17, 1954, Coimbra.
04/09/2018
28/08/2018
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Coimbra,
28 de Agosto de 1944
– Ontem
uma tarde
pavorosa, com raios de quilómetros e graniso de arrátel, e hoje uma
manhã calma, doce, fresca e conciliante. Uma paz tão completa em
tudo, uma serenidade tão autêntica do céu e da terra, que até as
próprias couves destroçadas dos quintais se esforçam para
disfarçar as comprometedoras lenhaduras do corpo.
E foi esta hipocrisia da natureza que me estragou os nervos. Os
coriscos, embora lhes tivesse, como sempre, um terror vergonhoso,
aceitei-os; a pedra, embora uma mais desabrida me tivesse magoado,
aceitei-a também. Mas este sorriso sonso do cosmos, irritou-me.
Achei-o indigno de uma força que pode abanar montanhas e secar
mares. Tive a impressão de que estava a ver todas as tartufices dos
homens abençoadas e copiadas por Deus.
Miguel Torga, “Diário
III”, pp. 79-80, 1954, Coimbra.
25/08/2018
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Gerez,
25 de Julho de 1943 –
Aqui apresento ao leitor
benévolo o João Cantador, ou seja o Nijinski do Minho. Nasceu em
Rio Calvo, nunca foi vencido em desafios de cavaquinho e de malhão,
funda na Bíblia as suas réplicas, e é de verdade um bailarino
extraordinário único, que só a nossa incultura consente se perca
por estas serras a embebedar-se com vinho verde.
Miguel
Torga, “Diário
III”,
pág.
13,
1954,
Coimbra.
24/08/2018
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“Gerez,
24 de Agosto de 1942 – Mas porque não deixa você de escrever
durante uma temporada, para descansar? – perguntava-me hoje alguém.
–
Porque era a mesma coisa que um crente deixar de rezar um mês ou
dois, por higiene.”
Miguel
Torga, “Diário
II” 3ª ed. Revista, pág. 58, Coimbra Editora, 1960.
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Monte
Real, Agosto de 1938, Sexta –
Uma semana inteira a olhá-la
muito em segredo para que nem ela mesmo soubesse que só a cor dos
seus olhos enchia a minha solidão. E hoje, quando entrei na sala,
tinha o noivo ao lado! O que depois o pobre do violinista fez para me
consolar! Até a Viúva Alegre
tocou!
Miguel
Torga, “Diário I”, pág. 72, 1941, Coimbra.
22/08/2018
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Arrouca,
22 de Agosto de 1945
– A
moldura vazia de um Murillo roubado, um cicerone que começa a
mostrar um orgão de 1.200 vozes e acaba por levar a gente a uma
fábrica doméstica de murcelas, e a princesa D. Mafalda num túmulo
de prata, muito reconfortada sobre cochins.
– Está conservada… – insinuei eu, a olhar irònicamente a
cera da cara e da mão.
E o funcionário, espicaçado nos seus brios, esclareceu:
– Foi retocada… Autênticos, são só os dentes, as pestanas e
as unhas…
Diante desta côrnea e calcárea declaração, ainda cuidei que uma
devota que resava ao lado estremecesse. Mas não. A fé pode muito.
Tanto, que nem era preciso a igreja ter o trabalho de conservar as
pestanas, os dentes e as unhas originais da santa…
Miguel Torga, “Diário
III”, pág. 111, 1954, Coimbra.
21/08/2018
17/08/2018
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Gafanhas,
Aveiro, 17 de Agosto de 1944
– Este
Portugal é assim: meio natural, meio segregado. O natural é de
pedra, duro, onde o sal das lágrimas e do suor consegue abrir uma
cova plantar uma vide; o segregado é de bosta de gente e de
ovelhas, de sargaço e mexilhão, e é roubado aos ribeiros e ao
mar.
E há quem tenha coragem de parasitar isto!
Miguel Torga, “Diário
III”, pág. 77, 1954, Coimbra.
15/08/2018
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Caldelas,
15 de Agosto de 1945
– O
Japão pediu a paz. O imperador, na sua qualidade de Deus, resolveu
neutralizar pela mansa a bomba atómica. Os seus súbditos, porque
acreditam nele, desataram a abrir a barriga, que é um fedor. Ele,
felizmente, é que não tem em quem acreditar, e fica.
Miguel Torga, “Diário
III”, pág. 110, 1954, Coimbra.
...
Figueira
da Foz, 15 de Agosto
de 1939 –
Leitura das
cartas de Lawrence. Grande bicho! Mas quando falava com entusiasmo da
sua coragem de solidão, fui atacado à má-cara:
– O Lawrence era como muitos sujeitos, que se dizem
auto-suficientes, mas acabam sempre por acrescentar em post-scriptum:
– ...Não venha, não é cá preciso, mas, se quisesse vir, seria a
maravilha das maravilhas...
Miguel
Torga, “Diário I”, pág. 104, 1941, Coimbra.
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Monte
Real, Agosto de 1938, Quarta –
É preciso dizer isto. É
preciso fazer esta confissão, mesmo que a posteridade depois desista
desta lápide. É preciso dizer que li hoje de enfiada dois romances,
dum tal Sr. Amstrong, e que gostei. E acrescentar que tinha ao lado,
interrompida, A Luz de Agosto
de Faulkner.
Miguel
Torga, “Diário I”, pág. 72, 1941, Coimbra.
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