08/01/2018

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“E olhe, pus de parte o circunstancial e episódico, senão tínhamos relato minucioso e estirado à Marcel Proust.”
Aquilino Ribeiro, “Quando Ao Gavião Cai a Pena”, pág. 23, Livraria Bertrand, Lisboa, s/d.

 
“Dois pavões arrastavam pelas carvalhas esqueléticas suas capas de asperges episcopais, soltando o miado de tigres assanhados.”
Aquilino Ribeiro, “Quando Ao Gavião Cai a Pena”, pág. 27, Livraria Bertrand, Lisboa, s/d.

30/12/2017

31 de Dezembro...

Wenceslau de Moraes, 1903

“Quando uma creança nasce, entra no seu primeiro anno de existencia… de publicação, dá-me vontade de dizer. No seguinte anno do calendario, entra no seu segundo anno de existencia. O dia do anno novo é, pois, de certo modo, um anniversario impessoal, o anniversario de toda a gente. De maneira que, por exemplo, o menino nascido no dia 31 de dezembro, entra no dia 1.º de janeiro no seu segundo anno; a mãe dirá que tem dois annos, e nós… que tem dois dias. Em geral, quando um japonez nos diz a sua idade, convém descontar-lhe um anno, pelo menos, reduzindo assim a cifra á nossa maneira de contar.

Wenceslau de Moraes, “Cartas do Japão”, pág. 166, Imprensa de Portugal-Brasil, s/d, Lisboa.

20/12/2017

Alusão à quadra...


“Desejando dar um resumo dos ultimos factos, alludo apenas á quadra em que me encontro, pela qual, em lares inglezes ou inglezados, vai fructificando a arvore do Natal, pendendo a ramaria ao peso das almofadas para alfinetes, das bolas de vidro prateado, das bocetas com confeitos e de outras bugigangas; a mais, um cheiro a cêbo, intoleravel, emanando do classico plum-pudding... Refugio-me no meu albergue, entricheiro-me; e, se alguem vier aqui convidar-me para alguma festa... dou-lhe um tiro!... “

Wenceslau de Moraes, “Cartas do Japão”, pág. 159, Imprensa de Portugal-Brasil, s/d, Lisboa.

18/12/2017

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“E agora uma nota derradeira: Ha dias, um jornal do Japão dava a seguinte noticia aos seu leitores:

            “Entre os sete  estudantes chinezes, chegados a Tokio ultimamente, conta-se um descendente, do sexo feminino, de Confucius.”

            Não vos parece, leitor, extremamente emocionante o caso d’estas noticias actuaes, referidas aos parentes de um homem que viveu ha vinte e quatro seculos, e que já ia contando antepassados remontando a uns mil annos atrazados?… No Extremo-Oriente, em verdade, não desperta isto muito espanto. Aqui, pelo amor da tradição, pelo respeito dos avós, pela religião do lar, a memoria perpetúa a linhagem das familias. Pelo contrario, no Occidente, os tempos tudo apagam; a vida de hoje afoga-se amanhã no esquecimento. Imaginem como seria recebida uma noticia n’estes termos, lida nas folhas europeias: – “Uma prima de Socrates acaba de chega a Torres Vedras, onde vem aprender a lêr pelo methodo de João de Deus…?” – Desatava toda a gente às gargalhadas!…, Ai, pobres mortos, os nossos pobres mortos, os mortos do Occidente!...”

 

Wenceslau de Moraes, “Cartas do Japão”, pág. 147, Imprensa de Portugal-Brasil, s/d, Lisboa.

14/12/2017

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Ex-administrador do Facebook diz que redes estão a destruir o funcionamento da sociedade




Ana S. Ferreira

12 Dezembro 2017 às 20:54

 

Ex-administrador do Facebook diz que redes estão a destruir o funcionamento da sociedade

Chamath Palihapitiya, ex-diretor executivo da rede social Facebook, admitiu sentir-se "tremendamente culpado" por ter participado na construção de uma ferramenta que está agora a "destruir a forma como a sociedade funciona".

Palihapitiya, que foi também foi vice-presidente do departamento de utilizadores do Facebook até 2011, ano em que saiu para criar a sua própria empresa de investimento em capitais de risco na educação e na saúde, disse acreditar que o "os ciclos de retro-alimentação a curto prazo, impulsionados pela dopamina que criamos, estão a destruir o funcionamento da sociedade". São desprovidos de qualquer "discurso civil", com "informações erradas e inverdades".

Como vice-presidente, Palihapitiya tinha a função de gerir e aumentar o número de utilizadores da rede social. "No fundo, todos sabiam que algo mau poderia acontecer". E o problema, acrescentou, "não é americano nem está relacionado com as mensagens patrocinadas pela Rússia. É global".

Na palestra, feita no mês passado na Stanford Business School mas só agora noticiada pelo site especializado em tecnologia "The Verge", Palihapitiya pediu à audiência que descansasse das redes sociais: "Encorajo-vos, todos, a interiorizar a gravidade do problema", disse. "Se alimentarem a besta, ela irá destruir-vos".

"Vocês não se apercebem, mas os vossos comportamentos estão a ser programados", avisou, defendendo que as redes sociais estão a "danificar as bases fundamentais de como as pessoas se comportam e se relacionam".

Admitindo que não tem uma boa solução para resolver o problema, assume que ele próprio não usa a sua página de Facebook. Sem papas na língua: "Eu não uso esta merda e não permito que os meus filhos usem esta merda". Contudo, não deixou de realçar que o Facebook tem pontos positivos e garantiu que o dinheiro que lhe pagaram pelo trabalho que fez na empresa irá ser usado no apoio a causas mundiais.

As declarações de Palihapitiya seguiram-se às de Sean Parker, presidente fundador do Facebook, que, também no mês passado, criticou duramente a empresa por "explorar a vulnerabilidade da psicologia humana", criando uma "contínua alimentação da validação social".
 

10/12/2017

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“Os misteres de carpinteiro, de estucador, etc., são verdadeiros sacerdocios; devendo observar-se que durante a construção de um edificio e em certos estados de adiantamento da obra, os obreiros praticam certas mysticas ceremonias. Erros de construção, ainda os mais simples, dão origem a calamitosos resultados. No numero de taes erros, figura o chamado sakasa-bashira, viga às avessas. Os carpinteiros empregam escrupulosas attenções no assentamento das grandes vigas verticaes das casas japonezas, devendo collocal-as na sua natural orientação, isto é, taes como se conservavam como arvores, com a parte sêcca da raiz para baixo, com a parte junto da rama para cima. A’s vezes, dá-se o equivoco, assentando a viga… de pernas para o ar, como nós poderiamos dizer. O caso é dos mais graves. Acontece que o espirito da viga soffre atrozmente com aquella posição contrariada aos seus instinctos e por longo tempo supportada. Pela noute desabafa em gemidos, as fendas da madeira escancaram-se como outras tantas bôccas afflictas, os nós abrem-se como outros tantos olhos espantados. Contorcendo-se em desesperos, a viga estremece e abala a casa toda; fura pelas paredes, penetra nos aposentos, offerecendo-se à visão dos locatarios, adormecidos, em fórmas diabolicas. E notai que este fracasso redunda em constantes maleficios, traduzindo-se em infortunios domesticos, em zangas, em disputas, que só cessam quando o mal é conhecido e se chama um carpinteiro, que dá então à viga torturada a posição appetecida.”

Wenceslau de Moraes, “Cartas do Japão”, pág. 97, Imprensa de Portugal-Brasil, s/d, Lisboa.

08/12/2017

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“Ora, os touristes formam uma interessantissima classe,quasi uma casta, que poderá commover as almas bem dotadas, mas que antes de tudo provoca riso e mofa. A massa dos touristes é, na sua grande maioria, composta do cosmopolitismo endinheirado, marcado das taras de degenerescencia que particularmente ataca a gente rica: uns meios nevroticos, outros meios imbecis, outros meios loucos, outros meios scelerados, todas as mazellas emfim que impellem às grandes viagens sem intuito, ao movimento pelo prazer do movimento, quando a vida normal, na patria e na paz do lar, se torna intoleravel. “

Wenceslau de Moraes, “Cartas do Japão”, Vol.1, pág. 74, Imprensa de Portugal-Brasil, s/d, Lisboa.

01/12/2017

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Sobre as constipações...


“Pois é opinião corrente entre os mais eminentes eruditos que o cérebro não passa de uma multidão de animaizinhos, pequenos mas dotados de garras e dentes extremamente acerados, os quais se mantêm unidos na contextura que nos é dado divisar, como a imagem do Leviatã do Hobbes, ou como abelhas num enxame perpendicular sobre uma árvore, ou como uma carcaça coberta de vérmina, ainda conservando a forma e a silhueta do animal de origem; que toda a invenção é produto da mordedura de dois ou mais destes animais, infligida em certos nervos capilares que procedem do cérebro, a partir do qual três ramos se disseminam até à língua e dois até à mão direita. Afirmam também que estes animais possuem uma constituição extremamente frígida; que o seu alimento é o ar que atraímos, o seu excremento a mucosidade; e que aquilo a que vulgarmente chamamos catarro, constipações e defluxos nasais não são mais do que diarreias epidémicas, a que aquela pequena comunidade é particularmente atreita, devido ao clima em que habita. Mais ainda, que nada menos que um calor violento poderá libertar estas criaturas da sua postura enganchada, ou dar-lhe vigor e disposição para imprimirem as marcas dos seus delicados dentes. Que, caso a mordedura seja hexagonal, produz poesia; a circular gera eloquência, caso a mordedura seja cónica, a pessoa cujo nervo é afectado deste modo estará na disposição de escrever sobre política; e assim por diante.”

Jonathan Swift, “Singela Proposta...”, pp.76-7, ed. Antígona, Lx, 2013.

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16/11/2017

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“De acordo com o moderno paradoxo. [antiquitas saeculi juventus mundi, na formulação de Francis Bacon (1961-1626), isto é, o mundo é mais antigo na era moderna de que o era na antiguidade, já que muitos mais anos decorreram entretanto.]”
Jonathan Swift, “Singela Proposta”, pág. 25, Antígona, Lx, 2013.

20/10/2017

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“A expressão «turismo de qualidade» significa, traduzida em miúdos, o turismo destinado a gente com contas bancárias chorudas, de preferência estrangeiros oriundos de «países bons». Para as restantes multidões o turismo não tem de ser «de qualidade», basta ser uma merda qualquer.”
Júlio Henriques, “Alucinar o Estrume”, pág. 37, Antígona, 2017, Lisboa.

17/10/2017

21 e 22 de Outubro — das 14 às 23 H (Sábado); das 14 às 20 H (domingo)



PROGRAMAÇÃO mais informação - AQUI


LISTA EXAUSTIVA DE EDITORES E IMPRESSORES CONFIRMADOS COM BANCA

DURANTE A OCORRÊNCIA (CERCA DE 40 EDITORES CONFIRMADOS):


100 Cabeças; Antígona; Atelier Guilhotina; Bárbara Lopes; Chili com carne/ MMMNNNRRRG; Clube do Inferno; Clube dos tipos/ Editora dos tipos; Cronópio; Debout sur l'Oeuf/ Do Lado Esquerdo; Dedo Mau; Douda Correria; Edições 50kg; Edições do Saguão; Edições do Tédio; Elena Sanmiguel Urbina; Fanzines e Martelos; Filipe Felizardo; Formandos curso auto-edição Oficina do Cego; Galho; Hélastre; Imprensa Canalha; Letra Livre (representando também Averno, Língua Morta e Fenda); Linha de Sombra; Livros de Bordo; Maldoror; Mia Soave; Mike Goes West; Momo; Não edições; O Corvo da Bad; O Gato Mariano; O Homem do Saco; Oficina Arara; Oficina do Cego; Orfeu Negro; Papeleiro Doido; Pé de Mosca; Quarto de Jade; Serrote; Sílvia Rodrigues; Stet; Stolen Books; Tipo PT; Triciclo; Urubu; Vintage Warehouse; Xavier Almeida; Xerefé; XYZ.


+ BANCA DE ALFARRÁBIO E SEGUNDA MÃO

15/10/2017

"TRÊS AMERICANOS



Donde vêm?
De toda a parte.
Para onde vão?
Para o dinheiro."

Eça de Queirós, “Notas Contemporâneas”, pag. 407, Livros do Brasil, Lisboa.

Ozumorandi...


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“Em Portugal há só um homem – que é sempre o mesmo ou sob a forma de dandy, ou de padre, ou de amanuense, ou de capitão: é um homem indeciso, débil, sentimental, bondoso, palrador, deixa-te ir, sem mola de carácter ou de inteligência, que resista contra as circunstâncias. É o homem que eu pinto [Os Maias] – sob os seus costumes diversos, casaca ou batina. É o português verdadeiro. É o português que tem feito este Portugal que vemos… “

Eça de Queirós,”Notas Contemporâneas”, pp. 405-6, Livros do Brasil, Lisboa.

30/09/2017

SOBRE O TURISMO…

“ - agora que percorrer o mundo já não é, como no século XV, empreendimento de grande confusão, alarido e dano. Com todos os nossos mares aclarados, nenhum tenebroso, e divertidos hotéis boiantes para os atravessar, providos de adega, de inglesas sensíveis, - milhares de sujeitos, constituindo já uma classe, possuindo já um rótulo, globetrotters (trotadores do globo), trotam, assobiam, dão vivamente a volta ao Mundo, com a facilidade, se não a filosofia, do fino De Maistre dando a volta ao seu quarto. Mas estes sujeitos trotam, «para se dissiparem, não para se acrescentarem», segundo a forte expressão eclesiástica – e no seu trote contínuo através dos continentes vão assobiando, porque não vão pensando."

Eça de Queiroz, “Notas Contemporâneas”, pág. 363,Livros do Brasil, Lisboa.

SOBRE VOTAR…


“Depois, a presença angustiosa das misérias humanas, tanto velho sem lar, tanta criancinha sem pão, e a incapacidade ou indiferença de monarquias e repúblicas para realizar a única obra urgente do mundo «casa para todos, o pão para todos», lentamente me tem tornado um vago anarquista entristecido, idealizador, humilde, inofensivo… Anarquismo mesmo vago; tristeza, mesmo filosófica; idealização, mesmo escondida não compõem um bom cortesão.”

Eça de Queiroz, “Notas Contemporâneas”, pp.359-360,Livros do Brasil, Lisboa.

27/08/2017

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FACTOTUM: Há o Teatro D. Maria, que se não apresenta cem quadros dá-nos em cada melodrama cem mortes, duzentas choradeiras e quatrocentos reconhecimentos!
COMETA: Belo, belo! Venha ao Teatro D. Maria! Eu sou doido por emoções fortes! (Música)
1.º NOTICIARISTA: Silêncio, aí o tem justamente num lance bem patético, numa cena de reconhecimento!
DAMA (entra em cena espavorida, com os cabelos caídos): É possível? Meu pai?... Ele?... Ele?... E o meu coração não me dizia nada… (Indo lançar-se-lhe nos braços) Ah!... Meu P a a a a a i!
PAI (correndo da direita com os braços abertos): Minha F i i i i lha!
AVÓ (idem da direita): Minha neta!
NETA (idem da esquerda): Minha Avó!
DAMA (idem da direita): Meu esposo!
ESPOSO (idem da esquerda): Minha Esposa!
(Saindo ao mesmo tempo de diversas partes, caindo todos nos braços uns dos outros e soluçando sobre o ponto, este abre um guarda-chuva)
TODOS (dando muitas palmas): Bravo! Bravo! Bravo!
COMETA (limpando os olhos): É bonito, mas sensibiliza de mais!
PAI: É tarde meus queridos filhos! Agora que afinal sou venturoso não quer a desventura que eu sobreviva à minha ventura! (Cambaleia)
TODOS: Bravo! Bravo!
COMETA (ao mesmo tempo): Bravo! Que pureza de linguagem!
PAI: Sinto-me desfalecer… um veneno fatal percorre as minhas veias… Adeus, eu morro!
TODOS: Envenenado?! Ah!
PAI (ansiando): Sim, meus filhos, mas vou morrer lá p’ra dentro para não entulhar a cena! (Sai aos pulinhos)
TODOS: (os de D. Maria II): Oh! Não, não; não lhe devemos sobreviver!
(Tiram frascos d’água-de-colónia e garrafinhas caricatas, que põem à boca, bebem e vão para dentro tragicamente, figurando que se envenenaram.)

O Melodrama e a Mágica” in «Revista do Ano 1858» de Joaquim António de Oliveira.

21/08/2017

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“Não há poema sem acidente, não há poema que não se abra como uma ferida, mas também não o há que não fira”

Jacques Derrida, “Che cós'è la poesia? Angelus Novus, Coimbra, 2003.

17/08/2017

Restauro...


Biopolítica...

"(...) o escritor, há cem anos, dirigia-se particularmente a uma pessoa de saber e de gosto, amiga da eloquência e da tragédia, que ocupava os seus ócios luxuosos a ler, e que se chamava «o Leitor»: e hoje dirige-se esparsamente a uma multidão azafamada e tosca que se chama «o público».
(...) a ideia de leitura, hoje, lembra apenas uma turba folheando páginas à pressa, no rumor de uma praça."

Eça de Queiroz, “Notas Contemporâneas”, pág. 96, ed. Livros do Brasil, Lisboa.
 
"Quem lê hoje Homero? Quem lê Dante? Qual de vós, qual de nós leu a «Odisseia» e «Os Sete diante de Tebas», e Sófocles, e Tácito. e o «Purgatório», e os dramas históricos de Shakespeare, e até Voltaire, e até Camões? Decerto têm-se opiniões sobre o «nosso estilo de Tácitos», e a «ironia de Aristofánes»; mas essas sentenças transmitem-se, já feitas, para uso da eloquência, um pouco apagadas e cheias de verdete, como os patacos que vão de mão em mão."

Eça de Queiroz, “Notas Contemporâneas”, pág. 93, ed. Livros do Brasil, Lisboa.

15/08/2017

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“Claro que vai sendo difícil saber-se o que é uma literatura (uma arte) revolucionária, qual o seu grau de incidência num contexto social marcado pelo predomínio cultural e económico das classes burguesas. É nestas, já se sabe, que se recrutam os consumidores “cultos”, ávidos de “surpresas”, abertos às “inovações”. Aquela burguesia insatisfeita culturalmente mas muito instalada nas suas prerrogativas económicas devora tudo, inclusivamente o que a “contesta”. Este o drama das estéticas ditas de “vanguarda”, cedo transformadas – e conformadas – em novos academismos. Elas, por si só, não constroem um novo sistema cultural: muito pelo contrário, dão injecções de vitalidade ao sistema estabelecido. Julgando destruí-lo, prolongam-no. Querendo-se bombas, verificam-se (quando dão por isso) bichas de rabiar – atrevidas, barulhentas, divertidas, inofensivas.”

Vitor Silva Tavares, “Notas para um Prefácio (a Haver) com Pedido de Posfácio”, pág. 14, ed. Viúva Frenesi, Lisboa, 2017.

14/08/2017

Ferros Novos...













“Meu Querido Mês de Agosto”...


“Quando chego a Portugal, depois de um ano de Inglaterra – além de tanta, tanta, coisa que estranho – há uma coisa que me deslumbra, e outra que me desola: deslumbra-me as fachadas caiadas, e desola-me a população anémica. Que figuras! O andar desengonçado, o olhar mórbido e acarneirado, cores de pele de galinha, um derreamento de rins, o aspecto de humores linfáticos, a passeata triste de uma raça caquética em corredores de hospital: e depois um olhar de vadiagem, de «ora aqui vou, sim senhor, de madricice, olhando em redor com fadiga, o crânio exausto, e a unha comprida, para quebrar a cinza do cigarro, à catita.”

Eça de Queiroz, “Notas Contemporâneas”, pp. 38-9, ed. Livros do Brasil, Lisboa.