17/07/2014

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O imperador Conrado III e o rei de França Luís VII durante a 2.ª Cruzada


“O imperador Conrado III, havendo sitiado Guelfo, o duque da Baviera, não quis aceitar condições mais brandas – por mais vis e abjectas satisfações que lhe dessem – que permitir tão-só às mulheres fidalgas que com o duque estivessem sair a pé, de honra salva, com quanto pudessem levar às costas. Elas, magnânimas, decidiram-se a transportar aos ombros os maridos, os filhos e o próprio duque. Tão grande prazer teve o imperador em ver a nobreza de tal coragem que chorou de contentamento e dissipou toda a acre inimizade de morte, todo o ódio figadal que nutria para com o duque, daí em diante tratando-o, e aos seus, com humanidade.”

Montaigne, p.104, Relógio D'Água, 1998. 
Tradução de Rui Romão.

Michel de Montaigne




"No ano de Cristo 1571, com a idade de 38 anos, na véspera das calendas de Março, seu aniversário natalício, Michel de Montaigne, desde há muito desgostado da servidão aúlica e dos cargos públicos, sentindo-se ainda vigoroso, retirou-se para o seio das doutas virgens, onde, calmo e sem se inquietar com a mais pequena coisa, passará o que lhe resta de uma vida já muito avançada. Se as decisões do destino o permitirem, perfaça ele esta residẽncia e refúgio ancestral, que ele consagrou à sua liberdade, à sua tranquilidade e ócio."


09/06/2014

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Henri Lafèbvre

“Na prática social, conjugam-se a força dos torniquetes, a influência dos modelos, a importância das instituições. O poder repressivo serve-se deles para cortar o que sai fora, aniquilar o que lhe escapa. Os “sujeitos” redu-los à passividade, posto o que, expropriados, continuam a obedecer imitando (de longe) os modelos, ou identificando-se (numa falsa proximidade) com as formas propostas. Daí o dilema para os indivíduos, para os grupos e classes não dominantes, para povos inteiros. Ou vegetar, asfixiar, apodrecer, morrer duma morte lenta e miserável; ou então contestar e protestar, manifestar-se, afirmar-se através da confirmação das suas diferenças”.


Henri Lafèbvre op. cit Alberto Pimenta, “O Silẽncio dos Poetas”, p.105, A Regra do Jogo, 1978.

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Carl Andre em 1978


Questions and Answers

1. Who is an artist?
    A.     An artist is one who says he is an artist
    B.    An artist is one who has a diplom from an art academy
    C.    An artist is one who makes art
    D.    An artist is one who makes money from art
    E.    An artist is none of these things, some of these things, all of these things

2. What is art?
    A.    Art is what an artist says is art
    B.    Art is what a critic says is art
    C.    Art is what an artist makes
    D.    Art is what makes money for an artist
    E.     Art is none of these things, some of these things, all of these things

3. What is quality in art?
    A.     Quality in art is a fiction of the artist
    B.    Quality in art is a fiction of the critic
    C.    Quality in art is the cost of making art
    D.     Quality in art is the selling price of art
    E.    Quality in art is none of these things, some of these things, all of these things

4. What is the relationship between politics and art?
    A.     Art is a political weapon
    B.     Art has nothing to do with politics

    C.     Art serves imperialism
    D.     Art serves revolution
    E.     The relationship between politics an art is none of these things, some of these things, all of these things

5. Why do I continue?
    A.     I continue because art is my life work
    B.     I continue because art is my commercial business
    C.     I continue because art will die if I stop
    D.     I continue because art will continue unchanged if I stop
    E.     I continue because none of these things, some of these things, all of these things
                                                                                                              

 Carl Andre

21/05/2014

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Balthus


AS LEIS DA HOSPITALIDADE

O anfitrião, por não ter mais urgente cuidado do que o de fazer irradiar a sua alegria sobre quem quer que, ao anoitecer, venha comer à sua mesa e se repousar sob o seu tecto das canseiras da viagem, aguarda com ansiedade, nos umbrais de sua casa o estrangeiro que verá surgir no horizonte como um libertador. E do mais longe que o vir chegar, o anfitrião apressar-se-á a gritar-lhe: «Entra depressa, pois tenho medo da minha felicidade.» Eis porque, de antemão, o hospedeiro estimará todo aquele que, em vez de considerar a hospitalidade como um acidente na alma daquele e daquela que a oferecem, verá nela a própria essência do anfitrião e da anfitriã, vindo ele, estrangeiro, partilhar, como um terceiro, dessa essência, a título de conviva. Porque o anfitrião procura no estrangeiro que recebe uma relação que não é acidental mas sim essencial. Um e outro não são senão, para começar, substâncias isoladas, sem comunicação entre si, a não ser puramente acidental: tu que te julgas longe de tua casa, apenas trazes contigo os acidentes da tua substância, na medida em que eles fazem de ti um estranho, àquele que te recebe em tudo aquilo que faz deleum mero anfitrião acidental. Mas como o anfitrião convida neste caso o estranho a subir à origem de todos os acidentes, eis a razão pela qual ele inaugura uma relação substancial entre ele próprio e o estrangeiro, a qual, na verdade, constituirá um vínculo já não relativo, mas absoluto, como se, tendo-se confundido o anfitrião com o estrangeiro, a sua relação, contigo que acabas de entrar, não fosse senão uma relação de si para si mesmo.
Com esta finalidade, o anfitrião actualiza-se no convidado, do mesmo modo que tu, convidado, uma possibilidade do anfitrião. O deleite mais eminente do anfitrião tem por objecto a actualização na anfitriã da essencia inactual da hospedeira. Ora, a quem incumbe este dever senão ao convidado? Significará isso que o anfitrião esperaria uma traição da parte da anfitriã? Ora, parece que a essência da hospedeira é constituída fidelidade ao hospedeiro, e nesse caso escapar-lh-ia tanto mais quanto ele quisesse justamente conhecê-la no estado oposto da traição – não seria capaz de traí-lo para lhe ser infiel – ou então a essência da hospedeira é realmente constituída pela infidelidade, e nesse caso o hospedeiro não partilharia de modo algum a essência da hospedeira, que seria susceptível de pertencer, acidentalmente, na qualidade de anfitriã, a um dos convivas. A noção de anfitriã provém da razão de existência; ela só é uma hospedeira em virtude da essência – esta essência é, por conseguinte, limitada pela sua actualização na existẽncia da qualidade de anfitriã. E a traição não tem, neste caso, outra função a não ser a de romper esta limitação. Se a essência da hospedeira consiste na fidelidade ao hospedeiro, isso permite ao hospedeiro revelar aos olhos do convidado a hospedeira, essencial na anfitriã existente; pois o hospedeiro enquanto hospedeiro, deve jogar arriscando-se a perder, visto contar com ela para a estrita aplicação das leis da hospitalidade e com certeza de que ela não ousaria fugir à sua essência, feita de fidelidade pelo hospedeiro com receio de que, vindo para actualizã-la enquanto hospedeira, a anfitriã só existisse traiçoeiramente.
Se a essência da hospedeira residisse na infidelidade, o hospedeiro bem poderia jogar – teria perdido antecipadamente.
Mas o hospedeiro quer conhecer o risco de perder e entende que, perdendo em vez de ganhar antecipadamente, discernirá, custe o que custar, a essência da hospedeira na infidelidade da anfitriã. Porque o que ele que é possuí-la infiel, enquanto hospedeira que cumpre fielmente os seus deveres. Deseja, portanto, actualizar através do convidado algo que existe em potência na anfitriã: uma hospedeira actual em relação a esse convidado, inactual anfitriã em relação ao hospedeiro.
Se a essência da hospedeira fica, assim, indeterminada, visto parecer ao hospedeiro que lhe escaparia algo da hospedeira no caso em que essa essência do hospedeiro propõe-se como uma homenagem da sua curiosidade à essência da hospedeira. Ora,esta curiosidade, enquanto potência da alma hospitaleira, só pode ter existência própria naquilo que pareceria à hospedeira, se ela fosse ingénua, suspeição ou ciúme. O hospedeiro não é nem desconfiado nem ciumento, visto que ele é essencialmente curioso exactamente daquilo que, na vida corrente, o transformaria num anfitrião desconfiado, ciumento, insuportável.
Não há razão para que o convidado se inquiete -não vá ele pensar que fosse alguma vez constituir a causa de um ciúme ou de uma suspeita que nem sequer possuem uma vítima para os sofrer. Na realidade, o convidado é tudo o oposto disso, porque é da ausência de causa de um ciúme e de uma suspeição – exclusivamente determinado por essa mesma ausência – que o convidado vai sair do seu vínculo acidental de estrangeiro para gozar de um vínculo essencial com a hospedeira cuja essência partilha com o hospedeiro. A hospitalidade, essência do hospedeiro, bem longe de se restringir aos humores do ciúme e da suspeita, aspira a converter em presença a ausência de causa desses humores e a actualizar-se nessa causa. É necessário que o convidado entenda bem o seu papel – que estimule, portanto, sem receio, a curiosidade do hospedeiro através desse ciúme e dessa suspeita, dignas do anfitrião, mas indignas do hospedeiro (este arrasta lentamente o hóspede nessa direcção); que, neste prélio, rivalizem ambos em subtileza: é ao hospedeiro que compete pôr à prova a discrição do convidado; o termo generosidade não se aplica, pois tudo é generosidade e tudo é avareza, mas que o convidado esteja atentoa que esse ciúme ou essa suspeita não reabsorvam totalmente a sua curiosidade, pois é desta curiosidade que vai depender para o convidado a avaliação do seu prestígio. Se a curiosidade do hospedeiro aspira a actualizar-se na causa ausente, como pode ele esperar converter essa ausência em presença, a não ser que espere a visitação de um anjo? Solicitado pela devoção do hospedeiro, o anjo é susceptível de se encobrir com o nome de um convidado – serás tu? – que o hospedeiro julga fortuito. Em que medida actualizaria o anjo na anfitriã a essência da hospedeira tal como o hospedeiro tem tendência a imaginá-la, quando essa essência só é do conhecimento daquele que, além de o ser, conhece? Ao inclinares tanto e cada vez mais o hospedeiro, pois o convidado, quer seja ou não um anjo, não é mais do que a inclinação do hospedeiro, convém que saibas, caro convidado, que nem o hospedeiro, nem tu, nem a própria hospedeira conhecem ainda a essência desta última. Surpreendida por ti, ela tentará reencontrar-se no hospedeiro, o qual, a partir desse momento, não mais a deterá, mas que, ao sabê-la nos teus braços, se considerará mais rico do que nunca com o seu tesouro.
Para que a curiosidade do hospedeiro não acabe por degenerar em ciúme e em suspeita, é a ti, conviva, que compete discernir a essência da hospedeira na anfitriã, e a ti que cabe precipitá-la na existência – ou a hospedeira não ficará sendo mais do que um fantasma, e nesse caso permanecerá um estranho nesta casa, se deixares nas mãos do hospedeiro a essência inactualizada da hospedeira, ou então és tu o tal anjo e darás assim, através da tua presença, actualidade à hospedeira – terás sobre ela plenos poderes tanto como sobre o hospedeiro. Pois não vês, caro conviva, que o teu interesse superior é de levar a curiosidade do hospedeiro ao ponto em que a anfitriã, exarcebada, se actualizará toda ela numa existência que tu, conviva, serás o único a determinar, e não já apenas a curiosidade do hospedeiro? A partir daí, o hospedeiro terá deixado de ser o dono de sua casa – terá cumprido inteiramente a sua missão. Ter-se-á tornado, por sua vez, no convidado.


Pierre Klossowski, “Roberte-Nessa-Noite”, pp. 8-12, Livros do Brasil, Lisboa, s/d.
Trad. José Carlos Gonzalez

17/05/2014

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É preciso conhecer todas as partes do bicho.
                                                                           L.P.


“(…) No primeiro ano, para atrair a clientela – conclui Leonel Pereira –, praticámos os preços afixados na tabela normal, quer se tratasse de carne avulso ou de carnes preparadas. Aos poucos porém, fomos acertando o preço. Assim, por exemplo, se o lombo vulgar é vendido à tabela oficial de 58$00, a vitela de leite para bife ou o boi preparado em tornedó ficam, respectivamente, por 98$00 e 74$00.”

Amanhã, Coratto estará voluntariamente sozinho. Dentro do poço está aquela parte de si próprio que pertubará a ordem estabelecida.


Gustavo Sumpta, “Escola de Cortadores”, pp. 44-45, Fenda, Lisboa, 1998.

08/05/2014

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LAMENTO PARA A LÍNGUA PORTUGUESA
não és mais do que as outras, mas és nossa,
e crescemos em ti. nem se imagina
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, mera aspirina,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vida nova e repentina.
mas é o teu país que te destroça,
o teu próprio país quer-te esquecer
e a sua condição te contamina
e no seu dia a dia te assassina.
mostras por ti o que lhe vais fazer:
vai-se por cá mingando e desistindo.
e desde ti nos deitas a perder
e fazes com que fuja o teu poder
enquanto o mudo vai de nós fugindo:
ruiu a casa que és do nosso ser
e este anda por isso desavindo
connosco, no sentir e no entender,
mas sem que a desavença nos importe
nós já falamos nem sequer fingindo
que só ruínas vamos repetindo.
talvez seja o processo ou o desnorte
que mostra como é realidade
a relação da língua com a morte,
o nó que faz com ela e que entrecorte
a corrente da vida na cidade.
mais valia que fossem de outra sorte
em cada um a força da vontade
e tão filosofais melancolias
nessa escusada busca da verdade
e que a ti nos prendesse melhor grade.
bem que ao longo do tempo ensurdecias,
nublando-se entre nós os teus cristais,
e entre gentes remotas descobrias
o que não eram notas tropicais
mas coisas tuas que não tinhas mais,
perdidas no enredar das nossas vias
por desvairados, lúgubres sinais,
mísera sorte, estranha condição,
em que, por nos perdermos, te perdias.
neste turvo presente tu te esvais,
por ser combate de armas desiguais.
matam-te a casa, a escola, a profissão,
a técnica, a ciência, a propaganda,
o discurso político, a paixão
de estranhas novidades, a ciranda
da violência alvar que não abranda
entre rádios, jornais, televisão.
e toda a gente o diz, mas essa que anda
por tempos de ignomínia mais feliz
e o repete por luxo e não comanda,
com o bafo de hienas dos covis,
mais que uma vela vã nos ventos panda
cheia do podre cheiro a que tresanda.
foste memória, música e matriz
de um áspero combate: apreender
e dominar o mundo e as mais subtis
equações em que é igual a xis
qualquer das dimensões do conhecer,
dizer de amor e morte, e a quem quis
e soube utilizar-te, do viver,
do mais simples viver quotidiano,
de ilusões e silêncios, desengano,
sombras e luz, risadas e prazer
e dor e sofrimento, e de ano a ano,
passarem aves, ceifas, estações,
o trabalho, o sossego, o tempo insano
do sobressalto a vir a todo o pano,
e bonanças também e tais razões
que no mundo costumam suceder
e deslumbram na só variedade
de seu modo, lugar e qualidade,
e coisas certas, inexactidões,
venturas, infortúnios, cativeiros,
e paisagens e luas e monções,
e os caminhos da terra a percorrer,
e arados, atrelagens e veleiros,
pedacinhos de conchas, verde jade,
doces luminescências e luzeiros,
que podias dizer e desdizer
no teu corpo de tempo e liberdade.
agora és refugo e cicatriz
esperança nenhuma hás-de manter:
o teu próprio domínio foi proscrito,
laje de lousa gasta em que algum giz
se esborratou informe em borrões vis.
de assim acontecer, ficou-te o mito
de seres de vastos, vários e distantes
mundos que serves mal nos degradantes
modos de nós contigo. nem o grito
da vida e do poema são bastantes,
por ser devido a um outro e duro atrito
que tu partiste até as próprias jantes
nos estradões da história: estava escrito
que iam desconjuntar-te os teus falantes
na terra em que nasceste. eu acredito
que te fizeram avaria grossa.
não rodarás nas rotas como dantes,
quer murmures, escrevas, fales, cantes,
mas apesar de tudo ainda és nossa,
e crescemos em ti. nem imaginas
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
sem remédio brutal, vãs aspirinas,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vidas novas repentinas.
enredada em vilezas, ódios, troça,
no teu próprio país te contaminas
e é dela essa miséria que te roça.
mas com o que te resta me iluminas.

Vasco Graça Moura

 (Obrigado Ricardo!)

04/05/2014

Bye bye Porto...

Bye Bye Barcelona es un documental acerca de una ciudad y su relación con el turismo, acerca de la difícil convivencia entre Barcelona, barceloneses, el turismo y los turistas. Es un documental que expone, de la mano de algunos de sus residentes, los graves efectos que tiene el turismo masivo en la ciudad condal. Es un documental que puedes ver entero, o por capítulos y a tu ritmo, y que no pretende otra cosa que servir de contrapunto a la tan repetida idea de que con el turismo ganamos todos. Este es un documental sobre lo que perdemos.
 

Barcelona no es una gran metrópolis, pero puede presumir de ser la cuarta ciudad con mayor turismo de Europa tras tres grandes capitales como Londres, Paris y Roma. Su puerto es el que más cruceros recibe de Europa y del Mediterráneo. Los barceloneses han visto cómo en escasamente una década, la cantidad de turistas se ha triplicado y cómo la economía ha girado hacia el servicio turístico y ha sabido explotar exitosamente un patrimonio construido por generaciones anteriores.

A nadie se le escapa que el turismo es una fuente de ingreso enorme para Barcelona y para algunos de sus ciudadanos, que no tienen reparo en traer a cada vez más y más turistas sin pensar en las graves consecuencias que ello conlleva. Se han perdido espacios emblemáticos de la ciudad en favor de un turismo masivo, que cada vez desgasta y ocupa más. A espacios perdidos como la Rambla, el Barri Gòtic o el Born, últimamente se le han unido la Barceloneta, Sagrada Familia, y el Park Güell, cuya exagerada explotación llevó a su cierre, sin atender a los deseos de su donante.

¿Realmente vale la pena perder todo esto?

23/04/2014

DE 24 PARA 25 É O NATAL…


Eu quero foder foder
achadamente
se esta revolução
não me deixa
foder até morrer
é porque
não é revolução
nenhuma
a revolução
não se faz
nas praças
nem nos palácios
(essa é a revolução
dos fariseus)
a revolução
faz-se na casa de banho
da casa
da escola
do trabalho
a relação entre
as pessoas
deve ser uma troca
hoje é uma relação
de poder
(mesmo no foder)
a ceifeira ceifa
contente
ceifa nos tempos livres
(semana de 24 x 7 horas já!)
a gestora avalia
a empresa
pela casa de banho
e canta
contente
porque há alegria
no trabalho
o choro da bebé
não impede a mãe
de se vir
a galinha brinca
com a raposa
eu tenho o direito
de estar triste

Não sou
menos
que Einstein
nem que
Claudia Schiffer
não sou
mais
que uma osga
ou que uma barata
não sou mais
inteligente
que um mongolóide
tenho um Q. I.
no limite
superior
da média
todos diferentes
todos iguais
incluo também
os animais
o que nos separa
dos animais
é o pecado original
não é o reconhecimento
no espelho
nem o complexo de Édipo

Os pássaros voam
porque têm asas
os pássaros têm asas
para voar

Mas não se deve perguntar
porquê? nem para quê?
mas para quem?

Darwin Lamarck Afonso Lopes Vieira Cuvier
passarinhos nos ninhos feitos
com mil cuidados
ninhos caídos das árvores
nos caminhos
passarinhos sozinhos
desdentados

A segunda lei da Termodinâmica
a lei leteia
a seta do tempo
a serpente do Paraíso
a entropia
existe
mas também
o Novo Testamento
e as sete artes
existem
para a contrariar
(desejo, logo sou
e eu não acabo
de ser)

Tempestade
num copo
de água
tentar escrever
e não conseguir
o texto é público
é privado
o texto é penico
é púlpito
descarado como o macaco
tímido como a osga
o leitor
ou o autor
partiu uma perna
e o texto
é janela
das traseiras

O amor
é foda
o amor
é boda
(a senhora sabe
da poda?)
o amor
está sempre
fora
de moda
é preciso amar
atrever-se a amar
andar com este
e com este

Deus é a nossa
mulher-a-dias
que nos dá prendas
que deitamos fora
como a vida
porque achamos
que não presta

Deus é a nossa
mulher-a-dias
que nos dá prendas
que deitamos fora
como a fé
porque achamos
que é pirosa

Gosto de me deitar
sem sono
para ficar
a lembrar-me
das coisas boas
deitada
dentro da cama
às escuras
de olhos fechados
abraçada a mim


Adília Lopes, “Florbela Espanca espanca”, pp. 7-12, Black Sun Editores, 1999.

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22/04/2014

O ÓDIO AO PÃO

“Sade não gosta do pão. A razão é duplamente política. Por um lado, o Pão é emblema de virtude, de religião, de trabalho, de esforço, de necessidade, de pobreza, e é como objecto moral que deve ser desprezado; por outro lado, é um meio de chantagem: os tiranos escravizam o povo ameaçando tirarem-lhe o pão; é um símbolo de opressão. Por isso, o pão sadiano é um signo contraditório: moral e imoral, condenado no primeiro caso pelo Sade contestatário e no segundo pelo Sade republicano.
                Todavia, o texto não pode limitar-se ao sentido ideológico (mesmo contraditório): ao pão cristão e ao pão tirânico, acrescenta-se um terceiro pão, um pão «textual»; este pão é uma «amálgama pestilencial de água e farinha»; como substância faz parte do sistema propriamente sadiano, o corpo; é suprimido da alimentação dos serralhos porque produziria nos indivíduos digestões impróprias à coprofagia. Assim giram os sentidos: carrossel de determinações que não pára em parte alguma e de que o texto é o movimento perpétuo.”

Roland Barthes, “Sade, Fourier, Loiola”, pp. 126-127, Edições 70, LX, 1999. Trad. Maria de Santa Cruz

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“Desenhe a forma do vazio”, dizia o professor de desenho na época do liceu. Dito desta forma, isso me parecia absurdo, mas, na realidade, tratava-se apenas do intervalo entre o vaso e sua asa: um espaço que, a meu ver, fazia parte do vazo, isto é, do cheio.


Anne Cauquelin, “Frequentar os Incorporais – contribuição a uma teoria da arte contemporânea”, pág. 64, Martins Fontes, SP, 2008. Trad. Marcos Marcionilo

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“Conhecemos a temporalidade sequencial, o tempo ordenado em extensão e duração, anterior às tele-imagens, à teletecnologia e à temporalidade virtual, que indetermina a verdade, a representação e a realidade das imagens. Contando pois com essa possibilidade e experiência da sequencialização, Barthes pôde escrever em La Chambre Claire. «Diz-se muitas vezes  que foram os pintores que inventaram a Fotografia (…). E eu digo: não, foram os químicos. Porque o noema “Isto foi”  só foi possível a partir do dia em que uma circunstância científica (a descoberta da sensibilidade à luz dos sais de prata) permitiu captar e imprimir directamente os raios luminosos emitidos por um objecto diferentemente iluminado. A foto é literalmente uma emanação do referente». O excerto informa-nos que a fotografia não escapa nunca à circunstância da prova, porque não só representa a realidade, como em suas visualizações transporta uma sua parcela. De onde a fotografias, diz ainda Barthes, não é nem arte nem comunicação – ela é referência, índice.”

Carlos Vidal, “Imagens Sem Disciplina”, pág.133, Vendaval, Lx, 2002.

Se o poema
analisasse
a própria oscilação
interior,
cristalizasse
um outro movimento
mais subtil,
o da estrutura
em que se geram
milénios depois
estas imaginárias
flores calcárias,
acharia
o seu micro-rigor.


Carlos de Oliveira in Micropaisagem.

21/04/2014

ANTERO



se conseguires meter 3 balas na cabeça encontrarás a síntese que procuras
«o amigo de antero», (inédito).

a primeira bala na cabeça: a Tese
a segunda na garganta: a Antítese
a terrível determinação do extermínio
não conseguiu inteira a cessação imediata da vida

fero só contra a Ideia, e Voz que a moldava
agonizou realmente como um Santo
(ganhando o que era, aos poucos)
Enquanto a Caixa de Pensar saía

de mistura com a Lógica e um pêlo de poeta
que caiu no parterre e encaracolou
liberto de Proudhon Hegel e Kant

«Deixá-la VIR, a VIDA…»


Mário Cesariny, “Primavera Autónoma das Estradas”, p.206, Assírio & Alvim, Lisboa, 1980.

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Paolo Virno

“A multitude, para Hobbes, é inerente ao «estado da natureza», i.e., àquele que precede a instituição do «corpo político». Mas o antecedente longínquo pode ressurgir, como um «destituído» que regressa para se fazer valer, nas crises que sacodem a cada momento a soberania estatal. Antes do Estado estavam os muitos, depois da instauração do Estado adveio o Povo-Uno, dotado de uma vontade única. A multitude, segundo Hobbes, ressurge da unidade, é refractária à obediência, não estabelece pactos duradouros, não consegue nunca o estatuto de pessoa jurídica porque nunca transfere os seus direitos naturais a um soberano. A multitude inibe essa «transferência» pelo seu próprio meio de ser – pelo seu carácter plural – e de actuação. Hobbes, que era um grande escritor, contava com admirável e lapidária prosa o facto da multitude ser anti-estatal e, por isso mesmo, anti-popular: «Os cidadãos, de tanto se rebelarem contra o Estado, são a multitude contra o povo»[1]. A contraposição entre os dois conceitos é aqui levada ao extremo: se há povo, nenhuma multitude; se há multitude, nenhum povo. Para Hobbes e para os apologistas da soberania estatal de 1600, «multitude» é um conceito-limite, puramente negativo: coincide, por isso, com os perigos que gravitam à volta da soberania do Estado, é um detrito que volta-e-meia pode obstruir a marcha da «Grande máquina». Um conceito negativo, a multitude: aquilo que não veio a definir-se povo, aquilo que contradiz virtualmente o monopólio estatal da decisão política. É, em suma, uma regurgitação do «estado de natureza» na sociedade civil.”

Paolo Virno, Gramática de la multitude – Para un análisis de las formas de vida contemporâneas, pp. 23-24, Traficantes de Sueños, Madrid, 2003. Trad. Livre.



[1] Hobbes, De cive, 1642, XII, 8.

Pormenores...

"Suck My Deck" pormenor

"Suck My Deck" pormenor

14/04/2014

O "Coração Quase Branco" segundo Carlos Alberto Machado

"É no que dá um iogurte estragado: náusea repentina, vómitos disfarçados de arrotos, cólicas intestinais. Sanita comigo. E logo logo para a cama – a prevenir achaques maiores com a ajuda de uma infusão de macela e cidreira.
Aproveito a frouxidão inesperada do corpo e o repouso de meio da tarde para ler. Entre compras e ofertas recentes, decido-me pelo “Coração Quase Branco”, do António Cabrita – livro da 50 Kg (como habitualmente composta em caracteres móveis e com impressão a condizer), que o seu editor, o poeta Rui Azevedo Ribeiro, me tinha dado em Coimbra, no Mal Dito, meia dúzia de dias antes.
Começo a leitura meio distraído, a dor de cabeça, fininha, chateia. Mas, entre o ir e o voltar à primeira linha do texto, entro no “tom” do Cabrita – e desperto completamente quando leio “Dácio”, Ricarte Dácio, o intelectual culto, homem subtil e afável, delicado, gentleman, mecenas das literaturas e das artes, o mesmo Dácio que um certo dia (há uns seis anos?) pegou numa caçadeira e matou a mulher, o filho, o gato e a ele próprio.
Conheci o Ricarte Dácio nas noites do café Monte Carlo, do bar Bolero, do Ritz Club, do Cantinho dos Artistas no Parque Mayer, nos finais de tarde do café Expresso e das Galegas; nos dias fervorosos da Revolução e nos dias apaziguantes e lassos da democracia pós 25 de Novembro. Em 2010, quando estive em Maputo, a figura do Dácio e a sua morte incompreensível, e tão silenciada, meteu-se na conversa entre mim e o Cabrita, que teve com ele uma relação mais próxima.
Para além das circunstâncias de natureza pessoal, o curto texto – 12 páginas – é uma peça de uma grande inteligência e sensibilidade, na linha de um Pacheco da “Comunidade” ou de um Virgílio Martinho de “O Relógio de Cuco”. O Cabrita cruza a história de vida do Ricarte Dácio com a sua (em Maputo), “cobarde e falido de esperança e qualidades” e dá, a uma e a outra, as voltas necessárias para que entre os actos literários e os actos de vida se teça uma poderosa e inextricável teia de sentidos. E se ele, Cabrita, “falido, causticado e doente”, “tivesse à mão uma caçadeira e um punhado de munições (…) e acabasse esta agonia com três tiros, alguém se lembraria de duvidar que pudesse ter sido um gesto tão hediondo? Alguém, ao menos, colocaria dúvidas? Será que as merecia? Porque não há modo de suportar ‘corajosamente e sem dor’ a decadência mental que nos vela já o cadáver, a puta que os pariu. É um contra-senso, e vale o esforço de respirar para o cheiro a trampa?”
A minha alma débil (os meus intestinos, parece, partilham da mesma índole) arrebita com uma escrita como esta – e com a atitude pessoal do Cabrita: pegar a coisa pelos cornos é que dá tusa, e não essas coisas vagamente literárias de filhos de tordos que voam, serôdios, para as terras brasis, e a respectiva democracia que apenas existe nos ditos média e redes sociais. Literatura e democracia que nunca hão-de saber quem foi o Ricarte Dácio e tudo o que ele representou, mesmo que o Cabrita lhes mande aos cornos, com toda a força, este “Coração Quase Branco”.
Morre-se disto, desta democracia estragada. De iogurte estragado, parece que não."

CARLOS ALBERTO MACHADO

RETIRADO DAQUI

13/04/2014

...

NA AUTO-ESTRADA

Ainda posso perceber
Esses miúdos nos viadutos
Que atiram pedras aos carros da auto-estrada.
É um gesto eficaz
Que matou alguns caixeiros-viajantes,
E até famílias inteiras,
É pura malvadez
E o mundo precisa de pureza.

Mas como se justificam esses que nos acenam
Com alegria ao passarmos?


Manuel Resende

10/04/2014

Ainda do "Os Gregos"...

“(…) De um século recente, vou alinhar ao acaso os seguintes nomes: HAYDN, MOZART, BEETHOVEN, GOETHE, SCHUBERT, MENDELSSOHN, WORDSWORTH, COLERIDGE, KEATS, SHELLEY. Agora uma lista de nomes comparável, mas de um século grego: ÉSQUILO, SÓFOCLES, EURÍPEDES, ARISTÓFANES, SÓCRATES, PLATÃO, ISÓCRATES, GÓRGIAS, PROTÁGORAS, XENOFONTE. As idades com que morreram os componentes da primeira lista, são respectivamente: 77, 35, 57, 83, 31, 38, 80, 62, 26, 30; da segunda: 71, 91, 78, pelo menos 60, 70, 87, 98, 95(?), cerca de 70, 76. SHELLEY é claro, morreu afogado; mas ÉSQUILO e EURÍPEDES (provàvelmente) morreram ambos de desastre, SOCRATES foi executado e PROTÁGORAS morreu num naufrágio; os três poetas trágicos estavam em plena actividade e ainda no mais alto esplendor do seu génio quando morreram (o que ninguém afirmaria de WORDSWORTH), e a morte interrompeu PLATÃO quando escrevia «As Leis». Se alguém que se interessa pelo assunto quiser ler a interessante obra de DIÓGENES LAÉRCIO, Vidas dos Filósofos, ficará assombrado com o grau de longevidade geral. É claro que algumas datas são lendárias; ninguém vai acreditar que EMPÉDOCLES viveu de facto até aos 150 anos; mas, de qualquer maneira, trata-se de uma figura que não chega a ser histórica. Não há razão nenhuma para duvidar da exactidão de muitos dos números apontados. Está demonstrado que a Grécia favorecia não só uma longa vida, mas também uma vigorosa energia. Ao lado de SÓFOCLES, a escrever o seu magnífico «Édipo em Colono» aos 90 anos, podemos colocar a figura de AGESILAU, rei de Esparta, que não se limitava a comandar, ia ele próprio combater para o campo de batalha, com 80 anos. O vigor em idades avançadas parece ter sido mais alto na Grécia do que em qualquer país moderno, pelo menos até há bem pouco tempo.” H. D. F. Kitto, “Os Gregos”, pp. 56-57, Arménio Amado Editora, Coimbra, 1990.

09/04/2014

Sophia...


Uma tarde Maria Cristina
obrigou-me a comer osgas
e a repetir
com a boca cheia de osgas
as pessoas sensíveis
gostam de comer osgas
mas não gostam
de ver matar osgas
por isso têm de comer
as osgas vivas
se querem fazer na vida
aquilo que gostam


Adília Lopes, “Maria Cristina Martins”, p.12, Black Sun Editores, 1992.

02/04/2014

Da liberdade...


Mas eleutheria – da qual, «liberdade» é uma tradução muito incompleta, – era muito mais do que isto, embora isto já seja muito. A escravidão e o despotismo são coisas que mutilam a alma, porque, como diz HOMERO: «Zeus retira ao homem metade da sua humanidade, no dia em que a escravidão dele se apodera». O hábito oriental da obediência espantava os gregos, porque não era eleutheron; aos seus olhos, constituía uma afronta à dignidade humana. Mesmo aos deuses, os Gregos oravam como homens, erectos, embora conhecessem como ninguém a diferença entre o humano e o divino. Sabiam muito bem que não eram deuses, mas sabiam que eram pelo menos, homens; e que os deuses não demoravam a abater sem piedade os que tentavam imitar a divindade, e que, de todas as qualidades dos homens, gostavam sobretudo da modéstia e do respeito. Contudo, tinham presente que deuses e homens tinham uma origem semelhante: «Uma só é a raça dos deuses e dos homens; a mesma mãe[1] nos deu respiração. Contudo, são diferentes os nossos poderes. Porque nós não somos nada, mas para eles existe sempre o brônzeo céu, sua morada segura». Assim fala PÍNDARO num belo passo, por vezes mal traduzido por especialistas que tinham a obrigação de saber mais, e o fazem significar: «Uma coisa é a raça dos deuses, outra coisa a raça dos homens». O que PÍNDARO quer frisar com este passo é a dignidade e a fraqueza do homem; e esta é, no fundo, a fonte trágica que se estende através de toda a literatura grega clássica. E foi esta consciência da dignidade de ser homem que deu tanta coacção e intensidade à palavra que nós impropriamente traduzimos por «liberdade». 

 H. D. F. Kitto, “Os Gregos”, pp. 16-17, Arménio Amado Editora, 3ªed., Coimbra, 1990. Tradução de José Manuel Coutinho e Castro

[1] A Terra-Mãe.

31/03/2014

Feira de Edições TRANSFER...

A Feira de Edições TRANSFER realiza-se no próximo sábado em Guimarães, no âmbito do ciclo expositivo patente no Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG), que explora a imagem produzida através de contacto ou por transferência. Este evento de carácter laboratorial em torno do livro de artista e do experimentalismo editorial terá lugar entre as 11:00 e as 20:00 do dia 5 de Abril nos Ateliers Criativos e no CIAJG, espaços integrados na Plataforma das Artes e da Criatividade. A entrada é livre. Com uma forte componente oficinal, esta feira reúne editores independentes, artistas gráficos e ateliers tipográficos que desenvolverão no local diversos processos de composição de texto e imagem em diferentes técnicas de impressão, procurando catalisar o encontro entre editores e o público. O convite estendeu-se igualmente a outros editores que desenvolvem o seu trabalho no campo da auto-edição e em vertentes tão diversas como a música, a ilustração ou a banda desenhada. Neste dia estarão disponíveis múltiplos e originais, edições únicas e tiragens reduzidas a preço de feira: cartazes, fanzines, edições de autor, livros de artista, serigrafias, gravuras, CDs, vinis, ilustrações, entre outros. Um dos destaques do TRANSFER será promovido pelo Instituto Fonográfico Tropical e acompanhará todo o período do evento. A Fonografia Tropical tem assim o prazer de oferecer um contorcionismo musical entre duas vogais, do Semba para o Samba, passando a jusante de uma tranche de Cumbias folgadas. Devido à natureza selectiva da colecção, há uma escassez de repertório anglo-saxónico, pelo que é solicitada a mais sincera compreensão a quem seja intolerante a forrobodós de baixas latitudes. A este ambiente musical juntar-se-á ainda «Cantares Sopa de Pedra ao Vento que Vent'Arara» às 18:00, uma performance da responsabilidade do grupo vocal feminino Sopa de Pedra (dedicado ao canto a capella de canções de raiz tradicional) e do coletivo Oficina ARARA. No campo das novidades editoriais, há a registar «Às Cegas» – edição da Oficina do Cego impressa em tipografia móvel e serigrafia, com encartes em linogravura –, «A Dobra» – com poemas de António Madureira Rodrigues e desenhos de Bruno Borges, das Edições do Tédio nr. 3 – e «AUTOCATACLISMOS» – livro de Alberto Pimenta, publicado na editora Pianola, numa edição especial de 100 exemplares numerados e assinados compostos em tipografia linotype e caracteres móveis, e encadernação manual japonesa. No que diz respeito a Oficinas de Impressão, TRANSFER oferece várias possibilidades de aprendizagem, partilha e participação promovidas pelo Atelier guilhotina (Porto), O homem do saco (Lisboa), Oficina do Cego (Lisboa), Oficina ARARA (Porto), Edições 50kg (Porto) e Pé de Mosca (Guimarães). Esta feira contará com a presença de inúmeras editoras, chancelas e participantes especiais como o Atelier guilhotina, O homem do saco, Landscapes d'Antanho, Pianola, Momo, Diário de um Ladrão, 100 cabeças, troppo inchiostro, Oficina do Cego, Imprensa Canalha, Papeleiro Doido, Playground.atelier, Montesinos, Mike Goes West, Oficina ARARA, Edições 50kg, Pé de Mosca, alfaiataria, CICP Dominicas, Sopa de Pedra, Instituto Fonográfico Tropical, We came from space, Marvellous Tone, Faca Monstro, Lovers & Lollypops, Panda Gordo, Pangrama, Cru/ Mr. Esgar, Chili Com Carne, Chão da Feira, Plana, Frenesi, Douda Correria, Mia Suave, Medula, Língua Morta, Averno, Snob-Livraria, alunos da ESAP Guimarães, entre outros. FONTE: http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=693766

25/03/2014

...

“Aristóteles fala de poesia sublime e vulgar, e esta oposição, explicitada sobretudo na oposição tragédia/comédia, reflecte desde início a organização social nas suas duas classes: a classe dos senhores, voltada para cima, onde normalmente é a residência dos deuses, e a classe dos servos voltada para baixo, onde normalmente é o trabalho e a produção. Enquanto a tragédia representa a reverência perante a ordem que vem de cima a comédia ocupa-se da ‘baixa humanidade’. O facto de as tragédias terem sido proibidas muito mais raramente que as comédias está ligado à própria propensão destas para transgredir os limites do papel ético-social das classes oprimidas. Não é só o desfecho que distingue radicalmente este dois géneros e está a priori fixado, mas também a construção e a intenção. Em termos claros e evidentes, poderiam reduzir-se os dois géneros às seguintes combinações: se há senhores logrados por deuses  ou por outros senhores é trágico; se há servos logrados por servos ou por senhores é cómico; as restantes combinações estão fora do âmbito do sistema poetológico.

[…]

Pelo século XVIII, este estado de coisas começou a desagregar-se, dentro do processo geral de desagregação de toda a estrutura da sociedade antiga, que se baseava numa ‘razão’ transcendente e não racional e, menos ainda, existencial. Esta libertação da arte literária da transcendência absoluta dos estilos e dos géneros faz portanto parte da libertação da consciência operada ao longo do processo da revolução burguesa.

Acontece, porém, que esta quebra de estrutura social libertou não só o produtor de arte literária como também o seu consumidor, o público; formou-se por essa época um novo público, naif no que toca ao conhecimento da técnica literária tradicional, interessado no consumo e assimilação de um novo tipo de arte, menos complexa e cifrada, mais espontânea e posta naturalmente ao serviço dos seus específicos interesses de classe, reais ou ideais.”


Alberto Pimenta in “O Silêncio dos Poetas”, pp. 21-23, Edições A Regra do Jogo, Lisboa, 1978.

24/03/2014

Do "Coração Quase Branco"...



Sinopse:
O Coração Quase Branco de António Cabrita é, mas não só, uma carta póstuma ao Ricarte Dácio que, para quem não sabe, foi um gentleman e livreiro alfarrabista, bem como um dos maiores apoiantes vs. mecenas de poetas e escritores surrealistas, e não só, do Café Gelo. A sua morte, uma espécie de potlatch (“uma coisa à romana” como o disse Mário Cesariny) é ainda hoje um assunto muito ‘cadáver esquisito’...  e não só!











21/03/2014

Dia da Poesia?...

Questionário do jornalista Sérgio Almeida (JN) e as respostas de Rui Azevedo Ribeiro (50kg).

(JN): Como diz o A. Dasilva O, achas que a poesia voltou à trincheira, ou seja, voltou a uma espécie de clandestinidade com edições restritas e artesanais? Vês essa tendência com agrado ou nem por isso?
(50kg): Assumindo uma totalidade (a poesia) mas sabendo bem que isso faz pouco sentido. Direi que ela insiste em resistir! É uma situação parecida com aquelas ervinhas que crescem entre os empedrados ou, o que é ainda mais bonito, as plantas que nascem das paredes dos prédios porque as sementes foram juntas com o cimento. Porém, julgo que ninguém duvida que, as condições para este protótipo de vida são terríveis e uma luta constante contra variadíssimas adversidades. É certo que é vida, mas é uma vida atrofiada e abaixo da sua potência. A trincheira não é um lugar à qual dê gosto regressar. Se se está entrincheirado, é uma situação, está-se a resistir e agrada-me que exista quem resiste. E a estar numa trincheira que seja só com voluntários! Mas também quero dizer que não pode ser apenas reacção. É preciso agir! Já chega de cavar trincheiras, cavar buracos, de “fazer como o verme”. Vamos lá fazer ninhos para as metralhadoras!

(JN): 2 É possível detectar pontos de contacto (linhas estéticas ou ideológicas) entre os nossos novos poetas?
(50kg): Isso é um assunto para a crítica se debruçar. Eu apenas pergunto porque é que não existe crítica literária, porque a que há não é. Por que é que os Mídias só se lembram da poesia quando é o dia dela calhar no calendário de todo o mundo! Ou porquê que eu abrindo um jornal para ler ‘novas’ literárias – tenho a impressão que trouxe por engano as promoções do supermercado. Quanto aos novos, o Paulo Leminski escreveu: “(…) apenas o mesmo/ ovo de sempre/ choca o mesmo novo”. E sendo assim, se o novo novo for igual a outro novo que se parece com aquele outro novo perguntem se a chocadeira é do mesmo dono. Se for não fiquem chocados! Sobre as linhas estéticas que as snifem os estetas. Quanto às ideológicas, direi que não, os poetas ainda não se unem por ideias lógicas por umas tantas ilógicas isso sim, já aconteceu! Ninguém sabe o que é o novo. Repito, ninguém! Os que andam por aí a dizer: é novo!; é novíssimo! São os vendedores da banha da cobra! E há muitos! 

(JN): 3 Se tivesses que destacar alguns nomes que se destacam desta geração, quais elegerias?
(50kg): Preferiria dizer quais os que estacava mas apenas pelo receio de que este primeiro dia de Primavera os puxe para enxertos não o faço! Se me permitirem não responderei. Acho que esta pergunta é daquelas que contribuem para que o vórtice da pressa, do palavreado e de uma série de “ah pois!” se instalem. Também não estou seguro que haja essa coisa chamada geração, que não seja apenas um estarmos todos aqui e por um período coincidimos nisso. Por que se falarmos de afinidades isso não faz muito sentido, pois poderei ser mais “próximo” de um poeta satírico do séc. XVIII que dos meus contemporâneos. No entanto gosto que haja grandes poetas árvores ensimesmados (ou em-si-mimados) que tapem a luz do sol quase toda… Para que na sua sombra haja deliciosos poetas trufas ou poetas cogumelos (hum!) e alguns são bem venosos a destilar. Já a árvore ao sol parece ser só capaz de dar uma madeira seca e quebradiça (não sei se servirá para palitos!)

(JN): 4 Apesar da escassez de meios, a 50 kg tem publicado nomes de prestígio da poesia nacional. Esses livros só são possíveis precisamente porque as editoras tradicionais se desligaram da poesia?
(50kg): Não, acho que as 50 kg e outros projectos similares teriam sempre um lugar, mesmo que essas editoras fizessem um bom trabalho (ou apenas o seu trabalho). É certo que continuaria a não ser edições populares. Continuariam a ter tiragens pequenas e de circulação restrita e entraria no conceito de luxo ou do inglês “deluxe”. Não se trataria de fazer públicos, mas antes para um público já devidamente conhecedor e apreciador deste conceito artesanal e de rarefacção. O que é estranho, é serem editoras como a 50kg a terem que fazer públicos. A lançarem e a darem a conhecer autores sem que estes tenham qualquer possibilidade de chegarem ao conhecimento do tal “grande público”. Por isso já parece uma mania destes autores destas pequeníssimas editoras, de parecerem tão restritos, ou de culto... É que se é obrigado a saltar por cima de uma série de etapas (olha um bom nome para uma casa de tapas) e muitas das vezes o primeiro livro parece logo uma coisa de luxuosa.

(JN): 5 Uma questão agora como poeta: quais os traços que consideras fundamentais na tua poesia e em que sentido estão ou não em convergência com o que se escreve e publica hoje?

Diverge convergindo com os que divergem. O meu traço é na verdade uma traça. Traço-o traçando tudo!...

14/03/2014

Novidade das Edições 50kg...


SUCK MY DECK de Rui Azevedo Ribeiro
Desenho de capa de Bruno Fonseca da Silva
Edições 50kg
100 Exemplares
P.V.P: € 6
ISBN: 978-989-97891-4-2

SINOPSE:
Este texto é um musical de piratas, penso que é algo inédito se bem que talvez o Lubitsch o tenha já feito – mas não o fez certamente em português. Sai-se do Porto em bode marítimo e a dada altura, olha que ali vai o Herberto Helder a nado. E tenta-se bruni-lo com a quilha deste barco que é para ter a paga das vezes que ele me quilhou bem quilhado. Mas o vento atraiçoa-nos e falha-se o intento, acabando por ir-se passar a ferro um Camões velho perto do Restelo, que vinha ou ia à missinha, não se sabe bem. E é mais ou menos isto. Mais ciganice menos ciganice.

Nota: Só se falou no Herberto Helder no intuito de aumentar as vendas do livrinho. 


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