20/07/2015

I...


I

«Regardez-moi, voyons... J'aime la coleur de vos yeux...Comment vous appelez-vous?
Jean
Jean tout court?
Jean Gaussin.
Du Midi, j'entends ça.... Quel âge?
Vingt et un ans.
Artiste?
Non, madame.
Ah! Tant mieux.... »


Alphonse Daudet, “Sapho”, pp. 5-6, C. Marpon et E. Flammarion, Paris, 1887.

Conselhos do Boca de Inferno!...

Despede-se o Poeta da Bahia, quando foi degredado para Angola


Adeus, praia; adeus, cidade,
E agora me deverás,
Velhaca, dar eu a Deus
A quem devo ao demo dar.

Quero agora que me devas
Dar-te a Deus como quem cai,
Sendo que estás tão caída,
Que nem Deus te quererá:

Adeus, povo; adeus, Bahia,
Digo canalha infernal,
E não falo na nobreza,
Tábula em que se não dá.

Porque o nobre enfim é nobre,
Quem honra tem, honra dá,
Pícaros dão picardias,
E ainda lhes fica que dar.

E tu, cidade, és tão vil,
Que o que em ti quiser campar,
Não tem mais do que meter-se
A magano, e campará.

Seja ladrão descoberto,
E qual águia imperial
Tenha na unha o rapante
E na vista o perspicaz.

A uns compre, a outros venda,
Que eu lhe seguro o medrar,
Seja velhaco notório,
E tramoeiro fatal.

Compre tudo e pague nada,
Deva aqui, deva acolá,
Perca o pejo e a vergonha,
E se casar, case mal.

Porfiar em ser fidalgo,
Que com tanto se achará.
Se tiver mulher formosa,
Gabe-a por êsses poiais;

De virtuosa talvez,
E de entendida outro tal;
Introduza-se ao burlesco
Nas casas onde se achar.

Que há donzelas de belisco,
E aos punhos se gastará;
Trate-lhes um galanteio,
E um frete, que é o principal.

Arrime-se a um poderoso
Que lhe alimente o gargaz,
Que há pagadores na terra
Tão duros como no mar.

A êstes faça alguns mandados
A título de agradar
E conserve o afetuoso
Confessando desigual.

Intime-lhe a fidalguia,
Que eu creio que lho crerá,
E que fique ela por ela
Quando lhe ouvir outro tal.

Vá visitar os amigos
No engenho de cada qual,
E comendo-os por um pé
Nunca tire o pé de lá.

Que os Brasileiros são bêstas,
E estarão a trabalhar
Tôda a vida por manterem
Maganos de Portugal.

Como se vir homem rico,
Tenha cuidado em guardar,
Que aqui honram os mofinos,
E mofam dos liberais.

No Brasil a fidalguia
No bom sangue nunca está,
Nem no bom procedimento:
Pois logo em que pode estar?

Consiste em muito dinheiro,
E consiste em o guardar:
Cada um a guardar bem,
Para ter que gastar mal.

Consiste em dá-lo a maganos
Que o saibam  lisonjear,
Dizendo que é descendente
Da casa de Vila Real.

Se guardar o seu dinheiro,
Onde quiser, casará:
Que os sogros não querem homens,
Querem caixas de guardar.

Não coma o genro, nem vista,
Que êsse genro universal:
Todos o querem por genro,
Genro de todos será.

Oh! assolada veja eu
Cidade tão suja e tal,
Avesso de todo o mundo,
Só direita em se entortar.

Terra que não se parece
Neste mapa universal
Com outra; e ou são ruins tôdas,
Ou ela sòmente é má.


Obras de Gregório de Matos. IV – Satírica, vol. 1. Publicações da Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, 1930.

29/06/2015

«PROTESTO»...

São como flores fanadas os fúteis alfarrábios,
estagnados e doentios como a água adormecida,
do senhor dom artista que não quis colar os lábios
contra os seios da vida.

O homem que vende livros na velha padiola
expõe o romance da sua vida nessa espécie de montra
e grita contra os romances onde a vida estiola
em maciezas de lontra.

E em todos os cantos e recantos da rua
gritam contra os versos mornos, versos mansos, versos falsos,
as mulheres bem vestidas que ganham a vida nuas
e os garotos descalços.


Sidónio Muralha, “Antologia da Poesia Portuguesa 1940-1977” vol.I, [Org.] M. Alberta Menéres e E. M. de Melo e Castro, p. 93-4, Moraes Editores, Lisboa, 1979.

26/06/2015

Silêncio de Palatina...


Tu falas de mais, homem, e em breve estarás estendido na terra.
Cala-te e, enquanto estás vivo, preocupa-te com a morte.

Páladas (sécs. VI-V d.C.)
In "Do Mundo Grego Outro Sol - Antologia Palatina e Antologia de Planudes", p. 92, sel., trad. e notas de Albano Martins, Edições Asa, Porto, 2001.

25/06/2015

«PROFUNDAMENTE»...

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

– Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos êles?

– Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.


Manuel Bandeira, “Poesias e Prosa”, págs. 210-211, vol. I, Editôra José Aguilar, Lda., Rio de Janeiro, 1958.

19/06/2015

O ENCONTRO

Subitamente
na esquina do poema, duas rimas
olham-se, atônitas, comovidas,
como duas irmãs desconhecidas...

Mário Quintana in “Antologia Poética” Ediouro, Rio de Janeiro, 1998.

05/06/2015

"OPORTOnidade"...


O TURISMO


Visitar este país
até à última gota:
O porco e o Porto    a bola e a bolota
o que é como quem diz
itinerar a derrota.

Tudo tem lugar no mapa
Paris    Washington    Moscovo
Em Itália    vê-se o papa
em Lisboa    vê-se o povo.

Welcome  Bienvenus  Salud  Willkommen  Viva
a sífilis saúda-vos    saúda-vos a estiva
desta carga de heróis em carne viva
nociva mas barata;
vindes matar a sede com a uva
beber o sumo de ócio que nos mata.

Desemborcais nos cais    desembolsais demais
mas não sabeis
as coisas viscerais    as coisas principais
deste país azul
com mais hóteis do que hospitais
talvez por ser ao sol    talvez por ser ao sul.

Aqui ao pé do mar    bordamos a tristeza
as toalhas de mão    as toalhas de mesa
que levais para casa            Souvenir
deste povo sem pão
que se cose a sorrir.

Aqui ao pé do rio    gememos a saudade
nosso fado submisso    nossa água a correr. 
Canção de mal devir        Souvenir    Souvenir
deste povo de trégua
que se canta a morrer.

Aqui ao pé do vento    forjamos o lamento
dum país que se vende a peso nos prospectos
tanto de sol ardente    tanto  de cal fervente
e uma nódoa de céu nos chailes pretos.

Aqui ao pé do fel    gritamos o segredo
do que parece fácil neste país de luz:

É apenas a fome.

É apenas o medo.

É apenas o sangue.

É apenas o pus.


José Carlos Ary dos Santos, “Resumo”, pp. 73-4, ed. Autor, Lisboa, 1972.

04/06/2015

"JOGO DE REALIDADE"...

Daniel Maia-Pinto Rodrigues


Este poema
chama-se Jogo de Realidade
mas também se poderia ter chamado
Comunhão ou Aventura.

Convidou-me para ver
em casa dela
no vídeo
o África Minha
filme da sua predilecção.
Eu já tinha visto esse filme
mas por uma questão de subtil delicadeza
disse-lhe que nunca o tinha visto.

Serviu-me um bom jantar
e uma intensa aguardente montanhesa.
Eu como não sabia muito bem
o que lhe hávia de dizer
saiu-me isto:
“Sabes que Isabel quer dizer cor de café com
    leite?”
Ao que ela disse:
“Estou a ver que estás a pensar em alguma Isa-
    bel!?”
“Não, não”, disse eu
enquanto me lembrava de uma tirada mais cine-
    matográfica:
“Uma vez num filme
agradou-me ver um pequeno adesivo
na mão de um menino
adesivo esse que não veio a revelar
qualquer interferência no contexto do filme.”
Ela ficou assim a olhar para mim
com ar
de quem me estava a achar um bocado maluco
e depois foi a vez dela espetar esta:
que aqui há uns tempos atrás
pertencera a um grupo de malta rebelde
que tinha entre outros projectos inovadores
diversos programas de rádio
e algumas encenações teatrais
sendo todavia o projecto principal
o de mudar o mundo.
Ao que lhe disse
que o meu grande projecto foi sempre
o de que o mundo não me mudasse a mim.

Falou-me então de um tal Tito
… que as coisas entre eles não iam bem
que ele ultimamente não andava… bem…
“Daqui a um bocado – disse-me ela –
há-de aparecer aí uma amiga minha
e vamos abrir aquela garrafa de champagne
e uma latinha de paté-de-foie
é sempre agradável um pequeno ménage!”

Fomos depois para o sofá
para ver o filme
(alta seca, Daniel).
“Olá”, disse eu para uma revista intitulada Sexo
    Bizarro
que discretamente descansava entre as almofadas.
Durante o filme ela interrompia-o várias vezes
em actual gesto electrónico
para mo explicar.
Eu lá ia dizendo
que ia percebendo
mas ela insistia na explicação
aquilo já ia em perspectivas complicadíssimas
e eu, claro, comecei a estranhar.

Foi então aí que se deram os três Abre
o abre-te Sésamo
o abre-te vestido
- abrenúncio!
Só ficou por abrir a latinha de paté-de-foie.

Chegou ao topo a intensidade da aguardente mon-
    tanhesa
e passado um bocado
parece que ficámos
segundo ela
física e espiritualmente em Comunhão.
“Não te sentes em Comunhão?!”,
perguntou ela.
“Sinto, sinto”.
E ela insiste na questão
“Como é que te sentes…?”
“Olha, sinto-me sem cinto”,
estive para dizer
mas evitei este trocadilho
portador de algum mau gosto
e também algo indecente
daquele género de indecente
tão descortinável pelas mulheres.

Respondendo-lhe à questão
osculei-lhe a testa
com um tácito beijo
e murmurei
mais patético do que pateta
que me sentia em Comunhão.

24/05/2015

Osso de corno...

ARRIPIAR CARREIRA

Eu buscava editores portugueses
Quando supunha em Portugal leitores;
Mas hoje apenas leio aos meus amores
Os pobres versos que componho às vezes.

Por uma coisa que escrevia em meses
Levar anos à busca de editores
Só me rendia ávidos credores
E não me fazem conta tais fregueses.

Mudei de ofício: agora os mais que aprendam;
Já ninguém de juízo me lastima,
De gastar tempo em coisas que não rendam.

Agora, sim, que o público me anima!
Trabalho em pentes, que elas me encomendam,
E eles fornecem-me a matéria-prima.


João de Deus, “Criptinas”, &etc – contramargem /8, pág. 10, Lisboa, 1981

23/05/2015

“É PAU, É PEDRA É O FIM DO CAMINHO”...

INVENTÁRIO

É um barco e uma pedra.
É a pedrada no charco.
É o orvalho na erva.
É a bandeira. É o arco.
É a chuva. É o outono.
É a sopa de hortelã.
É o cão que não tem dono.
É o bicho da maçã.
O tempo que está mudando.
É o orgulho nacional.
É a balada. É o fado.
A galinha no quintal.
O carneiro a remoer
as hortenses da avenida.
E o silêncio a bater
numa vidraça partida.
É o ódio que nos cega.
É o braço que se estende.
O discurso, a cabra-cega.
É o homem que se vende.
É o peito que não pára
de apertar o coração.
É a comida mais cara.
É a cara contra o chão.
É a semente na terra.
É o trigo na seara.
É uma arma de guerra.
É a raiva que a dispara.
É o lobo que devora
as canelas da poesia.
É o momento. É a hora
de estrangular a alegria.
É a videira é o vinho.
É o copo de amargura.
É a santa da Ladeira.
São as raias da loucura.
É o tejo que se embala
num cacilheiro doente.
É o desejo que estala.
É o buraco no dente.
É o dinheiro. É o juro.
O amor em percentagem.
É o passado e o futuro.
É uma questão de coragem.
É o que sobra. É a falta.
É o emprego decente.
É a amizade da malta.
É a ternura da gente.
É a mulher que pariu.
É o filho que se fez.
É a corda e o rastilho.
É o sarilho outra vez.
É o mapa desenhado
sobre as costelas partidas.
É o sorriso emprestado.
A hipoteca das vidas.
É a mágoa registada.
É a patente do medo.
É a cultura enlatada.
É o drama sem enredo.
É o rugido da fera.
É o marquês de Pombal.
O cravo na primavera.
Uma prenda no Natal.
É o azul. É o vício.
É a carga de porrada.
É a cara do polícia.
É a liamba fumada.
O ministro que promete
que amanhã irá chover.
O desenho na retrete
para toda a gente ver.
É a dança é o marasmo.
A paragem do autocarro.
É atingir o orgasmo
com o fumo de um cigarro.
É chamar nomes à mãe
do tipo que está ao lado
e responder a alguém:
Eu estou bem, muito obrigado!



Joaquim Pessoa, “Português Suave”, pp. 65-7, Círculo de Poesia – Moraes Editores, Lisboa, 1979.

NB: Este inventário é antes do inventário do BPN

22/05/2015

Um 'bestiário' de Manuel Bandeira...

CHAMBRE VIDE

Petit chat blanc et gris
Reste encore dans la chambre
La nuit est si noire dehors
Et le silence pèse

Ce soir je crains la nuit
Petit chat frère du silence
Reste encore
Reste auprès de moi
Petit chat blanc et gris
Petit chat

La nuit pèse
Il n'y a pas de papillons de nuit
Où sont donc ces bêtes?
Les mouches dorment sur le fil de l'électricité
Je suis trop seul vivant dans cette chambre
Petit chat frère du silence
Reste à mes côtés
Car il faut que je sente la vie auprès de moi
Et c'est toi qui fais que la chambre n'est pas vide
Petit chat blanc et gris
Reste dans la chambre
Eveillé minutieux et lucide
Petit chat blanc et gris
Petit chat.

Petrópolis, 1992.

Manuel Bandeira, Obras Poéticas, 1ªed. Editorial Minerva, p.206, Lisboa, 1956.



ANDORINHA

Andorinha lá fora está dizendo:
– «Passei o dia à toa, à toa!»

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa...

Manuel Bandeira, Obras Poéticas, 1ªed. Editorial Minerva, p.227, Lisboa, 1956.



MADRIGAL TÃO ENGRAÇADINHO

Teresa, você é a coisa mais bonita que eu vi até hoje
na minha vida, inclusive o porquinho-da-Índia que
me deram quando eu tinha seis anos.

Manuel Bandeira, Obras Poéticas, 1ªed. Editorial Minerva, p.230, Lisboa, 1956.

20/05/2015

Boa parte...




Com a chegada do retrato de Maria-Luíza, em que êle vê «a expressão de uma bela alma», Napoleão fica cada vez mais inflamado. Ao general feliz, a filha dos Césares traz a frescura da sua mocidade.
Os maiores mestres de Viena trabalharam no retrato da princesa. O célebre Lampi, que nenhum artista moderno iguala na perfeição do colorido, empregou todo o seu talento para lhe fixar os traços num quadro a óleo. E um miniaturista reputado, Gérard, teve-a igualmente como modelo.

Senhora,

Recebi o vosso retrato. A imperatriz da Áustria teve a gentileza de mo enviar. Parece-me ver nêle a expressão dessa bela alma que vos torna tam querida de todos aqueles que vos conhecem e justifica tôdas as esperanças que eu pus em Vossa Magestade. Amareis, Senhora, um espôso que acima de tudo quere a vossa felicidade e cujos direitos serão fundados sôbre a vossa confiança e sôbre os sentimentos do vosso coração. Penso que estareis já muito perto da França e espero-vos com impaciência.

NAPOLEÃO.

Paris, 20 de Março. [1810]


Carlos de la Roncière, “Cartas de Napoleão a Maria-Luíza”, p.18, Livraria Lello, Porto, Trad. Ramiro Mourão, 1935.



19/05/2015

"L' Imagination Poétique" colecção dirigida por Henri Parisot...




Gisele Prassinos lendo os seus poemas. Da esquerda para a direita: Mario Prassinos, André Breton, Henri Parisot, Paul Eluard, Benjamin Peret, René Char.


SONETO

No Algharb as vinhas são jardins de Hespéria:
Com as vindimas deste fim de Agosto,
Pisada a uva e ao transbordar do mosto,
Abelhas zumbem numa boda aérea.

– Tens sede, meu amor? Toma-lhe o gosto
E, em ditirambo espírito e matéria,
O Sol, há-de cantar-te em cada artéria
E há-de rosar-te a palidez do rosto.

Depois... – não sentes? – o calor aperta,
Que já vai alta a glória da manhã
E eu tenho a boca seca e tão deserta!

Por mim, só quero uns bagos de romã
A ressumar doçuras e entreaberta
Da tua boca, esposa minha irmã...»


Cândido Guerreiro (1871-1954) de “Sulamitis”

op. cit. David Mourão-Ferreira, “O Algarve”, p. 48, Bertrand.

Eli Lotar...

Eli Lotar, Antonin Artaud, 1929-1930
Eli Lotar, Abattoirs de La Villette, 1929


18/05/2015

Aquela no bem e outras...

VERÃO

Caracol, caracol
onde vais com tanto sol?
Vou à loja do senhor Adão
comprar um girassol;
com tanto sol
ninguém aguenta o verão.
Adeus, adeus, caracol,
tens razão
sem guarda-sol
ninguém aguenta este sol.

Eugénio de Andrade, “Aquela Nuvem e Outras”, Quasi, 2005.



1, 2, 3

Um, dois, três
lá vai outra vez
o gato maltês
a correr atrás
da franga pedrês,
talvez a mordesse
apenas no pé,
o sítio ao certo
não sei bem qual é

(quatro, cinco, seis)
ou só lhe arranhasse
a ponta da crista,
e talvez nem isso,
seria só susto,
ou nem sequer mesmo
foi susto nenhum;
sete, oito, nove,
para dez falta um.


Eugénio de Andrade, “Aquela Nuvem e Outras”, Quasi, 2005.

J-J P...


Jean-Jacques Pauvert - Sade Vivant from NAYRA on Vimeo.

17/05/2015

παν=pan=todo + οραμα=orama=vista...


PANORAMAS DO BRASIL

Nos parques dormem mendigos
enrolados em jornal.
Os notivados insectos,
crepitam e desabafam.
A nebelina cobre a rua
obumbra as feições da lua,
faz dos transeuntes espectros.
Imerso em meus devaneios,
assobiando cantigas
que inda no berço aprendi,
eu sigo perambulando
vendo coisas espantosas
que não supunha existir.

Que fazem as negras
cingidas em postes
de iluminação?
passei-lhes por perto
nenhuma me viu
estão obtusas
de tanta cachaça,
de tanta desgraça
e desilusão.
São negras sedentas
famintas e nuas
chorando nas ruas,
trazendo no bucho
pecados alheios,
dormindo? Coitadas
pelos escaninhos
e pelas sarjetas
dos templos sagrados
aonde ressoam
tranquilos e fartos
os gordos sicários
do meigo Jesus.

No botequim
a ruiva de henné
no colo do homem
ao qual explorava
com gesto fútil
às vezes sorria.
Na boca postiça
sorriam postiços
seus dentes de louça
No meio da noite
é o pederasta,
tipo numeroso,
que acha os boémios
em altos clamores
de tara mental.
Os que se aproximam,
desejam dinheiro
para o bacanal.

Um guarda-nocturno,
obeso e cafuzo,
em roncos suínos
de besta saciada,
tirava cochilos
num carro esquecido
que à beira da estrada
dormia também.
De madrugada,
meio a neblina,
e que ce acirram
e recrudescem
trôpegos passos
soturnos ecos
da dura faina
das prostitutas.

Gatos que vivem ao léu
dão uma nota de instinto
fornicando nos telhados
e canteiros desfolhados
de madames irascíveis.
De vez em quando o berreiro
dos automóveis que passam
conduzindo mariposas
para o amor de milionários.
Depois retorna o silẽncio
onde seus passos explodem
como flores apagadas.
O mundo é só, quem te espera?
Os bares não têm amigos,
mulheres não têm sorrisos,
as estrelas feneceram
na madrugada sem fim.
Só globos de luz vegetam
boiando na escuridão
como que vindo de longe,
fazendo as vezes de estrelas
luzeiros do engenho humano,
iluminando a sarjeta
onde rola a perdição

E quando amanhece
e o dia estremece
saltando nos céus,
ninguém reconhece
as coisas que vê.
O mundo girando,
os ricos gozando,
os pobres penando,
os párias morrendo...
a vida correndo...

Alguns ressonando
em camas de pene,
em leitos de pedra
em leitos de pedra
vão outros dormir.
E o mundo girando
a vida correndo
e os deuses sorrindo
sorrindo e chorando
das coisas que vêem.
E o mundo girando
e o dia passando
e a noite chegando
e os homens gritando
de fome e de dor.


Mário-Henrique Leiria, “Depoimentos Escritos”, pp. 59-63, Editorial Estampa, Lisboa, 1997.

Ora diga 33...

Em Portugal, parece que esse tal otimismo da vontade está a diminuir. As manifestações estão a tornar-se cada vez mais eventos vazios sem consequências práticas...
Tem havido um decréscimo drástico da democracia na Europa. E é compreensível. “The Wall Street Journal” apontou correctamente há alguns anos que não importa que partido ganhe as eleições, sejam os comunistas, os fascistas ou algum outro partido no meio irão sempre aplicar as mesmas políticas, porque as políticas não estão nas mãos das populações mas estão sempre determinadas pela burocracia em Bruxelas que tem em cima dos ombros a pressão dos bancos alemães. Mas não devemos aceitar isso. Por exemplo, quando há semanas o Governo português recusou solidarizar-se com o Syriza e decidiu seguir as políticas e mandamentos dos bancos alemães, a população não deveria ter aceitado. O Governo não está livre do poder público.

Quer dizer que nós portugueses, assim como os espanhóis e os gregos, não deveríamos pagar a dívida?
Bem, uma grande parte da dívida é aquilo que na terminologia legal se chama de “dívida odiosa”, ou seja, uma dívida que não é da responsabilidade das populações. Trata-se de um conceito da lei internacional criado pelos EUA e que remonta há mais de um século. Quando os EUA conquistaram Cuba. Em 1898, não queriam pagar a enorme dívida que cuba tinha em relação a Espanha. Então os EUA determinaram que a dívida não tinha sido contraída pelo povo cubano, mas pelos ditadores, os colonizadores. Portanto, a dívida foi considerada ilegítima e não teria de ser paga. Este é um conceito que tem sido aplicado uma série de vezes. Se olharmos para as dívidas de países como a Grécia, Portugal e Espanha, são contraídas por banqueiros, governantes e elites. As populações não têm nada a ver com isso e portanto não existe qualquer razão para pagarem.


Noam Chomsky, in “Passeio Público 33 minutos com...” Entrevista de Bernardo Mendonça, Catarina Pomba Nabais e Diogo Silva Cunha, 'E' a Revista do Expresso Edição 2220 de 16/Maio/2015.

13/05/2015

:( :)...

“Lucílio, a quem Horácio considera o verdadeiro criador (inventor) da sátira, foi o primeiro a circunscrever explicitamente o seu público ao círculo de amigos escolhidos, deixando de fora tanto o que hoje se chama o «grande público», como os eruditos (Horácio faz depois o mesmo, no seu tempo). Quer dizer: esta poesia a que se chama sátira atingiu então o nó da sua função estética e da sua intenção formal: dar prazer aos amigos e chatear os inimigos, assim mais ou menos diz Lucílio. Lucílio não está nada interessado em agradar às massas (que mudam como o vento), muito menos em influenciá-las: por isso considera p. ex. a tragédia como pura psicagogia.”

Alberto Pimenta, “A Musa Anti-Pombalina”, pp. 10-11, A Regra do Jogo Edições, Lx, 1982.

11/05/2015

E foi mais ou menos assim...

Foto cedida por António Silva Oliveira

Carlos Alberto Machado         foto:ASO

Pôr as Pernas do Lado da Cabeça e Partir        foto: ASO

ASO

Porto, Sismógrafo 9 de Maio de 2015

O que já não é tão actual é o povo sustentar-se de sardinha (que atingiu preços gurmé)... E "povo" ter desaparecido para dar lugar ao termo estatístico: população...



“Aproxima-te um pouco de nós, e vê.
O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há nenhuma solidariedade entre cidadãos. Ninguém crê na honestidade de homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima a baixo! Toda a vida espiritual, intelectual, parada. O tédio invadiu todas as almas. A mocidade arrasta-se envelhecida das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. A ruína económica cresce, cresce, cresce. As quebras (ler: depressões) sucedem-se. O pequeno comércio definha. A indústria enfraquece. A sorte dos operários é lamentável. O salário diminui. A renda (rendimento disponível = à poupança) também diminui. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.
Neste salve-se quem puder a burguesia proprietária de casas explora o aluguel. A agiotagem explora o juro. A ignorância pesa sobre o povo como uma fatalidade. O número das escolas só por si é dramático. O professor é um empregado de eleições. A população dos campos, vivendo em casebres ignóbeis, sustentando-se de sardinha e de vinho, trabalhando para o imposto por meio de uma agricultura decadente, puxa uma vida miserável, sacudida pela penhora: ignorante, entorpedecida, de toda a vitalidade humana conserva unicamente um egoísmo feroz e uma devoção automática. No entanto a intriga política alastra-se. O país vive numa sonolência enfastiada. Apenas a devoção insciente perturba o silêncio da opinião com padre-nossos maquinais.”

Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, “Farpas 1” em Maio de 1871.

Um bom sentido de oportunidade para um poeta é a oportunidade de ser inoportuno!


«"URGENTE É A POESIA" impôs-se como tema, porque é urgente a inspiração, a renovação e a arte, que a rotina - ou o mercado -, nos vai fazendo esquecer ou que, cada vez mais, é urgente contrariar.

A forma encontrada para materializar esse conceito, foi a criação de um laço entre o Design e as livrarias, tornando-as no objeto da intervenção. Ou, por outras palavras, a Poesia do Design serve de mote para a atribuição de montras de livrarias a designers e ateliers nacionais que nelas trabalharam, alguns dos profissionais mais reconhecidos nesta área. Aproveitando esta oportunidade, e no sentido de a potencializar nos seus objetivos, na próxima semana ocorrerá um evento literário ligado à poesia em cada uma das livrarias, consecutivamente nos dias 5, 6, 7 e 8 de Maio,........»
URGENTE!? e Oportunidade!?... Sempre a mesma historieta. Parece que não se aprende nada! Mas mesmo assim repete-se aqui uma LiçOom!

“CARTA AO EGITO

A poesia não necessita de “ser salva” porque o que nós entendemos por poesia não necessita de espécie alguma de salvação. Todo o acto de revolta ou de rebeldia, todo o processo de violentar “a natureza” e de desconhecer o direito e a moral é para nós poesia embora não se plasme, não se fixe, não se possa generalizar – ela aqui está, implícita, a recusa terminante de amarrar o poeta a uma técnica, seja qual for, mesmo a mais actual, a mais oportuna, porque, precisamente, o que o distingue do homem de técnica é um sentido de não oportunidade, de inoportunidade, que lhe advém duma clarividência total e duma insubmissão permanente ante os conceitos, regras e princípios estabelecidos. Com isto não queremos dizer (Deus nos livre!) que o poeta seja um louco, um visionário, mas que, se ele tem de possuir uma estética e uma moral é sem sombra de dúvida, uma estética e uma moral próprias.
A poesia é um meio de conhecimento e acção de cujos frutos, bons ou maus, só o poeta aproveita (facto, este, de que muito poucos se dão conta) e daí a inutilidade dos esforços para ligá-lo a qualquer filosofia, política ou teologia, inutilidade que se não desmente no caso de ser o próprio poeta a tentar essa aproximação. É (foi) o caso de Régio como o de Mayakovsky: a sua voz continuará estranha e o sentido das suas palavras incompreensível mesmo para aqueles que escolheu como amigos ou correligionários. É que o poeta é rebelde sem premeditação, demolidor de tudo e de si próprio, esforçadamente anti-caridade-encostada-às-esquinas-de-pistola-em-punho ou caneta-na-mão-lágrima-de-jacaré.
Daí que resultem contraditórios os termos de poeta católico, marxista, surrealista, existencialista, anarquista ou socialista, quando não se desconhece que só ao poeta é dado compreender o poeta. Daí que resultem ridículas as homenagens colarinho-alto ou selecta-de-infância com que é costume, aqui e lá fora, enfaixar o cadáver daqueles como Fernando Pessoa, Rimbaud ou Gomes Leal foram em vida o mais esforçado testemunho contra o bom-senso-não-deites-a-língua-de-fora.

O que possa haver de menos compreensível em tudo isto resulta do facto de que toda a explicação necessita de uma outra explicação para ser compreendida. Aquilo que de um modo imediato é para nós verdadeiro só será inteligível para outrem depois de uma determinada “mastigação” durante cujo processo já todo o objecto em causa adquiriu nova cor, nova forma, novo ou novos sentidos de interpretação. O poeta tem a clarividẽncia desta transformação e daí a sua atitude, sempre de recusa a qualquer espécie de imposição, e ainda quando nos parece que um dos seus gestos adquire uma cor mais conformista, ou um tom menos violento, ele não é mais do que uma forma diferente de recusa.”

Pedro Oom (1949)

"Ontem, hoje. Único!"...



“(…) Tal como a riqueza humana dos negros americanos é odiável e encarada como criminosa, a riqueza em dinheiro não os pode tornar inteiramente aceitáveis na alienação americana: de um negro, a riqueza individual fará apenas um negro rico, porque, no seu conjunto, os negros devem representar a pobreza de uma sociedade de riqueza hierarquizada. Todos os observadores ouviram o grito que apelou ao reconhecimento universal do sentido da sublevação: «Isto é a revolução dos negros e queremos que o mundo o saiba!»”

G. D. em 1966.

Guy Debord, “O Planeta Doente”, p.22-3, Letra Livre, [trad. Júlio Henriques], Lx, 2014.