03/06/2016
01/06/2016
...
![]() |
| (Óleo de Lou Albert-Lasard, 1916) |
“Já
disse? Aprendo a ver. Sim, estou a começar. Ainda vai mal. Mas vou
aproveitar o meu tempo.
Por
exemplo: que nunca tenha tido consciência de quantas caras há. Há
muitas pessoas, mas há ainda mais caras, pois cada uma tem várias.
Há pessoas que usam uma cara anos seguidos; gasta-se naturalmente,
suja-se, quebra nas rugas, alarga como luvas que se usaram em viagem.
Só as pessoas simples, poupadas; não mudam de cara, nem a mandam
lavar. Serve muito bem, afirmam elas, e quem é que lhes pode provar
o contrário? Mas perguntar-se-á: Se têm várias caras, que fazem
às outras? Guardam-nas. Serão para os filhos. Mas acontece também
os seus cães sairem com elas. E porque não? Uma cara é uma cara.”
Rainer
Maria Rilke, “Os
Cadernos de Malte Laurids Brigge”, pp.5-6, Ed. Instituto Alemão da
Universidade de Coimbra, 1954. Trad.
Paulo Quintela.
31/05/2016
Suetônio...
"Festina lente é um oximoro latino que significa "apressa-te devagar". É atribuída a Augusto imperador romano, e quer dizer que o trabalho executado devagar é melhor do que quando feito apressadamente.
A expressão " apressa-te devagar" na verdade quer dizer: " Faça o seu trabalho de maneira rápida, porém não apressada. A diferença é que na primeira modalidade, temos prazo a cumprir, isso não nos impede de desenvolver a tarefa de maneira curada, com precisão e máxima atenção. Na segunda modalidade o indivíduo desenvolveria a tarefa atabalhoadamente só se importando em terminá-la o quanto antes sem levar em consideração o produto final acabado".
Festina lente é o slogan da fábrica de relógios Festina."
A expressão " apressa-te devagar" na verdade quer dizer: " Faça o seu trabalho de maneira rápida, porém não apressada. A diferença é que na primeira modalidade, temos prazo a cumprir, isso não nos impede de desenvolver a tarefa de maneira curada, com precisão e máxima atenção. Na segunda modalidade o indivíduo desenvolveria a tarefa atabalhoadamente só se importando em terminá-la o quanto antes sem levar em consideração o produto final acabado".
Festina lente é o slogan da fábrica de relógios Festina."
fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Festina_lente
27/05/2016
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QUEM
FOI O ARQUITECTO QUE FEZ ESTE CAFÉ
(De
novo em Lisboa. Sensação do mundo desarrumado.)
Quem
foi o arquitecto
que
fez este Café
tão
longe da Natureza
e
tantos homens de pé?
Criado:
põe esta gente na rua!
E
abre um buraco no tecto
que
eu quero ver a lua.
José
Gomes Ferreira
...
“Deixo-o
solto, e vai para o prado, e acaricia levemente com o focinho, mal as
roçando, as florinhas róseas, azuis-celeste e amarelas... Chamo-o
docemente: «Platero», e ele vem até mim com um trote curto e
alegre que parece rir em não sei que guizalhar ideal...”
Juan
Ramón Jiménez, “Platero e Eu”, pág. 9, Livros do Brasil,
s/d, Lisboa. Trad. José Bento.
26/05/2016
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A FLOR E A NÁUSEA
Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
Carlos Drummond de Andrade
24/05/2016
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THIS IS THE FIRST
THING
This is the first thing
I have understood:
Time is the echo of an axe
Within a wood.
Philip Larkin
This is the first thing
I have understood:
Time is the echo of an axe
Within a wood.
Philip Larkin
23/05/2016
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OXFORD SHORES
Quero o bem, e quero o mal, e afinal não quero nada.
Estou mal deitado sobre a direita, e mal deitado sobre a esquerda
E mal deitado sobre a consciência de existir.
Estou universalmente mal, metafisicamente mal,
Mas o pior é que me dói a cabeça.
Isso é mais grave que a significação do universo.
Uma vez, ao pé de Oxford, num passeio campestre,
Vi erguer-se, de uma curva da estrada, na distância próxima
A torre-velha de uma igreja acima de casas da aldeia ou vila.
Ficou-me fotográfico esse incidente nulo
Como uma dobra transversal escangalhando o vinco das calças.
Agora vem a propósito...
Da estrada eu previa espiritualidade a essa torre de igreja
Que era a fé de todas as eras, e a eficaz caridade.
Da vila, quando lá cheguei, a torre da igreja era a torre da igreja,
E, ainda por cima, estava ali.
É-se feliz na Austrália, desde que lá se não vá.
Fernando Pessoa
Quero o bem, e quero o mal, e afinal não quero nada.
Estou mal deitado sobre a direita, e mal deitado sobre a esquerda
E mal deitado sobre a consciência de existir.
Estou universalmente mal, metafisicamente mal,
Mas o pior é que me dói a cabeça.
Isso é mais grave que a significação do universo.
Uma vez, ao pé de Oxford, num passeio campestre,
Vi erguer-se, de uma curva da estrada, na distância próxima
A torre-velha de uma igreja acima de casas da aldeia ou vila.
Ficou-me fotográfico esse incidente nulo
Como uma dobra transversal escangalhando o vinco das calças.
Agora vem a propósito...
Da estrada eu previa espiritualidade a essa torre de igreja
Que era a fé de todas as eras, e a eficaz caridade.
Da vila, quando lá cheguei, a torre da igreja era a torre da igreja,
E, ainda por cima, estava ali.
É-se feliz na Austrália, desde que lá se não vá.
Fernando Pessoa
21/05/2016
...
Perguntas-me
meu bom amigo, se conheço a maneira de desencadear um delírio, uma
vertigem, uma loucura qualquer, sobre estas pobres multidões
ordenadas e tranquilas, que nascem, comem, dormem, se reproduzem e
morrem. Não haverá um meio, dizes-me de reproduzir a epidemia dos
flagelantes ou dos convulsionários? E falas-me do milénio.
Miguel
de Unamuno, “Vida de D. Quixote e Sancho” pág. 11, Assírio
& Alvim, 2005, Lisboa. Trad.
António Mega Ferreira.
16/05/2016
Dourador...
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| Balancé |
![]() | |||
| Dourado art nouveau c/ embutidos em chagrin tabaco |
![]() |
| Exercício com ferros |
![]() |
| Trabalho Final - filetes |
15/05/2016
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![]() |
| "Democritus" de Hendrick ter Brugghen, 1628, Óleo s/ Tela, 85.7 x 70 cm. Rijksmuseum, Amsterdäo. |
“Recordo-me
por vezes do riso louco do duque de Atenas que ria a bandeiras
despregadas, um riso louco que durava um quarto de hora e que
incomodava a maior parte dos sorridentes convivas (...)”
Stendhal,
“Do Riso”, pág. 65, Europa-América,
2008.
14/05/2016
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E se ainda restam preconceitos há que destrui-los.
“O dever”
Digo bem
“O DEVER”
do escritor, do poeta, não é encerrar-se cobardemente num texto,
num livro, numa revista, donde não mais se libertará, mas pelocontrário sair para fora
para sacudir
para atacar
o espírito público
senão
para que serve?
Para que nasceu?
Antonin
Artaud, “Carta Aberta... aos Poderes”, pág. 17, Padrões
Culturais Editora, 2009, Lisboa.
parte 1
parte 2
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| Alberto Giacometti e Jean Genet em Paris (14 de Outubro de 1956) |
Tem
um modo de falar rude, como se escolhesse a dedo a entoação e os
termos mais próximos da linguagem corrente. Parece um tanoeiro.
ELE
– Viu-as em gesso... lembra-se do gesso?
EU
– Sim.
ELE
– Acha que perdem por ser bronze?
EU
– Não. Nada.
ELE
– E ganhar, ganham?
Hesito
de novo proferir a frase que melhor se aplica aos meus sentimentos:
EU
– Vai voltar a rir-se. Mas curiosamente eu não diria que elas
ganham, mas sim que o bronze ganhou. Pela primeira vez na vida o
bronze acaba de triumfar. As suas mulheres são uma vitória do
bronze. Sobre o próprio bronze, creio.
ELE
– Seria bom se assim fosse.
Jean
Genet, “O Estúdio de Alberto Giacometti”, pág. 22, Assírio
& Alvim, 2.ª ed., 1999, Lx.
Trad.
Paulo da Costa Domingos
![]() |
| Samuel Beckett e Alberto Giacometti, Paris, 1961 |
![]() |
| Alberto Giacometti e Samuel Beckett em "À Espera de Godot", 1961, por Georges Pierre |
...
PARMÉNIDES
Em
primeiro lugar, é necessário,julgo, é necessário, julgo eu, que
as outras coisas existam de algum modo, porque, se não existissem,
não poderiamos falar das coisas.
ARISTÓTELES
Com
efeito.
PARMÉNIDES
E
quando falamos das outras coisas, subentende-se que essas «outras
coisas»
são diferentes. Ou não aplicas tu as palavras «outro»
e «diferente»
à mesma coisa?
ARISTÓTELES
Sim.
PARMÉNIDES
Não
dizemos que o que é «diferente»
difere de alguma coisa diferente, e o que é «outro»
o é em relação a alguma outra coisa?
ARISTÓTELES
Sim.
PARMÉNIDES
Deste
modo, para que as outra coisas sejam «outras»,
deve haver alguma coisa em relação â qual elas sejam «outras».
ARISTÓTELES
Forçosamente.
PARMÉNIDES
Que
coisa será essa? Não é relativamente ao uno que ela serão
«outras»,
visto que o uno não
existe.
ARISTÓTELES
Não.
Platão,”Paménides
ou das Ideias”, Editorial Inquérito, pp. 140-1, s/d, Lx.
Trad.
A. Lobo Vilela.
Ao
contrário do que diz Vieira, o non não é «terrível».
É uma palavra inteira,
acabada, por qualquer lado que se tome. Mais brilhante que a
afirmação é sempre a negação . Porque
a negação é a afirmação que pára no limite dos riscos.
Quem
nega, afirma um critério, mas não se responsabiliza pela
reconstituição do que esse mesmo critério destruiu. Sim, a negação
é sempre mais brilhante que a afirmação. Porque quem apenas nega
tem na sua mão a possibilidade de todas as soluções
positivas, inclusive,
portanto, a de quem, além de negar, afirma.
Vergílio
Ferreira, “Do Mundo
Original (ensaios)”, pág.25, Livraria Bertrand, 2.ª ed., 1979,
Lx.
07/05/2016
O Único Verdadeiro Deus Vivo: Agora, és outra pessoa,cheia de banalidades e pequ...
O Único Verdadeiro Deus Vivo: Agora, és outra pessoa,cheia de banalidades e pequ...: Agora, és outra pessoa, cheia de banalidades e pequenas alegrias. O tempo e a distância encarregaram-se disso. Sim, na minha ausência...
30/04/2016
25/04/2016
Errata...
“–
E quando escrevi o meu drama, como eu errei! Era eu então um
imitador e um louco para precisar de um terceiro para contar do
destino de dois seres humanos que faziam a vida dura um ao outro?...”
Rainer
Maria Rilke, “Diários de Malte Laurids Brigge, pp. 20-1,
Instituto Alemão da universidade de Coimbra, 1955. Trad. Paulo
Quintela.
24/04/2016
22/04/2016
O Único Verdadeiro Deus Vivo: Toda a santa noite,um relógio de cuco, o sinode um...
O Único Verdadeiro Deus Vivo: Toda a santa noite,um relógio de cuco, o sinode um...: Toda a santa noite, um relógio de cuco, o sino de uma igreja, um carro na avenida, a insónia a tomar o peso ao desalento, e a ternura e...
19/04/2016
...
A CARROÇA DOS POETAS
Arre burro pra Loulé, carregado de café
Arre burro para a Guarda, carregado de mostarda
Arre burro pra Viana, carregado de banana
Arre burro pra Lisboa, carregado
Com os restos mortais
Do Fernando Pessoa
E mais os seus trinta heterónimos
- Nem vão caber nos Jerónimos
A Carroça dos Poetas
Segue à solta a Poesia
E eu vou dentro a recitar
O poema da minha autoria
Meu amor eu gosto tanto
Da forma como tu gostas
Mas por favor anda buscar
As tuas unhas às minhas costas
Sérgio Godinho
Arre burro pra Loulé, carregado de café
Arre burro para a Guarda, carregado de mostarda
Arre burro pra Viana, carregado de banana
Arre burro pra Lisboa, carregado
Com os restos mortais
Do Fernando Pessoa
E mais os seus trinta heterónimos
- Nem vão caber nos Jerónimos
A Carroça dos Poetas
Segue à solta a Poesia
E eu vou dentro a recitar
O poema da minha autoria
Meu amor eu gosto tanto
Da forma como tu gostas
Mas por favor anda buscar
As tuas unhas às minhas costas
Sérgio Godinho
18/04/2016
...
“(…) «quando tudo tiver sido dito, fica ainda tudo por
dizer» – por outras palavras: é o «dizer» que importa, não o dito – “
André Gorz, “Carta a D.”, ed. Pianola, pág. 56,
Lisboa, 2013. Trad. Rui Caeiro.
02/04/2016
POR DEFINIÇÃO, O ESCRITOR NÃO SABE PARA ONDE VAI E ESCREVE PARA TENTAR COMPREENDER PORQUE ESCREVE
por Alain Robbe-Grillet
Ouvimos
aqui muitas intervenções altamente interessantes. Mas eu queria afirmar o meu
espanto por ter encontrado na boca da maior parte dos oradores soviéticos
críticas tão vivas dirigidas às pesquisas da literatura moderna, que se
assemelham exactamente às críticas que nos fazem na sociedade burguesa do
Ocidente. Aqui, como ali, acusam-nos de «gratuitidade» e de «formalismo». Julgam
a nossa arte «decadente» e «desumana». Perguntam-nos: «Porque é que você
escreve?» «Para que é que você serve?» «Qual é a sua função na sociedade?»
Naturalmente,
estas perguntas são absurdas. Tanto como qualquer outro artista, o escritor não
pode saber para que serve. A literatura não é para ele um meio que ponha ao
serviço de qualquer causa. E quando nós ouvimos fazer o elogio desse «bom
instrumento» que é o romance do século XIX, esse bom instrumento do qual se
acusa o novo romance de querer afastar-se (quando poderia ainda expor ao povo
os males do mundo actual e os remédios na moda, ainda que, se necessário, com
alguns pequenos melhoramentos, como se se tratasse de aperfeiçoar um martelo ou
uma foice…), quando nos enchem os ouvidos com a «responsabilidade» do escritor,
somos forçados a responder que estão a troçar de nós, que o romance não é um
instrumento e que até, provavelmente, do ponto de vista da sociedade, ele não
serve para grande coisa.
Comprometido,
o romancista é-o, certamente – como o são, de qualquer maneira e nem mais nem
menos, todos os homens –, no sentido em que ele é cidadão dum país, duma época,
dum sistema económico, que vive no seio de hábitos e de regras sociais,
religiosas, sexuais, etc. Em suma, é comprometido na medida exacta em que não é
livre. E uma das formas particulares – muito virulenta – que toma neste momento
a restrição da sua liberdade é precisamente esta pressão exercida pela
sociedade tentando-lhe fazer crer que ele escreve para ela (ou contra ela, o
que vem dar no mesmo). E aqui temos um caso bastante interessante daquilo que
hoje em dia se convencionou chamar alienação.
Digamos,
portanto, as coisas com clareza. Como toda a gente, o escritor sofre as
desgraças dos seus semelhantes; pretender que ele escreve para remediá-las é
desonesto. O romancista alemão-oriental que declarou, nesta tribuna, escrever
romances para lutar contra o fascismo, provoca-me o riso e causar-me-ia
inquietação sobre as suas qualidades de escritor se nós não compreendêssemos,
nós, que também ele não sabe porque escreve e que os seus álibis não têm
nenhuma importância.
Quanto
a mim, prefiro dizer que aquilo que me interessa é a literatura; a forma dos
romances parece-me muito mais importante do que as anedotas – mesmo as
antifascistas – que neles se possam encontrar; no momento da criação ignoro o
que estas formas, de que sinto a necessidade, significam, e ainda muito mais
para que elas poderão servir.
A
comparação que aqui foi feita entre um escritor e um piloto de aviação
comercial só pode ser tomada como uma brincadeira. O romance não é um meio de
expressão – quer dizer, na medida em que conheceria de antemão as verdades (ou
as interrogações) que teria de exprimir. Para nós, o romance é uma pesquisa, e
uma pesquisa não sabe mesmo o que procura. Claro que o piloto deve saber o
destino imediato para onde conduz os seus passageiros; por definição, o
escritor não sabe onde vai. E se me fosse absolutamente necessário responder à
pergunta: «Porque escreve você?», eu responderia somente: «Eu escrevo para
tentar compreender porque desejo escrever.»
Mas
o que nos parece mais escandaloso é encontrar no campo socialista e no mundo
burguês as mesmas ilusões quanto ao poder político da arte, o mesmo culto pelas
formas artísticas ultrapassadas, o mesmo vocabulário crítico e, no fim de
contas, os mesmos valores.
«Decadente»,
dizeis vós? Em relação a quê? «Desumana»? Não será talvez a vossa concepção do
homem que necessita de ser renovada? Porque, se é compreensível que a crítica
burguesa do Ocidente defenda obstinadamente (ainda mais timidamente que vocês)
as formas romanescas, as quais encarnam, para eles, evidentemente, a idade de
ouro do romance e o paraíso da classe possuidora, parece-nos estranho que
combateis, aqui, pela mesma causa e que faleis duma escritura romanesca inocente e natural, da qual já Gustave Flaubert começava a duvidar em 1848.
Acusais-me
de «formalismo», mas são as formas
literárias que contêm a significação das obras; e as formas que enalteceis,
sabemos, justamente, que elas representam o mundo que reputadamente combateis.
In “Romance e Realidade”, pp. 135-9,
Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1969. Trad. Luísa Fialho.
26/03/2016
23/03/2016
22/03/2016
...
“…
Eu era um moço bisonho, quase donzel, nada estreado, digamos, no
entrecasco das coisas do mundo, ainda com a envide de rústico. Nem
colégios, seminário, pensões de Lisboa, embora nelas soprassem
forte as auras do mundo livre, me tinham arrancado para fora dos
alicerces de provinciano. Teoricamente eu estava em dia com o que
havia de mais progressivo no meu século. Mas a teoria só por si o
que vale? Que vale conhecer os movimentos da natação e nunca ter
entrado no mar? Conhecer os passes da esgrima e nunca ter pegado numa
espada? Eu era o incorruptível e inteiriço bárbaro, debruçado
cheio de sede para o rio da mundanidade, que corria ao fundo dum
socalco de mármore, fora do alcance.”
Aquilino
Ribeiro
...
34
Temos as nossas
noites insones…
Os poetas conclamam
a verdade,
e talvez até
profetas,
porque temos de
esmagá-los
contra uma parede de
chamas?
No entanto os poetas
são inermes,
a álgebra doce do
nosso destino.
Têm um corpo para
todos
e uma memória
universal,
porque devemos
extirpá-los
como se desarreigam
ervas impuras?
Temos as nossas
noites insones,
mil penosas ruínas
e a palidez dos
êxtases do entardecer,
temos bonecas de
fogo
como Copélia
e temos seus
túrgidos de mal
que nos infectam
corações e rins
porque não nos
rendemos…
Deixemo-los com a
sua linguagem, o exemplo
das suas vidas nuas
irá suster-nos até
ao fim do mundo
quando pegarem nas
trombetas
e tocarem para nós.
Alda
Merini, “A Terra
Santa”, pág. 95, Cotovia, 2004. Tradução
de Clara Rowland.
...
Dos vivos
herdam-se palavras. Dos mortos, coisas.
José
Gomes Ferreira, “Uma
Inútil Nota Preambular” em “Um Escritor Confessa-se” de
Aquilino Ribeiro, pág. 10, Livraria Bertrand, 1974.
21/03/2016
...
Perguntas
do jornalista Sérgio Almeida para um artigo que saiu no Jornal de
Notícias de 21-03-2016.
1
As Edições 50 kg são a prova de que não só a edição de poesia
continua bem viva como tem sabido de certa forma reinventar-se, não
estando tão dependente do papel das grandes editoras?
R:
Prova, não o diria, continuo a achar que as Edições 50kg, por si
só, não têm uma presença relevante para servir um embandeirar
desse arco da sobrevivência editorial da poesia. No entanto penso
que já há muito que existe uma pretensão que a poesia se vai
renovando nas pequenas editoras. Basta pensar, por exemplo, que antes
destes conglomerados editoriais que agora proliferam, uma
editora como a Assírio, que não era propriamente pequena, insistia
em se denominar como pequena editora para assim reivindicar um certo
papel de luta e
de resistência. Porém acho,
que as “grandes editoras” assumiram sempre, pelo menos em relação
à poesia, mas também penso que o fazem em relação a outros
géneros literários, o papel de antologiadores – de apresentadores
à urbi e
à orbi
de autores já consagrados, tomando-se por formadores e conservadores
de um cânone poético. E isto de certa forma era uma atitude que se
podia entender. O problema que se põe agora é que esse papel de
certo modo inverteu-se, porque é necessário alimentar um mercado
editorial e é aí que estes “conglomerados”, que também já
possuem meios de expressão da crítica, que são donos de revistas
literárias, começaram a introduzir novos autores, que francamente
penso, não passam por um crivo de “qualidade” isento e
criticamente eficaz. Não sei onde isto vai parar, mas como dizia o
Cesariny: “em algum sítio muito longe”.
2
Falta arrojo às editoras convencionais?
R:
Falta pensarem no que é importante e no que fica e não no que
vende. Uma biografia do Toni Carreira vende, toda a gente sabe, mas é
tão importante como ter um segundo cu!
3
Pela tua experiência enquanto editor, achas que o número de
leitores de poesia ao longo da última década tem sofrido alguma
alteração significativa?
R:
Sim, foi reduzindo em termos de números. São menos os leitores. E a
redução das tiragens são o reflexo disso. E não penso que foi a
introdução das novas tecnologias, ou sequer a crise a razão
principal. Nunca foi tão fácil possuir livros de poesia. No
alfarrabismo é possível obter excelentes livros de poesia a preços
quase irrisórios. O motivo para tal redução de leitores de poesia,
a meu ver, é o facto de não existir deveras uma comunicação
geracional. O saber que se acumulou não está a passar. E os órgãos
de comunicação social (salvo raras excepções) desistiram desse
papel. Por palavras mais situacionistas direi que me parece que o
“Espectáculo” é o que vigora.
4 A manutenção ou diminuição desse número
significa que as imensas iniciativas sobre poesia que existem pelo
país fora têm uma eficácia diminuta?
R:
Essas iniciativas sobre a poesia estão na ordem do espectáculo. É
por isso que se assiste a espectáculos poéticos, com música,
cuspidores de fogo, novos jograis, e strippers… Isso tudo para
plena satisfação de um público consumidor de espectáculos… Mas
leitores? Ui tá quieto!
RAR
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