29/04/2015

Dia 9 de Maio às 21h30...

"Pôr as Pernas do Lado da Cabeça e Partir" de Carlos Alberto Machado 
capa de Fabrizio Matos
No Sábado, 9 de Maio pelas 21h30, será apresentado o livro “Pôr as pernas do lado da cabeça e partir” de Carlos Alberto Machado (n. 1954), Edições 50kg, no espaço Sismógrafo no Porto. E contará com a presença do autor. O título deste livro, que é um único poema, pode ser encontrado num verso final de um poema que foi publicado em A Realidade Inclinada (ed. Averno 2003), “/ agora é só pôr as pernas do lado da cabeça e partir” (pág. 39).
 Rememorações, divindades perdidas, um solo de cantor desolado, um corpo que se desfaz em duplos (whiskeys?) mas nunca em cúmplices. É uma viagem ao final da noite, mas cruzando o Céline, o Joyce com Xavier de Maistre e com o fôlego de quem só tem um dos pulmões e sabendo, também, que a noite é um teatro de sombras. Uma viagem é um fracasso quando tem por destino um regresso. O quê? Da morte não há regresso? Então é boa viagem…
RAR

Fernando Assis Pacheco...


BAH!


Fora os livros não vejo
muita outra coisa
a que possa chamar
minha propriedade


a gilete? O pente
imitação tartaruga? a tesoura
das unhas?


nem mesmo a roupa
enchendo todo um armário
que se queima com o suor
gasta rasga
desfia em pouco tempo
condenada
por um corpo infeliz
e quando nova a estrear
faria talvez já
as delícias do adelo


álbuns de fotos?
estojo caneta-lapiseira?
pesa-papéis
deitando a sua neve falsa
sobre o castelo alemão?


inclusive o carro
envelhece mês a mês
sem uso: o prazer de guiar
é coisa dos anúncios


e a gasolina cara
e para quê tirá-lo da rua
para arrumá-lo aonde?
guiem agora as filhas


Lisboa, 15.2.94
Vilagarcía de Arousa, 31.8.95

Inédito de Fernando Assis Pacheco, na revista Espácio / Espaço Escrito – revista de literatura en dos lenguas, número 15 y 16, pp. 27-8, Badajoz, 1998. 
 
José Cardoso Pires, A. Guerra, Assis Pacheco.
Aniversário de 'O Jornal', 21 de Maio de 1982.

FELIZES PUTAS (Jerez/ Lisboa, 1995/96, Laus Deo)
Às prostitutas da Avenida da Liberdade:


Eu vi gelar as putas da Avenida
ao griso de Janeiro e tive pena
do que elas chamam em jargão a vida
com um requebro triste de açucena


vi-as às duas e às três falando
como se fala antes de entrar em cena
o gesto já compondo à voz o mando
do director fatal que lhe ordena


essa pose de flor recém-cortada
que para as mais batidas não é nada
senão fingirem lírios da Lorena


mas a todas o griso ia aturdindo
e eu que do trabalho vinha vindo
calçando as luvas senti tanta pena


Fernando Assis Pacheco, in revista Espácio / Espaço Escrito – revista de literatura en dos lenguas, número 15 y 16, pág. 17, Badajoz, 1998.


MJG...

Manuel João Gomes por Carlos Ferreiro
16

Que vejo eu nesta página impressa? Um espelho, o meu reflexo? Fiel? Um espelho com pouco de mim, sim! Vejo os artistas que derreteram o chumbo e forjaram os tipos, que compuseram e imprimiram as frases. E os revisores de provas. E os poetas que cito, além de Alice, da gata e dos grandes clássicos do hai-kai japonês, todos fantasmais, mas tão evidentes como a tintas que escorre pelo chumbo das máquinas de imprimir, inconsistente e fantasmal. Eu estou presente, mas atrás do meu Duplo, citação de mim, homem de névoa, névoa de chumbo escorrendo pelo espelho, togas, dentadas nas máscaras em liquefacção: sou de outro mundo, tenho apenas duas dimensões, caibo entre duas folhas de um livro fechado, tenho dezassete sílabas e dei caça ao snark nas lentes dos óculos de um eléctrico às seis da tarde uso narciso na lapela toco rebeca com uma escova de dentes na vulva da gata de Carroll, violeta na coroa funerária de Adalbert von Chamisso, digo da sua sombra Peter Schlemihl, digo da sua sombra Erasmus Spikher, ou quiçá do seu reflexo no espelho de Julieta Glannegg ou o Diabo a ver o rabo no espelho da feiticeira pintada na gravata de Humpty Dumpty fálica como a de Álvaro de Campos engenheiro naval entregue à descoberta do Mundo Fundo das Sereias, espelho de Jeová, o Único que vive séculos dos séculos na contemplação lúbrica do Homem criado à imagem e semelhança da sua Omnimpotência,
 


Esta página é o reflexo de si própria. Sombra que existe num espaço, enquanto o eu que a provoca é invisível e não ocupa lugar.
Numa outra vida, nas cavernas platónicas, esta página teve corpo e alma.
Hoje é o fantasma do que foi, duplicado, aparência, negativo.
Gutenberg, o agiota, aprendeu no Espelho a reprodução através da dureza do chumbo e do esperma sépia das tintagens.
Morreu pobre e, lá do céu, projecta nestas páginas névoas de borrasca.
Só peço a Deus que não demore a Era de Off-Set, espelho dos
espelhos, reflexo fidelíssimo, Terra Prometida às caligrafias
que o Dedo de Alice e a Voz de Eco criaram no corpo de Narciso.

Canção,
se te disserem que nada disto interessa ao Interesse
Nacional,
se te disserem que o tema é já revelho,
se te disserem que regressaste à fase anal,
canção,
diz-lhes para se verem ao espelho
e não leves a mal!


 Manuel João Gomes, “Almanaque dos Espelhos”, pp. 63-5, &etc, 1980, Lisboa.

 


                                                   1.º ponto
                       A MÃO DO INQUISIDOR QUANDO ESCREVE

    Um Inquisidor, quando escreve, escreve no cumprimento da sua função. A escrita de um Directorium é a prática de acto útil, digamos, a fabricação de um objecto funcional. E isso, desde a capa, lombada, letras capitulares, índices, peso e formato do livro: tudo condiciona a forma de o livro se escrever.
 
    Um Directorium não é para estar na estante; é para andar em exercício debaixo do braço do Inquisidor, que o abre e consulta em pleno tribunal e em plena rua, tanto ao julgar como ao investigar – tanto ao prender como ao executar. (…)
 


    Um Inquisidor, ao escrever um livro, não deixa de ter em mente que é também pregador. (São Domingos inventou a Ordem dos Pregadores para, pela palavra, os pôr a combater os hereges.) Um Inquisidor é portanto um polemista.
 
    Detective e polícia, um Inquisidor dificilmente fugirá a escrever literatura policial. Carcereiro e juiz, o Inquisidor não se safa de ser um canonista, conferindo isso ao seu discurso um tom didáctico. Na sua qualidade de executor e sacerdote, necessàriamente cultivará o género psalmódico: daí um discurso profético, criador de uma linguagem que faça ponte entre a terra e o céu.

E tudo isto se envolve em um discurso polémico, como vimos.
Acrescentemos ainda – ao considerarmos concretamente o Directorium Inquisitorum que o inquisidor é um memoralista. Com efeito, Emérico escreveu já afastado dos misteres inquisitoriais, em Avinhão, nos últimos anos da vida, e no gozo da reforma que lhe dava o título de capelão do papa.
 
Por isso – por isso? – é o Directorium muito mais que uma colecção de cânones e decretais, sendo, como é, obra de toda uma vida e de uma muito elaborada forma de se exprimir (e oprimir).
 
Manuel João Gomes, in “O Manual dos Inquisidores” de Nicolau Emérico, pp. 230-231, Fernando Ribeiro de Mello | Edições Afrodite, 1972, Lisboa.

Álvaro Cunqueiro...


20/04/2015

Revolucionários e Querubins...



_________________ e viva o povo!

Ramiro Ramires de Ramada e Ramos, cultivador das Musas e de alguma Indústria, casado católicamente com Dona Marta Martim de Coutim e Coutinho, cultivadora das Musas e de propriedades rurais, sentiu-se um dia profundamente triste na sequência de mais um conflito israelo-árabe, o de 1973.
– O homem moderno precisa de velocidade! – confidenciou a um amigo.
De facto, por meras questões ideológicas, o combustível escasseava. Os três automóveis do casal sofriam horrores para atestarem os depósitos. E em fins-de-semana nem uma bomba funcionava, visto o Governo, como todos os imbecis Governos desta terra, clamar incessantemente por austeridade.

JoséMartins Garcia, “Revolucionários e Querubins”, Fernando Ribeiro de Mello / Edições Afrodite, p. 13, Lisboa, 1977.

17/04/2015

Hoje às 22h00...


Prontos para logo! Mais info aqui

“Oito Cascatas e Um Desabamento” é o título da publicação de Renato Ferrão a ser lançada aquando da exposição “Cascatas e Desabamentos”, do mesmo autor, no espaço Sismógrafo, no próximo dia 17.

Esta publicação consiste numa recolha etnográfica (melhor seria dizer exploratória – mas por causa de uma série de escuteiros – estragou-se este conceito) de tradições (traz na dicção), ritos e costumes que estão associados ao elemento natural e jorrante que são as cascatas. Esta publicação consiste num apanhado de situações, de como diferentes locais geográficos e os seus habitantes, exploram e convivem com esse elemento. Isto permitiu a Renato Ferrão, que tudo isso testemunhou in loco, aglomerar, se não para a posteridade pelo menos para um poster, a recolha que agora nos fornece (e que só podemos estar gratos) criando-se assim um importante documento que terá, a partir de agora, de ser tido em conta sempre que um levantamento da mesma ordem, assunto e ou matéria, ou em suma: do mesmo cariz se proporcionar. Produziu-se por isso bibliografia. Coisa que não tive vontade de averiguar, mas que me disseram que não havia até então e que agora já há. Bem haja!

p.s. O desabamento, não é um capítulo em formato de conclusão. Trata-se apenas de um faits-divers (termo que, como se sabe, em jargão jornalístico quer dizer: fazer mergulhadores) e cuja gravidade, por semelhança, o autor teve a necessidade de incluir no seu estudo que agora se publica.

RAR em Abril de 2015



Publicação feita pelo colectivo Sismógrafo em Abril de 2015. São 100 exemplares (numerados) em tipografia de caracteres móveis e uma zincogravura.

14/04/2015

Página 22...

página 22 de "Quanta Mecânica Quanta"

"Ólha-me para aqueles dois armados em escrita finã!" pág. 22 pormenor.

02/04/2015

Escritores Esquecidos 12...



“Foi simplesmente a história de como os patriotas fuzilaram um oficial que os traíra. De como o levaram, livre e aristocrata, de camisa aberta à névoa da manhã. De como o soldado reconheceu que os campos eram de alfafa. De como ouviu o balir dos animais, o tanger dos sinos e o crescer das hastes novas nos pinheiros. De como não se cruzaram palavras duras. De como falaram com dignidade mútua. De como não houve ódios nem castas. Porque não se disse que foi um ajuste de contas. Porque apenas foi uma vitória adiada por esquecidas derrotas. De como o país cabia no meu bolso, tão encolhido. E como tantos eram os horrores, tão encanecidas as histórias que se contavam pela noite.”

João Palma-Ferreira, “Os Crânioclastas”, pp. 31-2, Estúdios Cor, Natal de 1972.



“Oeiras, 17 de Fevereiro de 1969.
Sou um grande escritor de actas. Tenho escrito actas toda a vida. Escrevi actas na Escola, no primeiro emprego, no segundo emprego, no terceiro e no quarto. Estou a fazer a acta de mim próprio e, para que se conste, foi feita esta acta que, depois de lida e aprovada, vai ser assinada nos termos da Lei.
Em tempo vou aditar algumas verdades amargas para uso legal. O documento será autenticado com selo em branco. O funcionário arquivista averbará: está conforme. Aos dezassete dias do mês de Fevereiro de mil novecentos e sessenta e nove, pelas dezassete horas e quarenta e cinco minutos, nesta vila de Oeiras, reuniu o Conselho de decisões definitivas para apreciar o caso do cidadão João. Após as saudações habituais aos membros do Conselho, o Presidente expôs a doutrina e a actuação mais aconselhável para a concretização dos propósitos. Procedeu-se a um rigoroso inventário dos temas a abordar, em obdiência à ordem do dia. Não havendo qualquer assunto a tratar antes da ordem do dia, foi a sessão imediatamente aberta. O Presidente retomou a palavra e fez uma longa descrição da vida do cidadão João. Sublinhou as suas falsidades e torpezas, a sensualidade desenfreada e que é possesso, o estilo de vida que mantém com grande escãndalo público. Acentuou o seu pendor para a divagação, a tibieza do seu comportamento, auto-suficiência, timidez e orgulho. Ilustrou com numerosos exemplos do conhecimento geral. O Vogal representante do Instituto de Direitos Privados tomou a palavra para descrever as qualidades do cidadão João, demonstrando a sua capacidade de humor e de paciência, tolerância, sensibilidade e bondade. O Presidente chamou a atenção do Conselho, insistindo na proibição de exemplificações abstractas. O termo bondade foi substituído pela expressão fraqueza humana. O Presidente retomou a palavra para prosseguir na análise do comportamento social do cidadão João, exemplificando com o seu desprezo pelas instituições religiosas e pelas opções e ideologias políticas, doutrinas, governos e regimes, demonstrando certos aspectos do seu mau humor perante a obrigatoriedade de qualquer dever colectivo, da sua relutância em observar as regras da moralidade tradicional e demais pormenores de natureza pessoal que designou como nítida paranóia. O Vogal representante do Instituto de Direitos Privados pediu ao Conselho que todas as informações fossem devidamente comprovadas com documentação oficial. O Presidente tomou a palavra para afirmar que se opunha à petição do Vogal representante do Instituto de Direitos Privados. Foi proposta a votação. O Conselho não aceitou a proposta do Vogal representante do Instituto de Direitos Privados que foi derrotada por uma margem de quatro votos. O Presidente tomou a palavra e pediu a pena capital para o cidadão João. A proposta foi apresentada à votação e aceite por uma margem de cinco votos a favor. Nada mais havendo a tratar, foi encerrada a Sessão da qual se lavrou a presente acta que, depois de lida e aprovada, vai ser assinada nos termos da lei. Em tempo: faz-se constar que o cidadão João foi enforcado pelas dezoito horas deste dia dezassete de Fevereiro de mil novecentos e sessenta e nove. Na hora da morte mostrou-se convenientemente arrependido, como manda a Lei.”

João Palma-Ferreira, “Diário (1962-1972)”, pp. 121-23, Editora Arcádia, Abril de 1972.




“Em 1944 Ernest dedicou dois longos poemas a Mary Welsh, escritos entre Maio e Setembro daquele ano. Foram, pela primeira vez, publicados na revista The Atlantic (Agosto de 1965, vol. 216, n.o 2) com uma nota de Mary Hemingway. O Segundo Poema Para Mary encontra-se gravado no disco Ernest Hemingway Reading, editado pela Cadmon Records, de Nova Iorque. Até à data, uma única tradução dos poemas foi divulgada no estrangeiro, que se saiba: a versão em língua castelhana do cubano Armando Alvarez Bravo. A tradução em língua portuguesa, que terminei há dias, é, portanto a segunda que até agora se realizou. Baseia-se no texto original inglês e na versão de Armando Bravo.


Segundo Poema Para Mary

Dorme ele agora
Com essa cabra velha, a Morte,
Que ainda ontem três vezes se negou.
Repitam comigo
Dorme ele agora
Com essa cabra velha, a Morte
Que ainda ontem três vezes se negou.
Esperem. Aguardem que eles terminem.
Continuemos.
Negaste-a?
Sim.
Três vezes?
Sim.
Repitam comigo.
Aceita esta cabra velha, a Morte,
Por legítima esposa
Diante da lei?
Sim.
Sim.
Sim.
M. E. A. 6 of. 61 s. 13 Set. 2400 – 14 Set. 2400
Traduzam.
Mortos em Acção 6 oficiais, 61 soldados, da meia-
[-noite de 13 de Setembro à meia-noite de
[14 de Setembro.
Repitam comigo sessenta e sete vezes
Sim
Sim
Sim, sessenta e sete vezes
Continuemos
E continua-se.
Na próxima guerra sepultaremos os nossos mortos
[amortalhados em celofane
Na próxima guerra sepultaremos os nossos mortos
[amortalhados em celofane
A Hóstia virá empacotada nas rações K
A Hóstia virá empacotada nas rações K
Distribuir-se-á a cada homem um pequeno, mas
[perfeito,
Arcebispo Spellman que enche automaticamente
(por deferência da Air Reduction – aberto-fechado-
[-aberto-fechado)
Isto não é para repetir. A cerimónia terminou.
Já se foram todos e a ti próprio o dizes em voz alta.
Neste momento estás só e este momento é sempre.
[Sempre era uma palavra que utilizava nas
[promessas. Carece de valor.
A todos os oficiais, subalternos e soldados será distri-
[buída uma réplica do seu verdadeiro amor,
[aquele que não mais viram, e todas estas
[réplicas poderão ser devolvidas pelas vias
[competentes.
O meu verdadeiro amor é Mary Welsh.
Logo, supõe-se, poderá ser devolvida.
Mas hoje, neste dia, não aceitarei a rubrica do
[Arcebispo Spellman. Nem a dela.
Vocês todos podem ir-se embora, todos vós. Ponham-
[-se ao fresco o mais caladinhos que vos for
[possível. E podem levar o possível convosco,
[caso o encontrem. E podem desfazer-se dele
[do modo que acharem mais conveniente.
Hoje ninguém emprega o calão porque a clareza é de
[vital importância
Convém amenizar, mas só como adjectivo.
Ameniza o suor.
Significa isto que devemos padecer sem nenhuma
[possibilidade de modificarmos o resultado
ou o desenlace.
E nós, os que conhecemos este segredo, caminhamos
[lentamente e contemplamo-nos com infinito
[amor
e compaixão
Isto sobrevém unicamente quando já cem dias decor-
[reram e é um dos sintomas finais.
E temos irritação, ira, medo, dúvida, culpa, negação,
[má interpretação, erro, cobardia, torpeza e
[falta de talento para este trabalho.
Tudo isto tivemos e voltaremos a ter. E terá de ser
[enfrentado com firmeza, segurança, coragem,
[rápida compreensão e habilidade para ma-
[nobrar
e combater
Mas agora, por um instante, apenas há amor e
[compaixão.
Repitam.
Só amor e compaixão.
Para os B.F's também?
Battle Fatigues, oficiais, soldados, meia-noite 13 de
[Setembro... (?) meia-noite 14 de Setembro)
Não.
Logo não é compaixão.
Nem sequer para os B.F's.
Sim, é amor e compaixão.
Como podes dizer uma coisa dessas aqui?
E como podes dizer as outras?
Não somos nós que pediremos mais. Não somos nós
[que a desejaremos outra vez. Não somos
[nós que a desejaremos. Nem a desejaremos
[maior.
Mas quando eles se despediram daquele ignoto país
[de cujos limites nenhum viajante
que ali não tenha estado poderá regressar,
Despediram-se eles de tudo que não podemos
[exprimir. E neles morreu esse profundo co-
[nhecimento que cresce com maior fragância
[e formusura do que qualquer rosa.
Protegido pela morte e apenas regado pelas lágrimas
[retidas até que, hoje, floresce neste amor e
[nesta compaixão.
Para eles não.
Não. É pena.
Não está, por isso, completo.
Não, nem jamais estará.
E sem contrição.
Não, sem uma estúpida e velha contrição.
Só compaixão e amor.
Estende a tua mão á obscura irmã do Amor, o Ódio,
[e caminha com ela por essa colina que lenta-
[mente precorremos, e verifica se lá em cima
[nos guarda o Amor
Ou quem, em seu lugar, nos aguarda
Já te disse que devido às circunstâncias ficou branco
[o meu coração?
A encantadora irmã do Amor
Amorosa desamorável
Que despreocupadamente se aproxima
Enamorando sem submeter
Mas nunca inteiramente equivocada
Só de metade verídica
Prendendo sem prender para prender no ponto de
[onde ligeiramente pare o Amor sem nos
[deixar
o endereço.
O Amor parte levemente sem deixar recado e é
[a sua obscura irmã quem ocupa todos os
[espaços
Todas as formas completamente ocupadas.
O que se escreve revela um qualidade onde o Amor
[é muitas vezes ilegível
Garatujado à pressa enquanto ela sorri
Sem dar importância à página.
Crês que a encontraremos no alto da colina?
Não, há muito que se foi embora. Nunca oferece
[batalha,
Sabendo muito bem que o combate é imbecil, para
[sempre ido o amor,
só nos deixa o desolado sacramento.
Tal como a refeição que encontramos sobre a mesa
[de qualquer casa de uma aldeia recém-
[-ocupada.
Assim o consumimos agora. As suas pegadas marcam
[os nossos maxilares. Como os restos de gema
do raro e desejado ovo, e o nosso recém-devorado
[sacramento
Levemo-lo com os recentes retratos dos nossos amores
[verdadeiros até aos altos terrenos para lá
[da aldeia.
Até à fácil, suja boca sorridente que tantos dias
[temos negado
Até à fácil, suja boca sorridente que temos negado
[tantos dias (D plus 108)
Movamo-nos agora laboriosamente, até ao cimo dessa
[colina
E deixemo-nos levar lentamente pelos pés até onde
[melhor nos saibam conduzir.
Sábios são os pés cautelosos
Os pés de John e os pés de Harry
Os pés sabem
Os pés não partirão.
Faz agora com que os pés se movam lentamente
Faz com que os pés te levem até onde nenhum arado
Marque o teu caminho
Onde tudo se dissemine
Até ao local onde estará morto.
DEVOLVAM-NA AGORA PELAS VIAS COMPE-
[TENTES. DEVOLVAM-NA.
Isto ajudar-te-á.

E. Hemingway

in João Palma-Ferreira, “Diário (1962-1972)”, pp. 98-105, Editora Arcádia, Abril de 1972.

zincogravuras...




31/03/2015

PRÓLOGO


Um tempo havia
muito feliz
em que eu pedia
ao céu raiz

A terra era
– julgava eu –
sala de espera
carinho meu

Nossa Senhora
do Mau Ladrão
chegada a hora
da coroação

Agrilhoado
– antes, depois –
chorei dobrado
por nós os dois

Mário Cesariny de Vasconcelos, “A Poesia Civil – Políptica de Maria Koplas, Dita Mãe dos Homens”

22/03/2015

Diz o vereador da Cultura do Porto que para o ano o tema da cidade é a felicidade!...


“Uma variante do fenómeno da negação é a ideia de que mudar as palavras também muda os factos. Para os Americanos, a palavra «problema» é tabu. Presentemente, chama-se «desafio» a qualquer situação que antes mereceria a primeira designação. Problemas, é coisa que não existe, pelo menos nos Estados Unidos. A palavra «fascismo» também é tabu na Europa no que diz respeito aos movimentos políticos actuais. Há a extrema-direita, o conservadorismo radical, o populismo, o populismo de direita, mas o fascismo... não! Não, é impossível, já não temos disso, vivemos em democracia, parem de ser alarmistas e de ofender as pessoas!
Em 1947, Albert Camus termina o seu romance A Peste, uma alegoria do fascismo, comentando que o médico não pôde juntar-se à celebração posterior ao anúncio oficial de que o reino da peste havia terminado. «Porque ele sabia o que esta multidão eufórica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nas caves, nas malas, nos lenços e na papelada. E sabia também que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz.»"

Rob Riemen, “O Eterno Retorno do Fascismo”, pp. 11-2, Bizâncio, 2012.

21/03/2015

E foi mais ou menos assim...

Produzimos imagens em massa. Não há dados fidedignos acerca da quantidade de fotografias e vídeos que são feitos diariamente. Mas podemos ter alguma ideia pela quantidade que é colocada na internet. Números de 2014 dizem que no Instagram, por minuto, foram colocadas aproximadamente 27300 fotos; no Facebook 208300 igualmente por minuto. E no Youtube por cada minuto foram adicionados cerca de 100 horas de vídeo. Isto para dizer que pouco mais há de pertinente e aliciante, para filósofos; antropólogos e sei-lá; estudiosos de toda a espécie, do que debruçarem-se sobre a questão da “Imagem” e da sua massificação e produção. O que também significa, em alguma instância, uma Kehre (termo filosófico para mudança, pessoalmente prefiro o termo político-insurrecto: «reviralho») constatada pelo abandono duma sociedade da escrita para esta que utiliza as imagens como forma privilegiada, não queria dizer de comunicação – direi antes interacção, entre seres humanos (demasiados). Pensar que se deve usar a imagem porque esta permite uma evidência, ou menos equívocos, lapsos, etc., é no mínimo ilusório! (outro termo imagético). A lei, para já, ainda vai disciplinando o uso da imagem como meio de prova. Porém, face à sociedade de vigilância que insiste em se instalar em nome de uma suposta segurança (que depois se verifica ser só para bens materiais e de determinadas instituições) é só uma questão de tempo para que esta situação seja re”vista”. 
Trago para aqui isto, na sequência da conferência de ontem na FBAUP, com Georges Didi-Huberman e Pawel Moscícki, onde me foi dado a possibilidade de assistir a um outro lado desta questão do uso da imagem. Para meu espanto, vi uma manipulação de imagens que foram retiradas de um todo, de um bloco (a meu ver indivisível), para forçar uma leitura de aproximidades (do tipo isto já previa aquilo) e embora tendo presente as concessões à política do amigável (Aby Warburg). O que ali vigorou foi o reino do unívoco.
Gosto de Didi-Huberman, mas a sobreinterpretação, o exagero hermanêutico que usou das imagens de Eisenstein, dizendo coisas como: «que estas três senhoras (apresentando um frame, uma moldura, do filme do O Couraçado de Potemkin) são o equivalente às três Maria à volta do Cristo» e depois a mesma bitola usada no Chaplin pelo Pawel... Okay, é engraçado, mas não é sério! A questão da intenção disto ou daquilo, ou até do acidente e do que está ausente cabe apenas ao autor... Dizia o Barthes qualquer coisa como: autor morto grau zero da escrita; que o autor não tem passado e que nasceria com o leitor. Parece-me que vivemos na inclinação para esse grau zero, e sem escrita.
RAR 21/03/2015












Serguei Eisenstein e Charlie Chaplin

Edgar Neville, Serguei Eisenstein e Charlie Chaplin

20/03/2015

OLHA UM NOVÍSSIMO E(C)LIPSE!...


“Recebemos, no prazo regulamentar que foi definido para esta edição, 2145 poemas enviados por 223 autores provenientes de todo o mundo lusófono, cuja participação aqui agradecemos.
    A leitura destes poemas revelou, com pouquíssimas excepções, um imaginário poético débil mas, mais do que isso, revelador de um cenário preocupante e que já noutras ocasiões tem vindo a ser abordado: a constatação de que muitos daqueles que escrevem poesia não são dela leitores assíduos, como se a sua escrita pudesse depender, única e exclusivamente, de uma qualquer inspiração. Já em 1984 a nota do Júri do Anuário fundador nos informava de que, em muitos daqueles que tinham então participado, estava «ausente um conceito minimamente fecundo de poesia e o campo detectável das suas leituras é muitas das vezes pobre e ultrapassado» concluindo pouco depois que «não que a poesia se ensine; mas a cultura, no sentido mais amplo, é um dos fundamentos da escrita» – impossível não fazer destas palavras também as nossas, agora. Lendo e relendo todos os poemas que nos foram enviados, verificamos que muitos dos concorrentes não lêem poesia, ou não lêem, pelo menos poesia actual. Daqui decorre a repetição exaustiva de fórmulas canónicas há muito ultrapassadas pela evolução fértil da poesia portuguesa. No outro extremo, encontram-se aqueles que de tal maneira pretendem emular alguns nomes maiores que os seus poemas carecem de qualquer originalidade e mais não são do que o eco (menor e não autêntico) de outras vozes e de outras linguagens.”

Almeida Faria
Armando Silva Carvalho
Golgona Anghel
Manuel Alberto Valente
Vasco David'

in “Anuário de Poesia de Autores Não Publicados”, pp. 9-10, Assírio & Alvim, Março de 2015.

13/03/2015

Porta fora da aula de poesia

Porta fora da aula de poesia

Por Hugo Pinto Santos
13/03/2015
Esta é a história de um livro de poesia e do editor que o escreveu. Mas, na verdade, é uma história que envolve três editores, além do livro que fez de um deles, Vitor Silva Tavares, o autor desse livro que é um sobressalto em algum do ramerrame da paisagem editorial portuguesa. Por fim, esta é a história de quem não queria falar do seu livro. Não por isto, nem por aquilo, mas porque não. O editor não queria despir a pele, nem mudar dela. Não teve de o fazer.
 
Vitor Silva Tavares é o lendário editor da &etc, experiência profundamente devedora de uma forma manual de compor livros, letra a letra, vírgula a vírgula.        
Na origem de tudo, está o editor e poeta Ricardo Álvaro. Foi ele quem pediu um ou dois poemas a Vitor Silva Tavares, cuja existência e actividade se misturam com a edição muito para lá da designação, demasiado cómoda, de editor. São dele estas palavras: “Sou editor? O que é isso? Já me irritei com alguém, que me chamou editor. Também compro a minha comida e cozinho, e não me chamam cozinheiro.”
Destinavam-se aqueles poemas ao número dez da revista Piolho (Porto, Setembro de 2012). Com uma generosidade que não escancara a sua nobreza – porque, nesse triste caso, deixaria de o ser –, Vitor Silva Tavares enviou mais poemas do que os dois que deveriam figurar na revista. Assim se chegou, após a publicação inicial, a um conjunto poético que perfazia oito composições, que deixou nas mãos, até hoje gratamente sideradas, de Ricardo Álvaro. Com ele ficou ainda o título que é hoje o mesmo: Púsias. É ele devedor da ironia de Vitor Silva Tavares, e da sua graça (maior e mais total do que o humor). “Tinha-as para aí, mas não sei onde púsias”, terá dito.

Púsias

Autoria: Vitor Silva Tavares
Edições 50Kg
A ideia de uma plaquette começou então a fermentar no espírito destes agentes secretos da agitação poética. Aos dois primeiros poemas de Vitor Silva Tavares vindos a lume no referido número da publicação (Je suis prêt e Era uma vez), juntavam-se, assim, os que este príncipe dos editores legava ao espanto crescente dos que iam rodeando este milagre. Porque em décadas de agitação poética, que foram anos e anos de profícua acção cultural (termo usado, decerto, à revelia de Vitor Silva Tavares), no âmbito tantas vezes carneiro da bibliografia nacional, nunca a pena do autor tinha acedido a pousar em poesia própria. Não, pelo menos, para um público que tivesse a dita de o poder ler em letra de forma. E é por bem pouco que a palavra “pena” constitui uma pobre metáfora. Porque Vitor Silva Tavares escreveu à mão os seus poemas. E estes conheceram a passagem a limpo em mais do que uma etapa, e por mais do que um executante.
Por esta altura, dizíamos, solidificava a noção de converter em plaquette aqueles poemas que cresciam em número e em consistência. É então que Ricardo Álvaro aponta a sua mira (generosa, humana mira) a um outro editor, Rui Azevedo Ribeiro, artífice solitário das Edições 50Kg, e derradeiro editor desta trilogia. E eis que essa qualidade raríssima, a generosidade, se repete. Talvez para nunca mais. Foi a Rui Azevedo Ribeiro que Ricardo Álvaro entregou os poemas de Vitor Silva Tavares, para que os editasse. Essas composições que Vitor Silva Tavares primeiro manuscrevera, Ricardo Álvaro depois transcrevera a computador, e a que Rui Azevedo Ribeiro, por fim, imprimiria a última passagem.
Neste ponto da narrativa, entra Luís Henriques, a cujo labor devemos o prodígio que hoje fornece portada ao livro de Vitor Silva Tavares. Segundo rezam as crónicas, quando o autor viu o desenho que hoje está na capa do seu livro de poemas terá pronunciado: “Mas os poemas não estão à altura desta capa. É preciso mais.” A grandeza destas frases escusa comentários. Tanto mais que elas não se limitam a referir o número dos poemas, que viria, efectivamente, a quase triplicar, mas à exigência que o poeta se faz perante si e perante a arte dos outros. O resultado final contou com 22 poemas. A capa que os antecede foi palco de uma notável gesta. Luís Henriques homenageia e parodia o famoso quadro de Almada que representa Fernando Pessoa. Insere-o, ademais, no quase quadrado que não pode esquecer os livros da &etc. Em vez da pose hierática e, sobretudo, canónica de um Pessoa rectilíneo e vertical, um poeta demasiado humano, que se verga e quase quebra. Que se baixa, não para pedir, mas para apanhar do chão a beata do vício e da sua humanidade ditosamente suja. A palavra a Luís Henriques: “Quando li as primeiras quadras, desatei a rir. Paródia? Antiliteratura? Quadras ao gosto popular? Não sei. Cá para mim, são 50 kg de puro sainete (uma palavra ao gosto do autor), impróprios para chatos e sisudos. Um pouco antes de o Rui me falar na capa, ouvi o Vitor recordar o Dr. Fernando Amado, as cenografias e o convívio com o Almada. Alguma memória dessa conversa terá passado para o desenho. Jogo por jogo, desvio por desvio, desenhei o poeta a apanhar as priscas dos outros. Que mais poderia fazer?”
nuno ferreira santos
Isto são umas coisas que o Vitor às vezes vem para aqui e põe no papel. Nuns papelinhos. E depois ponho p’ra aí nesta gaveta (...). Sempre tive um certo jeito assim para umas coisas. Mas são brincadeiras
Vitor Silva Tavares
Os motivos da peça de Luís Henriques, bem como a coloração que lhe dá corpo, formaram os incalculáveis obstáculos a transpor com tanta dificuldade. As nervuras da madeira, explicou-nos Rui Azevedo Ribeiro, mas sobretudo a cor – um negro de uma qualidade, uma intensidade, a que todos os materiais resistiram. O delicadíssimo equilíbrio entre o excesso e a escassez de tinta. Aspectos que puseram à prova este artesão da prensa e do prelo, que passou pela matemática, pela economia, pela filosofia e interrompeu a sua demanda na estação onde moram os tipos e as caixas deles, onde repousam os prelos e as tintas. E onde a magia, realmente, acontece. Foi um ano de trabalho. De muitas tentativas, mas de não menos erros. Esses erros são medalhas invisíveis que ornam o peito deste cavaleiro sem soberano nem reino. A sua luta, mas também a sua alegria, está nos livros que conseguiu produzir. É ele quem o diz. Mas não seria preciso. Mesmo que andássemos muito distraídos de tudo. Os 300 exemplares de Púsias são o que resta dessa centelha. Os cadernos que os compõem – descendentes das folhas que, dobradas e cortadas, produzem oito páginas, cada um – representam três meses de trabalho, compostos, do meio para fora, a uma razão impensável de cem exemplares por mês. A esse mês há que juntar e relembrar o ano em que maturou a capa. Ainda a cheirar aos materiais e à forja que lhe deram vida, estes livros são mais do que objectos bibliográficos. São o fruto de uma arte perdida, formam o último acto de um processo que funde denodo e entrega, minúcia e uma elegância de que o mundo parece querer desistir.
A partir do desenho de Luís Henriques, Rui Azevedo Ribeiro teve de mandar executar uma zincogravura. Levou o seu projecto a oficinas de trabalho em que o chamado “corte e vinco” se aplica na feitura de caixas de cartão para os mais diversos fins. Fins esses que não se compatibilizavam com as especificidades, cromáticas e outras, da capa que o editor tentava levar a bom termo. Quando, no seu atribulado trilho, Rui Azevedo Ribeiro se cruzou com Maria João Macedo, surgiu, por sugestão desta última, a hipótese da serigrafia. Mas nem com esta, que foi a técnica por fim eleita, as dificuldades se desvaneceram. Obter uma transparência – um fotolito – que permitisse produzir o negro pretendido para a capa passou a ser o fito do editor, secundado por Maria João, que se tornou uma ajuda fundamental, e que por isso merece um agradecimento final, em Púsias, juntamente com Ricardo Álvaro. E que justifica, explicitamente, as palavras que Rui Azevedo Ribeiro nos confiou. Foram várias as empresas e casas da especialidade contactadas, tantas quantas as tentativas goradas que marcaram esta via sinuosa. A cada tentativa, a logística que havia que montar era complexa e múltipla. Todas as novas investidas implicavam lavar o quadro de serigrafia, e sensibilizá-lo, como nos esclarece Rui Azevedo Ribeiro. A Escola Superior de Belas-Artes do Porto foi um dos portos desta jornada tempestuosa. A cedência de espaço e materiais revelou-se fundamental para o continuado laboratório que precedeu Púsias. A descoberta do fotolito que, enfim, permitia o resultado cromático pretendido fez disparar a urgência da impressão das 300 capas de Púsias. No entanto, como não podia deixar de ser, o processo negava-se a uma conclusão imediata. Obtido o negro da capa, o interior desta, num branco excessivamente contrastante, desagradou ao editor, que optou por uma impressão integralmente a negro (em ambas as faces, por conseguinte), que apenas não se manteve na contracapa, de modo a garantir a integralidade do logótipo das Edições 50Kg, o que determinou que a face visível da contracapa surgisse num branco apenas suspenso pelos dizeres identificativos da chancela.
Púsias é um livro de poemas de Vitor Silva Tavares. Será preciso dizer mais. Não é. As palavras que se seguem são uma tentativa de explicar porquê. Se esta poesia aprendeu alguma lição, na sua rebeldia de não querer a pata dos senhores, foi a da liberdade. Que assimilou por parte de quem menos queria ser mestre: os surrealistas. Esta poesia não tira o chapéu. Porque não é cortês. Por essa “grande razão”, não pede licença, nem peca por nenhum ademane. É pura sublevação – “Como se alguém arrancasse a cabeça/ e a escondesse no bolso das calças". A única coisa que esta poesia agradece é o salutar trânsito (intestinal) de uma Boa cagada.
Como tudo aquilo que arde em Rimbaud, a poesia de Vitor Silva Tavares não pode se não ser absolutamente moderna. Contrária à cartilha de professores e avessa ao vinco das tradições. Salvo a nobre tradição da rebeldia. A de Rimbaud e a dos surrealistas. Mas também a dos passeantes da orla mais externa do romantismo. E de um Lautréamont – “a poesia deve ser feita por todos” é uma frase queo autor gosta de recordar –, mas também de Rabelais e dos libertinos de Setecentos. De poucos, poucos mais, tão senhores do seu próprio destino. Essa “liberdade livre”, de que Rimbaud falava, não precisa de se anunciar, porque respira e vive em cada palavra de Púsias. Na medição aparentemente desprevenida de todo o verso.
Vitor Silva Tavares põe o mesmo cuidado na manufactura do seu verso que põe na edição. No fundo é o mesmo desvelo que existe no seu modo de preparar o peixe: “quase à japonesa”, nos seus termos. É fácil imaginá-lo no manejo das facas e dos gumes mais afiados e certeiros. O corte do verso, o modo como ele opta, as direcções que toma, têm, todos eles, essa elegância sólida e honesta que Vitor Silva Tavares imprime no trabalho editorial que é conhecido. Nada pode ser lido como consequência do acaso, nem do descaso: desde a incisão exacta de “imagens raiadas de sonhos” (p. 10) até à peste que possa estourar na cidade. E o verbo “estourar” não podia ser mais importante. Na sua desadequação ao uso corrente (“grassar”, por exemplo), ele é um só dos índices da impecável artesania destes versos.
nuno ferreira santos
Não é contra, mas à margem, que estamos (...). O &etc é um exemplo de longevidade e fidelidade. Querem chamar-lhe contracultura? ‘ Tá bem. Com que linhas me coso? Não me vou preocupar com isso
Vitor Silva Tavares
Poesia satírica, de escárnio de não pouco maldizer (mas nada arqueológica dessas memórias antigas), a safra de Vitor Silva Tavares conhece oportunidades para a musa que nunca está em férias. Como na fingida cançoneta Foi na lagoa de Santo André, em que mecenas e pedintes, ou o “pátrio panteão”, são lidados a tratos de interjeição brejeira mas sem relaxe. "Ai olá ai olé" não é notação calmamente musical, nem concessão lúdica, mas instrumento de crítica. Crítica discreta e sub-reptícia, como quem não quisesse dignar-se gritar. Mas o “pintor d’arte” e o “aracnídeo
com a sua-dele fisgada:/ um subsídio” (p. 22) levam em cheio no flanco, sejam lá eles quem forem. Mas poesia lírica e pungente. Poesia do ser e do estar, que não cede na dose homeopática de simpatia, nem abdica de uma empatia tão humana – “Que importa pois/ a Terceira Mundial/ se nós os dois/ etecétera e tal?” (p. 15). Poema político e poema amoroso pouco mais precisam de dizer para que se saiba que tudo é tensão e contingência.
Não o dissemos a Vitor Silva Tavares, mas a verdade é que seria preciso acreditar em seres de outros planetas, e que eles nos lessem, para perguntar o que é &etc. Portanto, a pergunta ficou directa e só.
O que é &etc?
Tudo isto começou porque eu meti conversa com um senhor de uma tipografia. Entro, vejo um homem grande, pesadão, a tirar cartões-de-visita. Era o Palma. O Palma Cavalão, como lhe chamava o Luiz Pacheco. Ao fundo estava Mestre José Apolinário Ramos. Isto, de eles estarem só a fazer cartões e envelopes, porque o Agostinho Fernandes, da Portugália, se tinha empenhado para comprar máquinas modernas. A composição mecânica… Era um salto tecnológico. E o resto, o que está para trás? Vai tudo para o lixo. Porque este país é assim, é um país de milionários. Quando vem uma coisa nova, zás, o que é antigo, torna-se obsoleto, e deita-se fora. Se eu quiser, agora, fazer um livro todo à mão, não posso. Quer dizer, posso, sim, na Suíça, na América. Isto é, começo agora a poder. Com a Oficina do Cego, o Homem do Saco, as Edições 50 Kg.
Então, comecei fazer os livros da Contra-Margem, e da Subterrâneo Três, com aqueles dois tipógrafos. Quando eles me diziam “Estamos velhos, isto não dá nada. Demora muito tempo, sabe?, e dá muito trabalho”, eu respondia: “Tempo é coisa que não me falta. Eu não tenho pressa. ‘Eu e o rio Tejo’, como dizia o Pessoa.” O Palma era tipógrafo e filho de tipógrafos. Eles tinham lá feito livros do Aquilino e do Raul de Carvalho. Coisas lindas como os amores. E eu fidelizei-me a fazer livros lá. O próprio João Apolinário Ramos não era só tipógrafo. Era poeta. Um poeta singelo, com livros muito puros, ingénuos. Além disso, ao fim do dia, despia a bata, vestia o casaco, e ia ter com a namorada. Mas eu já lhe digo quem era a namorada… Então, ele descia a Calçada de São Francisco e ia a pé até à Rua da Voz do Operário. E lá estava a namorada dele, a Biblioteca da Voz do Operário. Era ele que cuidava dela. Ele era mas é pai, mãe e avó daquela biblioteca.
A minha ideia, com Mestre José Apolinário Ramos e com o Palma, era fazer a chamada composição em cheio. Sabe o que é? São os livros. Porque, naquela altura, eles faziam cartões, envelopes, coisas assim. E foi assim que eu fiz esse livro fabuloso que é A Morte de Camões, do Gomes Leal, com os caracteres todos, ali, tudo feito segundo os cânones. Porque isto já me vem do tempo d' O Intransigente, de Benguela. Lá, em Benguela, é que eu comecei com essas vanguardices. Outras vanguardas. E outros gozos. Por exemplo, eu compunha tudo em caixas baixas, como se diz nesta linguagem para as minúsculas. Mesmo os títulos (arranjava um corpo maior). O que dava àquilo tudo um ar estranho e, claro, muito diferente. A arte de paginar vem de eu trabalhar directamente nas tipografias. Porque eu sempre fui de me envolver nesse trabalho. Ia para as oficinas, para a casa das máquinas, e ajudava a compor. A minha escola foi esta. A basezinha foi esta. Minha e do Paulo da Costa Domingos. A Tipografia Ideal e a Minerva, onde se fazia o Borda D’Água. Depois, a colecção Contra-Margem veio no seguimento de querer fazer reviver, das reminiscências, dos folhetos de cordel. De cordel porque eles eram vendidos assim e dependurados com um cordel. Por isso nós começámos com títulos como Maria não Me Mates, do Camilo Castelo Branco. Para lhe dar aquele perfume… E por isso usámos outros suportes, como o papel manteigueiro. Que era mais barato. Mas também se nobilitava o material, assim. Não é que embrulhar manteiga não seja uma coisa muito nobre, mas embrulhar Camilo Castelo Branco não é o mesmo que embrulhar manteiga. Além disso, é um material com personalidade. Tem pêlo. Pode embeber, tipo mata-borrão. Oferece resistência. Põe à prova.
Não fui pioneiro. Em parte, eu e o &etc prolongámos um pouco a experiência do Luiz Pacheco. Eu entrei para a Ulisseia há mais de 50 anos. E já nessa altura eu tinha esse gosto pelos materiais. O papel alcatrão da colecção Poesia e Ensaio. O mesmo que usámos no Zola [em Como se Morre, de Émile Zola, que Vitor Silva Tavares traduziu, facto que nunca mencionou nesta conversa]. Mas podíamos recuar à revista Contemporânea, do José Pacheco. Isto porque o Orpheu não tem relevância gráfica. Uma das capas é do Pacheco, mas… Agora, quando o José Pacheco e o Agostinho Fernandes fundam a Contemporânea, tudo aquilo é um prodígio e uma beleza gráfica. Tudo isso me foi influenciando. Isso e o Almada, o Amadeu, o Jorge Barradas. O Abel Manta Pai e, depois, o filho.
Qual é a característica mais importante da &etc?
Aventuras destas – com gentes dos bonecos, das escritas – são cometas. A característica principal do &etc é ter 42 anos e continuar na mesma. Não houve alterações na filosofia de estar. Por exemplo, no magazine &etc, nunca houve uma só reunião de redacção. Não era preciso. Foi através do humor que esta gente pôde sobreviver. Havia companheirismo. O &etc é um espaço de liberdade por excelência. E há hoje uma quantidade de editores que vieram daqui. Podemos dizer que são os filhotes do &etc. A Contexto, a Fenda, até a própria Averno. Claro que tudo isso nos podia ter transformado assim numa espécie de mausoléu. A distância em relação à indústria e comércio da edição é que impediram isso. Não é contra, mas à margem, que estamos E é essa sucessão de malta nova que é a injecção de oxigénio. O &etc é um exemplo de longevidade e fidelidade. Querem chamar-lhe contracultura? ’Tá bem. Com que linhas me coso? Não sei. Não sou eu que me vou preocupar com isso.
Estes livros, que não são quadrados…
Os livros do &etc não são quadrados. São rectângulos com um quadrado lá dentro. Porque esta história do quadrado – o quadrado é lixado! – vem em parte daquele senhor ali (aponta para uma fotografia de Almada, retirada do Diário de Lisboa). Esta forma canónica que é o quadrado, que está dentro do rectângulo dos livrinhos, é que os identifica. Uma forma destas é limitativa? Não é, não senhor. Disciplina a criação. Porque, assim, independentemente das ideias e noções diferentes que cada um tem, todos se têm de circunscrever àquele cânone. Isto é como o soneto. Há tetraliões de sonetos. E mesmo quando não estão lá as duas quadras e os dois tercetos, têm de lá estar, ora deixa ver, os 14 versos, não é? É um cânone que implica disciplina, mas que também apela à criatividade. Uma vez fui ao atelier do Almada – o de Lisboa, porque ele tinha um em Bicesse –, e ele estava com os estudos sobre Nuno Gonçalves. Cada figura estava resumida ao seu espectro geométrico. “Sabes como é que eu cheguei aqui?”, perguntou-me ele. “Eu não, mestre”, respondo. “Cheguei aqui sem cálculo!”, disse-me ele, com ar muito espanhol. E foi assim que eu fiz, depois cheguei à conclusão: “Eh, ele tinha mesmo razão”. Chega-se lá sem cálculo. Primeiro fiz, depois medi. Isto lembra-me a história do Picasso e do Braque, cada um no seu lado do Sena, e rivais, digamos assim. Com amigos comuns, estavam sempre a saber das coisas um do outro. Até que o Picasso se sai com esta: “Eu não procuro, encontro.” É, de facto, uma frase… Parece que tem duende, como o Lorca. Mas o Braque teve esta: “Eu encontro, depois procuro.” Ou seja, arranjo uma arquitectura onde encaixo a invenção.
E agora?
Quarenta e dois anos já cá cantam. Continuidade, não há. Aqui a chafarica, eu chamo a isto chafarica, é uma acção poética. Tudo isto são linhas de força. Tudo isto sem capital. E como se chegou até aqui sem dinheiro? Aventuras semelhantes, como a do Pauvert [Jean-Jacques Pauvert, o editor desaparecido em Setembro passado], já foram à vida. Entre nós, é caso único, esta duração na fidelidade ao que aqui nos trouxe. Tudo isto passou por ligações muito fortes. O Manuel João Gomes, por exemplo.
Qual é o mais recente &etc?
É este (À Barbárie Seguem-se os Estendais, de Miguel Cardoso). Este livro vem em linha de continuidade com Os Engenhos Necessários (&etc, 2014) dele. Mas também com uma coisa que eu fui fazer ao Porto, há 30 anos, O Retratado, da Fiama [Hasse Pais Brandão]. O mesmo papel vegetal. Aqui, no À Barbárie, também a paginação acompanha o espírito do livro. Está a ver isto (aponta uma página, encontrada com mão conhecedora). Agora, acho que vamos regressar ao papel craft. Vamos regressar ao papel craft.
Podemos falar de Púsias?
Isto são umas coisas que o Vitor às vezes vem para aqui e põe no papel. Nuns papelinhos. E depois ponho p'ra aí nesta gaveta. Tenho esta gaveta cheia de coisas. Isto são umas quadrinhas. Eu sempre tive um certo jeito assim para umas coisas. Mas são umas brincadeiras. No entanto, tudo isto se inscreve numa estrutura que é literária, como é óbvio. Mas são umas brincadeiras. A intenção inicial não era nada disto. O ideal teria sido fazer só uns exemplares e distribuir – para usar assim uma frase… – pelas primas. Por amigos. Mas uma vez que o editor pôs os livros em alguns postos de venda, em algumas livrarias… Que eu não sei, não ando por aí a ver. A coisa assim é diferente. Isto passa fazer parte de um circuito que é livreiro, editorial. Mas a intenção não era nada disto. Ao princípio, eu mandei dois poemas para o Ricardo Álvaro, para a Piolho, e os outros ficaram por aí. Depois surgiu a ideia de fazer uma plaquette, não ia ser mais do que isso. E depois apareceu o Luís Henriques com aquela capa… Aí eu disse: "Eh, pá. Os poemas não estão à altura desta capa. Tem de se fazer de outra maneira." Está a ver, eu não podia apresentar, para uma capa destas, uma caquinha. Teve de se pré-formar para aquela capa. Aquela capa.
É claro que estas… coisas [os poemas de Púsias] estão carregadas de referentes, de informações que são literárias, ou culturais, se quisermos. Embora com a palavra “cultura” eu fique com pele de galinha… Porque a cultura pode levar para outras coisas, que, enfim, já não têm muito a ver com a escrita e a literatura. Quando eu digo, desde logo, “Estava eu só realisto/ menor a espairecer”, percebe-se bem aonde é que eu quero chegar com isto, não é? Mas é claro que há mais. E que se pode relacionar com esta capa do Luís Henriques, que é uma coisa espantosa. Está aqui o Pessoa, é claro, aquela coisa toda: “Finjo que sou mas não sou/ Eu nem sei o que é ser./ Pra’ qui estou./ Até ver.” Mas também o Sá-Carneiro. E até um poema, que por acaso até podia ter estado aqui. Deve andar para aí: “Eu não sou eu nem sou o outro,/ Sou qualquer coisa de intermédio:/ Pilar da ponte de Tejo…” [uma paródia a 7, de Mário de Sá-Carneiro].
Depois há o trabalho do Rui [Azevedo Ribeiro]. Porque isto é um trabalho. Está claro que é uma arte. Mas há um trabalho. Tudo isto é feito à mão, à força de braços. Você imagina, alguém imagina, o que é estar a compor isto, desta forma, letrinha a letrinha? Olhe para aqui [aponta para o índice]. Já viu o que é meter aqui, nos ferrinhos, uma vírgula, uma vírgula? Já viu isto, com os espacinhos, assim? Porque isto é um trabalho de artista. É preciso uma paciência… Olhe, é preciso um curso superior de Buda. Porque temos de ver que uma coisa é arte gráfica, e outra é indústria gráfica. Está a perceber a diferença? É que há alterações significativas, na semântica, repare. Isto é artesania. Mas é, sobretudo, uma outra forma de ver a vida. É o desenho das letras, são os ferros e as vinhetas. Aqui, está-se com as mãos na arte.