21/12/2015
16/12/2015
...
Kafkaniano é estar
quase em 2016 e não ter uma tradução do “Locus Solus” em
português de Portugal!...
14/12/2015
Pormenores de Fósforos...
13/12/2015
12/12/2015
10/12/2015
07/12/2015
06/12/2015
...
“O
mais curioso é que talvez por não terem mulheres ou por andarem cheios
de medo dos professores, se vingavam constantemente uns nos outros,
rasgando capas à tesourada, rapando o cabelo aos mais fracos, fazendo
trinta por uma linha. Nessas ocasiões soltavam gritos de guerra:
«EFE-ERRE-A... FRÁ!»
«EFE-ERRE-E... FRÉ!»
«EFE-ERRE-I... FRI!»
procurando assim decorar o abecedário.
Longe, nos quintais, os que não andavam de tesoura em punho cantavam para chamar mulher. E, Jesus, era de arrepiar. Ouvia-se a guitarra: gemia tremidos, miudinha, ouvia-se a voz: tinha trinados de ave capada, toda mel e lua cheia. Estava-se, escusado será dizer,
NA CIDADE DOS DOUTORES”
«EFE-ERRE-E... FRÉ!»
«EFE-ERRE-I... FRI!»
procurando assim decorar o abecedário.
Longe, nos quintais, os que não andavam de tesoura em punho cantavam para chamar mulher. E, Jesus, era de arrepiar. Ouvia-se a guitarra: gemia tremidos, miudinha, ouvia-se a voz: tinha trinados de ave capada, toda mel e lua cheia. Estava-se, escusado será dizer,
NA CIDADE DOS DOUTORES”
José Cardoso Pires, “Dinossauro Excelentíssimo”, pág. 22, Liv. Bertrand, 1973.
"LEPRA"...
A poesia tão igual a uma lepra!
. . . . . . . . . .
E os poetas na leprosaria
vão vivendo
uns com os outros,
inspeccionando as chagas
uns dos outros.
Jorge de Sena, “Trinta Anos de Poesia”, Editorial Inova, pág. 26, Porto, Dezembro de 1972.
. . . . . . . . . .
E os poetas na leprosaria
vão vivendo
uns com os outros,
inspeccionando as chagas
uns dos outros.
Jorge de Sena, “Trinta Anos de Poesia”, Editorial Inova, pág. 26, Porto, Dezembro de 1972.
04/12/2015
...
“As
mil-maravilhas duma viagem ao reino do Mexilhão em comboio-fantasma!
Monstros,
almas penadas, múmias pré-históricas e outras teias de aranha de
primeiríssima fancaria (paridas pelo Grande Sono da Razão)!
Cadáveres
esquisitos! Videntes à tarefa! Fuças medonhas! Broncossáurios!
Caixöezinhos
de surpresas!
Sustos
pele-de-galinha e cabelos-em-pé!
Organizadas
manifestaçöes espontâneas! Pedintes Voadores (sem rede)!
Discursos
em Gótico Ornamentado! Medalhas Comemorativas!
Marchas
típicas, procissöes e outras cívicas manifestaçöes de notáveis
e mexilhöes!
(trajo
de fantasia)
RIR! RIR! RIR!
(fornecem-se
dentaduras postiças)
INACREDITÁVEL
Uma
câmara de torturar palavras. Um computador maluco!
Uma ilha que se transforma em duas casa! Uma camioneta do feitio de
um burro (eminentemente bíblico)! Um mostrengo que está no fim do
mundo e que morre e ressuscita só para morrer de vez em estátua!
LEILÄO
DE ANTIGUIDADES!
(trajo
de cerimónia)
KOLOSSAL!
ESTRITAMENTE PRIVADO!
Romagem
à cartilha do Superdoutor (ou Doutor-entre-os-Doutores, ou
Doutor-por-todos-os-lados), o Excelentíssimo Imperador Dinossauro
Primeiro, o Bicho-Que-Devora-Palavras!
Excursão
à Torre das Sete Chaves, à estátua de bronze, à vírgula caseira,
à sala das torturas linguísticas, à amnésia fatal tudo lugares
RIGOROSAMENTE HISTÓRICOS!
(trajo
de luto)
FIM
DE FESTA! DANÇAS NO ARAME! COMES-E-BEBES (PELA MEDIDA GRANDE)!
DISCURSOS AO DESAFIO! GRANDES MANOBRAS! LEMBRANÇAS REGIONAIS PARA OS
HOMENS DE AMANHÄ E
MASCARADAS DE MEXILHÖES PARA OS CADÁVERES-ADIADOS DE HOJE!
(Todos
os dias, novas viagens do comboio-fantasma)
Visita guiada à Fábrica dos Doutores, primeira
indústria do Reino!
Grandiosos Ventos Históricos! Turismo ao Pó da
Sonolência e ao Tanto-Faz-Como-Fez!
Folheto especial para se entender a língua da
Comarca, o código democraticamente secreto de sinais convencionais!
(Para
ler nas entrelinhas)”
VITOR SILVA TAVARES
(nas
Badanas de “Dinossauro Excelentíssimo” de José Cardoso Pires,
5.ª ed., Livraria Bertrand, 1973.)
03/12/2015
"Manifesto Pânico à População das Cidades"...
Não me façam partilhar da vossa fraternidade.
Cheguem para lá
o vosso amor...
temei antes pela
vossa pele
Quietos
não tremam não
gemam não suem
Não salivem Não
respirem
Silêncio
Haveis alguma vez
sentido o verdadeiro Terror?
E quando
crianças? No silêncio dos vossos leitos de infantes inocentes e
tenros, alguma vez, audaciosamente, vos perguntastes do Tempo e da
Morte?
Calem-se
Não se atrevam
não tornem a
insinuar a vossa admiração, o vosso orgulho em me conhecer.
Quem sois vós?
Não vos conheço!
Pudesse, embora, a cada uma das vossas formas dar um nome. Poderia
até classificar-vos, ordenar-vos, organizar-vos por categorias,
dar-vos uma posição, uma relação com o Universo.
Quereriam talvez
que vos prestasse esse serviço: seria mais uma vez, um conforto, um
descanso, um abandono, talvez até uma Paixão por mim.
Ó seres quase
erectos, de sexos equívocos, de todos os sexos (anjos?), de faces
amolecidas pela ausência de verdadeiros vícios ou virtudes, que, às
vezes, por perigosos instantes, vos iluminais para adquirir feiçöes
e corpos quase humanos, livrai-me da vossa companhia.
Protegei a vossa
Inocência, a vossa impotência em verdadeiramente vos exaltardes,
livrai-vos principalmente de conhecer o exercício obcessivo das
actividades infames: o mal, a inteligência, a premeditação de
crimes.
A vossa alegria
quotidiana e pública, enjoa-me e repetidamente me faz vomitar.
Há milénios que
urdo projectos silenciosos e obscuros: o homicídio, um qualquer
homicídio redimir-me-ia.
Em breve
precisarei de uma arma.
João
Damasceno
in Pravda
3, ed. Fenda Ediçöes, Outubro de 1985.
![]() |
| Capa: Zepe |
"Ode ao gato"...
Os animais foram
imperfeitos,
compridos de rabo, tristes
de cabeça.
Pouco a pouco se foram
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, voo.
O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.
O homem quer ser peixe e pássaro,
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato
do bigode ao rabo,
do pressentimento ao rato vivo,
da noite até seus olhos de ouro.
Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma só coisa
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
firme e sutil é como
a linha da proa de um navio.
Seus olhos amarelos
deixaram uma só
ranhura
para jogar as moedas da noite.
Oh pequeno
imperador sem orbe,
conquistador sem pátria,
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor
na intempérie
reclamas
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no solo,
cheirando,
desconfiando
de todo o terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato.
Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
profundíssimo gato,
polícia secreta
dos quartos,
insígnia
de um
desaparecido veludo,
seguramente não há
enigma
na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti e pertences
ao habitante menos misterioso,
talvez todos o acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários, tios
de gatos, companheiros,
colegas,
discípulos ou amigos
do seu gato.
Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço ao gato.
Tudo sei, a vida e seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica,
o gineceu com seus extravios,
o por e o menos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casaca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
o seu olho tem números de puro.
Pablo Neruda
retirado daqui
Subscrever:
Comentários (Atom)































































