07/06/2016

Dourador...

O "Mandarim" de Eça de Queiroz com dourados sobre carneira e embutidos em pele. Dourados e embutidos de Mestre José Vieira e RAR. Porto, Junho de 2016.

06/06/2016

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“Porque os versos não são, como as gentes pensam, sentimentos (esses têm-se cedo bastante), – são experiências. Por amor de um verso têm que se ver muitas cidades, homens e coisas, têm que se conhecer os animais, tem que se sentir como as aves voam e que se saber o gesto com que as flores se abrem pela manhã. É preciso poder tornar a pensar em caminhos em regiões desconhecidas, em encontros inesperados e despedidas que se viram vir de longe, – em dias de infância ainda não esclarecidos, nos pais que tivémos que magoar quando nos traziam uma alegria e nós a não compreendemos (era uma alegria para outro –), em doenças de infância que começam de maneira tão estranha com tantas transformações profundas e graves, em dias passados em quartos calmos e recolhidos e em manhãs à beira-mar, no próprio mar, em mares, em noites de viagem que passaram sussurando alto e voaram com todos os astros, – e ainda não é bastante poder pensar em tudo isto. É preciso ter recordações de muitas noites de amor, das quais nenhuma foi igual a outra, de gritos de mulheres no parto e de parturientes leves, brancas e adormecidas que se fecham. Mas também é preciso ter estado ao pé dos moribundos, ter ficado sentado ao pé de mortos no quarto com a janela aberta e os ruídos que vinham por acessos. E também não é ainda bastante ter recordações. É preciso saber esquecê-las quando são muitas, e é preciso ter a grande paciência de esperar que elas regressem. Pois que as recordações mesmas ainda não são o que é preciso. Só quando já não têm nome e já se não distinguem de nós mesmos, só então é que pode acontecer que, numa hora muito rara, do meio delas se erga a primeira palavra de um verso e saia delas.”

Rainer Maria Rilke, “Os Cadernos de Malte Laurids Brigge”, pp.19-20, Ed. Instituto Alemão da Universidade de Coimbra, 1954. Trad. Paulo Quintela.

Encadernaçäo...










04/06/2016

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“ESTE excelente hotel é muito antigo; já nos tempos do rei Clovis se morria lá em algumas camas. Agora morre-se em 559 camas. Em série, naturalmente. Com tão enorme produção, é claro que a morte individual não é tão bem acabada, mas isso também não interessa. O que conta é o número. Quem é que hoje dá ainda importância a uma morte bem executada? Ninguém. Até os ricos, que se podiam dar ao luxo de morrerem com todos os matadores, começam a tornar-se desleixados e indiferentes; o desejo de ter uma morte pessoal está-se a tornar cada vez mais raro. Mais algum tempo ainda, e tornar-se-á tão rara como uma vida pessoal. Meu Deus, aqui há de tudo! Chega-se, encontra-se uma vida prontinha, é só vesti-la. Quer-se partir ou é-se forçado a fazê-lo: ora, nada de esforços!: Voilà votre mort, monsieur. Morre-se como calha; morre-se a morte que pertence à doença que se tem (pois desde que se conhecem todas as doenças sabe-se também que os diferentes remates letais pertencem às doenças e não aos homens; e o doente já não tem, por assim dizer, nada que fazer).
Nos sanatórios, onde se gosta tanto de morrer e com tanta gratidão por médicos e enfermeiras, morre-se uma das mortes empregadas no estabelecimento; isso é de bom tom. Mas quando se morre em casa, é natural escolher aquela morte cortês da boa sociedade, com a qual começa já por assim dizer o enterro de primeira classe e toda uma série das suas belíssimas exéquias. E então os pobres ficam parados diante de uma tal casa e fartam-se de ver. A morte deles é naturalmente banal, sem cerimónias. Dão-se por felizes quando encontram uma que sirva mais ou menos. Pode ficar larga: sempre se cresce um poucochinho. Só quando ela não aperta bem sobre o peito ou esgana um bocado, então é que é mais custoso.”

Rainer Maria Rilke, “Os Cadernos de Malte Laurids Brigge”, pp.8-9, Ed. Instituto Alemão da Universidade de Coimbra, 1954. Trad. Paulo Quintela.

Ex...