11/01/2011

Alexandre Grande


Alexandre Pinheiro Torres (1923-1999)

10

A VIDA: ÚLTIMAS TEIMOSIAS

À carne são permitidos todos os desastres.

Esta oliveira segura ainda

os próprios intestinos com as mão. Nada

veio de súbito preveni-la do fim.

Mas não há noites totais. Na mais escura

o peixe do fundo do rio vem até à superfície

fazer sinais com o seu semáforo. Penso

no sorriso da deusa ausente acaso do Olimpo

quando o monje veio procurá-la. Uma deusa

de seios tão firmes que neles se poderia partir

um martelo de bronze. E o Olimpo ensopado pela

[urina

doutros poetas e doutros monjes mesmo assim de

[bexigas cheias.

Tu vês? A vida insiste em excesso para que sobre-

[vivamos:

emprenhar deusas! Uma luz intensamente

brilha. Sim! Brilha! Brilha! É uma oliveira

teimando em dar azeite até ao desastre.


Alexandre Pinheiro Torres in “A Flor Evaporada”, p.45, D. Quixote, Lx, 1984.


13

OS NÁUFRAGOS

Os visitantes deixaram-se ficar até que o

soalho se tornou visível através

do tapete. E o que é mais: já não tinham

nada para dizer. As cabeças

tinham regressado a casa e as suas

línguas eram agora os polegares dos próprios

pés. Falavam para baixo mordendo a

carpete mordiam-na e ruminavam-na.


Alexandre Pinheiro Torres in “A Flor Evaporada”, p.51, D. Quixote, Lx, 1984.


14

O MORTO: A FLOR DE SI

A única coisa certa sobre o morto

é que já foi senhorio de carne:

agora é perdê-la flor que se

evapora e sorrir até aos ossos.


Amarante, tarde e noite de 10 de Julho de 1983


Alexandre Pinheiro Torres in “A Flor Evaporada”, p.53, D. Quixote, Lx, 1984.


Bibliografia:

§ Científico-Cosmogónico-metafísico de Perseguição,1942 (ensaio)

§ Novo Génesis,1950 (poesia)

§ Quarteto para Instrumentos de Dor, 1950 (poesia)

§ A Voz Recuperada, 1953 (poesia)

§ Programa para o Concreto, 1966 (ensaio)

§ O Mundo em Equação, 1967 (ficção)

§ A Ilha do Desterro, 1968 (poesia)

§ A Terra de Meu Pai, 1972 (poesia)

§ Vida e Obra de José Gomes Ferreira, 1975 (ensaio)

§ O Neo-realismo Literário Português, 1977 (ensaio)

§ A Nau de Quixibá, 1977 (romance)

§ Os Romances de Alves Redol, 1979 (ensaio)

§ O Ressentimento de um Ocidental, 1981 (poesia)

§ A Flor Evaporada, 1984 (poesia)

§ Antologia da poesia brasileira do Padre Anchieta a João Cabral de Melo Neto, 1984 (antologia)

§ Contos, 1985 (romance)

§ Tubarões e Peixe Miúdo, 1986 (ficção)

§ Espingardas e Música Clássica, 1987 (ficção)

§ Antologia da Poesia Trovadoresca Galego-Portuguesa, 1987 (antologia)

§ Ensaios Escolhidos I, 1989 (ensaio)

§ Ensaios Escolhidos II, 1990 (ensaio)

§ O Adeus às Virgens, 1992 (romance)

§ Sou Toda Sua, Meu Guapo Cavaleiro, 1994 (ficção)

§ A Quarta Invasão Francesa, 1995 (romance)

§ Trocar de Século, 1995 (poesia)

§ A Ilha do Desterro, 1996 (poesia)

§ Vai Alta a Noite, 1997 (romance)

§ O Meu Anjo Catarina, 1998 (romance)

§ Amor, Só Amor, Tudo Amor, 1999 (romance)

§ A Paleta de Cesário Verde, 2003 (ensaio)



27/12/2010

Revista Piolho 003

O terceiro número da revista Piolho tem o subtítulo de "a eufomania do cálculo poético" uma publicação das Edições Mortas e Black Sun Editores.

terceiro número dezembro 2010

Coordenado por Sílvia C. Silva, Meireles de Pinho (capa e arranjo gráfico),Fernando Guerreiro e A. Dasilva O.

Com as participações de

Ana Almeida Santos, A. Pedro Ribeiro, Rui Caeiro, Rui Tinoco, Rui Azevedo Ribeiro, Jorge Humberto Pereira, Miguel Sá Marques, Pedro Tiago,José Carlos Soares, Rui Manuel Amaral, manuel a. domingos, Jorge Fallorca, Efe de Lagos,Pedro Águas, Ricardo Álvaro,Raul Simões Pinto, Mário Augusto, Manuel Filipe e Hart Crane

16/12/2010

Guerra em Paz


A Barba


A barba é o meu gato. Afago-a

nesse jeito de quem passa os dedos

pelo dorso de um bichano. Eu sei

que estou a tocar num tigre: a barba

encrespa-se, revolve-se mesmo.

Ondas, campos de milho, searas,

também conhecem afago igual.

Mas este gato rebelde, a minha barba

apenas, é agora tudo a que me prendo.

Mestres já me dizem do excesso

de assim me virar para dentro.

Não! É para fora! Mora a barba

noutras eras, noutro espaço. É ela

que me afaga a mim: a última ternura.

Eduardo Guerra Carneiro in Profissão de Fé, p.28, Quetzal Editores, Lx, 1990

08/12/2010

A «Flânerie» no Ocidente…

O SENTIMENTO D’UM OCCIDENTAL

A Guerra Junqueiro

I

AVE MARIA


Nas nossas ruas, ao anoitecer,

Ha tal soturnidade, ha tal melancholia,

Que as sombras, o bulicio, o Tejo, a maresia

Despertam-me um desejo absurdo de soffrer.


O ceu parece baixo e de neblina,

O gaz extravasado enjôa-me, perturba;

E os edificios, com as chaminés, e a turba

Toldam-se d’uma côr monótona e londrina.


Batem os carros d’aluguer, ao fundo,

Levando á via ferrea os que se vão. Felizes!

Occorem-me em revista exposições, paizes:

Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!


Semelham-se a gaiolas, com viveiros,

As edificações sómente emmadeiradas:

Como morcegos, ao cair das badaladas,

Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.


Voltam os calafates, aos magotes,

De jaquetão ao hombro, enfarruscados, seccos;

Embrenho-me, a scismar, por boqueirões, por beccos,

Ou érro pelos caes a que se atracam botes.


E evoco, então, as chronicas navaes:

Mouros, baixeis, heroes, tudo resuscitado!

Lucta Camões no Sul, salvando um livro a nado!

Singram soberbas naus que eu não verei jámais!


E o fim da tarde inspira-me; e incommoda!

De um couraçado inglez vogam os escaleres;

E em terra n’um tinir de louças e talheres

Flammejam. Ao jantar, alguns hoteis da moda.


N’um trem de praça arengam dois dentistas;

Um tropego arlequim braceja n’umas andas;

Os cherubins do lar fluctuam nas varandas;

Ás portas, em cabello, enfadam-se os logistas!


Vasam-se os arsenaes e as officinas;

Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;

E n’um cardume negro, herculeas, galhofeiras,

Correndo com firmeza, assomam as varinas.


Vem sacudindo as ancas opulentas!

Seus troncos varonis recordam-me pilastras;

E algumas, á cabeça, embalam nas canastras

Os filhos que depois naufragam nas tormentas.


Descalças! Nas descargas de carvão,

Desde manhã á noite, a bórdo das fragatas;

E apinham-se n’um bairro aonde miam gatas,

E o peixe pôdre géra os focos de infecção!


…Continua!

Cesário Verde


Cesário foge pelos herbanários


Cesário andava na cidade com plantas

silvestres metidas na cabeça

Irrompiam-lhe nas calçadas no repuxo das fontes

no grito das varinas no trote das patrulhas


Ninguém sabe contudo que em fidelíssimo segredo

deixou outro livro do qual Silva Pinto nada soube

Nem o Caeiro da planta é uma planta é uma planta

que se apanhasse fechava-o à chave na arca


para girândolas futuras dos casmurros das Universidades

Mas nada de suspense O livro é apenas um herbário

todo rechunchudo de coisas trivialíssimas

como a receita para lavar manchas de amora nos bigodes


ou de como arrancar sem dor cucos de tojo que um dia

lhe pegaram uma coceira dos infernos Depois há folhas

e folhas amarelecidas de chuvas-de-oiro mongaricas

urzes torgas estevas-dos-saloios sarças


alecrins alfenas lentiscos e loendros

Um nunca acabar Ao lado de um esparto

a nota: tenho o pulso como um cajado de pastor

e meus dedos amadurecidos como um céu de Verão


Assim se sentimentaliza um ocidental

Confiar como? Se quando menos se precata

salta ou voa sobre a Dor humana

e as marés de fel como um sinistro mar?


Folhear o herbário é vê-lo como abria as portas

A toda a moscaria É vê-lo esquecer-se da Cólera

E da Febre Ver com deixava que a terra lhe marinhasse

Como um vinho de fogo pelo exangue corpo acima


E ver isso é bom Admirar-lhe os ouvidos

encostados ao sol à escuta que os estames

e pistilos se pusessem a ferver O pólen

a descer o corrimão da luz até cobrir de um certo oiro


a sombra pisada da sua melancolia O vinho

a espirrar numa chuva muda de palavras

Coisa estranha: o cântico de um homem

expresso em folhas secas caules flores


breves notas num herbário como: é meu irmão

o entrecasco de sobro bom para a taninagem

As maçãs de espelho não andam bem empapeladas

Fica-lhes mal o verde e a serradura


Alexandre Pinheiro Torres in O Ressentimento dum Ocidental, Moraes editores, col. Círculo de Poesia, 1981

28/11/2010

Viagens

"Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de Inverno, em Turim, que é quase tão frio como Sampetersburgo - entende-se. Mas com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui estivesse, ao menos ía até o quintal."

Almeida Garrett in "Viagens na Minha Terra".

21/11/2010

De Lapidar...


O
meu 1.º amor foi um caramelo
abri-lhe a boca e comi-lhe os dentes
tirei-lhe a pele e chupei-a
dei-lhe palmadinhas
e ele lambeu-me.
Depois amei a caixa de lata
que era azul e vermelha por fora e
dourada por dentro. Via-me nela
como num céu e a luz.
A voz da caixa.

Álvaro Lapa in Balança, Frenesi, 1985.


MÃOS

um mole cedia
macia era aquela pele que agarrava
os pêlos

Madalena no escuro
a melhor
a mais simples

no silêncio na pele agarrava
a minha
a dela
toda

calças
dedos
aplicados
enrolei

a mama toda aberta
os dedos depois
como nuvem

a palma e os dedos
por cima
sem forma

os dedos
um no outro tocando-se
de cima
de mim
redonda

no escuro
na vulva
cedendo

peles escorregando
líquido
largo

sob o dedo encontro
a carne

sentem pelos nós
as unhas
nascentes

minúsculas
chupando o dedo
as nádegas minúsculas

o dedo descaindo
apontado
exterior

Álvaro Lapa in Balança, Frenesi, 1985.





UM DIA

Encimento o tijolo para dentro
ouvindo um pio, no ar cinzento.
Junto ao solo observo ao longe,
o dia em roda.

Álvaro Lapa in Balança, Frenesi, 1985.

BIBLIOGRAFIA INCOMPLETA & sem catálogos:
  • Raso Como o Chão, Editorial Estampa, Agosto de 1977.
  • Porque Morreu Eanes, Editorial Estampa, Abril de 1978.
  • Barulheira, Edições &etc, 1982.
  • Balança, Frenesi, Abril de 1985.
  • Sequências Narrativas Completas, Assírio & Alvim, Setembro de 1994.

04/11/2010

Por que não existe um poema mais tipográfico...

MANUCURE de Mário Sá-Carneiro

Na sensação de estar polindo as minhas unhas,
Súbita sensação inexplicável de ternura,
Tudo me incluo em Mim – piedosamente.
Entanto eis-me sozinho no Café:
De manhã, como sempre, em bocejos amarelos.
De volta, as mesas apenas – ingratas
E duras, esquinadas na sua desgraciosidade
Bocal, quadrangular e livre-pensadora...
Fora: dia de Maio em luz
E sol – dia brutal, provinciano e democrático
Que os meus olhos delicados, refinados, esguios e citadinos
Nem podem tolerar – e apenas forcados
Suportam em náuseas. Toda a minha sensibilidade
Se ofende com este dia que há-de ter cantores
Entre os amigos com quem ando às vezes –
Trigueiros, naturais, de bigodes fartos –
Que escrevem, mas têm partido político
E assistem a congressos republicanos,
Vão às mulheres, gostam de vinho tinto,
De peros ou de sardinhas fritas...
E eu sempre na sensação de polir as minhas unhas
E de as pintar com um verniz parisiense,
Vou-me mais e mais enternecendo
Até chorar por Mim...
Mil cores no Ar, mil vibrações latejantes,
Brumosos planos desviados
Abatendo flechas, listas volúveis, discos flexíveis,
Chegam tenuamente a perfilar-me
Toda a ternura que eu pudera ter vivido,
Toda a grandeza que eu pudera ter sentido,
Todos os cenários que entretanto Fui...
Eis como, pouco a pouco, se me foca
A obsessão débil dum sorriso
Que espelhos vagos reflectiram...
Leve inflexão a sinusar...
Fino arrepio cristalizado...
Inatingível deslocamento...
Veloz faúlha atmosférica...

E tudo, tudo assim me é conduzido no espaço
Por inúmeras intersecções de planos
Múltiplos, livres, resvalantes.

É lá, no grande Espelho de fantasmas
Que ondula e se entregolfa todo o meu passado,
Se desmorona o meu presente,
E o meu futuro é já poeira...

Deponho então as minhas limas,
As minhas tesouras, os meus godets de verniz,
Os polidores da minha sensação –
E solto meus olhos a enlouquecerem de Ar!
Oh! poder exaurir tudo quanto nele se incrusta,
Varar a sua Beleza – sem suporte, enfim! –
Cantar o que ele revolve, e amolda, impregna,
Alastra e expande em vibrações:
Subtilizado, sucessivo – perpétuo ao Infinito!...

Que calotes suspensas entre ogivas de ruínas,
Que triângulos sólidos pelas naves partidos!
Que hélices atrás dum voo vertical!
Que esferas graciosas sucedendo a uma bola de ténis! –
Que loiras oscilações se ri a boca da jogadora...
Que grinaldas vermelhas, que leques, se a dançarina russa,
Meia nua, agita as mãos pintadas da Salomé
Num grande palco a Oiro!
– Que rendas outros bailados!



Ah! mas que inflexões de precipício, estridentes, cegantes,
Que vértices brutais a divergir, a ranger,
Se facas de apache se entrecruzam
Altas madrugadas frias...
E pelas estações e cais de embarque,
Os grandes caixotes acumulados,
As malas, os fardos – pêle-mêle...
Tudo inserto em Ar,
Afeiçoado por ele, separado por ele
Em múltiplos interstícios
Por onde eu sinto a minh'Alma a divagar!...

– Ó beleza futurista das mercadorias!

– Sarapilheira dos fardos,
Como eu quisera togar-me de Ti!
– Madeira dos caixotes,
Como eu ansiara cravar os dentes em Ti!
E os pregos, as cordas, os aros... –
Mas, acima de tudo,
Como bailam faiscantes,
A meus olhos audazes de beleza,
As inscrições de todos esses fardos –
Negras, vermelhas, azuis ou verdes –
Gritos de actual e Comércio & Indústria
Em trânsito cosmopolita:

FRÁGIL! FRÁGIL!

843 – AG LISBON


492 – WR MADRID


Ávido, em sucessão da nova Beleza atmosférica,
O meu olhar coleia sempre em frenesis de absorvê-la
À minha volta. E a que mágicas, e m verdade, tudo baldeado
Pelo grande fluido insidioso,
Se volve, de grotesco – célere,
Imponderável, esbelto, leviano...
– Olha as mesas... Eia! Eia!
Lá vão todas no Ar às cabriolas,

Em séries instantâneas de quadrados
Ali – mas já, mais longe, em losangos desviados...
E entregolfam-se as filas indestrinçavelmente,
E misturam-se às mesas as insinuações berrantes
Das bancadas de veludo vermelho
Que, ladeando-o, correm todo o Café...
E, mais alto, em planos oblíquos,
Simbolismos aéreos de heráldicas ténues
Deslumbra m os xadrezes dos fundos de palhinha
Das cadeiras que, estremunhadas em seu sono horizontal,
Vá lá, se erguem também na sarabanda...

Meus olhos ungidos de Novo,
Sim! – meus olhos futuristas, meus olhos cubistas, meus olhos interseccionistas,
Não param de fremir, de sorver e faiscar
Toda a beleza espectral, transferida, sucedânea,
Toda essa Beleza-sem-Suporte,
Desconjuntada, emersa, variável sempre
E livre – em mutações contínuas,
Em insondáveis divergências...
– Quanto à minha chávena banal de porcelana?

Ah, essa esgota-se em curvas gregas de ânfora,
Ascende num vértice de espiras
Que o seu rebordo frisado a oiro emite...

...Dos longos vidros polidos que deitam sobre a rua,
Agora, chegam teorias de vértices hialinos
A latejar cristalizações nevoadas e difusas.
Como um raio de sol atravessa a vitrine maior,
Bailam no espaço a tingi-lo em fantasias,
Laços, grifos, setas, ases – na poeira multicolor –.

APOTEOSE.
....................................................................

Junto de mim ressoa um timbre:
Laivos sonoros!
Era o que faltava na paisagem...
As ondas acústicas ainda mais a sutilizam:
Lá vão! Lá vão! Lá correm ágeis,
Lá se esgueiram gentis, franzinas corças de Alma...

Pede uma voz um número ao telefone:
Norte - 2, 0, 5, 7...
E no Ar eis que se cravam moldes de algarismos:

ASSUNÇÃO DA BELEZA NUMÉRICA



Mais longe um criado deixa cair uma bandeja...
Não tem fim a maravilha!
Um novo turbilhão de ondas prateadas
Se alarga em ecos circulares, rútilos, farfalhantes
Como água fria a salpicar e a refrescar o ambiente...


-Meus olhos extenuaram de Beleza!


Inefável devaneio penumbroso-
Descem-me as pálpebras vislumbradamente...
.........................................................................


...Começam-me a lembrar anéis de jade
De certas mãos que um dia possuí-
E ei-los, de sortilégio, já enroscando o Ar...
Lembram-me beijos -e sobem
Marchetações a carmim...

Divergem hélices lantejoulares...
Abrem-se cristas, fendem-se gumes...
Pequenos timbres de ouro se enclavinham...
Alçam-se espiras, travam-se cruzetas...
Quebram-se estrelas, soçobram plumas...


Dorido, para roubar meus olhos à riqueza,
Fincadamente os cerro...


Embalde! Não há defesa:
Zurzem-se planos a meus ouvidos, em catadupas,
Durante a escuridão -
Planos, intervalos, quebras, saltos, declives...


- Ó mágica teatral da atmosfera,
- Ó mágica contemporânea - pois só nós,
Os de Hoje, te dobramos e fremimos!
.............................................................


Eia! Eia!
Singra o tropel das vibrações
Como nunca a esgotar-se em ritmos iriados!
Eu próprio sinto-me ir transmitindo pelo ar, aos novelos!
Eia! Eia! Eia!...


(Como tudo é diferente
Irrealizado a gás:
De livres-pensadores, as mesas fluídicas,
Diluídas,
São já como eu católicas, e são como eu monárquicas!...)


......................................................................
......................................................................


Sereno,
Em minha face assenta-se um estrangeiro
Que desdobra o Matin.
Meus olhos, já tranqüilos de espaço,
Ei-los que, ao entrever de longe os caracteres,
Começam a vibrar
Toda a nova sensibilidade tipográfica.


Eh-lá! Grosso normando das manchettes em sensação!
Itálico afilado das crônicas diárias!
Corpo 12 romano, instalado, burguês e confortável!
Góticos, cursivos, rondas, inglesas, capitais!
Tipo miudinho dos pequenos anúncios!
Meu elzevir de curvas pederastas!...
E os ornamentos tipográficos, as vinhetas,
As grossas tarjas negras,
Os puzzles frívolos - e as aspas... os acentos...
Eh-lá! Eh-lá! Eh-lá!



- Abecedários antigos e modernos,
Gregos, góticos,
Eslavos, árabes, latinos -,
Eia-hô! Eia-hô! Eia-hô!...

(Hip! Hip-lá! Nova simpatia onomatopaica,
Recendente da beleza alfabética pura:
Uu-um... kess-kress... vliiim... tlin... blong… flong… flak…
Pâ-am-pam! Pam... pam... pum... pum... Hurrah!)

Mas o estrangeiro vira a página,
Lê os telegramas da Última-Hora,
Tão leve como a folha do jornal,
Num rodopio de letras,
Todo o mundo repousa em suas mãos!

-Hurrah! Por vós, indústria tipográfica!
-Hurrah! Por vós, empresas jornalísticas!




....................................................................................
....................................................................................


Tudo isto, porém, tudo isto, de novo eu refiro ao Ar
Pois toda esta Beleza ondeia lá também:
Números e letras, firmas e cartazes -
Altos-relevos, ornamentação!... -
Palavras em liberdade, sons sem-fio,

Marinetti + Picasso = PARIS < SANTA RITA PIN-
TOR + FERNANDO PESSOA
ALVARO DE CAMPOS
! ! ! !
Antes de me erguer lembra-me ainda,
A maravilha parisiense dos balcões de zinco,
Nos bares... não sei porquê...

-Un vermouth-cassis... Un Pernod à l’eau...
Un amer-citron... une grenadine…

………………………………………………..
………………………………………………..
…………………………………………………

Levanto-me…
-Derrota!
Ao fundo, em mayor excesso, há espelhos que refletem
Tudo quanto oscila pelo Ar:
Mais belo através deles,
A mais sutil destaque...
-Ó sonho desprendido, ó luar errado,
Nunca em meus versos poderei cantar,
Como ansiara, até ao espasmo e ao Oiro,
Essa beleza pura!

Rolo de mim por uma escada abaixo...
Minhas mãos aperreio,
Esqueço-me de todo da idéia de que as pintava...
E os dentes a ranger, os olhos desviados,
Sem chapéu, como um possesso:
Decido-me!
Corro então para a rua aos pinotes e aos gritos:

-Hilá! Hilá! Hilá-hô! Eh! Eh!...

Tum... tum... tum... tum tum tum tum...

VLIIIMIIIIM...


BRÁ-ÔH... BRÁ-ÔH... BRÁ-ÔH!...

FUTSCH! FUTSCH!...

ZING-TANG... ZING-TANG...
TANG... TANG... TANG...


PRÁ Á K K!...

Poemas Dispersos, Lisboa – Maio de 1915

26/10/2010

Uma ποιέω (Poiesis) do poema.



Poema

O primeiro verso é para começar,
O segundo é o penúltimo do fundo.
O terceiro dá terreno para avançar.
O quarto vai rimar com o segundo.

O quinto prega-nos uma partida.
O sexto abate os custos mais de um terço.
O sétimo é conversa distraída.
O oitavo seriíssimo. Ou o inverso.

O nono conta o mesmo por inteiro.
O décimo é, se calha, desilusão.
O undécimo é só o décimo primeiro.
O duodécimo é de nada a conclusão.

Gerrit Komrij in Contrabando: uma antologia poética, Assírio & Alvim, trad. do neerlandês de Fernando Venâncio, col. «documenta poética /101», Lx., pág.9, 2005.

11/10/2010

"à cata da melhor poesia alternativa". Hugo Xavier

Já está disponível o segundo número da revista Piolho com o subtítulo de "entre a pedra suja e o diamante de sangue" uma publicação das Edições Mortas que neste número partilha a edição com a Black Sun Editores. (Será que esta editora lisboeta está de regresso? Isso seria uma excelente notícia.)

LANÇAMENTO NO SÁBADO DIA 23 DE OUTUBRO CAFÉ PIOLHO ÁS 16H00.

Segundo número Setembro de 2010: Coordenado por Sílvia C. Silva, Meireles de Pinho (Capa e arranjo gráfico), Ricardo Álvaro, Fernando Guerreiro e A. Dasilva O.
Participações de: Mesuline de Matos, Sílvia C. Silva, Renato Filipe Cardoso, manuel a. domingos, Fernando Esteves Pinto, Zarelleci, Rui Costa, Ivar Corceiro, B. Duarte, Ricardo Álvaro, BiXinho, Raul Simões Pinto, Gilberto de Lascariz, Rui Azevedo Ribeiro, Meireles de Pinho (ilustrações), Luís Serra, Miguel Sá Marques, António S. Oliveira, Sérgio Almeida, Humberto Rocha, A. Dasilva O. e Théodore Fraenckel.

NO LANÇAMENTO DO SEGUNDO NÚMERO DA PIOLHO ESTARÁ À VENDA EXEMPLARES DO PRIMEIRO



Primeiro número Maio de 2010:
Coordenado por Sílvia C. Silva, Meireles de Pinho, Ricardo Álvaro e A. Dasilva O.
Participações de: António Barahona, Fernando Guerreiro, M. Parissy, Sílvia C. Silva, Suzana Guimarães, Teresa Câmara Pereira, Humberto Rocha, Pedro Águas, Nuno Brito, Ricardo Gil Soeiro, Raul Simões Pinto, A. Pedro Ribeiro, Miguel Martins, Zarelleci, B. Duarte, João Pereira de Matos, Ricardo Vil, Rui Costa, António S. Oliveira, Ricardo Álvaro, Meireles de Pinho, A. Dasilva O. e Jaroslav Seifert. + info Aqui ou Aqui

PIOLHO é uma revista de poesia
Uma sebenta que circula de mão em mão
Nesse charco que É o POEMA
COM NOVE BURACOS
QUE SANGRAM escárnio e maldizer
nesta época em que os poetas
se crepusculizam
António S. Oliveira

05/10/2010

Escritores Esquecidos 8

Virgílio Martinho (Lx, 1928 - Lx, 1994)

"Em 1941 houve um ciclone e eu conheci o senhorio da nossa casa. Tinha uma das pernas paralisada. Tinha uma voz que lembrava as notas mais esganiçadas da gaita de beiços. Tinha os olhos estranhamente deslocados para o lado das orelhas. Era um homem triste e viúvo. Tudo porque fora soldado da guerra de 1914-1918 e os estilhaços de um obus fizeram carambola no seu corpo, estropiando-o. Houve o ciclone e o vento arrancou algumas telhas do nosso telhado, razão porque o pai ferroviário me mandou a casa dele para lhe comunicar o sucedido e tomar providências. Fui e conheci-o. A seu mandado sentei-me na extremidade da cadeira de verga, ele sentou-se diante de mim ficando com a perna paralisada perpendicular ao corpo, dizendo eu o que tinha a dizer, perguntando ele: quantas? respondendo eu o que o pai me havia ensinado: seis e duas do beirado, foi o ciclone. Ouviu e abanou a cabeça várias vezes de cima para baixo, fixando o olho esquerdo no aparador, o direito na minha pessoa, porque a bem dizer era mais do que vesgo, tinha os olhos repuxados para os lados, como os do sapo, ocorreu-me na altura. Depois falou-me, não de telhas, de si próprio, dizendo-me com aquela sua voz: sabes, a mulher é um arrimo, um consolo; o que me deixou transido porque nunca ouvira dizer semelhante coisa. E via-o ali sentado diante de mim, com a perna doente na horizontal, pingando dos dois olhos, lamuriando que era um pobre senhorio, que perdera tudo no mundo: a perna, o sítio exacto dos olhos, a voz viril, a esposa e agora, em 1941, seis telhas e duas do beirado. Então comecei a pensar que ele não queria arranjar o nosso telhado e falei-lhe da chuva, do vento, do frio que por ali entravam, ao que me respondeu que a solidão é como um prego metido na cabeça, coisa que também nunca ouvira dizer. Foi nessa altura que olhei para tudo e vi que o retrato da esposa estava em todos os lados da saleta, repetindo-se igualzinho dentro de todas as espécies de molduras; que havia uma população de esposas naquela casa. Em cima dos móveis, penduradas nas paredes, postas aos cantos em pequenas mísulas, e todas com o mesmo rosto a três quartos, o mesmo penteado, o mesmo olhar para cima. E não só na saleta, também no quarto, na cozinha, no corredor. Também nele próprio, no anel, no alfinete de gravata, suponho que na carteira, nas gavetas, no sótão, na despensa, sei lá onde mais, enquanto ele não deixava de abanar a cabeça, de chorar, não por estar exactamente a fazê-lo, porque desde que fora ferido pelos estilhaços do obus ficara com aquela voz de gaita e os olhos não lhe retinham as lágrimas, eram uma fonte, uma desgraça na sua vida. Depois levantou-se e apoiando-se nas muletas levou-me ao quintal. Aqui, mostrou-me uma campa como as dos cemitérios, com mármore, retrato e cruz em cima, aprendendo eu no Barreiro que entre coisas vivas podiam haver coisas mortas, e um senhorio que embora não tivesse pago o arranjo do telhado ao pai ferroviário tinha no seu quintal uma sepultura inventada e dentro de casa uma esposa multiplicada em centenas."

Virgílio Martinho in "O Relógio de Cuco", pp-77-79, Editorial Estampa, Lx, 1973.


Bibliografia principal:
  • Festa Pública (1958)
  • Orlando em Tríptico e Aventuras (contos) (1961)
  • O Grande Cidadão (romance) (1963)
  • A Caça
  • O Concerto das Buzinas (romance) (1976)
  • Filopópolus (teatro) (1973)
  • Relógio de Cuco (1973)
  • A Sagrada Família (farsa) (1980)
  • O Herói Chegado da Guerra e outros Textos em Teatro (teatro) (1981)
  • O Menino Novo (contos) (1989)
  • 1383 (1976)
  • Rainhas Cláudias ao Domingo (1982)
  • O Grande Cidadão (1975)
  • A Menina, O Gato e o Robot
  • Fernão, sim ou não?
  • O Gelo na Mesa
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(A Regra do Jogo Edições,  col. «Os Olhos Férteis, Porto, 1974=


Homenagem a Virgílio Martinho:

Carlos Alberto Machado, 5 Cervejas para o Virgílio, &etc, Lisboa, 2009.