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19/04/2013

Fava...




É indiscutível que a história mais sobrecarregada de desastres é a da fava.
            Segundo parece, inicialmente terá prosperado no Afeganistão e nas encostas baixas do Himalaia, de tal modo que no ano 6500 a. C. já se encontrava difundida – talvez pela própria acção da natureza, vento, etc. – nas próprias costas do Mediterrâneo, e a partir daí foi uma invasão completa.
            Nos primeiros tempos de Roma, já era conhecida desde as próprias origens, e, quando não havia cereais, moíam a fava até obter uma farinha com a qual faziam papas, pão, etc., a que deram o nome de lomentum (a farinha de trigo chamava-se pulmentum).
            De qualquer modo, não é de estranhar. Encontraram-se favas nas ruínas de Tróia. Não deixa de ser curioso o caso dos Egípcios: depois de um período inicial de entusiasmo, chegou-se ao extremo fanático de «nem sequer olhar para elas». Nessa altura, destacou-se um grupo de sacerdotes, que Pitágoras conheceu durante as suas viagens; segundo estes sacerdotes, qualquer fava podia abrigar o espírito de um defunto por transmigração.
            Mas havia também outros considerandos: se o sol incidia sobre elas, o seu odor era o mesmo do esperma do homem. Quando germinavam, adquiriam uma forma que imitava o órgão sexual feminino, e muitas outras «preciosidades», qual delas a mais anedótica. Esta propaganda, pelo menos no essencial, foi trazida por Pitágoras na sua bagagem quando regressou do Egipto, para onde viajara inicialmente com uma certa carga de prata e ouro que lhe permitisse pagar uma boa aprendizagem das ciências egípcias (de certeza que aprendera algo mais do que as teorias sobre a fava, embora estejamos convencidos de que lhe foram escamoteadas as doutrinas essenciais).
            E temos então o principal inimigo grego das favas. Não se resumiu apenas à manifestação de um desejo. A doutrina egípcia ia-se espalhando, de tal modo que Empédocles (mais um supersticioso) de Agrigento – um local doentio no que diz respeito a estes temas – se preocupou em divulgar que «fava» significava «testículo». Outro personagem ilustre afectado pela mesma fobia foi Plutarco, que atribuía à sua ingestão sonhos altamente licenciosos, coisa impossível de manter durante muito tempo sem um mínimo de verificação empírica; não deixando assim de seguir a «linha freudiana».
            No entanto, e apesar de tudo isso, a maioria dos Gregos comia favas sem qualquer escrúpulo, e gostavam especialmente da verde, o que fez com que aumentasse as plantações. Por esse motivo, Pitágoras, perseguido em Metaponte, onde escapou de uma morte certa ao encontrar-se perante um campo de favas, coerente com aquilo em que acreditava, optou sem hesitação por deixar que o capturassem (talvez, tenha pensado que podia transmigrar para uma daquelas favas).
            Mas tudo isso não foi um problema apenas dos Gregos. Alguns romanos também tiveram receio das favas pelo pormenor fúnebre, segundo eles, de alguns pontos negros. Já no final do Império Romano, S. Jerónimo voltou à carga e proibiu-as às suas religiosas por razões idênticas às de Plutarco e porque «inquietavam» (sic), faziam titilar «os genitais». Partamos do princípio de que ele estava convencido disso. Outros, para mudar um pouco, afirmavam que as favas poderiam ser uma causa de esterilidade. Qualquer destes aspectos sempre foi motivo de grandes debates. Na época medieval, com outra mentalidade, insistir-se-á em que as favas provocam flatulência. Entretanto, e tanto quanto sabemos, a farinha de favas não teve perseguidores. Na bacia mediterrânica, prosperou igualmente a almorta no estado silvestre, que podia ser moída para se obter farinha. A alfarroba foi outro grande meio de resolver problemas durante as grandes crises. Farinhas deste tipo existiam desde a mais remota Antiguidade, mas o destaque vai para a castanha que, pela sua farinha e por si mesma, obteve uma outra identidade.

César Aguilera, “História da Alimentação Mediterrânea, pp.56-57, Terramar, Lisboa, 2001.