05/10/2015

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Nesta bandeja
de inox
como pêches Melba
te trago meu Senhor
os meus dois peitos
virgens
acabados de amputar
com empatia
pelo atento oncologista
de serviço
com os dois farás duas
cúpulas
a dos Invalides
e a do Sacré-Coeur
e Santa Ágata sobe
aos céus
mas sem os peitos
que ficam em Paris
a arder


Adília Lopes, “A Continuação do Fim do Mundo”, pág. 42, &etc, 1995.




O IMPÉRIO DAS LÃS


Maria Andrade come
os túbaros
com a bruta brusquidão
do patriarcal carneiro
signo seu à nascença
Túlio-Teseu descobre
que o Minotauro
é uma camisola grenat
com duas amarelas
agulhas-farpas de tricot
enterradas
Maria Andrade-Ariadne
deu-lhe o cordão umbilical
que o devolveu
à sala vazia
onde está a camisola
é bom dentro e fora
da mãe
mais fora que dentro
e dentro é óptimo
é Natal em Nárnia
o bode expiatório
ressuscitou morreu e nasceu
Túlio gosta de touradas
à espanhola
à Hemingway
Maria Andrade vai dormir
para o sofá
ao saber disto
lavada em lágrimas
a rezar pelos touros-mártires
à Malcolm Lowry
(malhas que a Benetton tece!)


Adília Lopes, “A Continuação do Fim do Mundo”, pp. 58-9, &etc, 1995.


O que é que eu te pareci
da primeira vez
que me viste
no comboio?
tinha perguntado
Maria Andrade
a Túlio
a vespa de Carroll
e a Hermínia Silva
e eu?
o chinês da Pearl Buck
que estudou
medicina ocidental
mas que casa
com a chinesa tradicional
que vê pela primeira vez
no dia do casamento
a quem desata os pés atados
dentro de uma bacia
com água morna
para não doer tanto
antes de fazerem amor
pela primeira vez
meses depois
do dia do casamento
e o William Hurt
que faz de cirurgião
a dizer à operada
que tem receio
de mostrar a costura
com agrafos
ao marido
que ela parece
uma beldade
saída das páginas da Playboy
com os agrafos e tudo


Adília Lopes, “A Continuação do Fim do Mundo”, pp. 70-1, &etc, 1995.




Maria Andrade vai
à casa de banho
do aeroporto de Kinshasa
para rezar
precisa de agradecer
o encontro fortuito
com Túlio
como nas igrejas
em que entra
pela primeira vez
(é a primeira vez
que entra na casa de banho
do aeroporto de Kinshasa)
pede três graças
que mantém secretas
o Pai bate na testa
o Filho entre as maminhas
o Espírito na maminha esquerda
e o Santo na direita
às vezes o Espírito Santo
fica todo na maminha esquerda
outras vezes o Santo
fica no ar entre as maminhas
Maria Andrade
de joelhos
de mãos postas
reza
mas as maminhas interferem
com os antebraços
Maria Andrade
nunca viu nada escrito
sobre este assunto


Adília Lopes, “A Continuação do Fim do Mundo”, pp. 80-1, &etc, 1995.

«Homenagem ao Quadrado»...






Homenagem ao Quadrado / Perfume Verde
Josef Albers, 1963

 Fibra s/madeira, 120x120 cm
Ludwig Museum, Colónia.

28/09/2015

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SIMPATIA COM BRANCO MAIOR

Quando atiro quatro cubos de gelo
Tilintando para um copo, e acrescento
Três doses de gin, limão em rodela,
Mais um quarto de tónica, que verto
Espumando até que afogue, jorro a jorro,
Tudo o resto, até às bordas do copo,
Ergo a bebida no silêncio de um voto:
Ele dedicou a sua vida aos outros.

Enquanto outros usavam como roupas
Os seres humanos no seu dia-a-dia
Eu empenhei-me em mostrar, a quem me cria
Capaz de o fazer, as montras perdidas;
Não resultou, com eles ou comigo,
Mas todos assim ficaram mais próximos
(Ou tal se pensou) de todo o imbróglio
Do que se o perdêssemos cada um por si.

Boa pessoa, um fulano às direitas,
Sempre na linha, um tipo impecável,
Um ás, o máximo, um gajo porreiro,
Não lhe chegavam nem aos calcanhares;
Que chata teria sido esta vida
Se ele não tivesse andado por cá;
Um brinde, que alma mais branca não há! –

Não sendo embora o branco a minha cor preferida.

Philip Larkin, “Janelas Altas”, pág. 31, Edições Cotovia, Lisboa, 2004.
Tradução de Rui Carvalho Homem.

08/09/2015

Livraria Utopia...

 Livros das Edições 50 Kg (alguns já esgotados na editora) podem ser encontrados na Feira do Livro do Porto nos expositores  n.º 49 e 50 da Livraria Utopia

02/09/2015

Feira do Livro do Porto...

As Edições 50kg vão estar presentes na Feira do Livro do Porto com a Livraria Utopia nos pavilhões n.º 48, 49 e 50. Até 20 de Setembro.

A Livraria Utopia vai representar as edições:
&etc - Edições Culturais do Subterrâneo.
Letra Livre - Edições da Livraria Letra Livre.
Edições Averno.
Edições Alambique.
Edições 50Kg.
Edições Antipáticas.
Edições Sismógrafo - Salto no Vazio Associação Cultural.
E ainda uma escolha das obras da livraria, com destaque para as temáticas de Política, História e Poesia.

29/08/2015

Stephen Fry and the Gutenberg Press...


Ó filhote, oube a puesia das ruas do Puerto!...


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Pitigrilli (Dino Segre)

“(...) o leitor desprovido de idéias, ou que as tem no estado amorfo, ao escontrar uma frase pitoresca, fosforescente, explosiva, apaixona-se por ela, adota-a, comenta-a com um ponto de admiração, com um: “Muito bem!”, ou um “Justamente!”, como se ela lhe exprimisse rigorosamente a quinta essência do seu pensamento, do seu sistema filosófico. O leitor - “toma posição” - como dizia o Duce."

Pitigrilli, “Dicionário Antiloroteiro”, p. 181, Editôra Vecchi, Rio de Janeiro, 1956.


“Ai de mim! É doloroso, mas cumpre confessá-lo: depois de exercer por certo tempo êste nosso ofício, as palavras chegam a nos dar nojo.”


Pitigrilli, “Dicionário Antiloroteiro”, p. 183, Editôra Vecchi, Rio de Janeiro, 1956.
 

28/08/2015

Anedota atribuída a Henrique IV e a Napoleão III...

Um monarca perguntou a uma jovem dama de honor:
– Por onde se entra no seu quarto?
– Pela igreja, Majestade – respondeu a môça.

Pitigrilli, "Dicionário Antiloroteiro", p.185, Editora Vecchi, Rio de Janeiro, 1956.

22/08/2015

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CHRISTOPHER MARLOWE

vem de preto que eu sacudo-te e volvo-te sem opacos e gatilhos
vem rodeado de gente, faunas, floras que eu sacudo tudo isso em cinza
eu aspiro todo o contexto com o meu Ufesa 1800w
nem 1 ácaro contextual
nem as fezes contextuais de nenhum parasita contextual


Sandra Andrade, “Para Acabar de Vez com a Retórica”, p. 41, &etc, 2014.

07/08/2015

«COMO SE FEZ O LUÍS DE CAMÕES»...


COMO SE FEZ O LUÍS DE CAMÕES


Dum velho engaço do meu avô roubei dos dentes
O prego que na terra conquistaria os continentes

E por trás da escola no tempo do recreio grande
Tirei-o das meias onde o levava – tipo sande.

Na parede afiámo-lo para que espetasse fundo
E c’o calcanhar da bota desenhei o mapa-mundo

Do alto da canalhice lembro-me de rimar com cu
A caravana que passava em campanha pela APU

Eu matutava – Moscovo, Jamaica ou Índia?
Tomando cidades por países que confundia

E enquanto me decidia a escolher o meu país
Quem já por ali arava terreno era o grande Luís

Chutava as pedras para limpar o círculo na terra
E as botas ensebadas não chegavam à Primavera

Cuspia na mão porque afinava a pontaria
Cuspia no chão porque a terra também bebia

Estava o Luís a unir os furos do prego cravado de pé
E eu a empurrar dali um puto que pertencia à pré

Quando me voltei acenando com a eureka da América
Vi o Luís agarrado ao olho dizendo que ressaltou numa pedra

Oh grande merda! Chamou-se professora e ambulância
Da coça e castigo ganhei amnésia advento da circunstância

E foi assim que o Luís ficou um Camões tal e qual
Repetente até no país que era sempre Portugal.



No Jogo das Nações, desenhava-se no chão um grande círculo, simbolizando o globo universal. Dividia-se este círculo em nações, tantas quantos os jogadores intervenientes. A ordem para cada jogador jogar, era também a distância a que ficavam da linha traçada no chão. Começava-se sempre no território ao lado, fosse da direita ou da esquerda.
Por cada espetadela, traçava-se uma linha conforme a inclinação do espeto. O anexado escolhia a parte restante e saía do jogo quando no seu território já não lhe cabia um pé. Por sua vez o jogador quando perdia apagava todo o território conquistado, retornando à fase inicial. Ganhava quem conquistava o Mundo todo”

«OS SAPATOS»...

1
Enfio os mocassinos do meu tempo nos pés
e piso a senda lenda dos meus antepassados.
Hoje, sou eu que passo o cabo das tormentas nos cafés
quando vomito a Índia nos lavabos.

Se Egas Moniz foi herói
duma bravata bonita
eu sou quem paga o resgate
da história que me limita

A linda Inês dos meus olhos
foi reposta em seu sossego
não há hidroenergia
que ressuscite o Mondego
não há barragem que estanque
o nosso caudal de medo
não há sonho que levante
o sonho que é hoje infante
na ponta de um pesadelo.

Ai flores     Ai flores de lapela
flores de plástico e feltro
filigrana caravela
que estás cada vez mais perto
filha de Vasco da Gama
dado como pai incerto.

Partem tão tristes os pés
de quem te arrasta consigo
tão andados     tão modernos
tão vazios de sentido
tão queimados deste inferno
que têm as solas gastas
e o caminho puído.

Partem tão tristes os pés
de quem te arrasta consigo:
passeiam
     andam
          desandam
               param
                    perseguem
                         persistem
                              caminham
                                   calculam
                                        correm

doem     detêm     desistem.
Partem tão tristes os tristes
tão fora de chegar bem!

2
Lá vem o teddy-poeta
que não tem nada a dizer
filho família do mar
que lhe morreu ao nascer
parasita das palavras
que tem no banco a render
e se gastam, como a voz
dum povo que vai morrer.

Lá vem o tédio-poeta
que não tem nada a perder:
Vem numa hora de bruma
depois do café com leite
depois do banho de espuma
que lava o sal e o cheiro
a fingir que se levanta
dum leito de nevoeiro.
Chega de Alcácer Quibir
com escorbuto na alma
e morre, mas devagar,
neste mar-asma de calma.

JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS, “Resumo”, pp. 40-2, Lisboa, 1972.