01/06/2016

...

(Óleo de Lou Albert-Lasard, 1916)

Já disse? Aprendo a ver. Sim, estou a começar. Ainda vai mal. Mas vou aproveitar o meu tempo.
Por exemplo: que nunca tenha tido consciência de quantas caras há. Há muitas pessoas, mas há ainda mais caras, pois cada uma tem várias. Há pessoas que usam uma cara anos seguidos; gasta-se naturalmente, suja-se, quebra nas rugas, alarga como luvas que se usaram em viagem. Só as pessoas simples, poupadas; não mudam de cara, nem a mandam lavar. Serve muito bem, afirmam elas, e quem é que lhes pode provar o contrário? Mas perguntar-se-á: Se têm várias caras, que fazem às outras? Guardam-nas. Serão para os filhos. Mas acontece também os seus cães sairem com elas. E porque não? Uma cara é uma cara.”

Rainer Maria Rilke, “Os Cadernos de Malte Laurids Brigge”, pp.5-6, Ed. Instituto Alemão da Universidade de Coimbra, 1954. Trad. Paulo Quintela.

31/05/2016

Suetônio...

"Festina lente é um oximoro latino que significa "apressa-te devagar". É atribuída a Augusto imperador romano, e quer dizer que o trabalho executado devagar é melhor do que quando feito apressadamente.

A expressão " apressa-te devagar" na verdade quer dizer: " Faça o seu trabalho de maneira rápida, porém não apressada. A diferença é que na primeira modalidade, temos prazo a cumprir, isso não nos impede de desenvolver a tarefa de maneira curada, com precisão e máxima atenção. Na segunda modalidade o indivíduo desenvolveria a tarefa atabalhoadamente só se importando em terminá-la o quanto antes sem levar em consideração o produto final acabado".

Festina lente é o slogan da fábrica de relógios Festina."

fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Festina_lente

27/05/2016

...


QUEM FOI O ARQUITECTO QUE FEZ ESTE CAFÉ
(De novo em Lisboa. Sensação do mundo desarrumado.)

Quem foi o arquitecto
que fez este Café
tão longe da Natureza
e tantos homens de pé?

Criado: põe esta gente na rua!
E abre um buraco no tecto
que eu quero ver a lua.


José Gomes Ferreira

...

Deixo-o solto, e vai para o prado, e acaricia levemente com o focinho, mal as roçando, as florinhas róseas, azuis-celeste e amarelas... Chamo-o docemente: «Platero», e ele vem até mim com um trote curto e alegre que parece rir em não sei que guizalhar ideal...”

Juan Ramón Jiménez, “Platero e Eu”, pág. 9, Livros do Brasil, s/d, Lisboa. Trad. José Bento.

26/05/2016

...


A FLOR E A NÁUSEA

Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Carlos Drummond de Andrade

...


24/05/2016

...

THIS IS THE FIRST THING

This is the first thing
I have understood:
Time is the echo of an axe
Within a wood.


Philip Larkin

23/05/2016

...

OXFORD SHORES


Quero o bem, e quero o mal, e afinal não quero nada.
Estou mal deitado sobre a direita, e mal deitado sobre a esquerda
E mal deitado sobre a consciência de existir.
Estou universalmente mal, metafisicamente mal,
Mas o pior é que me dói a cabeça.
Isso é mais grave que a significação do universo.

Uma vez, ao pé de Oxford, num passeio campestre,
Vi erguer-se, de uma curva da estrada, na distância próxima
A torre-velha de uma igreja acima de casas da aldeia ou vila.
Ficou-me fotográfico esse incidente nulo
Como uma dobra transversal escangalhando o vinco das calças.
Agora vem a propósito...
Da estrada eu previa espiritualidade a essa torre de igreja
Que era a fé de todas as eras, e a eficaz caridade.
Da vila, quando lá cheguei, a torre da igreja era a torre da igreja,
E, ainda por cima, estava ali.

É-se feliz na Austrália, desde que lá se não vá.



Fernando Pessoa

...

21/05/2016

...

Perguntas-me meu bom amigo, se conheço a maneira de desencadear um delírio, uma vertigem, uma loucura qualquer, sobre estas pobres multidões ordenadas e tranquilas, que nascem, comem, dormem, se reproduzem e morrem. Não haverá um meio, dizes-me de reproduzir a epidemia dos flagelantes ou dos convulsionários? E falas-me do milénio.

Miguel de Unamuno, “Vida de D. Quixote e Sancho” pág. 11, Assírio & Alvim, 2005, Lisboa. Trad. António Mega Ferreira.