10/05/2012

Oficinas II




Toma lá...




BOM E EXPRESSIVO

Acaba mal o teu verso,
mas fá-lo com um desígnio:
é um mal que não é mal
é lutar contra o bonito.

Vai-me a essas rimas que
tão bem desfecham e que
são o pão de ló dos tolos
e torce-lhes o pescoço,

tal como o outro pedia
se fizesse à eloquência,
e se houver um vossa excelência
que grite: – Não é poesia!,

diz-lhe que não, que não é,
que é topada, lixa três,
serração, vidro moído,
papel que se rasga ou pe-

dra que rola na pedra…
Mas também da rima «em cheio»
poderás tirar partido,
que a regra é não haver regra,

a não ser a de cada um,
com sua rima, seu ritmo,
não fazer bom e bonito,
mas fazer bom e expressivo…

Alexandre O’Neill in ‘Poemas com Endereço’, 1962.

Oficinas I















09/05/2012

a IX é XXX...


PIOLHO Revista de Poesia
«se banires a prostituição da sociedade, reduzes essa sociedade ao caos, por causa da luxúria insatisfeita» Santo Agostinho


COLABORAM NESTE NÚMERO:
Julião Sarmento (ilustrações), Sílvia C. Silva, Rui Zink, Ricardo Álvaro, Miguel Martins, António Pedro Ribeiro, Alexandra Antunes, Teixeira Moita, Raul Simões Pinto, Jorge Humberto Pereira, Miguel Sá Marques, António S. Oliveira, Fernando Esteves Pinto, Mário Augusto, José Emílio-Nelson, Rui Tinoco, Rui Azevedo Ribeiro, A. Dasilva O., Álvaro de Sousa Holstein, Frederico Taparelli e Fiona Pitt-Kethey


o nono Abril 2012
Coordenado por Sílvia C. Silva, Ricardo Álvaro, Meireles de Pinho (capa e arranjo gráfico),Fernando Guerreiro e A. Dasilva O.

Tiragem: 300 ex.
Edições Mortas www.edicoes-mortas.com
www.edicoes-mortas.blogspot.com
Black Sun editores



30/04/2012

Negativos e positivos...

in situ de Marçal dos Campos no espaço Campanhã - Porto, 2009. 

in situ de Marçal dos Campos no espaço Campanhã - Porto - Quando negativo!...



SETE OITAVAS EM PROSA SOBRE LUIZ DE CAMÕES
Luís Pignatelli

Luiz, poeta nosso, tens sido pau para toda a colher.
Vê lá tu como te têm pintado: de olho vazado, não se
sabe ainda se o esquerdo se o direito, obra parece da
moirama, em Ceuta, quando nostálgico pensavas na tua,
nossa  Pátria tão amada, um ramo de loureiro na cabeça,
semelhando os que se põem às portas das casas de
pasto, como se a tua Glória tivesse que ser comprovada
com qualquer penduricalho académico!

Vieram depois as fitas, ó meu deus do celulóide!, e
foram as borradas que se viram: engatatão de tricanas
no Mondego, ou arrebenta, em Lisboa, para gáudio
de gentes de farto patilhame, ou Amálias cantarem, es-
tornicando os dedinhos no sentimento franjado dos
sofisticados merinos, que raio de pachorra temos tido, ó
Luiz nosso, com estes malandrins, que ainda há muitos,
para enterrar de vez, mijar-lhes em cima.

Também o martírio da escola havia de chegar, para grande
 susto das crianças que éramos: esse rosário de ora-
ções a dividir, o olho do professor brilhando, rapace, mais a
cacafonia da almaminha, mai-la chateza das sabenças dos
mestres Pimpões, ódio era o que tínhamos por ti, ó Luiz
nosso, daí nada sabermos do teu nascimento, da tua vida,
das paixões tuas, mágoas sem remédio, contentamentos
descontentes.

É claro que medalhas, medalhinhas, medalhonas, sempre
as tiveste, e discursos, presidentes, artesanatos, edições
de bolso (é ver o nosso Leão que tão bem se tem repimpa-
do nesta matéria), não te faltaram nunca, mas do teu na-
dar ensinando o amor da Pátria, tão desgraçada ainda.
Quem tem dado por isso? Que espécie de Povo te tem
lido? No largo de teu nome em bronze te deixaram, para
a deletéria defecção de turísticas pombas.

Só muito tarde descobrimos, meu fintador do real, a for-
ma como passaste a perna a esses padrecas que te queri-
am dar uma fogueirinha, mas dos rigores do Inverno sa-
bias tu, meu sefardim, até que naquela triste e leda ma-
drugada te foste desta Casa, meu forçado, lírico emigran-
te, dinheiros que mandaste, versos de ouro, quem os dizi-
mou? Ao Povo que te amava, que disseram? Sabiam teu cora-
ção ferido, ferida corça, os dizimados bosques?

Bonito moço o foste sempre, qual ceguinho, qual quê!
Sabias tanto de geografia, artes de marear, que até cha-
teava, por isso é que não te enganaste no caminho, e a
nado, o que é ainda mais difícil, meu recordista mundial,
mas quanto a direitos de autor, nicles! Os safados
pensavam que não havíamos de ter nunca um Francisco Re-
belo, uma Sociedade de Autores, mas enganaram-se, os ar-
ganazes, acabou-se-lhes a mama.

Os que só te queriam comemorativo, estão lixados, vais
ser de todos os dias, acabaram-se os cárceres dourados
dessa gentalha, as quetes, a lágrima oficial para o poeta
desgraçadinho, já te temos no nosso lado,
aliás como sempre teu desejo, e esta é a
primeira Manife tua, coisa digna e grande de ser vista,
e a reacção não passará, , vê só como gritam o teu no-
me, Luiz amigo, Poeta nosso, o Povo está contigo.

In Revista Camões 2/3, dir. Óscar Lopes, Editorial Caminho, Lx, 1980.


Instalação de Marçal dos Campos, Rua Antero de Quental, Porto



Negativo da Instalação de Marçal , Rua de Antero de Quental, Porto.



29/04/2012

Uma tipografia em Torre de Moncorvo...

esta imagem pode ser aumentada


Anúncio publicitário da Tipographia do jornal O Moncorvense, de 28.10.1894, sita na Rua do Cano (actual R. Visconde de Vila Maior)




Anúncio da Typographia de Accacio de Sousa Pennas, sita no Largo General Claudino, em Torre de Moncorvo, publicado no jornal Torre de Moncorvo, cerca do ano 1900.

"Estamos a falar, como já perceberam, da nobre arte da tipografia, que regressou a Torre de Moncorvo com a Tipografia Torre, por volta de 1978, localizada no Largo Diogo de Sá, pela mão da sociedade Irmãos Afectos (“retornados” de Moçambique), tendo como tipógrafo o Sr. José Martins (conhecido por Zé Carmachinho, devido a uma alcunha familiar), também ele “retornado” de África.

A tipografia Torre foi depois adquirida por um empresário do sector, sedeado em Mirandela, que para aqui destacou como funcionário o Sr. Tony, o qual viria a transferir a tipografia para o local onde ainda se encontra, na rua Visconde de Vila Maior, mudando-lhe o nome para Tipografia Globo. Entretanto, antes ainda dessa transferência, entrou para a tipografia o Sr. Manuel Barros, actual proprietário (desde 1992), trabalhando com ele outro profissional, o Sr. Morais, também já com longos anos de casa.

Logótipo actual da Tipografia Globo.


Possuindo duas máquinas impressoras Heidelberg, datáveis da 2ª. metade dos anos 50 do século XX, a tipografia Globo utiliza ainda os métodos de composição tipográfica no exacto sentido da palavra, ou seja, utilizando “tipos” (caracteres ou letras às avessas, moldadas em ligas de chumbo e níquel), os quais são alinhados manualmente, num trabalho de perícia e paciência, requerendo uma boa visão. Feitos os ajustamentos da composição dentro de um aro em ferro chamado “rama”, e metido o conjunto na chamada “almofada” da impressora, é um verdadeiro espectáculo ver e ouvir o matraqueado da máquina, puxando as folhas de papel, atirando-as contra a “almofada” onde são tintadas, e arrumando-as lateralmente. É o momento sublime, quando a tipografia se carrega de uma atmosfera mágica, envolta no característico cheirinho a tinta fresca…



Sr. Manuel Barros, inserindo a "chapa" na máquina impressora.

Há depois os “acabamentos” como os cortes em guilhotina eléctrica, a agrafagem, em máquina também eléctrica. Aqui se imprimem sobretudo livros de facturas, ou outros impressos de escrituração comercial, cartazes, folhetos, etc..

No dia 18 de Fevereiro de 2008, aproveitando o ensejo de um trabalho jornalístico realizado pela repórter e jornalista Carla Gonçalves (do Mensageiro Notícias) uma equipa do PARM procedeu a um registo fotográfico e em vídeo digital do funcionamento desta tipografia, através do depoimento dos Srs. Manuel Barros e Morais, a quem agradecemos esta oportunidade de perscrutar uma arte fascinante, embora em risco de soçobrar por falta de rendimento suficiente. Por este motivo, apelamos aos nossos sócios para que divulguem e encaminhem trabalhos para a tipografia Globo, porque ela é um património vivo da nossa vila e, como tal, deveria ser classificada como Valor Concelhio."



Sr. Morais organizando os "tipos" no momento da "composição".

RETIRADO DAQUI

28/04/2012

ó Coimbra...




Coimbra
Coimbra universitária, bem entendido!
Odeio-te!
finges de cabeça
e não és senão o lugar dela.
A única vez que me referi a Coimbra disse:
os palermas de Coimbra
É a minha opinião.
A única pessoa de interesse que conheci em Coimbra
foi a dona de uma casa de mulheres
todos os outros eram cultos
admiravam os grandes vultos
e desconheciam os pequenos
como se estes não fossem uma projecção dos grandes.
Coimbra
Coimbra universitária, bem entendido!
Tu consegues não ser estúpida
nem inteligente
és Coimbra.
Tamanha identificação urbana
jamais no mundo se viu.

José de Almada Negreiros in “Poemas”, p.129, Assírio & Alvim, Lx, 2ªed., 2005.


COIMBRA EM FORMATO POSTAL

E então
lá tive numa pasta azuis as fitas
de escolar de Letras e não valiam nada
não prestavam pra nada nesse ano de ‘59
não torciam o pescoço à morrinha herdada de trás
“ai adeus acabaram-se os dias”
cantei tão pouco e só em tom menor

eu ensurdecia nas aulas durante o Inverno
o focinho metido na samarra um vago
olho emergindo como do poço uma rã
tanto sono que dava o Hölderlin em tudesco de mestre!
e às esconsas lia o meu Qui je fus

Coimbra tapada pela capa da névoa
Um rastro de cegonhas sobre as ínsuas
Chegam barcos da lenha de Penacova
Limoeiros floridos a quinta
do avô com sardões nos muros de pedra solta

ai adeus formado em Germânicas este rapaz
o que sabe ele da vida este rapaz? Coisa nenhuma
chora baba e ranho à menção puizia
e escrevi cartas de amor sempre solenes
e a melancolia é uma doença nefasta

eu tinha uma janela no último andar
de onde o Senhor da Serra em tardes claras
e traduzi muito verso pré-romântico para as colegas
’59 confesso não me ensinou nada de nada
belas são as narcejas nos arrozais quando voam sobre
                um fundo de sol como o cobre batido

Fernando Assis Pacheco in ‘Variações em Sousa’, pp. 16-17.


LOUVOR DO BAIRRO DOS OLIVAIS

Não tive nunca nada a ver com as
guitarras estudantes: eu vivia
num lento bairro da periferia
onde a chuva apagava os passos das

pessoas de regresso a suas casas
fazia compras na mercearia
e algum livro mais forte que então lia
já era para mim como um par d’asas

amigos vinham ver-me que eu servia
de ponche ou de Madeira malvasia
para soltar as línguas livremente

um que bramava um outro que dormia
eu abria a janela e só dizia
ao menos estas ruas têm gente

Fernando Assis Pacheco in ‘Variações em Sousa’, p.11.

27/04/2012

Amanhã, Sábado, dia 28 de Abril:



Apresentação e lançamento do primeiro número da revista 'Cão Celeste'. Direcção de Inês Dias e Manuel de Freitas. Coordenação Gráfica de Luís Henriques. No Bartleby Bar às 22h30.


Editorial
Do Editorial: " Alguém tem de perder de longe em longe.
                                    Alguém.

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE


Algures entre o jornal e a revista, o Cão Celeste pretende apenas ganir, ladrar com raiva ou paixão, amar ou odiar sem peias aquilo que o mundo quotidianamente lhe dá a ver. De seis em seis meses, os leitores interessados terão notícias nossas.        
Mas não somos um grupo, não obedecemos a  qualquer cartilha literária ou política que possa servir para classificação geral. Este é, antes de mais, um espaço de encontro entre pessoas que ainda consideram urgente o livre exercício da crítica, do pensamento ou da revolta. E é justamente em nome dessa precária liberdade que prescindimos de qualquer apoio exterior, passível de condicionar os nosso gestos.
Repudiamos, de modo inequívoco, o acordo ortográfico pretensamente em vigor - e fazemos questão de sublinhar, sempre que possível, essa repulsa. Mas temos outros ódios, claro - e, felizmente, afectos e devoções não menos intensos. Apesar de tudo, e ainda que de longe em longe, a lanterna de Diógenes mantém o seu esquivo e necessário fulgor."

A Direcção "

Diógenes. Pintura de Jean-Léon Gérôme de 1860.

Diógenes, de John William Waterhouse