Praça
9 de Abril, vulgo Jardim da Arca d'Água, na cidade do Porto. Quando o
duelo ocorreu neste local, em 4 de fevereiro de 1866, o jardim ainda não
existia (Foto: Nuno Carvalho)
«(...)
Em 1865, depois de uma viagem a São Miguel, Antero [de Quental]
regressa a Coimbra. Em Setembro desse ano, [António Feliciano de]
Castilho escreve ao editor António Maria Pereira uma carta, que será
publicada como posfácio do
Poema da Mocidade, de Pinheiro
Chagas. Nela, o velho poeta discute poemas de Antero de Quental, Teófilo
Braga e Vieira de Castro, ironizando particularmente sobre as
Odes Modernas e sobre dois poemas de
Epopeia da Humanidade,
de Teófilo Braga. Antero resolve descer à liça e contestar ao seu velho
mestre o direito de se arvorar em árbitro das letras nacionais - faz
publicar uma carta-aberta a Castilho,
Bom-senso e Bom-gosto,
onde, exaltadamente, se insurge contra o desdém de Castilho
relativamente à nova geração de poetas. E desencadeia-se a que é talvez a
mais famosa polémica literária portuguesa, conhecida por
Questão Coimbrã ou
Questão do Bom Senso e Bom Gosto (...)
No início de 1866, Ramalho Ortigão sai em defesa de Castilho com o folheto
A Literatura de Hoje. Acusa Antero de cobardia, pois este invocara como argumentos a velhice e a cegueira do poeta: [Escreve Antero]
O
caso era cómico e não trágico. Ramalho Ortigão escreveu insolências
bastante indignas a meu respeito num folheto a propósito da sempiterna
questão Castilho. Eu vim ao Porto para lhe dar porrada. Encontrei,
porém, o Camilo [Castelo Branco]
o qual me disse que adivinhava
o motivo da viagem e que antes das vias de facto, ele iria falar com o
homem para ele dar satisfação. Aceitei. A explicação, porém, do dito
homem pareceu-me insuficiente e dispunha-me a correr as eventualidades
da bofetada quando me veio dizer o Camilo que o homem se louvava em
C.J.Vieira e Antero Albano com plenos poderes de decidir a coisa e que
fizesse eu o mesmo em dois amigos meus; na certeza de que uns e outros
seriam considerados padrinhos de um duelo (!) no caso de se não
entenderem a bem... Que can-can!
No duelo, em 4 de Fevereiro,
logo no primeiro assalto, Antero fere Ramalho num braço. A luta
termina, as honras estão lavadas. Os dois escritores reconciliam-se. Diz
Camilo:
Em 1866 na belicosa cidade do Porto, defrontaram-se de
espada nua dois escritores portugueses de muitas excelências literárias e
grande pundonor. Correu algum sangue. Deu-se por entretida a
curiosidade pública e satisfeita a honra convencional dos combatentes.
Alguns dias volvidos ia eu de passeio na estrada de Braga e levava
comigo a honrosa companhia de um cavalheiro que lustra entre os mais
grados das províncias do Norte. No sítio da Mãe-de-Água apontei a
direcção de um plano encoberto pelos pinhais e disse ao meu companheiro:
Foi ali que há dias a «Crítica Portuguesa» esgrimiu com o «Ideal
Alemão»! (...)»
Carlos Loures, in
Antero de Quental,
Vidas Lusófonas
retirado
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