18/02/2016

Novidades das Edições 50kg...



RAR de Rui Azevedo Ribeiro
Desenho de capa de RAR
Edições 50kg, Porto.
P.V.P: €6,00
150 Exemplares
ISBN: 978-989-97891-8-0

Sinopse: RAR é um refinadíssimo libreto já preparado para ser musicado por uma orquestra de câmara (pode ser municipal). Contém um solo de viola de gamba pontuado por dedilhadas incursões numa tiorba de cordas de tripa já devidamente unguentadas a azeite fino. Deverá ser levado a lume brando, mexendo sempre, até atingir o chamado ponto de caramelo, o que para muitos ainda é um mito, e assim ficará pronto a ser servido. Bueno apetite!

Novidades das Edições 50kg...


 
Fechado para Mudança de Ramo de Rui Azevedo Ribeiro
Desenho de capa de Bruno Fonseca da Silva
Edições 50kg, Porto.
P.V.P: €6,00
150 Exemplares
ISBN: 978-989-97891-7-3

Sinopse: Livrinho religioso, com uma é-pistola, onde dEUs (o senhorio) fala através das suas vogais aos poliprotodontes da tribo “cada-macaco-no-seu-galho” para convencê-los a abandonarem “amigavelmente” a sua edificação vertical com um contrato promessa de alocá-los horizontalmente num rizoma dEUziano.

03/02/2016

"O LEÃO E A CASCAVEL"...


“Um Homem que encontrou um Leão no seu caminho decidiu dominá-lo com o poder do olho humano. Por ali perto estava uma Cascavel a tentar hipnotizar um pardalito.
– Estás a safar-te, irmão? – perguntou o Homem ao outro réptil, sem tirar os olhos do Leão.
– Às mil-maravilhas – retorquiu a serpente.
– O êxito está assegurado: apesar de todos os seus esforços, a minha vítima aproxima-se mais e mais.
– E a minha, apesar dos meus, aproxima-se cada vez mais. Achas que está tudo a correr bem?
– Se achares que não – respondeu o réptil o melhor que pôde, com a boca cheia do pardal –, o melhor é desistires.
Meia hora depois, o Leão, palitando pensativamente os dentes com as garras, disse para a Cascavel que nunca, ao longo da sua vasta experiência de ser dominado, conhecera um domador com tanta determinação em desistir. – Mas – acrescentou com um largo e significativo sorriso – nunca deixei de o olhar fixamente.”

Ambrose Bierce, “Esopo Emendado & Outras Fábulas Fantásticas”, pp. 26-7, Antígona, LX, 1996.

28/01/2016

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"A CIDADE VAI MORRENDO, MAS HÁ FESTA"...



«Não consigo calar o desabafo. Talvez pelo sentimento que perpassa de guerra perdida. Hoje, lá foram mais uma vez, moradores que ainda vão resistindo, cada vez com mais baixas, na denominada zona de(s)marcada da movida, sempre em expansão, com os estabelecimentos de animação nocturna a tomar conta do centro do Porto. 
Reclamações de treze anos sobre o ruído noturno, a limpeza e o estacionamento, que tornaram a vida destas pessoas num inferno. A Indiferença com que hoje as suas queixas são ouvidas, quer pelos poderes municipais, quer pelos poderes mediáticos, mostra bem a escolha que há muito se fez, de transformar o centro da cidade num enorme bar/discoteca a céu aberto, aliás um modelo desenvolvimento da cidade assente nisso e na monocultura do turismo. Os moradores existentes eram por isso um estorvo. No espaço de uma década deu-se mais uma machadada, talvez derradeira, na identidade da cidade. Os milhares que aqui viviam foram paulatinamente desaparecendo no mesmo rácio em que aumentava o número de bares, discotecas e outros espaços de denominação difícil, que vendem bebidas para rua. 
Os milhares, entre a desistência e a lei da vida, a morte, foram transformando-se em centenas, cada vez contando menos, hoje cada vez menos ainda, entre o nada fazer ou fingir fazer dos poderes públicos. Este processo de expulsão e não renovação do tecido residente, é de facto a última das grandes migrações e expulsões das gentes da cidade, depois das expulsões das gentes da zona ribeirinha para a periferia da cidade, para bairros sociais e mesmo para fora cidade, nomeadamente para Gondomar e Gaia. 
Com ela também foi o pequeno comércio tradicional, os artesãos e os serviços de proximidade de apoio às famílias, com as rendas a tornarem-se insustentáveis e base residente em erosão e a envelhecer. O centro da cidade transforma-se num deserto de residentes, numa enorme Santa Catarina, onde ninguém lá vive, com a diferença que a rua vazia é transformado em tráfego humano noctívago, muito dele importado. 
A manhã guarda os despojos das noites em ruas desertas de estabelecimentos abertos, aguardando o entardecer. Este é o cosmopolitismo pós-moderno, que domina quem governa a cidade, com desdém pelas gentes e origens da cidade que deram alma ao Porto, invicta. Pseudo modernidade, serôdia, com q.b. de provincianismo, que faz desaparecer o Porto que conhecemos, deixando apenas memória e vestígios arqueológicos, algum património cultural e polvilhos de cultura, a dar nome aos eventos de encher o olho e h(á) festa. Os holofotes cegam, até a comunicação social domesticada. Resta a impunidade.
A cidade como a conhecemos vai morrendo. A dita modernidade faz-se contra o passado, as suas gentes, a sua identidade, aquilo que a diferencia. O plástico gourmet toma conta. O Porto morre entre o fantasma de vida. Mas há festa. Muita festa. E Eles continuam a dançar. Seremos todos espectadores desta dança? Até quando?»
Pedro Carvalho
Vereador na CMP

21/01/2016