19/01/2012



HERBERTO HELDER PHALA DE MÁRIO CESARINY


     Há trinta anos os jovens gafanhotos caíram sobre a poesia radioactiva de Cesariny, comeram dela, fulguraram dela um instante como pequenas jóias uranianas. Carbonizou-os o fogo roubado. Jazem agora nos arrabaldes. Quem não assistiu nem suspeita. Pode fruir-se aqui uma lição rápida: o poder que mantém o universo de um grande poeta é inacessível – não está nas palavras mas entre elas, não está nos modos mas atrás deles, não está na claridade mas na obscuridade («Pour être vrai il faudrait être obscur». Flaubert). Eis o abismo entre mestre e discípulos: o mestre é a zona de radiações que os discípulos devassam em revoadas estudantes. As ciências naturais, espécies e espécimes colhidos, trabalhos de campo e casa, desnaturam-se nos fundamentos: não há nada para aprender. O autor, que propôs «alguns mitos maiores alguns mitos menores», só tem a inexplicável sabedoria de ser o dono deles e da sua aliança oculta. No âmbito profano da escolaridade, números e ordens são intransmissíveis. A floração atómica Cesariny ergue-se no deserto, não é paisagem para visitas guiadas, trânsitos, aulas, mapas. Não se ensina nem aprende nela nenhuma botânica democrática. É uma paisagem bárbara, entregue à escarpada biografia dos dias e das noites. Está ali, arboreamente explosiva e irreal como uma radiografia, negra à volta, inabitável na sua massa de luz.
     Com que linhas te coses? Com as dos meus poemas.
     Ora vejamos: vinte e cinco linhas, por exemplo, ou vinte e quatro, é linha a mais para coser um poeta. Ou a menos. Sempre a mais e a menos. «Aceita este risco supremo: renuncia a compreender aquilo que escreveu». Com uma linha assim cosem Emily Dickinson – que se cosera, ela, com as linhas de mil e seiscentos poemas. «O vento agarrou nas coisas do norte, / Acumulou-as no sul, / Dobrou depois o leste sobre o oeste (…)» – tudo enfiado numa agulha opondo magneticamente, não apenas as quatro partes cardeais, mas o poeta a si mesmo num prodigiosa costura celeste.
     Recapitulemos.
     Eles pensam.
     Prefiro o pensamento de que não há forma de dizer porquê e o como e o para quê. Talvez possamos recorrer à paráfrase, uma larga frase contendo em si, como coração, a intangibilidade do poema. Maneira de abraçar? Ele pede para ser abraçado? O mal é que a frase derivada, abraçadora, não aquece nem arrefece, não substitui. E então pergunta-se para que serve? Pois apenas serve aquilo que substitui. Se o poema fica, inamovível, sobra a paráfrase. Só interessariam as paráfrases a poemas desaparecidos, ardentes homenagens, louvor, invocações que restituíssem os belos corpos devorados. Seriam poemas em segunda mão, no entanto animados pelo sopro hínico. Os discípulos são autores em segunda mão, mas falta-lhes o espírito que restabelece a vida. As falas ecoam as falas escutadas – nelas está constantemente
a aparecer o que não desapareceu. Só as vozes da aparição conseguem louvar: louvam a cerimónia da sua aparição. Porque uma voz é isso mesmo, aparição.
     Há trinta anos, reiterando, Cesariny aparecia onde tentavam que desaparecesse. Agora aparece nas férias epigonais. Territorialmente desimpedida, esta poesia é tão absoluta e solitária que o comentário vai pouco, e dentro: é a última de nome religioso. E foi ele, Cesariny, quem o disse: «Assim acaba este estranho poema, o último de nome religioso escrito pelo Autor». O poeta cose-se com as suas linhas, religa tudo em nome escrito. Qualquer nome é o último, possui a força da renúncia, despede-se de si próprio. E compreende-se como primeira canção, a do fogo, misteriosa voz do mundo que o autor autoriza. Anda por aqui o Demónio, nesta música, ouve-se no fundo quando a leitura se torna mestra de si como de si era mestra a poesia: absoluta e solitária.
     É o que posso dizer, assistindo.
     Em quantas linhas, vinte e cinco, vinte e quatro, não coso nem descoso? Trata-se de entender, e faço pelo melhor: entendo o que não entendo, obscura coisa, esta, entender, prática do leitor religado. Também anda por aqui o Demónio, em tamanha audição. Que músicas para que ouvidos! As coisas do norte no sul, leste e oeste um sobre o outro. Dito em palavra pura. Quando se habita a poesia, condena o ofício às fogueiras acendidas em todos os lados do vento até o corpo se transmutar em diamante, um corpo que as luzes executam, como sanciona o étimo: luciferinamente. A pena capital, sofreu-a Cesariny, o canto desnorteado.
     Pois o norte é isso, um nome que procura, que descobre, com as suas inspirações boreais, uma versão de águas e terras juntas, elementos, complementos, um estilo de ficar australiano. O canto é uma desolação de ar e fogo. O poeta, servo e senhor dos pactos, sabe-o bem. Perguntem-lhe nos poemas. Mas nunca finjam que ele respondeu. Porque a sua metáfora, a alquimia baptismal, não é uma resposta aos outros, mas uma pergunta a si mesmo. E se há nela qualquer sedução, veja-se como vestígio daquela dança propiciatória, sempre hipnótica, difícil, ofuscante – exercida para a melhor posse dos talentos. É inerente ao capítulo infernal da comédia, um abuso no mais enigmático dos círculos: a beleza é monstruosa.

Herberto Helder
In ‘A Phala’, n.º 9, Abril/Maio/Junho, Assírio&Alvim, Lx, 1988.

18/01/2012

Espécie de poesia visual muito antes do E.M. de Melo e Castro...

Manoel Roussado (um dos autores visados na célebre questão Coimbrã por Antero) 

Manoel Roussado, in Roberto ou A Dominação dos Agiotas

AR BUSTO...

MARIA GABRIELA LLANSOL «Os meus livros»

__________________ os meus livros já não se encontram alinhados em prateleiras, no escritório; os que eu considero mais meus, por serem os textos do meu desejo, pu-los no guarda-vestidos aberto, encostados frontalmente ao fundo, ou formando pequenas pilhas, com os nomes dos «batedores» em evidência.
     Myriam e eu, lado a lado, acabámos por subir às páginas, «mas os nossos pés», leu Myriam em voz alta, «são especialmente importantes porque são marcha em direcção oblíqua».
     Não compreendo, Myriam, a intensa suavidade negra da noite. Quando deixava de a ouvir, a encosta tornava-se íngreme, e os «batedores», numa grande angustia de sentido, elevavam as vozes. Ela fazia crescer um arbusto entre duas palavras separadas pela extinção da voz __________________ ou movimento final de silêncio.
     Atravesso o pinhal:
«as árvores falam através dos ângulos que criam». Mas não podem ser meus amantes, pois o seu plano de construção é diferente do meu; se eu tivesse uma árvore por amante, só subindo me poderia deitar com ela; talvez eu tenha uma árvore por amante; amante da minha árvore, figura humana que eu projecto nela, cria o amor num dia melhor que toda a beleza que eu anuncio ao escrever; ofereço-lhe este texto, com o risco que não me compreenda. «É para si», e concluo «é para nós»; eu entendo de igual modo as árvores, e as letras que atravessam as linhas dos livros, vivemos sob a lei da refulgência da natureza que, à hora crepuscular, explica quais são as proporções entre o homem e o resto do mundo; quantas vezes este pinhal não poderá afirmar que por aqui passou um texto, elaborado entre ele e a sua árvore?
a árvore que se refinou sob a emoção humana, caminha; os seus passos vão de ela própria à próxima árvore, e assim chegámos ao fim do bosque em movimento, só parado para quem não preferiu a árvore à língua do texto; quando as acácias levam mais longe do que o amante o seu perfume, eu começo a contar os meus sentidos; desisto a meio, englobada pelo número que se tornou qualidade.


Colares, 1991



MGL
In ‘A Phala’, n.º 23, Abril/Maio/Junho, Assírio &Alvim, Lx, 1991.

16/01/2012

Lançamento de dois livros de Miguel Martins...

"A Metafísica das T-shirts Brancas" (Edições 50 Kg)
 "Um Homem Sozinho" (Língua Morta)


 4 de Fevereiro (Sábado), às 17h00 no Teatro A Barraca. 

13/01/2012

Underground... na rua das Flores

 LIVRARIA CHAMINÉ DA MOTA - Rua das Flores, 18  

LIVRARIA CHAMINÉ DA MOTA - Rua das Flores, 18

LIVRARIA CHAMINÉ DA MOTA - Rua das Flores, 18

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07/01/2012

Sinais Usados na Revisão de Prova Tipográficas

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ELOGIO E REABILITAÇÃO DA GRALHA

"Insinua-se a gralha, com seu bico normando, sua trupe de tipos inspirados.

Por um parágrafo a entrada falharia.

Nos cadernos da ordem, a vida mácula do autor, parceira de goyescas
criaturas; unhadas, dedadas, repelões, empastos de tinta seca.

Que novo o sonho de Alice!

No mosaico de um Improviso para Duas Estrelas de Papel, de azul, vermelho,
azul, vermelho, eis que fica entretanto azul, azul.

Quem escreve, se inscreve, foi escrito?"

Mário Cláudio in MeaLibra - Revista de Cultura, Centro Cultural do Alto Minho, p.17, Agosto de 1982, Viana do Castelo

13/12/2011

Ante-câmaras...

Camera degli Sposi de Andrea Mantegna (1431-1506)

La Freak Lounge de Zoe Strauss

Dito com aquele respeito… do dó de peito!

Nicanor Sandoval Parra, (São Fabián de Alico, Santiago do Chile, 1914) 



"MANIFESTO

Senhoras e senhores
Esta é a nossa última palavra
- Nossa primeira e última palavra –
Os poetas desceram do Olimpo.

Para os nossos antepassados
A poesia era um objecto de luxo
Mas para nós
É um artigo de primeira necessidade:
Não podemos viver sem poesia.

Diferente de nossos antepassados
- E o digo com todo respeito… -
Nós sustentamos
Que o poeta não é um alquimista
O poeta é um homem como os outros
Um pedreiro que constrói seu muro
Um construtor de portas e janelas.

Nós conversamos
Na linguagem de todos os dias
Não acreditamos em signos cabalísticos.

Ademais, uma coisa:
O poeta está aí
Para que a árvore não cresça torcida.

Esta é a nossa mensagem.
Nós denunciamos o poeta demiurgo
O poeta Barata
O poeta Rato de Biblioteca.
Todos estes senhores
- E o digo com muito respeito…-
Devem ser processados e julgados
Por construírem castelos no ar
Por esbanjarem o espaço e o tempo
Redigindo sonetos à lua
Por agruparem palavra ao azar
Conforme a última moda em Paris.
Para nós, não:
O pensamento não nasce na boca
Nasce no coração do coração.

Nós repudiamos
A poesia de óculos escuros
A poesia de capa e espada
A poesia de chapéu abanado.
Propiciamos a mudança
A poesia a olho nu
A poesia a peito aberto
A cabeça de cabeça descoberta.

Não acreditamos em ninfas nem tritões.
A poesia tem que ser assim:
Uma garota rodeada de espigas
Ou não ser absolutamente nada.

Porém, no plano político
Eles, nossos avós imediatos,
Nossos bons avós imediatos!
Refrataram e se dispersaram
Ao passarem pelo priema do cristal.
Uns poucos se tornaram comunistas
Não sei se foram realmente.
Suponhamos que foram comunistas,
O que eu sei é o seguinte:
Que não foram poetas populares,
Foram uns reverendos poetas burgueses.

Devemos dizer as coisas como são:
Somente um ou outro
Soube chegar ao coração do povo.
Sempre que puderam
Declararam de palavra e de peito

Contra a poesia dirigida
Contra a poesia do presente
Contra a poesia proletária.

Aceitemos que foram comunistas
Mas a poesia foi um fracasso
Surrealismo de segunda mão
Decadentismo de terceira mão,
Tábuas velhas devolvidas pelo mar.
Poesia adjectiva
Poesia nasal e gutural
Poesia arbitrária
Poesia copiada dos livros
Poesia calcada
Na revolução da palavra
Em circunstâncias de poder fundar-se
Na revolução das ideias.
Poesia do círculo vicioso
Para meia dúzia de eleitos:
‘Liberdade absoluta de expressão!’

Hoje nos persignamos perguntando
Para que escreviam essas coisas
Para assustar ao pequeno burguês?
Tempo miseravelmente perdido!
O pequeno burguês não reage
Senão quando se trata do estômago.

Como vão assustá-lo com poesias?!

A situação é a seguinte:
Enquanto eles estavam
Por uma poesia do crepúsculo
Por uma poesia da noite
Nós propugnamos
A poesia do amanhecer.
Esta é a nossa mensagem.
Os resplendores da poesia
Devem chegar a todos por igual
A poesia chega para todos.

Nada mais, companheiros
Nós condenamos
- E o digo com respeito…-
A poesia do pequeno deus
A poesia da vaca sagrada
A poesia do touro furioso.

Contra a poesia das nuvens
Nós contrapomos
A poesia da terra firme
- Cabeça fria, coração ardente
Somos pés-no-chão decididos…

Contra poesia de café
A poesia da natureza
Contra a poesia de salão
A poesia de protesto social.

Os poetas desceram do Olimpo."

Nicanor Parra in “Ex-traídos de Outros Poemas (1950-1968)” trad de António Miranda 

12/12/2011

E foi mais ou menos assim...

XVIII Edição do Mercado Negro na Escola Profissional e Artística Árvore

XVIII Edição do Mercado Negro na Escola Profissional e Artística Árvore

XVIII Edição do Mercado Negro na Escola Profissional e Artística Árvore

XVIII Edição do Mercado Negro na Escola Profissional e Artística Árvore

XVIII Edição do Mercado Negro na Escola Profissional e Artística Árvore

Ma che cosa fai?...



Não tenho vida para livros...



«O Candidato à presidência mexicana. Na feira do livro de Guadalajara, os jornalistas pediram a Enrique Peña Nieto para nomear três livro que tinham influenciado a sua vida. O candidato presidencial do PRI (favorito) só conseguiu apontar "partes da Bíblia".»

08/12/2011

Lançamento da Revista Piolho - Número 7



O lançamento da Revista Piolho 7, ocorrerá no próximo Sábado (dia 10) por volta das 17h00 horas.


Local: no Mercado Negro, Passeio das Virtudes, 14, Escola Profissional e Artística Árvore


PIOLHO Revista de Poesia (na Pluralcores tipografia)
«O crítico enquanto artista falhado é uma figura
vulgar» Spephen Vizinczey
Rodrigo Miragaia (ilustrações), Carlos Nogueira, Rui Azevedo Ribeiro, Francisco Félix, Sylvia Beirute, Sílvia C. Silva, Maria Conceição Caleiro, Pedro S. Martins, A. Pedro Ribeiro, Ricardo Marques, Amândio Reis, Rui Tinoco, Humberto Rocha, A. Dasilva O., Nuno Brito, Pedro Jofre, Fernando Esteves Pinto, Hugo Pinto Santos, Renée Brock, Henrique Manuel Bento Fialho, Sérgio Almeida e António S. Oliveira
fazem mais ou menos por esta desordem este número, o Sétimo. Novembro 2011.

Coordenado por Sílvia C. Silva, Meireles de Pinho (capa e arranjo gráfico), Fernando Guerreiro e A. Dasilva O.