18/01/2020

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Não se admire o leitor de me ver discretear assim de cadeira sobre o assunto de tanta magnitude: eu também já me atirei às investigações históricas, tendo a fortuna de resolver, satisfatória e definitivamente, um dos mais árduos e capitais problemas da história moderna, a saber: onde foi que a George Sand «armou» pela primeira vez o marido. E não posso encarecer as canseiras, as vigílias, as meditações que me causaram as respectivas, inúmeras, indispensáveis pesquisas. Mas consegui, e para conhecimento universal aqui deixo consignado o fruto do meu labor. O facto deu-se no ano de 1825, dentro da gruta (depois milagrosa) de Lourdes.
E segundo me revelou uma vidente mística, muito relacionada com o céu, foi esse caso que deu origem ao aparecimento da Virgem. Eis o que ela me contou:
No clube dos arcanjos da pena amarela, o mais maledicente dos páramos celestes, esse acontecimento foi comentado tão ostensiva e desbragadamente que chegou aos ouvidos da Nossa Senhora, a qual lá tem sempre as suas espias, para saber o que murmuravam a seu respeito, pois que não a pouparam com dúvidas indecentes acerca da sua virgindade, quando ela deu entrada no Paraíso. Os pormenores do acto lúbrico, exagerados talvez pelos eróticos arcanjos, e as alusões à amenidade do sítio, inspiraram à Nossa Senhora desejos de o visitar, o que fez com certa dificuldade, graças à relutância do Padre Eterno em outorgar a indispensável licença. Tão agradada ficou do conforto e pitoresco da caverna que ali voltou várias vezes até se encontrar com a «beata Bernadeta»
O resto é sobejamente conhecido.
E aqui está como os carnais desvios da George Sand abriram para a França essa prodigiosa fonte de devoção espiritual e lucros materiais sem par no mundo.
Não há dúvida: Deus escreve direito por linhas tortas…”

M. Teixeira-Gomes, “2.ª Parte de Miscelânea – Carnaval Literário”, pp. 144-145, Livraria Bertrand, 3.ª ed., 1993.

16/01/2020

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PNEUMOTÓRAX

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.
.....................................................................
- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo
                            e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumo-
                                                                     tórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango
                                                              argentino.

Manuel Bandeira, "Antologia Poética", pp. 62-63, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1981.

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"De resto, no século XVIII viajou-se muito pelo simples interesse de conhecer outras terras e outras gentes, diferentes leis e diversos costumes. Não são só os diplomatas e os doentes que se deslocam no globo, uns enviados pelos seus governos, outros pelos seus médicos; agora viajam também os artistas e os escritores, os filósofos e os naturalistas, os ricos curiosos e os nababos enfastiados. Alguns dos viajantes estrangeiros que escreveram sobre os portugueses, uma das pechas culturais que lhes apontavam era a de não viajarem. Viajarem pela Europa qureriam eles ter dito, pois logo informavam que o português só saía da pátria para ir ao Brasil, à África e às Índias orientais - o que, aliás, para exotismo bastava e dava sobra. Somente, sob este aspecto, os portugueses foram mais exportadores dos costumes da sua terra do que importadores de exotismos, que eles consideravam bárbaros.
O francês, o inglês, o alemão que não  podiam viajar liam livros de viagens. Assim, nas literaturas europeias setecentistas, com excepção das de língua portuguesa e castelhana, os livros de viagens abundavam e sucediam-se.
(...) Os filósofos e os enciclopedista aproveitavam os testemunhos dos viajantes em ilustração das suas teses e reforço dos seus argumentos, tendentes ao abalo dos princípios racionais em que a sociedade vivia organizada. A variedade de crenças, a multiplicidade de religiões, a diversidade moral, as diversas formas de governar e de os homens se constituírem em sociedades, o 'bom selvagem', ajudavam os filósofos a minar a Autoridade, consubstanciada na Igreja Católica e na instituição monárquica.
Neste crescente e cada  vez mais amplo movimento literário, sob os signos do exotismo, da crítica e do ataque aos malefícios do obscurantismo do dogma e do Poder autoritário, começaram a destacar-se com particularidade os livros dedicados às jornadas e permanências na Península Ibérica.
No geral, os viajantes entravam em Espanha já com ideias preconcebidas. Vinham, por assim dizer, colher exemplos que confirmassem e ilustrassem as suas teses, todas elas anteriores à observação e à análise. Compunham assim o quadro de duas nações supersticiosas, fanáticas, atrasadas, bárbaras, e ridiculamente ignorantes, onde imperavam o clero e dois reis absolutos. Fiados em Voltaire, em Montesquieu, em D'Argens, em La Harpe, que nunca haviam passado os Pirinéus, confirmavam que para cá desses montes governavam a Inquisição e um clero ignaro dominava os reis e mantinha o fanatismo dos povos. Aqui, nos dois países da Espanha, mantinha-se praticamente íntegras a ordem que a autoridade real sustentava, a crença nos dogmas, o poder absoluto e a certa ciência dos monarcas - conjunto de alvos excelentes para os protestantes e para filósofos deístas ou simplesmente ateus. Na verdade, a maioria dos livros de viagens na Península que foram publicados no século XVIII participam dos dois combates que então se travavam na Europa: pela supremacia do Protestantismo, destacadamente nos três primeiros quartos do século; e pela abolição dos governos monárquicos absolutos, em particular no último quarto do século, sob inspiração maçónica."

Castelo Branco Chaves, "Os Livros de Viagens em Portugal no Século XVIII e a Sua Projecção Europeia", pp. 10-12, Biblioteca Breve, 1977.

15/01/2020

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Coimbra, 15 de Janeiro de 1950 –Dizem os jornais que na Alemanha um inventor conseguiu fazer voar as pessoas no vácuo. Uma espécie de centrifugador ergue-as do chão, e elas flutuam. Ora a literatura de há vinte anos a esta parte lembra-me um aparelho desses. De Proust para cá, é sempre a perder o pé na terra. Podem eles falar em nome do telúrico e do humano. Deixá-lo! Podem escrever palavrões e descrever cenas sexuais com toda a pornografia. Deixá-lo! Os livros não têm força, nem verdade.
Em medicina, o órgão que se sente é um órgão doente. E estes escritores sentem demais o pénis. É um péssimo sinal.”

Miguel Torga, “Diário V” 2ª ed. Revista, pág. 69, Coimbra Editora, 1955.

10/01/2020

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"É urgente pedirmos que cesse em Portugal de escrever quem deixar puder de o fazer. Só o que novo for virá presumivelmente a ocupar lugar na história da poesia, mas essa novidade, em vez de cultivada por si e em si mesma, consistirá antes no resplendor que sempre envolve e acompanha uma voz própria e pessoal, de tal maneira que com ela se confunde mas dela nunca pôde prescindir em tempo algum. Na poesia de um criador, a propriedade ou personalidade são o 'que', a novidade o 'como'. A novidade é o rosto onde se esconde um poeta."

Ruy Belo, "Na Senda da Poesia", pág. 69, União Gráfica, 1969.

09/01/2020

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"Sempre o pudor de quem escreve existiu. Lembra-me aquela confissão de Cesário Verde: 'Ora, meu querido amigo, o que lhe peço é que, conversando com o Dr. Sousa Martins, lhe dês a perceber que eu não sou o Sr. Verde, empregado no comércio. Eu não posso bem explicar-te, mas a tua muita amizade compreende os meus escrúpulos.'
(...) Compram-se, muitas vezes com amizade, moeda mais forte que o dólar, críticos que digam bem. Leva-se a este domínio íntimo o velho princípio dos contratos: do ut des. Louvamos os outros para que nos louvem a nós. Fazemos-lhes favores para que, no momento oportuno, no--los façam a nós. O leitor raramente repara. Chama-lhe a atenção, na página literária, o anúncio de um livro, volta a encontrar uma referência ao mesmo na secção de crítica, solicita-o uma entrevista que talvez o próprio autor tenha redigido e, mal se descuida, entra-lhe pelos olhos dentro a fotografia que aparece não se sabe bem a propósito de quê. Negociam-se comercialmente valores humanos que até aqui o pudor velava. A publicidade instala-se na própria consciência. Há o perigo de que o escritor, ao ouvir e ver tudo aquilo, se convença, tão longe foi a cadeia, de que não é ele que se está a adular a si próprio
Tomará como crítica válida para a delimitação da sua capacidade aquilo que, iludido, diz aos seus próprios ouvidos, como quem não quer a coisa. Assim se perde uma actividade nobre, que permite a correção dos defeitos e garante, em última análise, a evolução, o crescimento, condição de vida."

Ruy Belo, "Na Senda da Poesia", pp. 67-68, União Gráfica, 1969.

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"Lia Jorge Amado... Não admiro Jorge Amado. Da última vez que ele esteve em Lisboa tive a fraqueza de o conhecer e sabe o que ele me desejou?
- Diga lá, já agora.
Êxito, calcule. Não sabe como me ofendeu. Compreendi. Eu sei que, antes do lançamento de 'Dona Flor e seus dois maridos' Jorge Amado já tinha assegurados mil e quinhentos contos... Êxito, em vida, em Portugal?"

Ruy Belo, "Na Senda da Poesia", pp. 43-44, União Gráfica, 1969.

07/01/2020

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A VIAGEM, ENFIM


Isto de ter sempre o mesmo sonho todas as noites torna-se aborrecido.
Era assim: saía de casa, ia até ao carro e dizia à família «vamos lá fazer essa viagem». Primeiro entravam a mulher e as duas crianças, depois os pais, ele instalava-se ao volante e pronto, não havia lugar para os sogros! Era sempre a mesma coisa. Por mais que empurrassem, não conseguiam metê-los lá dentro.
Acordava a suar, empurrando ainda qualquer coisa que não estava lá.
A mulher aconselhou-lhe uns calmantes, para ver se o sonho se ia.
Mas nada. Lá vinha sempre, todas as noites. É verdade que empurrava menos, talvez os calmantes, mas continuava naquele desespero de não conseguir enfiar os sogros no carro alucinante.
Os sogros disseram-lhe que não se interessavam em ir, não faziam questão, já estavam velhos para viagens.
Os pais prontificaram-se a ceder os lugares deles.
Toda a família colaborava, mas o sonho continuava.
Chegou a fazer experiências, a meter a família completa no velho Citroën arrastadeira. E conseguia, lá se metiam todos, mais ao menos apertados mas entravam. Mas no sonho não.
A coisa tornava-se desesperante.
Porque é que não vais ao Mora? Ele é psicanalista, explica-te, tira-te isso – insistia a mulher, já arreliada, e preocupada também, com aquelas viagens nocturnas e frustradas em que ele se envolvia sem culpa.
O Mora era amigo de infância, nem sequer permitia que ele pagasse, era extraordinário! Às vezes até ia lá jantar.
E respondeu à mulher:
Tens razão, Xuxa, vou mesmo, que isto assim não pode ser. Tens sempre razão, menina.
Deu-lhe um beijo e atirou-se para o consultório do Mora. Contou tudo. O Mora mandou-lhe contar mais, o passado também, que sendo amigos de infância, o passado continua sempre oculto, ao que disse. Deitado, contou-lhe o que lhe veio à cabeça. E a coisa pareceu esclarecer-se. O que ele precisava era de derivar, sabem, encontrar qualquer coisa além do carro e da viagem que não fazia em sonhos. Derivar. Substituir o carro. Agradeceu e convidou o Mora para jantar no sábado. O Mora não podia e deu-lhe uma palmada nas costas.
Chegou a casa aliviado e esclareceu a Xuxa:
Vou derivar, menina.
Derivar?
Sim, substituir o carro e tudo o mais, excepto tu, as crianças, os velhos e a casa. Amo-te mas vou derivar.
Xuxa concordou. Desde que derivar resolvesse o caso, ele que derivasse quanto fosse preciso.
Nessa noite ainda teve o sonho e acordou estafado de tanto empurrar os sogros.
No dia seguinte avisou para o emprego que ia mais tarde, foi ao Banco buscar o que sobrava e entregou-se a uma moto, uma Rudge poderosa e em segunda mão. Estava a derivar em cheio.
O sonho foi-se diluindo. Cada vez empurrava menos, com grande satisfação da mulher.
Então, após ter passado um fim-de-semana a mexer na máquina para ver se percebia alguma coisa e a dar volta pela vizinhança de capacete preto e amarelo enfiado na cabeça, deixando o carro na garagem, sentiu-se livre.
E era verdade.
À noite não sonhou. No dia seguinte a Xuxa disse-lhe que até parecia dez anos antes.
Tudo voltou à normalidade, os sogros deixaram de se preocupar com a viagem, as crianças entusiasmaram-se com os estoiros da moto. E o carro na garagem.
E, de repente, tornou a sonhar. O sonho.
Assim: saiu de casa, foi até ao carro e disse à família «vamos lá fazer essa viagem». A mulher e as crianças entraram, depois os pais, e ele instalou-se ao volante. E não havia lugar para os sogros! Começaram a empurrar para os meter lá dentro, e nada. Então virou-se para a garagem. Estava um pouco diferente mas a moto continuava lá dentro. Deixou tudo, montou a moto, pôs o chapéu de palha e avançou pela estrada. Uma estrada larga, muito aberta a tudo. Pareceu-lhe já a ter visto alguma vez. Olhou para trás e lá ao longe, à porta da casa, continuavam a empurrar-lhe os sogros. Acenou uma despedida, acelerou e continuou, olhando árvores e nuvens.
Ainda não voltou.”


Mário-Henrique Leiria, “Contos do Gin-Tonic”, pp. 117-199, Editorial Estampa, 2. ª ed., 1976.

04/01/2020

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Seria um homem que caminhava à minha frente? Nos povos que vivem nus, tal como com os animais, a diferença entre os sexos é bem menos evidente que nos nossos climas. Nós acentuamos a fraqueza da mulher poupando-a a esforços, ou seja, às ocasiões de evolução, e moldamos a mulher segundo um padrão ideal de graciosidade.
No Taiti, o ar da floresta ou do mar fortifica todos os pulmões, alarga todos os ombros, todas as ancas, e o cascalho da praia não poupa nem homens nem mulheres. Estas fazem os mesmos trabalhos que eles e estes possuem a indolência delas: elas têm qualquer coisa de viril e eles algo de feminino. Essa semelhança entre os dois sexos facilita as relações, torna perfeitamente pura a nudez perpétua, eliminando dos costumes qualquer ideia de desconhecido, de privilégios misteriosos, imprevistos ou furtos felizes – todo aquele abandono sádico, todas aquelas cores vergonhosas e furtivas do amor junto dos civilizados.
Porquê essa atenuação das diferenças entre os dois sexos, que, nos «selvagens», fazendo do homem e da mulher tanto amigos como amantes, afasta deles a própria noção de vício, de súbito a evocava um velho civilizado, com o terrível prestígio do novo, do desconhecido?”
Paul Gauguin, “Noa-Noa – Estada em Taiti”, pp. 48-49, Publicações Europa-América, 1998. Trad. Jacqueline Medeiros.

31/12/2019

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Milão, 31 de Dezembro de 1937 Não se pode dormir com tanta gente lá fora, aos uivos, a festejar o ano novo. Como se fosse possível um ano novo ser melhor que o velho!
A grande força da vida é mesmo essa: a unidade. Com muita ciência e paciência lá se consegue contar num tronco, pelas camadas lenhosas, os anos da sua duração. Mas o que ninguém consegue ver naquele feixe de horas é a diferença de oscilação do cedro num dia de trovoada e num dia de sol calmo. Como o vento nivelador, o tempo passa por nós sem deixar covas. Quem se lembra das arritmias passadas, lembra-se de um quimera. Do grande calvário percorrido, não fica em nós senão o eco da monocórdica pancada do coração.
É claro que aqui o Sr. Baptistini do lado, negociante de botas, para quem o negócio correu mal estes 365 dias passados, bebe champagne na esperança de que se lhe tenha acabado o azar hoje e comece a vender muitas botas amanhã. O Senhor Baptistini.
Mas será possível que três ou quatro milhões de pessoas não vão além desse raciocínio rudimentar e utilitário do Senhor Baptistini?!

Miguel Torga, “Diário I”, pág. 55, 1941, Coimbra.

26/12/2019

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26 de Dezembro de 1891.
Leitor, bôas-festas! Abre-me um riso. Repara que te não vou pedir coisa nenhuma. De me aturares, fui-me deixando acometter d’uma certa benevolencia a teu respeito, e essa benevolencia é o maximo d’estima que por ti póde sentir um coração costumado sómente a desprezar. Sei que és hereditario cultor das virtudes simples de familia, e homem de ramerrão, professas a ternura religiosa das grandes datas do kalendario. As tuas robustíssimas espadoas não podiam ser soménte mólhes do porto d’ar onde o teu globulo rubro se renova, mas por força tambem os sustentaculos d’um mundo moral que te ajuda a luctar contra o destino, e que apezar de te fazer ás vezes ridiculo, nem por isso te apeia d’uma superioridade ideal que eu provavelmente nunca attingirei. Razão porque ha no meu desdém por ti, uma ponta de ciume, e porque a sarcastica mysantropia que me fechou a porta dos gozos simples que aligeiram a vida, em vez de me talhar em Jupiter, o que fez foi cavar-me de roda do espirito um fosso, que me sequestra de tudo, e nem ao menos me estanca a saudade do que me acostumei a desdenhar. Este desterro péza-me, confesso, porque eu sou essencialmente um animal de ninharia e convivência, nascido para ter côrte, para se rolar no luxo, e para acceitar sem surpreza que toda a gente faça excepções em meu favor.
Pódes imaginar portanto o que teria sido, n’esta immensa cidade de quatrocentos mil habitantes, e seis milhões d’egoismos, a minha vespera e dia de Natal, sósinho entre a alegria insultante de todos, repellido dos fócos d’amor patriarchal como um sem-familia perturbador das alegrias consanguineas, vendo as mais modestas casas de jantar illuminarem-se, as mais desataviadas salas abrirem-se, amigos e parentes felicitando-se, abraçando-se, sem antagonismos visiveis, esquecidos do struggle, e apaziguados todos pela banalidade jovial da vida intima – a vida modelada sobre os antigos textos da tradicção, com a igreja d’um lado, o escrivão de fazenda do outro, o policia de guarda, e o Diario de Noticias como encyclopedia e breviário.
Ah como eu tive inveja do saloio que parou o burro á porta d’uma mercearia da Bitesga, para comprar a duas duzias de brôas da consoada; do pobre engraixador da esquina, indo á praça com a mulher, de fato rico, apreçar um quarto de peru; da varina entrando na salchicharia, radiante, a comprar salchichas, ao fim de ter deposto a canastra á porta, rude presépe onde o filho loiro chuchava o dedo, com o ventre de sapo para o ar! Todas essas indoles de povo, roídas de penuria , vergadas de trabalho, primitivas, mas fecundas e convergentes, por uma fatalidade ancestral, á reedição das alegrias periodicas do anno, se me afiguraram infinitamente superiores á minha friavel indole de janota sceptico, demolindo no ar sem plano certo, negando pelo simples prazer do paradoxo, incapaz d’estabilidade n’um problema, constantemente á procura de novo, e em topo de colina voltando-se, desesperado de só ter achado gosto – ao que era velho. Oh meu pobre coração amortalhado de tristeza! diz como te dóe o isolamento a que uma intelligencia esteril te votou. Conta, não tenhas medo, conta que choraste lagrimas de remorso, quando da janella do teu albergue viste os tres pequenos do visinho preparando ao seu papá uma emboscada; e o pobre homem entrando, carregado d’embrulhos, e elles de se lhe atirarem p’ra cima, como feras, sedentos de curiosidade e de meiguices, quando já da pobre cosinha da casa o olor de cabidella os chamava para dentro, e os parentes pobres, convivas d’esse dia, as velhas em chita, os velhos em belbutina e saragoça, vinham dar ao seu parente rico, as bôas festas. Vê como sob o manejo d’uma mulher trabalhadeira, os trinta mil reis mensaes d’esse pobre empregado fazem milagres de riqueza, luzindo na cosinha alegre, na bata da mulher, nos bibes das creanças, e no desafogo honesto de todos esses focinhos felizes, que marcham para o futuro despreoccupados da morte, e acceitando a vida apenas pelo que ella é, o usofructo d’uma agregação temporaria de moleculas. Compara a virilidade hygienica d’essa vida de ninho, feita de trabalho, de methodo, de defensão reciproca e de coragem, com o dessasocego da tua vagabundagem deleteria «d’espririto superior», gestando universos sobre leituras de livros mal escriptos, e dyspepsias sobre menús chinfrins de restaurants, e diz-me depois se a crise de solidão moral que te alanceia, não é condigno premio da «vida ironica» que te quizeste dar, toiro com azas, n’uma epocha em que os toiros só podem ser superiores pelos chavelhos!
…… dia de Natal, eu que eu conheço toda a gente, não tive ninguém que me dissesse «anda jantar». Vinguei-me sahindo de casa, e engajando os primeiros va-nu-pieds eventuaes. Dois pobres do asylo, os uniformes sem nodoas, pouco bêbedos. Marchamos para o Augusto, e na sala commum, a uma de cujas mezas nos sentamos, houve reboliço por banda das meretrizes e irregulares que mais alegres do que eu, alli tinham ido fazer o seu jantar de festa, em partie fine. Não descrevo a comida, registando apenas o trabalho gasto em despersuadir os meus dois commensaes de não metterem no bolso os restos de cada prato do festim.
Á sobremesa, um d’elles, bebedo, como eu o fitava com uma piedade christã de filho prodigo confiou-me que estivera quatro annos n’Africa, por um roubo, e o conselheiro X. o mettera no asylo, havia sete mezes. O outro era um velhinho abahúlado, olhos de doido irónico, que fugiam, fallando pouco; mas todo o jantar suspeitei de scellerado, tanto os seus monosyllabos humildes, e os seus contínuos escrupulos de consciencia, lhe davam o ar d’um homem de bem. A despedida, o mais velho chamou-me conde, e o mais novo, doutor, sem acertarem, e lá foram cambaleando, a rogar pragas a quem lhes fizera o serviço de lhes metter no craneo a apoplexia. Pobres malandros! Deixai o meu egoismo abusar da vossa fome. Sem vós, eu não poderia dizer, como toda a gente: «Jantei hoje o natal com dois amigos velhos»."
Fialho d’Almeida, “Os Gatos – Vol. V”, pp. 33-37, 4.ª ed., Livraria Clássica Editora de A. M. Teixeira, Lisboa, 1921.

25/12/2019

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S. Martinho de Anta, Natal de 1940 O pragmatismo do camponês é o que nele de tudo mais me impressiona. A convicção com que se apega a uma semente, a um costume, a uma crença, ao contrário do que se diz, nada tem de obsecado. Só dura na medida em que a razão prática o aconselha.
Fui hoje com o meu Pai à Vila. A página tantas, passámos diante da capela de Santa-Cabeça, advogada da raiva.
Diz o velho:
– Benzeu-se ali muito pão…
E eu:
– E porque é que os senhores não continuam? Por que motivo, agora, em vez de broa benta, mandam dar injecções aos danados?
E ele, que foi ao fundo da minha insinuação:
– Enquanto não se descobria coisa melhor, que remédio tinha a gente senão agarrar-se ao que havia!...

Miguel Torga, “Diário I”, pág. 179, 1941, Coimbra.

20/12/2019

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RAPHAEL

Quando Juvêncio apareceu
Mascava uma raiz de pobreza coisa que serve!
E cuspia dentro de casa o amargo em nós.

Na trouxa
Trouxe Raphael.

Raphael não era o pintor
Nem o anjo de Raphael.

Ponhamos que fosse um anjo
O anjo de sua mãe.

Petrônia descia lavandeira
Pro corgo.
Juvêncio curava gado bicheiras
Raphael era um pouquinho miserável
Tal como a sua idade o permitia.

À noite vinha uma cobra diz-que
Botava o rabo na boca do anjo
E mamava no peito de Petrônia.

Juvêncio acariciava o ofídio
Pensando fossem os braços roliços da mulher.
Petrônia tinha estremecimentos doces
Bem bom.

Cenário de luar. Segundo ato.
Papagaio louro de bico dourado estava com fome
Desceu das folhas verdes
Ou verdes folhas conforme apreciais melhor
E começou a roer um naco
Um naco da testinha tenra
De Raphael.

Havia estrelas no céu
Suficientes para o poeta mais de romântico possível
E eu poderia colocar outras peças
Muitas, além de estrelas. Porém.
Sou um pobre narrador menso
Fosse isto uma Grécia de Péricles, não vê

Que deixava passar este canto
Sem de hexâmetros entrar!

Mandava vir cítaras e eólicas harpas
Convocava
Anjos de bundas redondas e troços do fundo do mar.
Porém.

De resto
Juvêncio não é um herói
Raphael não tem mãe Clitemnestra
E nenhuma cidade disputará a glória de me haver dado à luz.
Falo da vida de um menino do mato sem importância.
Isto não tem importância.

Manoel de Barros, "Poemas Concebidos Sem Pecado" in "Poesia Completa", pp. 35-37, Editorial Caminho, 2010.

15/12/2019

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Nós, Latinos, precisamos acompanhar o movimento do cérebro com o movimento das mãos, que sublinha e ampara o pensamento.
O Inglês não faz um gesto quando fala, e ao começar o seu discurso segura com ambas as mãos a gola do casaco, como que a estrangular a voz; o Latino estende os braços e as mãos, não à súplica, mas para dar mais fôlego ao peito e como que para desimpedir, desafogar o coração.”

M. Teixeira-Gomes, “2.ª Parte de Miscelânea – Carnaval Literário”, pp. 30-31, Livraria Bertrand, 3.ª ed., 1993.

13/12/2019

08/12/2019

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Coimbra, 8 de Dezembro de 1933 Médico. Conforme a tradição, mal o bedel disse que sim, que os lentes consentiam que eu receitasse clisteres à humanidade, conhecidos e desconhecidos rasgaram-me da cabeça aos pés. Só deixaram a capa. E aí vim eu pelas ruas fora o mais chegado possível à minha própria realidade: um homem nu, envolto em três metros de negrura, varado de lado a lado por um terror fundo que não diz donde vem nem para onde vai.

Miguel Torga, “Diário I”, pág. 11, 1941, Coimbra.

03/12/2019

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Coimbra, 3 de Dezembro de 1937 Por mais que faça, não faço nada. Enrodilho-me como as cobras nas matas, sofro, mordo se alguém me toca, e assobio de vez em quando uma ária que ninguém ouve. É de mim, é dos outros, é dos tempos que vão correndo. Mas hei-de morrer assim.
Tenho cá uma fé comigo que ainda há-de aparecer na minha vida alguém que me conte esta história do Erico Veríssimo:
– Filho. Sabe da história do pirú? La gente risca com giz um circolo in torno do pirú. E o cretino do pirú crede que está prêso. – Guarda… la vita é bela, il mondo te chiama. Salta o risco de giz, no seja come o pirú!

Miguel Torga, “Diário I”, pág. 48, 1941, Coimbra.

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LIVRE, CRISTÃ E OCIDENTAL

“A Galeria Bernardette fazia um negócio excelente e o senhor Balakian tinha todas as razões para estar satisfeito. Era raro o dia em que não vendia uma meia dúzia de fruta, quase sempre dos mais procurados autores. Nesse mesmo momento acabava de vender uma lindíssima banana com a assinatura de Tibor Gayo. Uma banana Gayo realmente excepcional, com aquele alegre colorido tão poderosamente abstracto que caracterizava toda a fruta do artista.
A verdade é que a melhor sociedade, todos os apreciadores da capital eram seus clientes. Com frequência se ouviam comentários encomiásticos às magníficas frutas dos jantares mais apurados. Um banqueiro tinha que resolver grave problema de finança e era certo e sabido: no fim do repasto surgia a fruta com excelentes assinaturas. Com o ministro o mesmo: embaixador presente à mesa e pronto, lá estavam duas ou três pêras Capristano, naquele estilo forte e seguro do pintor. Realmente Capristano era caro mas ninguém discutia o preço. Valia e vendia-se bem.
Pois se ainda há dias me dizia o doutor Lesoto, o conhecido crítico:
Meu caro, ontem, em casa do Gualtério, havia uma maçã e dois abrunhos de Júlia Jardim que eram um regalo. Do melhor que conheço, estou-lhe a dizer. E tão maduros! Uma delícia.
Então aconteceu o inesperado. Estava o senhor Balakian a polir uma pêra Terensky quando lhe entra pela Galeria uma alta patente do exército, da Casa Militar do Ducado. Explicou ao que vinha, com exactidão militar. Sua Excelência dava, no dia seguinte, uma pequena recepção a uma delegação de deputados em visita ao país. Muito bem. Sua Excelência necessitava de uma série de obras para a sobremesa, das mais reputadas. Eram sessenta talheres. Logo, no mínimo seriam sessenta peças escolhidas. O preço não interessava, era só o senhor Balakian apresentar a conta ao erário. Posto isto, o marechal retirou-se avisando que mandaria pela fruta no dia seguinte, às seis da tarde.
O senhor Balakian ficou tremendamente preocupado. Nunca tinha grande acervo, não se podia conservar excessivamente a maioria das obras, sorvavam com enorme rapidez, era capital perdido. Deu um balanço ao que havia. Uma maçã e duas pêras Capristano, do melhor estilo, sóbrias e profundas. Sete bananas Tibor Gayo, ultimamente a procura de banana baixara um pouco. Um ananás realmente extraordinário de Ferdinand, de um colorido assombroso nos múltiplos losangos. Meia dúzia de ameixas sortidas, com a alegria de Júlia Jardim, a imaginação metafísica de Carlos Clarete e a dignidade antiga de Mestre Rovira. Três melões casca de carvalho com motivos folclóricos e não assinados, coisa própria para estrangeiros e, finalmente, uma pêra e três laranjas de Terensky, fulgurantes de abstracção. Feitas as contas, eram vinte e uma obras, embora pudesse considerar o ananás e os melões como obras não unitárias. Bem vista as coisas, digamos que podiam corresponder a quarenta talheres. Era o diabo, os convivas eram sessenta, conforme informara o marechal da Casa Militar. Uma encrenca, essas coisas não podiam ser feitas assim de repente, arreliava-se o senhor Balakian. Passou a tarde a telefonar para os artistas mais conceituados, mas nada. Uns não tinham tempo, outros faltava-lhe a fruta apropriada, outros ainda estavam ocupados com peças de grande porte, como abóboras. De factura exigente e demorada.
À noite, desesperado, mandou.me um recado de aflição pela Remualda da caixa que aparece umas vezes por outras cá em casa. Pensei um pouco, disse à Remualda que se pusesse à vontade que eu não me demorava e atirei-me para o telefone do PRAXIS, logo ali em frente. Enquanto sorvia um gin, liguei para o Militão Cuba, sabem, que vive em Balmoral. Ora, como também sabem com certeza, Balmoral é uma vila famosa pelos fenómenos constantes: já deu um nabo de sete quilos, um pianista búlgaro de dezoito meses e um frango com três pernas, isto que me lembre agora.
O Militão estava em casa e disse-me, eficaz como sempre, que lhe parecia poder solucionar a coisa. Eu que lhe aparecesse por lá logo de manhã e então se veria. Não quis explicar mais nada.
Passei a noite preocupado, embora não muito e, mal foi dia, corria à Galeria a comunicar o facto ao senhor Balakian. Aporrinhado como estava, viu ali a salvação e disse-me que usasse o seu helicóptero, para ser mais rápido.
Às onze e meia estava de volta. O Militão arranjara tudo, com o mais recente fenómeno de Balmoral: uma tremenda melancia de vinte quilos, de um verde radioso! Uma superfície ideal para a pintura paisagística, uma abundância excelente para os convivas que restavam.
Mas havia que acabar a obra. Tinha de ser rápido. O senhor Balakian, já de certa idade e com aquela complicação às costas, não tinha cabeça para nada. Lembrei-lhe o Fujimoto, no seu clássico paisagismo asiático, rápido na execução. Era o indicado, se estivesse livre. Isso mesmo, o Fujimoto, concordou o senhor Balakian e cedeu-me o carro, logo ali, para me atirar ao assunto.
Fui e vim em meia hora, numa loucura de volante, com Fujimoto, as seringas de Pravaz, os pincéis fininhos e as lacas apropriadas. Prometemos-lhe tudo e pusemo-lo numa azáfama criadora.
Ao quarto para as seis a paisagem oriental, exacta, delicada, de suave colorido, envolvia a enorme esfera verde. Na verdade, um dos melhores Fujimoto que me fora dado ver, se não o melhor.
Às seis a fruta era entregue ao enviado especial da Casa Militar.
Dias depois o senhor Balakian recebia do erário o cheque magnânimo e, cerca de um mês após a recepção, Sua Excelência agraciava-o com o colar do Mérito Agrícola Cultural. A melancia fora um êxito completo, o país saíra-se airosamente, com elogios unânimes dos deputados estrangeiros maravilhados.
Quanto a mim, recebi três nêsperas que o senhor Balakian me ofereceu com eterna gratidão. Três nêsperas excepcionais, devo dizer, com originalíssimas colagens do Senegal Júnior.
Souberam-me muito bem.”

Mário-Henrique Leiria, “Contos do Gin-Tonic”, pp. 15-18, Editorial Estampa, 2. ª ed., 1976.

02/12/2019

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Para uma pequena filosofia do Natal
Ao separar a correspondência, o carteiro encontrou várias cartas dirigidas ao Pai Natal. Como não tinham endereço, ficaram por distribuir. Desejos não endereçados não chegam ao céu!
Resolveu fazer Natal todo o ano. Quando o trataram de maluco, perguntou-respondeu candidamente: – Então o pinheiro não é árvore sempre verde?
Encontrou no sapatinho uma guilhotina de brinquedo.
À porta da loja de brinquedos, o Pai Natal já não podia com o frio. Um senhor teve pena dele e pagou-lhe um copo num bar vizinho.
Proposta (rejeitada) de um vereador amigo da natureza: fazer árvores de Natal nos pinhais (com pinheiros não cortados, evidentemente).
Todos os lugares deveriam ser santos no Natal.
Pelo Natal, um pequeno industrial arruinado decidiu relançar o seu talco invendável sob uma nova marca: NATALCO. «Mas é a pior altura do ano para se vender talco!», disse-lhe um amigo. «Não. É agora que os armazenistas fazem os seus estoques de Verão»», respondeu-lhe o industrial. E cada um parecia muito seguro do que afirmara. Eu pensava nos refegos dos bebés…
O mais triste do após-Natal: pinheirinhos, às portas das casas, como adereços imprestáveis.
Estão à espera de uma graça sobre o Natal e a gasolina, não estão? Então esperem…
– Que tens tu?
– Nada. É Natal.”


Alexandre O’Neill. In “Capital”, 20 de Dezembro de 1973.

13/11/2019

Livraria Edições 50kg...


No dia 29 deste mês de Novembro, na rua de Faria Guimarães no número 137, abro no Porto uma livraria alfarrabista. Na realidade é uma espécie de três em um. Porque, no mesmo local, além da livraria, também inauguro uma oficina de encadernação e restauro de livros, e a nova casa das edições tipográficas 50kg. Gostaria de contar convosco na inauguração, haverá um lanche e um beberete por volta das 17h00. Marquem já nas vossas agendas e apareçam para vos mostrar este novo espaço. Um abraço do Rui Azevedo Ribeiro. 

Horário: de Terça-feira a Sábado das 10h00-13h30 e das 14h30-19h00. 


Ferro...


03/11/2019

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QUESTÃO DE TERRAS


Quando o Ricardo Romarigues me convidou simpàticamente para ir passar o fim de semana lá na herdade, fiquei um pouco desconfiado.
Tinham-me contado que havia querela entre ele e o doutor Estêvão Brás Tramagal, tudo por causa de uma outra herdade, a herdade da Argola, que Ricardo tinha de antiga e que o doutor Tramagal afirmava ser proprietário por ocupação e cultivo. Dizia-se até que o doutor contratara malteses sólidos para lhe defenderem a causa. Coisas de terras, não é?
Mas acabei indo, na minha bicicleta.
Ao entardecer, quando estávamos de conversa, tendo ao alcance das mãos magníficas canecas de vinho esquentado à lareira e mastigando, com saborear lento, excelentes rodelas de paio e pão trigal, estrugiu o ruído inesperado lá fora. Corri à janela, espalmei o tabuado contra a parede que olhava o espaço.
E vi.
Através da terra larga avançava uma matula de porrete em punho, bigodes antigos, ar de mundo já esquecido.
Pisavam duramente e berravam em conjunto:
Argola é nossa. Argola é nossa. Viva Tramagal!
Pausa. Novo berro colectivo:
Argola é nossa. Argola é nossa. Viva Tramagal!
Era a briga.
Não tinha nada a ver com aquilo. Fechei o tabuado o melhor que podia, puxei as calças que me escorregavam embirrativamente e declarei ao Ricardo que, embasbacado, parecia não acreditar no berro que chegava:
Olha, aguenta-te.
Corri às traseiras, montei a bicicleta e aqui estou.
Coisas.”



Mário-Henrique Leiria, “Contos do Gin-Tonic”, pp. 147-148, Editorial Estampa, 2. ª ed., 1976.

23/10/2019

A stand up comedy dos novos filósofos...

"Então, que mentalidade mais realista podemos levar connosco para um casamento? Que tipo de votos precisaremos de trocar com o nosso parceiro para estabelecermos boas hipóteses de fidelidade mútua? Certamente que alguma coisa muito mais cautelosa e pessimista do que as banalidades do costume. Por exemplo: prometo desiludir-me contigo e só contigo; prometo fazer de ti o único repositório dos meus pesares, em vez de os distribuir por vários casos extraconjugais e por uma vida de D. Juanismo sexual; analisei as diferentes opções para ser infeliz e foi contigo que escolhi comprometer-me. É este o tipo de promessas generosamente pessimistas e gentilmente pouco românticas que os casais deviam fazer no altar.
A partir daí, um caso amoroso seria uma infidelidade somente à jura recíproca de se ficar desiludido de uma determinada forma e não uma esperança irrealista. Os cônjuges traídos já não se queixariam furiosamente de que esperavam que o parceiro fosse feliz com eles 'per se'. Em vez disso, poderiam gritar incisiva e justamente: "confiava que serias leal à variedade específica de desilusões que eu represento. ""

Alain Botton, "Como Pensar Mais Sobre Sexo", pág. 137. Expresso, 2019.

18/10/2019

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Tive de regressar a França. Deveres imperiosos de família chamavam-me.
Adeus, terra hospitaleira, terra deliciosa, pátria de liberdade e de beleza! Parto com mais dois anos, rejuvenescido vinte, mais bárbaro também do que à chegada e no entanto mais culto. Sim, os selvagens ensinaram-me muitas coisas, aqueles ignorantes, sobre a ciência de viver e a arte de ser feliz.
Quando deixei o cais, no momento de me fazer ao mar, olhei para Teura pela última vez. Tinha chorado durante várias noites. Agora, cansada e sempre triste mas calma, estava sentada sobre a pedra, com as pernas balouçando, tocando na água salgada com os seus pés grandes e sólidos. A flor que antes trazia atrás da orelha tinha-lhe caído sobre os joelhos, murcha.
Espaçadas, outras como ela olhavam, fatigadas, mudas, sem pensamentos, o pesado fumo do navio que nos levava a todos, amantes de um dia. E a ponte do navio, com os binóculos, durante muito tempo pareceu-nos ler nos seus lábios este velho discurso maori:
«Vós, brisas ligeiras do sul e do leste, que vos juntais para brincar e acariciar os meus cabelos, corram depressa para outra ilha: aí encontrareis aquele que me abandonou, sentado à sombra da sua árvore favorita. Digam-lhe que me viram chorar.»
PAUL GAUGUIN
1898”

Paul Gauguin, “Noa-Noa – Estada em Taiti”, pp. 115-116, Publicações Europa-América, 1998. Trad. Jacqueline Medeiros.

14/10/2019

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JULGAMENTO DEFINITIVO




O julgamento chegara ao fim.

O Juiz levantou-se, colocou a touca de pompons e encarou a assistência.

O silêncio era total quando o preboste tocou a corneta.

Todos se levantaram numa unanimidade respeitosa, enquanto o escrivão disparava os dois tiros da praxe.

A pequena porta à esquerda da tribuna abriu-se e os acusados entraram, acompanhados pelas vivandeiras e pelos carregadores habituais.

O coro, na varanda, entoou os primeiros acordes do hino e o decano dos archeiros perfilou-se e içou a bandeira.

Ia processar-se a leitura da sentença.

O Juiz estendeu o documento ao boticário de serviço nocturno que fora chamado especialmente.

A acusação descritiva foi lida em primeiro lugar, para descrever a acusação apresentada a favor dos acusados pela Comissão de Inquérito.

Os três réus eram elogiados sob reserva por, em local algures, terem exterminado trinta e sete crianças avulsas, setenta e duas mulheres em movimento recalcitrante, onze velhos não autenticados e sete cabras suspeitas de espionagem comercial, embora o óbito destas últimas não tivesse sido confirmado pela Comissão de Inquérito. Também lhes era atribuído o incêndio de três aldeias não localizáveis e de duas cadeiras Luís XV já localizadas, se bem que sem número de catálogo.

O preboste tocou a corneta e o escrivão, em sentido, disparou o tiro da praxe.

Ia ser lida a decisão final.

Os acusados viraram-se para o Juiz.

As vivandeiras viraram-se para os acusados.

Os carregadores viraram-se uns para os outros.

O Juiz tirou a touca de pompons, pôs o chapéu das circunstâncias sentenciosas e virou-se para o boticário.

O boticário prosseguiu a leitura do documento.

Verificados os acontecimentos e sendo os mesmos louvados por unanimidade, os acusados sofriam os seguintes benefícios:

O primeiro acusado, de boné grande (vinte e uma crianças, trinta e seis mulheres, sete velhos, duas aldeias), recebia medalha de ouro.

O segundo acusado, de boné pequeno (dez crianças, vinte e nove mulheres, três velhos, uma aldeia), recebia medalha de prata.

O terceiro acusado, sem boné (seis crianças, seis mulheres, um velho, nenhuma aldeia mas duas cadeiras), tinha direito a medalha de bronze.

A assistência irrompeu em aplausos frenéticos, com preferência evidente para o segundo acusado, que era da terra.

O boticário enrolou o documento e devolveu-o ao Juiz que o entregou ao Depositário de Secos e Molhados.

O preboste tocou a corneta e o escrivão, atento, deu os três tiros da praxe.

As vivandeira beijaram os acusados.

Os carregadores beijaram o boticário.

Todos se sentaram.

Os acusados subiram ao podium e saudaram a assistência, em sentido e sem rir.

O coro, na varanda, entoou os últimos acordes do hino.

À noite, depois da marcha triunfal, houve um cocktail Molotov comemorativo, no Palácio dos Jogos Fenianos, com a presença de todas as altas personalidades do Condado.

Dizia o Juiz aos três homenageados «ainda não lhes contei a última do Reboredo» quando o mundo explodiu.”




Mário-Henrique Leiria, “Contos do Gin-Tonic”, pp. 47-49, Editorial Estampa, 2. ª ed., 1976.