07/08/2020

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Gerês, 7 de Agosto de 1949 – Nada poderá escandalizar tanto o homem médio de hoje, o burguês que se considera, e é, a trave mestra do presente edifício social, do que a afirmação de que será precisamente ele o coveiro dessa caricatura a que chama a civilização cristã. E, contudo, os factos falam por si. Embora cada época se queixe de que em nenhuma outra a degradação chegou a tal ponto, a verdade é que nunca, como agora, uma classe justificou tão completamente o seu fim. Pode-se dar a prova disso de todas as maneiras, mas é talvez na literatura que o caso se apresenta com maior evidência. Enquanto que no romantismo, por exemplo, o espírito era centrípeto, o poeta polarizando, com consciência própria e alheia, o clima moral e intelectual da sociedade em que vivia – um Byron a empolgar a Europa inteira e a ser a sua expressão –, nos nossos dias pode Sartre dizer mil verdades, que toda a gente se negará a reconhecer-se no que ele escreve, a confessar que é assim negra e porca a sua vida. Uma grande, uma trágica onda de mistificação tolda a realidade do nosso tempo. E o indivíduo – o médico, o advogado, o negociante, o funcionário – que tem a alma suja de mil cobardias, de mil aberrações e de mil compromissos, nega-se a reconhecê-lo, a ver n’O Muro a fotografia da sua inconfessada impotência ou secreta devassidão. O espírito deixou de ser um guia e um freio. Na medida em que o seu cristal é um espelho e uma acusação, desvia-se dele o rosto ou quebra-se. Todos querem navegar de luzes apagadas. O contrabando da vida faz-se na escuridão.
Enquanto o homem é capaz de se reconhecer nos próprios erros, o mal não é grave. A tragédia começa quando ele, relapso nos vícios e perversões, em consciência se considera um monumento de dignidade e permanência.
Então, Roma tem os dias contados, e o jogo vai começar de novo.”

Miguel Torga, “Diário V” 2ª ed. Revista, pp. 36-37, Coimbra Editora, 1955.

06/08/2020

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Troia e as areias brancas, invasoras, palhetadas de mica, avançando a estrangular o corredor d’entrada dos navios, e para além de Troia o mar intermino, com gargalha d’espuma em pelotões sobre os brancos d’areia afogados na agua viva, o mar risonho, o mar supremo, com seus mosqueios de chispas causticas, listras claras zebrando-lhe o azul ventre de carpa, e aquelles fundos d’azul pallido, que ao achegarem-se á rocha vem cambiando até ao verde ultramarino. Abaixo de cada ravina ou convulsão violenta das barreiras, um portinho doce, alcatifado de branco, cheio de conchas e algas, onde romanescos saveiros se balançam: – e um tal silencio, um socego, que as mesmas gaivotas caminham com o acento circumflexo das azas, á procura d’uma exclamação mais alta, p’ra velarem…”
Fialho d’Almeida, “Os Gatos – Vol. V”, pp. 12-13, 4.ª ed., Livraria Clássica Editora de A. M. Teixeira, Lisboa, 1921.


14/07/2020

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Leiria, 14 de Julho de 1939 Tenho a impressão de que sequei por dentro. Leio, leio, leio, mas não escrevo coisa com coisa. De resto, de que vale escrever estas porcarias que eu escrevo, se por vinte escudos tenho aqui Charles Morgan à cabeceira?!

Miguel Torga, “Diário I”, pág. 99, 1941, Coimbra.

12/07/2020

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Durante o confinamento a leitura e releitura da Peregrinação e da História Trágico-Marītima foi uma alegria...


11/07/2020

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"Desde o início, os guerreiros de elite dependiam de ligações a Quioto que requeriam um certo grau de alfabetização cultural. Durante o período de Kamakura, um número significativo de xoguns provinha de famílias nobres de Quioto, sem qualquer identidade militar propriamente dita. Os regimes de guerreiros de Kamakura e depois de Quioto, bem como pequenos governos locais, procuravam talentos entre as famílias nobres de grau intermédio. Assim, não era de admirar que os guerreiros literatos de elite participassem e protegessem a arte nas suas inúmeras formas - desde coleccionar arte e escrever poesia à fundação de templos e imagens budistas e à criação de obras de arte religiosas. A cidade de Kamakura tinha até o seu próprio sistema de templos budistas Zen que reproduziam o de Kyoto.
Para guerreiros com ambições a títulos associados à corte, escrever era essencial para interagir com a nobreza de elite e com o clero. Contudo, não devemos pensar na poesia no sentido moderno do termo: como uma actividade de lazer, um passatempo sem outra função que não fosse tecer comentários sobre a sociedade contemporânea. A poesia, no Japão pré-moderno, podia ser usada para comentar acontecimentos correntes, mas, mais importante que isso, a poesia demonstrava o próprio conhecimento da literatura chinesa e japonesa. Escrever bem, em termos de conteúdo e de forma - a caligrafia também interessa -, era um meio de os nobres de Quioto ascenderem profissionalmente. O monje Jien trocava poesias com Yoritomo, o que deu origem a uma relação mutuamente benéfica; Jien precisava de garantir direitos para as suas terras, e Yoritomo queria obter informações através dele. As pessoas também escreviam poesia juntas, como uma actividade social, associando poemas entre si; um cavaleiro de elite podia ser exposto à humilhação pública se não conseguisse escrever devidamente."

Michael Wert, Samurais - Uma história concisa, pp. 66-67, Esfera dos Livros, Lx, 2020.

09/07/2020

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Coimbra, 9 de Julho de 1949 –Em conversas com um amigo, discutimos esta manhã se a táctica que nos resta não será enveredar pela solução do século XVIII. Livros sem nome de autor, impressos clandestinamente
Mas o anonimato meteu-me sempre confusão. Sou um homem directo, de jogo franco, descoberto, amigo de pegar o toiro pelos cornos. Além disso tenho da arte uma ideia individualista, cada pedra da catedral marcada com a sigla do pedreiro que a lavrou.
É claro que, em última análise, votarei pela catedral contra a assinatura do canteiro…
Todas as catacumbas são legítimas.”

Miguel Torga, “Diário V” 2ª ed. Revista, pág. 33, Coimbra Editora, 1955.

04/07/2020

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Coimbra, 4 de Julho de 1949 – Fazer uma literatura o mais perto possível da clandestinidade, mas publicável, é a única esperança de salvação que resta ao artista. Em guerra com o presente, mas impressa nele, a sua obra poderá ter certa grandeza. Mesmo que não consiga os louros que se dão aos puros guerrilheiros, que se coroam, mas que se desarmam, talvez conquiste a simpatia que se dá a quem renega o seu tempo, nem o quer vender ao futuro.”

Miguel Torga, “Diário V” 2ª ed. Revista, pág. 31, Coimbra Editora, 1955.

27/06/2020

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"PAPOS E MILONGAS

DIZIA UM
Meu lunfa, lalau azarado está aqui. Fiz um otário com cinco giripócas, dois enforcados e um abobrão; depois mandei a chuca de uma coroa, que só tinha uns picholés, mas um James Bond estava na minha cola e, quando eu quis fazer o esquinaço, fui guindado. O tiruncho me tacou o bracelete e eu fui falar com o majurengo. Positão. Entrei no flagra. O papa-gente, na metralhadora, era uma coisa.
Resultado: Águas de Carandiru, meu irmão da ôpa.

DIZIA O OUTRO
Tu és um vagau pé de chinelo. O bonzão aqui, só mete a mão em combuca, por um pororó leguete; nem sou do espianto, nem do escruncho, nem do atraque. Meu negócio é tomar na maciota. Sou vigário linha da frente, meu chapa.
Os estácios entram na minha, fácil, fácil. O meu pla é gostoso. E até hoje não caí do cavalo.
Manja essa. Larguei o violino na mão do judeu do brexó, que me passou às mães, um arame firme; depois deixei a guitarra com o portuga do buraco quente, que abonou o papai com mil cruzeirão.
Como tu vê, tou largando a minha brasa, na praça, e não vou entrar, caindo do burro.
Para mim, na tiragem só dá ôlho de vidro.

E O OUTRO
Pois eu, meu chaporeba, sou da marijuana. Fatura horrores ali no lixão. Numa só pavuna eu marreto vários pacáus, e cada fininho vale um Santos Dumont. Os tiras estão sempre de olofotes, mas o vivaldino tem vagólio na campana.
Até hoje, só puxei uma, na casa do cão. Foi quando a Excelência me tacou três anos de galera e dois de medida.
Mas agora estou na libertina e o negócio é levantar uma nota traficando a xibaba e, se os cherloques meterem uma escama em cima, tá na cara; um vai amanhecer com a bôca cheia de formiga.
Morou?
Ziriguidum pra você.

O OUTRO AINDA
Estás por fora, ó ligação. Vou salivar. Cruzei com uma mina e quase entrei de gaiato.
Apanhei meu pé de borracha e fui sassaricar pela aí. Tirei linha com uma ragaza e ela gamou na hora. Se mandamos pro esquisito. O hotel das estrêlas tava legal às pampas. Bitoca vai, bitoca vem, tu já se mancou, né? Mas na hora da onça beber água, lá se vem os mega de cara comprida. Positório. Partimos pruma candonga, que não foi bolinho, não. No meio da confusa a muxaxa deu o pirolito e o vagolino aqui, teve de se rebolar, porque os cavaleiros da meganha entraram firmes de rabo de galo.
A dança de rato engrossou. Dei uma na tampa do milico, que o escamoso ainda está rodando; depois me arranquei no caranguejo e recebi uma chuva de azeitonas quentes; quase me queimaram as antenas.
Meu liga, enfrentar a raça não é mole, não.

DEPOIS O OUTRO
Vê se te manca, ó migué. Pra mim êsse papo é furado. Se quiseres um papo firme, mora na minha: Eu já puxei um môfo. Já fui, várias vezes cidadão Carandiru. Nunca fui da moleza. Meu negócio era tomar na marra, e nunca dei arrêglo a tira ravêsso. Já topei cada dança de rato de fechar o tempo. Arribite estourou na minha telha que nem pipocas no tacho. Quase me vestiram o camisolão.
Mas hoje tou no cachimbo da paz. Tou limpo com os homens. Dou um duro lavando cavalo cego, pra dar uma papa de bom pra minha cachanga e os cagasebo.
Larguei mão de ser vago-mestre. Pendurei as chuteiras."

Felisbelo da Silva, "Dicionário de Gíria dos Marginais". Editora Prelúdio, São Paulo, s/d.

25/05/2020

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Coimbra, 25 de Maio de 1949 – O Marquês de Sade. Um calafrio que só as leituras proibidas dão. A gente volta cada página arrepiado, com a sensação de que está a meter a alma no Inferno. E é essa inquietação que todos os livros deveriam provocar. Uma incerteza, um pavor crescente, um medo de cada vírgula. A segurança burguesa de que as suas leituras foram prèviamente policiadas, e de que tudo o que soletra é castílhico, canónico, arcádico, só pode degradar o espírito. O homem necessita do pecado para viver, como de especiarias para comer. Julgo mesmo que o futuro se esforçará por contrariar cada vez mais a sonolência beócia das páginas cor-de-rosa. Em lugar de pudins, livros com dinamite dentro.
Sade. Nunca lhe tinha posto a vista em cima, e li-o com a emoção dum garoto que está a roubar peras num quintal. Quanto à pornografia, há comunicados oficiais piores.”

Miguel Torga, “Diário V” 2ª ed. Revista, pág. 22, Coimbra Editora, 1955.

19/05/2020

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Coimbra, 19 de Maio de 1949 – Cansado. Não de escrever, nem de lutar, mas de correr atrás do cão que manqueja. Passa-se a vida a desfazer teias de aranha. Por detrás de cada resistência não está nada.”

Miguel Torga, “Diário V” 2ª ed. Revista, pág. 18, Coimbra Editora, 1955.

18/05/2020

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Coimbra, 18 de Maio de 1945 Não há palavras para deixar testemunho de certas dores e certas humilhações. Por mais que se imagine, não se pode fazer ideia do que seria a vergonha dos filhos de certas épocas, ofendidos na dignidade de homens e cidadãos. Quando o futuro quiser saber o que se passou neste tempo, a História há-de dizer coisas de arrepiar os cabelos. Matanças, campos de concentração, o espesinhamento metódico de tudo quanto era limpo e tinha uma significação luminosa. Mas nada disto dará uma pálida ideia do que foi a tragédia de viver agora. Um escarro na cara não tem expressão. Sente-se.

Miguel Torga, “Diário III”, pág. 96, 1954, Coimbra.

05/05/2020

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Lisboa, 5 de Maio de 1944 No Jardim Zoológico. Um leão magnífico no cio, e duas leoas, uma absolutamente em menopausa, e outra ainda válida mas inapetente. E então foi a coisa mais espantosa que se pode imaginar: aquela força maciça e soberana, irresistível, a gemer humilhada diante duma fêmea desdenhosa. Os músculos queriam ter firmeza, mas amoleciam; a juba queria ter divindade, mas iriçava-se de despeito; o rugido queria ser trovão, e acabava num ronco libidinoso e pedinte. E no meio desta caricatura aparecia o sexo, vicioso, pornográfico, inútil e repugnante como qualquer dos pedaços de carne da alimentação, desprezados pelo chão da jaula.
De olhos fitos no leão, o meu instinto de animal menos poderoso acompanhou com ânsia durante largo tempo aquela degradação. E ou fosse cansaço, ou real entendimento do que significava o meu triunfo, o que é verdade é que o leão chegou-se a um canto, deitou-se, e, como que envergonhado de mim, escondeu a cabeça.
Haverá na natureza o sentido do ridículo como em nós?

Miguel Torga, “Diário III”, pp 36-37, 1954, Coimbra.

22/04/2020

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Coimbra, 22 de Abril de 1949 – O homem citadino não consegue continuadores. O político julga-se insubstituível; o literato cuida que depois dele ninguém mais saberá escrever; o industrial pensa que o seu génio empreendedor estancou as fontes da habilidade comercial.
Só o camponês deixa herdeiros. Exactamente porque nenhum homem da terra se considera excepção, pode ensinar naturalmente ao filho todas as aquisições da sua experiência, e torná-lo um igual e um sucessor.”

Miguel Torga, “Diário V” 2ª ed. Revista, pág. 13, Coimbra Editora, 1955.

31/03/2020

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"Quase todos os viajantes que no século XVIII escreveram sobre os costumes em Portugal mencionam a natural familiaridade dos portugueses - e das portuguesas em especial - com os piolhos. Talvez a estranheza manifestada provenha mais da 'catança' que todos faziam sem qualquer rebuço ou ocultação do que propriamente da existência desses parasitas nas cabeças de homens, mulheres e crianças. Ora tal profusão desses insectos não era exclusiva dos portugueses. No que respeitava à nobreza e à burguesia ela provinha do uso das cabeleiras nos homens e dos penteados nas mulheres, e em toda a Europa se usavam cabeleiras e tais penteados, certamente com os mesmos riscos. As cabeleiras eram caras e quem as podia ter em número suficiente para as substituir, a fim de serem tratadas, acumulava as condições de criação dos insectos; os penteados das mulheres, pela quantidade de polvilhos, de pomadas e de postiços, penteados que se não desmanchavam todas as noites, cabeleiras que se não lavavam, faziam de cada cabeça um caldo de cultura. Por isso o italiano Vittorelli escrevia satiricamente: "A senhora alimenta no seu topete um batalhão secreto e é tal a quantidade de habitantes que muitos se tornam cavaleiros andantes." Portanto, o que acontecia aos portugueses da nobreza e da burguesia era o que, em maior ou menor escala, sucedia em toda a Europa e especialmente nos países do Sul, mais quentes.
Quanto às classes populares, independentes das modas mas sujeitas aos costumes, a devastação dos insectos fazia-se moderadamente, pois era crença comum que o piolho 'limpava' o sangue. A 'catança', em uso tanto nas classes mais elevadas como nas classes populares, era, ao mesmo tempo, uma operação de saneamento e de voluptuosidade."

Castelo Branco Chaves, "Os livros de viagens em Portugal no Século XVIII e a sua Projecção Europeia, pp. 38-39, Instituto de Cultura Portuguesa, 1977.

20/03/2020

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Acatando as medidas de contenção que a DGS apela para fazer face ao surto do novo corona vírus, a Livraria Edições 50kg opta por privilegiar a venda de livros através dos meios digitais e a respectiva distribuição pelo correio com os portes oferecidos para o território nacional. Durante este período incerto estarei na livraria, no horário habitual, apenas a executar trabalhos de encadernação. Saúde e cumprimentos a todos. Obrigado.

Rui Azevedo Ribeiro. 

Instagram: #livrariaedicoes50kg

06/03/2020

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"A minha vida foi tão extraordinariamente infeliz que não podia acabar como a da maioria dos desgraçados. Quando se ler este papel, eu estarei gozando a minha primeira hora de repouso. Não deixo nada. Deixo um exemplo. "

Camilo Castelo Branco, 22 de Novembro de 1886.





06/02/2020

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Coimbra, 6 de Fevereiro de 1935 A sina dos homens! Daqui a trinta anos já ninguém sabe que Gary Cooper existiu. E, contudo, a cena da flor que vi há pouco num filme dele é tão bela como a Vénus de Milo, como a Vitória de Samotrácia, como um hino de S. Francisco de Assis.
Gravar, riscar, esculpir, cavar numa pedra, num papiro, num papel, mas, em última análise, escrever – por ser a única maneira de eternizar a expressão.

Miguel Torga, “Diário I”, pág. 17, 1941, Coimbra.

02/02/2020

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Coimbra, 2 de Fevereiro de 1950 – A tristeza do progresso ainda não matou tudo. Hoje vi uma carroça puxada por um burro, onde o dono tinha posto este aviso: Em rodagem!”

Miguel Torga, “Diário V” 2ª ed. Revista, pág. 73, Coimbra Editora, 1955.

01/02/2020

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«O Regicídio» por Alberto de Sousa
“– Diziam os jornais, meu patrão, que o arquiduque ficou cravado de balas como uma espumadeira. O assassino despejou todas as balas.
– Caramba! Anda-se depressa nesses negócios, senhora Muller. A rapidez é tudo. Eu, num caso semelhante, compraria uma browning. Parece não valer nada, é pequena como um brinquedo, mas com ela a senhora pode matar em dois minutos vinte arquiduques, sejam eles corpulentos ou magros. Aqui para nós, senhora Muller, há sempre mais probabilidade de acertar num arquiduque corpulento do que num arquiduque magro. Teve-se a prova em Portugal. A senhora lembra-se dessa história do rei varado de balas? Era também do género do arquiduque, corpulento como tudo. Ora bem, senhora Muller, eu agora vou ao meu restaurante O Cálice. Se alguém vier buscar o rafeiro – já recebi uma prestaçãozinha por conta –, a senhora fará o favor de lhe dizer que o animal se encontra no meu canil de campo, que acabo de lhe cortar as orelhas e não está em condições de viajar enquanto não cicatrizarem; poderia apanhar frio. Entregue a chave à porteira.”

Jaroslav Hasek, “O Valente Soldado Chvéĭk”, pág. 14, Portugália Editora, Lisboa, s/d. Trad. Alexandre Cabral. Capa de Paulo Guilherme.

30/01/2020

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"TEORIA ECONÓMICA

 Qual pesa mais: metade de um frango vivo ou metade de um frango morto, perguntou-me à queima-roupa. Metade de um frango vivo, respondi, após breve reflexão, explicando que o frango morto ainda que não tivesse sido degolado, sangrado e depenado, estaria por certo desidratado. E logo um sorriso sagaz a coroar de erro a minha resposta: entendo perfeitamente o raciocínio, diga-me apenas onde encontrar metade de um frango vivo para confirmar a teoria."

Jorge Roque, "Cão Celeste nr. 3", pág. 13, Maio de 2013.

29/01/2020

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"A CIGANA NA CARVOARIA

...a venda do carvão fazia-se por pesos: pesos de metal (pedra), outro carvão e dor. Toda a loja negra era sempre mais fria que o exterior. Até na neve, até na noite a loja arrefecia os de dentro. Mais fria: empedrado de um chão negro de pós soltos, e a poeira na sala mesmo cheia. Preta. Iluminada (dia ou noite). Preta. Mesmo. Armários poucos. Ou um só. E nesse armário a tentação de um género novo, o das lixívias, dos detergentes, do sal e porventura da farinha. Brancuras.
O importante era haver branco. Nem todo o negro, nem todo ele de carvão, nem tudo nunca. O branco lavaria mesmo que a si mesmo na esterilidade de ninguém jamais vir a comprâ-lo. Branco imortal, mesmo. Pós do branco.
Nos limiares passava uma cigana (1). De freguesoa. Ir e comprar, saber os preços, pagar por tudo. Com ela a brancura do olhar aberto. Levava. Ninguém o notaria sem invejas, reacções várias. O múltiplo acidente da inveja desse olhar branco ardente da cigana. Ou do seu avental. Elegância. Ou do seu corpo versado. Elegância (2). Ou de mais. Do possível gerador da cigana, ao sol que houvesse.
Ora um dia a cigana excitou-os demais. O bastante para todos se porem a cortar nela, quando saiu compras feitas. Ela, 5 quilos de carvão bem pesado. Mais os atrasados de uma dívida, que de todo furtava à memória da carvoeira. E a patroa: que a casa dela é negra (e a patroa era apenas carvoeira, já se sabe...) que a porcaria assim, que a pestilência assado.
Só faltava e responderam, à inveja extante:
- Pois no que dizeis sobeja inveja, e falta o que na casa da cigana mais há, para não falar da Alma. A alegria (3)."

Álvaro Lapa, "Arco-íris - Cadernos de Ideias Literárias V", pp. 43-44, Outubro de 1978.

(1) 'L. De Vasconcellos diz com referência às mulheres ciganas que viu no Cadaval em 1887 e às que viu na feira de S. João em Évora em 1888 que são feíssimas. As que eu tenho visto eram feias, mas a imundície e os farrapos que as cobriam contribuíam sem dúvida para augmentar essa impressão. Mas outros observadores, entre os quaes algumas damas, dizem-me terem visto algumas (nas Caldas da Rainha, no Algarve, etc.) bonitas, uma ou outra até digna de ser bella. A belleza da cigana é porém de curta duração: pouco depois dos vinte annos desaparece-lhe o viço da mocidade. D'ahi em parte a causa da má impressão dos observadores, como L. de Vasconcellos'. (F. Adolpho Coelho, "Os ciganos de Portugal", ed. Imprensa Nacional, 1892; pág. 184).
(2) "Alguns dão saltos e pulos prodigiosos. Um correspondente de Barbacena conta que um, chamado Joaquim Canhoto, com dois pulos fez cair de um telhado uma navalha que lá tinham posto". (F. A. Coelho, ibid. pág. 185).
(3) "Fazem crer que um animal velho e cansado é vivo e bravo, pondo-lhes em cima a palma da mão, em que escondem uma agulha, com que o picam, para que pinoteie". (F. A. Coelho, ibid. pág. 204).
"Segundo uma informação, em tempo um cigano foi a Villa-Viçosa fallar ao paracho para lhe enterrar o pae, e como o padre lhe pedisse 2$400 réis, aquele cigano disse-lhe que vivo não valia o pae esse dinheiro, que não dava mais de 500 réis; e como o padre não se quiz satisfazer com tal offerta, o cigano marchou de noite com os seus, abandonando o cadáver insepulto na casa onde estavam". (F. A. Coelho, ibid. pág. 223).

28/01/2020

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Fazem-me perguntas e não posso senão dizer a que ponto todos os homens me parecem fantoches, a que ponto me espanto por ver a vida continuar, e não posso senão dizer que os suicidas são para mim os únicos mortos, os únicos verdadeiramente respeitados. Sobre mim desabam logo interrogações severas. Que diabo espero eu, nesse caso? E é verdade. É verdade que não me matei. O facto aliás nota-se à légua. A qualquer hora do dia se o pode verificar. O infame mais rasca está até em condições de me pôr a mão em cima e desatar a rir. Está certo, não me matei. Mas que prazer podem voçês sentir ante essa observação tão deprimente? Pois estou, estou vivo. Como outro qualquer. Não o digo para me desculpar. Não me matei e se o não fiz não foi por não ter pensado nisso. Anda há bocado. Olhe, dizia eu para comigo, seria coisa duma simplicidade infantil. Punha logo a andar uma data de ideias. E ainda por cima a única testemunha do que isso comporta até sou eu. Não me matei e tudo isso se desfaz num escárnio esmagador. Caríssima mó, não me desandes agora da cabeça. Que estava a dizer? Ah, pois. Dentre todas as ideias a do suicídio é afinal a que distrai melhor um homem. Mas dito isto, vamos lá, silêncio. Matem-se, ou então não se matem. Mas não andem praí a arrastar as vossas lesmas da agonia, esses vossos cadáveres tão antecipados, não mostrem como quem não quer a coisa o enchumaço na algibeira, essa coronha de revólver que irresistivelmente reclama um biqueiro no cu. Não andem para aí, com esse incessante arquejo, a insultar o verdadeiro suicídio. Mais baixo, mil vezes mais baixo do que este que se espanta e pergunta porquê este fogão a gás ou este elevador, é o porco voraz que após compreender a grandeza de semelhante destino vive à sombra da mançanilheira sem jamais adormecer, essoutro que tratando dos negócios a si mesmo reserva uma hora por dia de fúnebre desespero.”

Louis Aragon, “Tratado do Estilo”, pp. 57-8, Antígona, Lisboa, 1995. Trad: Júlio Henriques.

20/01/2020

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PORQUINHO-DA-ÍNDIA

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!

Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos, mais limpinhos,
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...

- O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.


Manuel Bandeira, "Antologia Poética ", pág. 64, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1981.

18/01/2020

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Não se admire o leitor de me ver discretear assim de cadeira sobre o assunto de tanta magnitude: eu também já me atirei às investigações históricas, tendo a fortuna de resolver, satisfatória e definitivamente, um dos mais árduos e capitais problemas da história moderna, a saber: onde foi que a George Sand «armou» pela primeira vez o marido. E não posso encarecer as canseiras, as vigílias, as meditações que me causaram as respectivas, inúmeras, indispensáveis pesquisas. Mas consegui, e para conhecimento universal aqui deixo consignado o fruto do meu labor. O facto deu-se no ano de 1825, dentro da gruta (depois milagrosa) de Lourdes.
E segundo me revelou uma vidente mística, muito relacionada com o céu, foi esse caso que deu origem ao aparecimento da Virgem. Eis o que ela me contou:
No clube dos arcanjos da pena amarela, o mais maledicente dos páramos celestes, esse acontecimento foi comentado tão ostensiva e desbragadamente que chegou aos ouvidos da Nossa Senhora, a qual lá tem sempre as suas espias, para saber o que murmuravam a seu respeito, pois que não a pouparam com dúvidas indecentes acerca da sua virgindade, quando ela deu entrada no Paraíso. Os pormenores do acto lúbrico, exagerados talvez pelos eróticos arcanjos, e as alusões à amenidade do sítio, inspiraram à Nossa Senhora desejos de o visitar, o que fez com certa dificuldade, graças à relutância do Padre Eterno em outorgar a indispensável licença. Tão agradada ficou do conforto e pitoresco da caverna que ali voltou várias vezes até se encontrar com a «beata Bernadeta»
O resto é sobejamente conhecido.
E aqui está como os carnais desvios da George Sand abriram para a França essa prodigiosa fonte de devoção espiritual e lucros materiais sem par no mundo.
Não há dúvida: Deus escreve direito por linhas tortas…”

M. Teixeira-Gomes, “2.ª Parte de Miscelânea – Carnaval Literário”, pp. 144-145, Livraria Bertrand, 3.ª ed., 1993.

16/01/2020

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PNEUMOTÓRAX

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.
.....................................................................
- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo
                            e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumo-
                                                                     tórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango
                                                              argentino.

Manuel Bandeira, "Antologia Poética", pp. 62-63, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1981.

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"De resto, no século XVIII viajou-se muito pelo simples interesse de conhecer outras terras e outras gentes, diferentes leis e diversos costumes. Não são só os diplomatas e os doentes que se deslocam no globo, uns enviados pelos seus governos, outros pelos seus médicos; agora viajam também os artistas e os escritores, os filósofos e os naturalistas, os ricos curiosos e os nababos enfastiados. Alguns dos viajantes estrangeiros que escreveram sobre os portugueses, uma das pechas culturais que lhes apontavam era a de não viajarem. Viajarem pela Europa qureriam eles ter dito, pois logo informavam que o português só saía da pátria para ir ao Brasil, à África e às Índias orientais - o que, aliás, para exotismo bastava e dava sobra. Somente, sob este aspecto, os portugueses foram mais exportadores dos costumes da sua terra do que importadores de exotismos, que eles consideravam bárbaros.
O francês, o inglês, o alemão que não  podiam viajar liam livros de viagens. Assim, nas literaturas europeias setecentistas, com excepção das de língua portuguesa e castelhana, os livros de viagens abundavam e sucediam-se.
(...) Os filósofos e os enciclopedista aproveitavam os testemunhos dos viajantes em ilustração das suas teses e reforço dos seus argumentos, tendentes ao abalo dos princípios racionais em que a sociedade vivia organizada. A variedade de crenças, a multiplicidade de religiões, a diversidade moral, as diversas formas de governar e de os homens se constituírem em sociedades, o 'bom selvagem', ajudavam os filósofos a minar a Autoridade, consubstanciada na Igreja Católica e na instituição monárquica.
Neste crescente e cada  vez mais amplo movimento literário, sob os signos do exotismo, da crítica e do ataque aos malefícios do obscurantismo do dogma e do Poder autoritário, começaram a destacar-se com particularidade os livros dedicados às jornadas e permanências na Península Ibérica.
No geral, os viajantes entravam em Espanha já com ideias preconcebidas. Vinham, por assim dizer, colher exemplos que confirmassem e ilustrassem as suas teses, todas elas anteriores à observação e à análise. Compunham assim o quadro de duas nações supersticiosas, fanáticas, atrasadas, bárbaras, e ridiculamente ignorantes, onde imperavam o clero e dois reis absolutos. Fiados em Voltaire, em Montesquieu, em D'Argens, em La Harpe, que nunca haviam passado os Pirinéus, confirmavam que para cá desses montes governavam a Inquisição e um clero ignaro dominava os reis e mantinha o fanatismo dos povos. Aqui, nos dois países da Espanha, mantinha-se praticamente íntegras a ordem que a autoridade real sustentava, a crença nos dogmas, o poder absoluto e a certa ciência dos monarcas - conjunto de alvos excelentes para os protestantes e para filósofos deístas ou simplesmente ateus. Na verdade, a maioria dos livros de viagens na Península que foram publicados no século XVIII participam dos dois combates que então se travavam na Europa: pela supremacia do Protestantismo, destacadamente nos três primeiros quartos do século; e pela abolição dos governos monárquicos absolutos, em particular no último quarto do século, sob inspiração maçónica."

Castelo Branco Chaves, "Os Livros de Viagens em Portugal no Século XVIII e a Sua Projecção Europeia", pp. 10-12, Biblioteca Breve, 1977.

15/01/2020

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Coimbra, 15 de Janeiro de 1950 –Dizem os jornais que na Alemanha um inventor conseguiu fazer voar as pessoas no vácuo. Uma espécie de centrifugador ergue-as do chão, e elas flutuam. Ora a literatura de há vinte anos a esta parte lembra-me um aparelho desses. De Proust para cá, é sempre a perder o pé na terra. Podem eles falar em nome do telúrico e do humano. Deixá-lo! Podem escrever palavrões e descrever cenas sexuais com toda a pornografia. Deixá-lo! Os livros não têm força, nem verdade.
Em medicina, o órgão que se sente é um órgão doente. E estes escritores sentem demais o pénis. É um péssimo sinal.”

Miguel Torga, “Diário V” 2ª ed. Revista, pág. 69, Coimbra Editora, 1955.

10/01/2020

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"É urgente pedirmos que cesse em Portugal de escrever quem deixar puder de o fazer. Só o que novo for virá presumivelmente a ocupar lugar na história da poesia, mas essa novidade, em vez de cultivada por si e em si mesma, consistirá antes no resplendor que sempre envolve e acompanha uma voz própria e pessoal, de tal maneira que com ela se confunde mas dela nunca pôde prescindir em tempo algum. Na poesia de um criador, a propriedade ou personalidade são o 'que', a novidade o 'como'. A novidade é o rosto onde se esconde um poeta."

Ruy Belo, "Na Senda da Poesia", pág. 69, União Gráfica, 1969.

09/01/2020

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"Sempre o pudor de quem escreve existiu. Lembra-me aquela confissão de Cesário Verde: 'Ora, meu querido amigo, o que lhe peço é que, conversando com o Dr. Sousa Martins, lhe dês a perceber que eu não sou o Sr. Verde, empregado no comércio. Eu não posso bem explicar-te, mas a tua muita amizade compreende os meus escrúpulos.'
(...) Compram-se, muitas vezes com amizade, moeda mais forte que o dólar, críticos que digam bem. Leva-se a este domínio íntimo o velho princípio dos contratos: do ut des. Louvamos os outros para que nos louvem a nós. Fazemos-lhes favores para que, no momento oportuno, no--los façam a nós. O leitor raramente repara. Chama-lhe a atenção, na página literária, o anúncio de um livro, volta a encontrar uma referência ao mesmo na secção de crítica, solicita-o uma entrevista que talvez o próprio autor tenha redigido e, mal se descuida, entra-lhe pelos olhos dentro a fotografia que aparece não se sabe bem a propósito de quê. Negociam-se comercialmente valores humanos que até aqui o pudor velava. A publicidade instala-se na própria consciência. Há o perigo de que o escritor, ao ouvir e ver tudo aquilo, se convença, tão longe foi a cadeia, de que não é ele que se está a adular a si próprio
Tomará como crítica válida para a delimitação da sua capacidade aquilo que, iludido, diz aos seus próprios ouvidos, como quem não quer a coisa. Assim se perde uma actividade nobre, que permite a correção dos defeitos e garante, em última análise, a evolução, o crescimento, condição de vida."

Ruy Belo, "Na Senda da Poesia", pp. 67-68, União Gráfica, 1969.

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"Lia Jorge Amado... Não admiro Jorge Amado. Da última vez que ele esteve em Lisboa tive a fraqueza de o conhecer e sabe o que ele me desejou?
- Diga lá, já agora.
Êxito, calcule. Não sabe como me ofendeu. Compreendi. Eu sei que, antes do lançamento de 'Dona Flor e seus dois maridos' Jorge Amado já tinha assegurados mil e quinhentos contos... Êxito, em vida, em Portugal?"

Ruy Belo, "Na Senda da Poesia", pp. 43-44, União Gráfica, 1969.

07/01/2020

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A VIAGEM, ENFIM


Isto de ter sempre o mesmo sonho todas as noites torna-se aborrecido.
Era assim: saía de casa, ia até ao carro e dizia à família «vamos lá fazer essa viagem». Primeiro entravam a mulher e as duas crianças, depois os pais, ele instalava-se ao volante e pronto, não havia lugar para os sogros! Era sempre a mesma coisa. Por mais que empurrassem, não conseguiam metê-los lá dentro.
Acordava a suar, empurrando ainda qualquer coisa que não estava lá.
A mulher aconselhou-lhe uns calmantes, para ver se o sonho se ia.
Mas nada. Lá vinha sempre, todas as noites. É verdade que empurrava menos, talvez os calmantes, mas continuava naquele desespero de não conseguir enfiar os sogros no carro alucinante.
Os sogros disseram-lhe que não se interessavam em ir, não faziam questão, já estavam velhos para viagens.
Os pais prontificaram-se a ceder os lugares deles.
Toda a família colaborava, mas o sonho continuava.
Chegou a fazer experiências, a meter a família completa no velho Citroën arrastadeira. E conseguia, lá se metiam todos, mais ao menos apertados mas entravam. Mas no sonho não.
A coisa tornava-se desesperante.
Porque é que não vais ao Mora? Ele é psicanalista, explica-te, tira-te isso – insistia a mulher, já arreliada, e preocupada também, com aquelas viagens nocturnas e frustradas em que ele se envolvia sem culpa.
O Mora era amigo de infância, nem sequer permitia que ele pagasse, era extraordinário! Às vezes até ia lá jantar.
E respondeu à mulher:
Tens razão, Xuxa, vou mesmo, que isto assim não pode ser. Tens sempre razão, menina.
Deu-lhe um beijo e atirou-se para o consultório do Mora. Contou tudo. O Mora mandou-lhe contar mais, o passado também, que sendo amigos de infância, o passado continua sempre oculto, ao que disse. Deitado, contou-lhe o que lhe veio à cabeça. E a coisa pareceu esclarecer-se. O que ele precisava era de derivar, sabem, encontrar qualquer coisa além do carro e da viagem que não fazia em sonhos. Derivar. Substituir o carro. Agradeceu e convidou o Mora para jantar no sábado. O Mora não podia e deu-lhe uma palmada nas costas.
Chegou a casa aliviado e esclareceu a Xuxa:
Vou derivar, menina.
Derivar?
Sim, substituir o carro e tudo o mais, excepto tu, as crianças, os velhos e a casa. Amo-te mas vou derivar.
Xuxa concordou. Desde que derivar resolvesse o caso, ele que derivasse quanto fosse preciso.
Nessa noite ainda teve o sonho e acordou estafado de tanto empurrar os sogros.
No dia seguinte avisou para o emprego que ia mais tarde, foi ao Banco buscar o que sobrava e entregou-se a uma moto, uma Rudge poderosa e em segunda mão. Estava a derivar em cheio.
O sonho foi-se diluindo. Cada vez empurrava menos, com grande satisfação da mulher.
Então, após ter passado um fim-de-semana a mexer na máquina para ver se percebia alguma coisa e a dar volta pela vizinhança de capacete preto e amarelo enfiado na cabeça, deixando o carro na garagem, sentiu-se livre.
E era verdade.
À noite não sonhou. No dia seguinte a Xuxa disse-lhe que até parecia dez anos antes.
Tudo voltou à normalidade, os sogros deixaram de se preocupar com a viagem, as crianças entusiasmaram-se com os estoiros da moto. E o carro na garagem.
E, de repente, tornou a sonhar. O sonho.
Assim: saiu de casa, foi até ao carro e disse à família «vamos lá fazer essa viagem». A mulher e as crianças entraram, depois os pais, e ele instalou-se ao volante. E não havia lugar para os sogros! Começaram a empurrar para os meter lá dentro, e nada. Então virou-se para a garagem. Estava um pouco diferente mas a moto continuava lá dentro. Deixou tudo, montou a moto, pôs o chapéu de palha e avançou pela estrada. Uma estrada larga, muito aberta a tudo. Pareceu-lhe já a ter visto alguma vez. Olhou para trás e lá ao longe, à porta da casa, continuavam a empurrar-lhe os sogros. Acenou uma despedida, acelerou e continuou, olhando árvores e nuvens.
Ainda não voltou.”


Mário-Henrique Leiria, “Contos do Gin-Tonic”, pp. 117-199, Editorial Estampa, 2. ª ed., 1976.

04/01/2020

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Seria um homem que caminhava à minha frente? Nos povos que vivem nus, tal como com os animais, a diferença entre os sexos é bem menos evidente que nos nossos climas. Nós acentuamos a fraqueza da mulher poupando-a a esforços, ou seja, às ocasiões de evolução, e moldamos a mulher segundo um padrão ideal de graciosidade.
No Taiti, o ar da floresta ou do mar fortifica todos os pulmões, alarga todos os ombros, todas as ancas, e o cascalho da praia não poupa nem homens nem mulheres. Estas fazem os mesmos trabalhos que eles e estes possuem a indolência delas: elas têm qualquer coisa de viril e eles algo de feminino. Essa semelhança entre os dois sexos facilita as relações, torna perfeitamente pura a nudez perpétua, eliminando dos costumes qualquer ideia de desconhecido, de privilégios misteriosos, imprevistos ou furtos felizes – todo aquele abandono sádico, todas aquelas cores vergonhosas e furtivas do amor junto dos civilizados.
Porquê essa atenuação das diferenças entre os dois sexos, que, nos «selvagens», fazendo do homem e da mulher tanto amigos como amantes, afasta deles a própria noção de vício, de súbito a evocava um velho civilizado, com o terrível prestígio do novo, do desconhecido?”
Paul Gauguin, “Noa-Noa – Estada em Taiti”, pp. 48-49, Publicações Europa-América, 1998. Trad. Jacqueline Medeiros.

31/12/2019

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Milão, 31 de Dezembro de 1937 Não se pode dormir com tanta gente lá fora, aos uivos, a festejar o ano novo. Como se fosse possível um ano novo ser melhor que o velho!
A grande força da vida é mesmo essa: a unidade. Com muita ciência e paciência lá se consegue contar num tronco, pelas camadas lenhosas, os anos da sua duração. Mas o que ninguém consegue ver naquele feixe de horas é a diferença de oscilação do cedro num dia de trovoada e num dia de sol calmo. Como o vento nivelador, o tempo passa por nós sem deixar covas. Quem se lembra das arritmias passadas, lembra-se de um quimera. Do grande calvário percorrido, não fica em nós senão o eco da monocórdica pancada do coração.
É claro que aqui o Sr. Baptistini do lado, negociante de botas, para quem o negócio correu mal estes 365 dias passados, bebe champagne na esperança de que se lhe tenha acabado o azar hoje e comece a vender muitas botas amanhã. O Senhor Baptistini.
Mas será possível que três ou quatro milhões de pessoas não vão além desse raciocínio rudimentar e utilitário do Senhor Baptistini?!

Miguel Torga, “Diário I”, pág. 55, 1941, Coimbra.

26/12/2019

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26 de Dezembro de 1891.
Leitor, bôas-festas! Abre-me um riso. Repara que te não vou pedir coisa nenhuma. De me aturares, fui-me deixando acometter d’uma certa benevolencia a teu respeito, e essa benevolencia é o maximo d’estima que por ti póde sentir um coração costumado sómente a desprezar. Sei que és hereditario cultor das virtudes simples de familia, e homem de ramerrão, professas a ternura religiosa das grandes datas do kalendario. As tuas robustíssimas espadoas não podiam ser soménte mólhes do porto d’ar onde o teu globulo rubro se renova, mas por força tambem os sustentaculos d’um mundo moral que te ajuda a luctar contra o destino, e que apezar de te fazer ás vezes ridiculo, nem por isso te apeia d’uma superioridade ideal que eu provavelmente nunca attingirei. Razão porque ha no meu desdém por ti, uma ponta de ciume, e porque a sarcastica mysantropia que me fechou a porta dos gozos simples que aligeiram a vida, em vez de me talhar em Jupiter, o que fez foi cavar-me de roda do espirito um fosso, que me sequestra de tudo, e nem ao menos me estanca a saudade do que me acostumei a desdenhar. Este desterro péza-me, confesso, porque eu sou essencialmente um animal de ninharia e convivência, nascido para ter côrte, para se rolar no luxo, e para acceitar sem surpreza que toda a gente faça excepções em meu favor.
Pódes imaginar portanto o que teria sido, n’esta immensa cidade de quatrocentos mil habitantes, e seis milhões d’egoismos, a minha vespera e dia de Natal, sósinho entre a alegria insultante de todos, repellido dos fócos d’amor patriarchal como um sem-familia perturbador das alegrias consanguineas, vendo as mais modestas casas de jantar illuminarem-se, as mais desataviadas salas abrirem-se, amigos e parentes felicitando-se, abraçando-se, sem antagonismos visiveis, esquecidos do struggle, e apaziguados todos pela banalidade jovial da vida intima – a vida modelada sobre os antigos textos da tradicção, com a igreja d’um lado, o escrivão de fazenda do outro, o policia de guarda, e o Diario de Noticias como encyclopedia e breviário.
Ah como eu tive inveja do saloio que parou o burro á porta d’uma mercearia da Bitesga, para comprar a duas duzias de brôas da consoada; do pobre engraixador da esquina, indo á praça com a mulher, de fato rico, apreçar um quarto de peru; da varina entrando na salchicharia, radiante, a comprar salchichas, ao fim de ter deposto a canastra á porta, rude presépe onde o filho loiro chuchava o dedo, com o ventre de sapo para o ar! Todas essas indoles de povo, roídas de penuria , vergadas de trabalho, primitivas, mas fecundas e convergentes, por uma fatalidade ancestral, á reedição das alegrias periodicas do anno, se me afiguraram infinitamente superiores á minha friavel indole de janota sceptico, demolindo no ar sem plano certo, negando pelo simples prazer do paradoxo, incapaz d’estabilidade n’um problema, constantemente á procura de novo, e em topo de colina voltando-se, desesperado de só ter achado gosto – ao que era velho. Oh meu pobre coração amortalhado de tristeza! diz como te dóe o isolamento a que uma intelligencia esteril te votou. Conta, não tenhas medo, conta que choraste lagrimas de remorso, quando da janella do teu albergue viste os tres pequenos do visinho preparando ao seu papá uma emboscada; e o pobre homem entrando, carregado d’embrulhos, e elles de se lhe atirarem p’ra cima, como feras, sedentos de curiosidade e de meiguices, quando já da pobre cosinha da casa o olor de cabidella os chamava para dentro, e os parentes pobres, convivas d’esse dia, as velhas em chita, os velhos em belbutina e saragoça, vinham dar ao seu parente rico, as bôas festas. Vê como sob o manejo d’uma mulher trabalhadeira, os trinta mil reis mensaes d’esse pobre empregado fazem milagres de riqueza, luzindo na cosinha alegre, na bata da mulher, nos bibes das creanças, e no desafogo honesto de todos esses focinhos felizes, que marcham para o futuro despreoccupados da morte, e acceitando a vida apenas pelo que ella é, o usofructo d’uma agregação temporaria de moleculas. Compara a virilidade hygienica d’essa vida de ninho, feita de trabalho, de methodo, de defensão reciproca e de coragem, com o dessasocego da tua vagabundagem deleteria «d’espririto superior», gestando universos sobre leituras de livros mal escriptos, e dyspepsias sobre menús chinfrins de restaurants, e diz-me depois se a crise de solidão moral que te alanceia, não é condigno premio da «vida ironica» que te quizeste dar, toiro com azas, n’uma epocha em que os toiros só podem ser superiores pelos chavelhos!
…… dia de Natal, eu que eu conheço toda a gente, não tive ninguém que me dissesse «anda jantar». Vinguei-me sahindo de casa, e engajando os primeiros va-nu-pieds eventuaes. Dois pobres do asylo, os uniformes sem nodoas, pouco bêbedos. Marchamos para o Augusto, e na sala commum, a uma de cujas mezas nos sentamos, houve reboliço por banda das meretrizes e irregulares que mais alegres do que eu, alli tinham ido fazer o seu jantar de festa, em partie fine. Não descrevo a comida, registando apenas o trabalho gasto em despersuadir os meus dois commensaes de não metterem no bolso os restos de cada prato do festim.
Á sobremesa, um d’elles, bebedo, como eu o fitava com uma piedade christã de filho prodigo confiou-me que estivera quatro annos n’Africa, por um roubo, e o conselheiro X. o mettera no asylo, havia sete mezes. O outro era um velhinho abahúlado, olhos de doido irónico, que fugiam, fallando pouco; mas todo o jantar suspeitei de scellerado, tanto os seus monosyllabos humildes, e os seus contínuos escrupulos de consciencia, lhe davam o ar d’um homem de bem. A despedida, o mais velho chamou-me conde, e o mais novo, doutor, sem acertarem, e lá foram cambaleando, a rogar pragas a quem lhes fizera o serviço de lhes metter no craneo a apoplexia. Pobres malandros! Deixai o meu egoismo abusar da vossa fome. Sem vós, eu não poderia dizer, como toda a gente: «Jantei hoje o natal com dois amigos velhos»."
Fialho d’Almeida, “Os Gatos – Vol. V”, pp. 33-37, 4.ª ed., Livraria Clássica Editora de A. M. Teixeira, Lisboa, 1921.

25/12/2019

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S. Martinho de Anta, Natal de 1940 O pragmatismo do camponês é o que nele de tudo mais me impressiona. A convicção com que se apega a uma semente, a um costume, a uma crença, ao contrário do que se diz, nada tem de obsecado. Só dura na medida em que a razão prática o aconselha.
Fui hoje com o meu Pai à Vila. A página tantas, passámos diante da capela de Santa-Cabeça, advogada da raiva.
Diz o velho:
– Benzeu-se ali muito pão…
E eu:
– E porque é que os senhores não continuam? Por que motivo, agora, em vez de broa benta, mandam dar injecções aos danados?
E ele, que foi ao fundo da minha insinuação:
– Enquanto não se descobria coisa melhor, que remédio tinha a gente senão agarrar-se ao que havia!...

Miguel Torga, “Diário I”, pág. 179, 1941, Coimbra.

20/12/2019

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RAPHAEL

Quando Juvêncio apareceu
Mascava uma raiz de pobreza coisa que serve!
E cuspia dentro de casa o amargo em nós.

Na trouxa
Trouxe Raphael.

Raphael não era o pintor
Nem o anjo de Raphael.

Ponhamos que fosse um anjo
O anjo de sua mãe.

Petrônia descia lavandeira
Pro corgo.
Juvêncio curava gado bicheiras
Raphael era um pouquinho miserável
Tal como a sua idade o permitia.

À noite vinha uma cobra diz-que
Botava o rabo na boca do anjo
E mamava no peito de Petrônia.

Juvêncio acariciava o ofídio
Pensando fossem os braços roliços da mulher.
Petrônia tinha estremecimentos doces
Bem bom.

Cenário de luar. Segundo ato.
Papagaio louro de bico dourado estava com fome
Desceu das folhas verdes
Ou verdes folhas conforme apreciais melhor
E começou a roer um naco
Um naco da testinha tenra
De Raphael.

Havia estrelas no céu
Suficientes para o poeta mais de romântico possível
E eu poderia colocar outras peças
Muitas, além de estrelas. Porém.
Sou um pobre narrador menso
Fosse isto uma Grécia de Péricles, não vê

Que deixava passar este canto
Sem de hexâmetros entrar!

Mandava vir cítaras e eólicas harpas
Convocava
Anjos de bundas redondas e troços do fundo do mar.
Porém.

De resto
Juvêncio não é um herói
Raphael não tem mãe Clitemnestra
E nenhuma cidade disputará a glória de me haver dado à luz.
Falo da vida de um menino do mato sem importância.
Isto não tem importância.

Manoel de Barros, "Poemas Concebidos Sem Pecado" in "Poesia Completa", pp. 35-37, Editorial Caminho, 2010.

15/12/2019

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Nós, Latinos, precisamos acompanhar o movimento do cérebro com o movimento das mãos, que sublinha e ampara o pensamento.
O Inglês não faz um gesto quando fala, e ao começar o seu discurso segura com ambas as mãos a gola do casaco, como que a estrangular a voz; o Latino estende os braços e as mãos, não à súplica, mas para dar mais fôlego ao peito e como que para desimpedir, desafogar o coração.”

M. Teixeira-Gomes, “2.ª Parte de Miscelânea – Carnaval Literário”, pp. 30-31, Livraria Bertrand, 3.ª ed., 1993.

13/12/2019

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"Que pena sermos dois!
Meu amor, somos dois.
Vejo-te, somos dois..."

Fernando Pessoa. 

08/12/2019

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Coimbra, 8 de Dezembro de 1933 Médico. Conforme a tradição, mal o bedel disse que sim, que os lentes consentiam que eu receitasse clisteres à humanidade, conhecidos e desconhecidos rasgaram-me da cabeça aos pés. Só deixaram a capa. E aí vim eu pelas ruas fora o mais chegado possível à minha própria realidade: um homem nu, envolto em três metros de negrura, varado de lado a lado por um terror fundo que não diz donde vem nem para onde vai.

Miguel Torga, “Diário I”, pág. 11, 1941, Coimbra.

03/12/2019

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Coimbra, 3 de Dezembro de 1937 Por mais que faça, não faço nada. Enrodilho-me como as cobras nas matas, sofro, mordo se alguém me toca, e assobio de vez em quando uma ária que ninguém ouve. É de mim, é dos outros, é dos tempos que vão correndo. Mas hei-de morrer assim.
Tenho cá uma fé comigo que ainda há-de aparecer na minha vida alguém que me conte esta história do Erico Veríssimo:
– Filho. Sabe da história do pirú? La gente risca com giz um circolo in torno do pirú. E o cretino do pirú crede que está prêso. – Guarda… la vita é bela, il mondo te chiama. Salta o risco de giz, no seja come o pirú!

Miguel Torga, “Diário I”, pág. 48, 1941, Coimbra.

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LIVRE, CRISTÃ E OCIDENTAL

“A Galeria Bernardette fazia um negócio excelente e o senhor Balakian tinha todas as razões para estar satisfeito. Era raro o dia em que não vendia uma meia dúzia de fruta, quase sempre dos mais procurados autores. Nesse mesmo momento acabava de vender uma lindíssima banana com a assinatura de Tibor Gayo. Uma banana Gayo realmente excepcional, com aquele alegre colorido tão poderosamente abstracto que caracterizava toda a fruta do artista.
A verdade é que a melhor sociedade, todos os apreciadores da capital eram seus clientes. Com frequência se ouviam comentários encomiásticos às magníficas frutas dos jantares mais apurados. Um banqueiro tinha que resolver grave problema de finança e era certo e sabido: no fim do repasto surgia a fruta com excelentes assinaturas. Com o ministro o mesmo: embaixador presente à mesa e pronto, lá estavam duas ou três pêras Capristano, naquele estilo forte e seguro do pintor. Realmente Capristano era caro mas ninguém discutia o preço. Valia e vendia-se bem.
Pois se ainda há dias me dizia o doutor Lesoto, o conhecido crítico:
Meu caro, ontem, em casa do Gualtério, havia uma maçã e dois abrunhos de Júlia Jardim que eram um regalo. Do melhor que conheço, estou-lhe a dizer. E tão maduros! Uma delícia.
Então aconteceu o inesperado. Estava o senhor Balakian a polir uma pêra Terensky quando lhe entra pela Galeria uma alta patente do exército, da Casa Militar do Ducado. Explicou ao que vinha, com exactidão militar. Sua Excelência dava, no dia seguinte, uma pequena recepção a uma delegação de deputados em visita ao país. Muito bem. Sua Excelência necessitava de uma série de obras para a sobremesa, das mais reputadas. Eram sessenta talheres. Logo, no mínimo seriam sessenta peças escolhidas. O preço não interessava, era só o senhor Balakian apresentar a conta ao erário. Posto isto, o marechal retirou-se avisando que mandaria pela fruta no dia seguinte, às seis da tarde.
O senhor Balakian ficou tremendamente preocupado. Nunca tinha grande acervo, não se podia conservar excessivamente a maioria das obras, sorvavam com enorme rapidez, era capital perdido. Deu um balanço ao que havia. Uma maçã e duas pêras Capristano, do melhor estilo, sóbrias e profundas. Sete bananas Tibor Gayo, ultimamente a procura de banana baixara um pouco. Um ananás realmente extraordinário de Ferdinand, de um colorido assombroso nos múltiplos losangos. Meia dúzia de ameixas sortidas, com a alegria de Júlia Jardim, a imaginação metafísica de Carlos Clarete e a dignidade antiga de Mestre Rovira. Três melões casca de carvalho com motivos folclóricos e não assinados, coisa própria para estrangeiros e, finalmente, uma pêra e três laranjas de Terensky, fulgurantes de abstracção. Feitas as contas, eram vinte e uma obras, embora pudesse considerar o ananás e os melões como obras não unitárias. Bem vista as coisas, digamos que podiam corresponder a quarenta talheres. Era o diabo, os convivas eram sessenta, conforme informara o marechal da Casa Militar. Uma encrenca, essas coisas não podiam ser feitas assim de repente, arreliava-se o senhor Balakian. Passou a tarde a telefonar para os artistas mais conceituados, mas nada. Uns não tinham tempo, outros faltava-lhe a fruta apropriada, outros ainda estavam ocupados com peças de grande porte, como abóboras. De factura exigente e demorada.
À noite, desesperado, mandou.me um recado de aflição pela Remualda da caixa que aparece umas vezes por outras cá em casa. Pensei um pouco, disse à Remualda que se pusesse à vontade que eu não me demorava e atirei-me para o telefone do PRAXIS, logo ali em frente. Enquanto sorvia um gin, liguei para o Militão Cuba, sabem, que vive em Balmoral. Ora, como também sabem com certeza, Balmoral é uma vila famosa pelos fenómenos constantes: já deu um nabo de sete quilos, um pianista búlgaro de dezoito meses e um frango com três pernas, isto que me lembre agora.
O Militão estava em casa e disse-me, eficaz como sempre, que lhe parecia poder solucionar a coisa. Eu que lhe aparecesse por lá logo de manhã e então se veria. Não quis explicar mais nada.
Passei a noite preocupado, embora não muito e, mal foi dia, corria à Galeria a comunicar o facto ao senhor Balakian. Aporrinhado como estava, viu ali a salvação e disse-me que usasse o seu helicóptero, para ser mais rápido.
Às onze e meia estava de volta. O Militão arranjara tudo, com o mais recente fenómeno de Balmoral: uma tremenda melancia de vinte quilos, de um verde radioso! Uma superfície ideal para a pintura paisagística, uma abundância excelente para os convivas que restavam.
Mas havia que acabar a obra. Tinha de ser rápido. O senhor Balakian, já de certa idade e com aquela complicação às costas, não tinha cabeça para nada. Lembrei-lhe o Fujimoto, no seu clássico paisagismo asiático, rápido na execução. Era o indicado, se estivesse livre. Isso mesmo, o Fujimoto, concordou o senhor Balakian e cedeu-me o carro, logo ali, para me atirar ao assunto.
Fui e vim em meia hora, numa loucura de volante, com Fujimoto, as seringas de Pravaz, os pincéis fininhos e as lacas apropriadas. Prometemos-lhe tudo e pusemo-lo numa azáfama criadora.
Ao quarto para as seis a paisagem oriental, exacta, delicada, de suave colorido, envolvia a enorme esfera verde. Na verdade, um dos melhores Fujimoto que me fora dado ver, se não o melhor.
Às seis a fruta era entregue ao enviado especial da Casa Militar.
Dias depois o senhor Balakian recebia do erário o cheque magnânimo e, cerca de um mês após a recepção, Sua Excelência agraciava-o com o colar do Mérito Agrícola Cultural. A melancia fora um êxito completo, o país saíra-se airosamente, com elogios unânimes dos deputados estrangeiros maravilhados.
Quanto a mim, recebi três nêsperas que o senhor Balakian me ofereceu com eterna gratidão. Três nêsperas excepcionais, devo dizer, com originalíssimas colagens do Senegal Júnior.
Souberam-me muito bem.”

Mário-Henrique Leiria, “Contos do Gin-Tonic”, pp. 15-18, Editorial Estampa, 2. ª ed., 1976.