13/11/2019

Livraria Edições 50kg...


No dia 29 deste mês de Novembro, na rua de Faria Guimarães no número 137, abro no Porto uma livraria alfarrabista. Na realidade é uma espécie de três em um. Porque, no mesmo local, além da livraria, também inauguro uma oficina de encadernação e restauro de livros, e a nova casa das edições tipográficas 50kg. Gostaria de contar convosco na inauguração, haverá um lanche e um beberete por volta das 17h00. Marquem já nas vossas agendas e apareçam para vos mostrar este novo espaço. Um abraço do Rui Azevedo Ribeiro. 

Horário: de Terça-feira a Sábado das 10h00-13h30 e das 14h30-19h00. 


Ferro...


03/11/2019

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QUESTÃO DE TERRAS


Quando o Ricardo Romarigues me convidou simpàticamente para ir passar o fim de semana lá na herdade, fiquei um pouco desconfiado.
Tinham-me contado que havia querela entre ele e o doutor Estêvão Brás Tramagal, tudo por causa de uma outra herdade, a herdade da Argola, que Ricardo tinha de antiga e que o doutor Tramagal afirmava ser proprietário por ocupação e cultivo. Dizia-se até que o doutor contratara malteses sólidos para lhe defenderem a causa. Coisas de terras, não é?
Mas acabei indo, na minha bicicleta.
Ao entardecer, quando estávamos de conversa, tendo ao alcance das mãos magníficas canecas de vinho esquentado à lareira e mastigando, com saborear lento, excelentes rodelas de paio e pão trigal, estrugiu o ruído inesperado lá fora. Corri à janela, espalmei o tabuado contra a parede que olhava o espaço.
E vi.
Através da terra larga avançava uma matula de porrete em punho, bigodes antigos, ar de mundo já esquecido.
Pisavam duramente e berravam em conjunto:
Argola é nossa. Argola é nossa. Viva Tramagal!
Pausa. Novo berro colectivo:
Argola é nossa. Argola é nossa. Viva Tramagal!
Era a briga.
Não tinha nada a ver com aquilo. Fechei o tabuado o melhor que podia, puxei as calças que me escorregavam embirrativamente e declarei ao Ricardo que, embasbacado, parecia não acreditar no berro que chegava:
Olha, aguenta-te.
Corri às traseiras, montei a bicicleta e aqui estou.
Coisas.”



Mário-Henrique Leiria, “Contos do Gin-Tonic”, pp. 147-148, Editorial Estampa, 2. ª ed., 1976.

23/10/2019

A stand up comedy dos novos filósofos...

"Então, que mentalidade mais realista podemos levar connosco para um casamento? Que tipo de votos precisaremos de trocar com o nosso parceiro para estabelecermos boas hipóteses de fidelidade mútua? Certamente que alguma coisa muito mais cautelosa e pessimista do que as banalidades do costume. Por exemplo: prometo desiludir-me contigo e só contigo; prometo fazer de ti o único repositório dos meus pesares, em vez de os distribuir por vários casos extraconjugais e por uma vida de D. Juanismo sexual; analisei as diferentes opções para ser infeliz e foi contigo que escolhi comprometer-me. É este o tipo de promessas generosamente pessimistas e gentilmente pouco românticas que os casais deviam fazer no altar.
A partir daí, um caso amoroso seria uma infidelidade somente à jura recíproca de se ficar desiludido de uma determinada forma e não uma esperança irrealista. Os cônjuges traídos já não se queixariam furiosamente de que esperavam que o parceiro fosse feliz com eles 'per se'. Em vez disso, poderiam gritar incisiva e justamente: "confiava que serias leal à variedade específica de desilusões que eu represento. ""

Alain Botton, "Como Pensar Mais Sobre Sexo", pág. 137. Expresso, 2019.

18/10/2019

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Tive de regressar a França. Deveres imperiosos de família chamavam-me.
Adeus, terra hospitaleira, terra deliciosa, pátria de liberdade e de beleza! Parto com mais dois anos, rejuvenescido vinte, mais bárbaro também do que à chegada e no entanto mais culto. Sim, os selvagens ensinaram-me muitas coisas, aqueles ignorantes, sobre a ciência de viver e a arte de ser feliz.
Quando deixei o cais, no momento de me fazer ao mar, olhei para Teura pela última vez. Tinha chorado durante várias noites. Agora, cansada e sempre triste mas calma, estava sentada sobre a pedra, com as pernas balouçando, tocando na água salgada com os seus pés grandes e sólidos. A flor que antes trazia atrás da orelha tinha-lhe caído sobre os joelhos, murcha.
Espaçadas, outras como ela olhavam, fatigadas, mudas, sem pensamentos, o pesado fumo do navio que nos levava a todos, amantes de um dia. E a ponte do navio, com os binóculos, durante muito tempo pareceu-nos ler nos seus lábios este velho discurso maori:
«Vós, brisas ligeiras do sul e do leste, que vos juntais para brincar e acariciar os meus cabelos, corram depressa para outra ilha: aí encontrareis aquele que me abandonou, sentado à sombra da sua árvore favorita. Digam-lhe que me viram chorar.»
PAUL GAUGUIN
1898”

Paul Gauguin, “Noa-Noa – Estada em Taiti”, pp. 115-116, Publicações Europa-América, 1998. Trad. Jacqueline Medeiros.

14/10/2019

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JULGAMENTO DEFINITIVO




O julgamento chegara ao fim.

O Juiz levantou-se, colocou a touca de pompons e encarou a assistência.

O silêncio era total quando o preboste tocou a corneta.

Todos se levantaram numa unanimidade respeitosa, enquanto o escrivão disparava os dois tiros da praxe.

A pequena porta à esquerda da tribuna abriu-se e os acusados entraram, acompanhados pelas vivandeiras e pelos carregadores habituais.

O coro, na varanda, entoou os primeiros acordes do hino e o decano dos archeiros perfilou-se e içou a bandeira.

Ia processar-se a leitura da sentença.

O Juiz estendeu o documento ao boticário de serviço nocturno que fora chamado especialmente.

A acusação descritiva foi lida em primeiro lugar, para descrever a acusação apresentada a favor dos acusados pela Comissão de Inquérito.

Os três réus eram elogiados sob reserva por, em local algures, terem exterminado trinta e sete crianças avulsas, setenta e duas mulheres em movimento recalcitrante, onze velhos não autenticados e sete cabras suspeitas de espionagem comercial, embora o óbito destas últimas não tivesse sido confirmado pela Comissão de Inquérito. Também lhes era atribuído o incêndio de três aldeias não localizáveis e de duas cadeiras Luís XV já localizadas, se bem que sem número de catálogo.

O preboste tocou a corneta e o escrivão, em sentido, disparou o tiro da praxe.

Ia ser lida a decisão final.

Os acusados viraram-se para o Juiz.

As vivandeiras viraram-se para os acusados.

Os carregadores viraram-se uns para os outros.

O Juiz tirou a touca de pompons, pôs o chapéu das circunstâncias sentenciosas e virou-se para o boticário.

O boticário prosseguiu a leitura do documento.

Verificados os acontecimentos e sendo os mesmos louvados por unanimidade, os acusados sofriam os seguintes benefícios:

O primeiro acusado, de boné grande (vinte e uma crianças, trinta e seis mulheres, sete velhos, duas aldeias), recebia medalha de ouro.

O segundo acusado, de boné pequeno (dez crianças, vinte e nove mulheres, três velhos, uma aldeia), recebia medalha de prata.

O terceiro acusado, sem boné (seis crianças, seis mulheres, um velho, nenhuma aldeia mas duas cadeiras), tinha direito a medalha de bronze.

A assistência irrompeu em aplausos frenéticos, com preferência evidente para o segundo acusado, que era da terra.

O boticário enrolou o documento e devolveu-o ao Juiz que o entregou ao Depositário de Secos e Molhados.

O preboste tocou a corneta e o escrivão, atento, deu os três tiros da praxe.

As vivandeira beijaram os acusados.

Os carregadores beijaram o boticário.

Todos se sentaram.

Os acusados subiram ao podium e saudaram a assistência, em sentido e sem rir.

O coro, na varanda, entoou os últimos acordes do hino.

À noite, depois da marcha triunfal, houve um cocktail Molotov comemorativo, no Palácio dos Jogos Fenianos, com a presença de todas as altas personalidades do Condado.

Dizia o Juiz aos três homenageados «ainda não lhes contei a última do Reboredo» quando o mundo explodiu.”




Mário-Henrique Leiria, “Contos do Gin-Tonic”, pp. 47-49, Editorial Estampa, 2. ª ed., 1976.

08/10/2019

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S. Martinho de Mouros, 8 de Outubro de 1946 Depois de uma pietá no convento de Cárquere a chorar o filho, uma tela na igreja românica desta terra, com um S. Martinho a dividir a capa. O catolicismo banalizou o bispo de Tours de báculo e mitra, mas os artistas persistem na visão de um homem bom (semi-bom, afinal) a repartir a capa com o semelhante. Talvez não seja muito edificante a parcimónia do gesto. Os artistas, porém, sabem até onde o humano é legítimo e santo. Dar metade da capa, é um nobre gesto de solidariedade. Dar a capa inteira e ficar nu, é proibido pela polícia.

Miguel Torga, “Diário IV”, pp. 16-17, 1953, Coimbra.

30/09/2019

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A VELHA E AS COISAS


Verdade se diga que o país era pequeno, bem pequeno mesmo. Logo, é evidente, as coisas também tinham de ser pequenas, para caberem.

Daí os partidos. Havia o partido Blicano e o partido Crático; assim reduzidos, cabiam. Eram a Oposição.

Além disso, havia a Posição. O General, os Dois Coronéis, o Sargento (justicialista), o Professor Mustache, autor da Constituição e de «Cartas Patrióticas ao Corneta Pir» e a Velha dirigindo, claro.

Portanto as coisas lá iam, o comportamento geral era bastante aceitável, as cebolas vendiam-se a contento, o nabo aguentava-se, havia a nêspera e o export-import funcionava mais ou menos.

Mas também havia as eleições à porta. Era preciso tento, nada de imprevidências. E chamou-se o Galvez, dos Suplementos Literários, para montar o processo jurídico, organizar e levar o assunto a bom termo, como devia ser.

O Galvez organizou.

Leram-se as dignidades do preparo. O discurso activou-se e a pátria foi avisada que estava em perigo. Houve quermesses. A Velha explicou tudo ao país, mais uma vez, pela televisão. Elegeram-se misses e praticou-se música histórica, própria da conjuntura.

Assim se foram três meses, com várias bofetadas esclarecedoras aos que, pelos cafés, ainda não sabiam.

Então chegou o dia do voto. Todos deram o papel que lhes tinha sido entregue. Alguns espancamentos disciplinares, para clarear o voto, e a contagem fez-se.

A informação foi a seguinte:

Sopa de Feijão Branco (candidato Blicano)    – 13 728

O Bode (candidato Crático)                          – 13 727

D.ª Josefa Sur-Mer (candidata independente)– 13 726

O General (candidato)                                 – 13

Donde, conforme a Constituição, o General foi eleito de novo, por maioria absoluta.

Havia os seguintes impedimentos legais:

Sopa de Feijão Branco não residia há mais de cinco anos no país (inconstitucional, portanto).

O Bode era menor e não estava inscrito nos cadernos eleitorais (inconstitucional, evidente).

D.ª Josefa Sur-Mer não sabia Matemáticas Modernas, já residia há mais de cinco anos no país e, além disso, era Sur-Mer (totalmente inconstitucional).

Vendo o acontecimento, o Galvez ameaçou escrever para mais Suplementos, pondo tudo em pratos limpos, já que lhe parecia – tinha até provas – que Sopa era residente perpétuo.

O Galvez foi chamado. A Velha falou-lhe. O Galvez escutou. A Velha explicou-lhe. O Galvez era patriota. O Galvez ficou convencido.

Daí em diante o Galvez passou a negociar – com exclusivo próprio – na exportação de nêspera conservada, do pescado enlatado e da camisa em renda de bilros. Teve também o Turismo e o Gabinete Alfandegário.

Aqui se vê, portanto, que a coisa pública seguiu esclarecida, firme, como era de desejar.

No entanto, dado o tamanho realmente pequeno do país, como aliás já fiz notar, houve que fazer mais umas reduções. A Oposição passou a chamar-se só Ó e os dependentes devido à situação económica e à outra, ficaram apenas Pendentes.

Visto isto, o Galvez foi de ministro plenipotenciário para Tombuctu.

Como dizia a Velha, no seu habitual «Colóquio à Lareira» pela televisão:

Para a frente, meus filhos. A pátria nos contempla e o passado nos espera.”




Mário-Henrique Leiria, “Contos do Gin-Tonic”, pp. 121-123, Editorial Estampa, 2. ª ed., 1976.

27/09/2019

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Sabugueiro, 27 de Setembro de 1949
          – Nada, meu Senhor! Acredite: Ninguém tece um fio…
Que tristeza não poder visitar uma aldeia do país sem que o povo se alvoroce a cuidar que é o fisco que o vem desgraçar! Que velha e dolorosa chaga de perseguição a doer-lhe na memória! Nunca o visitaram com amor. Sempre o procuraram para o enganar, mentindo-lhe na religião, no ensino, na economia, na assistência. Por isso continua a espreitar-nos dos buracos como um bicho perseguido, e é com alívio que nos vê partir – a nós, seus irmãos, filhos da mesma terra!
O espelho da nossa traição de civilizados são as aldeias de Portugal.”

Miguel Torga, “Diário V” 2ª ed. Revista, pág. 51, Coimbra Editora, 1955.

26/09/2019

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Coimbra, 26 de Setembro de 1949 – Blake. Uma noitada de poesia e loucura, de que amanheci tonto e maravilhado. Nunca me aproximo deste homem sem que saia de ao pé dele meio maluco também, carregado de visões angélicas. Há outros poetas que admiro mais, e de cuja obra posso tirar um alento mais consciente e positivo. Mas nenhum me seduz tanto como este doido que nunca chegou à perdição de Hölderlin, e que pôde levar ao fim, intacto, o cristal duma vida de poeta possesso. Na sua fonte torrencial podem refrescar-se ainda todos quantos acreditam que nenhum pudor, nenhum limite e nenhuma norma devem coagir o artista.
A nossa poesia não tem loucos. Balisa-a um sentimentalismo lúcido de craveiro estacado e florido no seu poial. Só Gomes Leal se desbordou, mas sem grandeza. Por isso o superlúcido Pessoa, através de Walt Whitman, veio mergulhar neste brumoso inglês as raízes Ávidas de cósmico e de inorganizado.
A minha dúvida sobre o nosso génio nutre-se destas evidências. De companhias como as de Blake emerge-se com estrelas agarradas aos cabelos; do compadrio com Garrett sai-se com as asas depenadas.”

Miguel Torga, “Diário V” 2ª ed. Revista, pág. 50-51, Coimbra Editora, 1955.

24/09/2019

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Escreveu em seis dias uma nova peça. Um dos personagens dizia: «Eu pensava estar morto, mas creio que era outro qualquer.»”
 
William Soroyan, “Um Dia no Crepúsculo do Mundo”, pág.220, Editora Ulisseia, Lisboa, 1973. Trad. Marina Aparício e Fernando Lopes.

17/09/2019

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"Society is like a stew. If you don't stir it up every once in a while then a layer of scum floats to the top." (Edward Abbey)

15/09/2019

"Oops!"...


Por acaso, em uma das minhas anteriores visitas a Londres, eu travara relações com uma sufragista de alto coturno, à qual manifestara toda a minha simpatia pela «causa», e, por acaso também, foi ela uma das primeiras pessoas que encontrei quando entrei em funções. Reafirmei-lhe os meus sentimentos, e isso (à parte algum exagero) com sinceridade e convicção: a mulher inglesa, geralmente muito mais culta do que o homem tinha boas razões para exigir o direito do voto.
Admirável foi o efeito que produziram as minhas declarações, comunicadas sem demora aos corpos dirigentes: veio logo uma delegação perguntar-me se a República Portuguesa não estaria disposta a praticar almejada reforma, e em cada sufragista surgiu uma defensora da nossa revolução, que bem precisava desses favores, pois a atmosfera de que fruía em Londres era péssima.
Constava que o governo inglês tao cedo não reconheceria a nossa república, e assim, mostrando-me publicamente a sua estima, as sufragistas manifestavam-se contra os seus actuais opressores.
Toda esta salada seria inverosímil e absurda noutro país, mas a Inglaterra é a pátria consagrada de todas as extravagâncias, e um amigo meu, que a conhecia a fundo, comparava-a ao Celeste Império. Para em tudo se assemelharem, afirmava ele, até houve na Grã-Bretanha uma espécie de muralha da China: aquela que o imperador Adriano construiu, para separar a Escócia do resto da ilha, e estendia-se do mar do Norte ao Atlântico… E com razão se consideram os Ingleses como sendo o povo mais espiritualista da Terra – ajuntava ele: até a gramática inglesa admite incondicionalmente a existência da alma humana, como agora do «Grande Lafaiette» (um cómico que morrera queimado em Edimburgo): «o grande Lafaiette perdeu ali a vida e perdeu o seu cão», entendendo-se que a alma do cómico perdeu o seu corpo e o cão…
Estas brincadeiras, que eu transmiti num «chá das cinco» à minha amiga sufragista, granjearam-me a fama de humorista, qualidade muito apreciada no Reino Unido, e para me ouvir ofereceram-me um soberbo banquete, onde entre outras notabilidades encontrei o Conan Doyle, então já absolutamente afogado no espiritismo. Veio para mim de braços abertos, chamando-me ilustre colega: constava-lhe que eu evocava a alma do grande Lafaiette e com ela tinha amiudadas conferências!...
Esse banquete (de resto opíparo, muito bem servido, e abundante em convivas jovens e lindas) foi dos episódios mais alegres da minha vida, e tão bem disposto me encontrava que, quando me chegou a vez de discursar, dei largas à fantasia, tendo repentes felizes que foram delirantemente aplaudidos. Porém, no auge do arrebatamento, feita a apologia do sufragismo, atrevi-me a forragear pelos campos do humorismo, e declarei que pessoalmente ansiava pelo restabelecimento do matriarcado, na esperança de que os homens seriam tratados com as atenções e desvelos que hoje dispensamos ao sexo frágil, e, enquanto as mulheres suavam e tressuavam para nos sustentar e enfeitar, nós levaríamos a vida repimpados em flácidos coxins, fumando por narquilés, e tocando harpa…
Foi um balde de água fria lançado sobre aquela fogueira de entusiasmo.
Após um momento de profundo e geral silêncio ouviram-se murmúrios de desaprovação; as estenógrafas suspenderam o seu trabalho: algumas senhoras idosas levantaram-se e saíram, e até o Conan Doyle, de olhos cerrados e mãos cruzadas sobre a barriga, parecia ter mergulhado definitivamente nos abismos onde só os espíritos adejam…
De nada me valeu acudir sem demora apodando de mero gracejo a atrevida passagem, a qual eu renegava, mas veio depois uma comissão participar-me que não seria publicada na imprensa. Algo estomagado com a forma peremptória como foi feita a comunicação, respondi que não consentia em cortes: ou o discurso todo ou nada. Aqui ardeu Tróia. Houve clamores de revolta e olhares assassinos, e tomando o café já frio separámo-nos sem excessos de cordialidades.
Não há dúvida, pensava eu com os meus botões, a caminho da cama, fui buscar lã e vim tosquiado.
Puro engano. Ao dia seguinte a imprensa sufragista dava conta do banquete, nos mais elogiosos termos para Portugal e para o seu representante.
Belo exemplo de sentido político, justo e prático: naquele momento eu representava um trunfo no jogo das sufragistas e elas entenderam que não seria conveniente perdê-lo. Foi quando me convenci de que a vitória da «santa causa» era certa…

M. Teixeira-Gomes, “2.ª Parte de Miscelânea – Carnaval Literário”, pp. 157-160, Livraria Bertrand, 3.ª ed., 1993.

07/09/2019

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O «bovarysmo», expressão inventada por Júlio Gaultier, e hoje de uso corrente, pode ser ampliada no sentido de levar ignorantes obstinados à recusa de verdades evidentes, para só admitirem o que a princípio se lhes afigurava seguro e certo. Exemplo: no consultório de um meu amigo apareceu, com um tumor no ouvido, uma mulher que a muito custo, e após grandes instâncias, consentiu em ser lancetada. O ouvido estava cheio de «caca de anjinho» (excremento de criança de mama) que ela pusera na persuasão de que seria mezinha infalível. E era tanta que o médico tirou e lavou com muitíssimo trabalho. Depois da punção, a mulher, tal como lhe assegurava o médico, sentiu-se logo aliviada e observou: – «Afinal eu estava com medo e isto não doeu nada… Sinto-me melhor; bem se vê que a ‘caca de anjinho’ é excelente para estes bichocos…»
Mas o «bovarysmo» pode ir ainda muito longe, levando indivíduos de fraca envergadura intelectual a presumir das forças que a si mesmos atribuem, energias consideráveis, como se dispusessem daquela acção nervosa que é exclusivo apanágio dos heróis.”

M. Teixeira-Gomes, “2.ª Parte de Miscelânea – Carnaval Literário”, pp. 145-146, Livraria Bertrand, 3.ª ed., 1993.

06/09/2019

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Coimbra, 6 de Setembro de 1949 – Só me vem roubar tempo e maçar-me. Mas recebo-o sempre com deferência, e ouço-o com a melhor atenção que posso. Com todos os seus defeitos, é um leitor. Um homem capaz ainda de se debruçar sobre um poema, atento e enlevado horas a fio. A vida levou nos seus braços velozes a calma dos dias passados, que dava para fazer passeios, pelos campos e pelos livros. Agora reduziu tudo ao essencial, ao caldo e às batatas, e só verdadeiros heróis, sujeitos deformados e anacrónicos, têm a necessidade de ler e meditar. Por isso é preciso acarinhar estes fenómenos. E não tanto pela arte, que, afinal, se não é precisa não tem nada que fazer no mundo, mas por eles, que são doentes, diferentes, condenados paladinos duma causa perdida.”

Miguel Torga, “Diário V” 2ª ed. Revista, pág. 44, Coimbra Editora, 1955.

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04/09/2019

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cliché de uma gravura de Guilherme d' Azevedo por Rafael Bordallo Pinheiro
Veio do estrangeiro e foi posto á venda um vistoso sortimento de lenços baratos, contendo no centro d’uma corôa d’algodão a effigie do snr. presidente do conselho (Fontes) enramada de louros. Como era d’esperar, esta consagração politica tem dado logar aos comentarios mais ruidosos dos narizes que hoje se degladiam na politica militante. E caso estranho! a ira e o regosijo dos adversarios teem-se manifestado por uma fórma completamente identica, derramando os narizes conservadores sobre o dito lenço todo o seu affecto e todo o seu rapé, e os narizes avançados toda a sua colera e todo o seu defluxo. Como é triste o destino do homem d’Estado em Portugal, e como são mesquinhas e tantas vezes cómicas as consagrações que os contemporaneos lhe reservam! Depois das mais terriveis luctas, dos mais arduos combates, só consegue ir para a gloria, indo ao mesmo tempo para a lavadeira”
Guilherme d’ Azevedo in «Occidente»
Guilherme d’ Azevedo op. cit in Fialho d’Almeida, “Os Gatos – Vol. V”, pp. 191-192, 4.ª ed., Livraria Clássica Editora de A. M. Teixeira, Lisboa, 1921.

30/08/2019

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Que verdadeiramente, é S. M. a rainha a pessoa a quem mais se tem que agradecer a divulgação d’esta mania, que o professor Casanova só depois foi chamado a classificar, com o respectivo receituario d’atelier. S. M. aconteceu-lhe ter uma vez o dedo sujo de; mandou buscar cartão gris-perle, e passando o dedo, com um movimento ondulado, sobre a folha, produziu assim uma coisa que o secretario declarou ser a mais admiravel vista do Castello dos Mouros, que era de vêr. Chamados peritos, confirmaram-se as previsões do secretario, sendo coagida a princeza a expor no Gremio Artistico a famosa dedada paysagista. D’ahi por deante, tudo quanto S. M. tem produzido em nodoas, acha o mestrado digno de molduras, e ahi está como, por imital-a, toda a bôa roda desandou a revelar-se artistica, vestindo os trintanarios de cavalleiros de Luiz XIII, as titis d’incroyables e de soubrettes, os guardas-portões barbados, de Vascos da Gama, e esfuriando-se a retratal-os a todos, pelo processo do dedo sujo, sobre cartão previamente humedecido.”
Fialho d’Almeida, “Os Gatos – Vol. V”, pp. 164-165, 4.ª ed., Livraria Clássica Editora de A. M. Teixeira, Lisboa, 1921.

24/08/2019

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MAIS PORTO PONTO



Quase no mesmo momento em que a câmara municipal do Porto substitui o seu parque automóvel para o ecléctico eléctrico-ecológico, numa lavagem também ecológica e necessária aos tustos de um erário público, que cada vez mais se vê obrigado a entregar o dinheirinho empestado e empastado (e quando não emprestado) com o suor dos seus rostos e, sem que se dê o devido tempo para que esse suor se entranhe no níquel e crie a tão desejada patine; aproveita a câmara o lanço e também substitui as vassouras – tão ecológicas! – por sopradores a diesel triplamente poluentes: fazem um chinfrim danado, ficando os ouvidos a tinir; levantam uma poeira desgraçada, que logo repousa quando o zéfiro a diesel se pisga, deixando tudo praticamente na mesma para não dizer pior; a terceira já disse: são nutridos a gasóleo verde e aromático… Mas as hipóteses da minha tese são as seguintes: compraram-se sopradores barulhentos para todos ouvirem bem que os limpadores camarários ou subcontratados estão efectivamente a trabalhar; e compraram-se carros silenciosos para os engenheiros e maiorais de hierarquia, dessa instância pública, para que não os ouçam a não fazerem nenhum.
RAR

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23/08/2019

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Guimarães, 23 de Agosto de 1949 – A Penha cheia de cruzes e memórias. Estupor de país! Não tem um sítio bonito, que lhe não ponha logo um Cristo e um Gago Coutinho!
Ó senhores! deixem as fragas em paz! Deixem os montes à solta! Não canonizem nem patriotizem tudo! Conservem um bocadinho da natureza na sua virgindade natural, quanto mais não seja para que Deus e os heróis se não sintam constrangidos, por modéstia, em toda a terra lusa!”

Miguel Torga, “Diário V” 2ª ed. Revista, pág. 42, Coimbra Editora, 1955.

16/08/2019

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CINEGÉTICA


Um caçador
perdeu a cedilha
e por isso
sua mulher
nunca mais
quis ir à caça
com ele
sem cedilha


Mário-Henrique Leiria, “Contos do Gin-Tonic”, pág. 77, Editorial Estampa, 2. ª ed., 1976.