15/07/2019

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O modo de jogar com a linguagem absolve de toda a classe de desvarios, como põe em relevo a miséria intelectual de muitos pretensiosos sem fundamento, e isso de forma que o leitor se interessa igualmente pelo bom e pelo mau, e encontra especial satisfação em lhes fazer a síntese.
Três exemplos:
1.º Explorador incansável da mentira poética; aventureiro audaz do campo das ideias; criador inexaurível de imagens resplandecentes; o mundo em que se move é o puro espelho da sua sensibilidade e da sua inteligência: não conhece limites e jamais enfastia.
2.º Há neste escritor muita fantasia premeditada, arranjada, combinada adrede para produzir efeitos de ordem puramente literária, mas salva-se pelo fundo de genuíno lirismo em que todos os seus bordados assentam.
3.º A existência, a descoberta, de criatura assim tão supinamente besta não nos deve causar indignação, mas consumado júbilo. É como se víssemos agora aparecer completo, vivo, perfeito, um desses monstros fabulosos, da idade pré-histórica, de que um só osso constitui a glória de museus famosos.
Mas não será isto um enigma, uma adivinhação, própria para ser posta a concurso na grande imprensa? O leitor que lhe ponha os nomes certos e ganha… um folar para a Festa.”

M. Teixeira-Gomes, “2.ª Parte de Miscelânea – Carnaval Literário”, pp. 31-32, Livraria Bertrand, 3.ª ed., 1993.


14/07/2019

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S. Martinho de Anta, 14 de Julho de 1946 Mesmo que se não queira, uma carruagem de comboio é um lar temporário. Os nossos vizinhos do lado chegam-se a nós como irmãos, e os da frente bafejam-nos como avós. Se a viagem é curta, a intimidade é discreta e em certa medida higiénica. Mas se é longa, se o percurso vai do Porto ao Pinhão, acaba-se na confidência da urina e das eructações. Como acontece na mais respeitável família, há de tudo, ali em materia de humanidade. A velha sabedoria de que temos cinco dedos em cada mão e nenhum é igual, também está certa num trem. Todos os passageiros que vinham no compartimento em que hoje viajei verificaram isso à saciedade.
O casal da demonstração entrou em S. Bento. Ela tinha cara de má, viu-se logo, mas trazia um filho ao colo, e ficou, portanto, ilibada em princípio de toda a mácula. Mulher parida é mulher absolvida. Ele tinha apenas um dente podre. De repente, mesmo antes de o comboio se pôr em andamento, começou o barulho. Ela encheu o compartimento de insultos, e ele imitou-a. O filho dormia.
Como ainda não houvesse tempo para cada qual se compenetrar dos seus deveres, o sobressalto foi inevitável. A ideia de uma outra carruagem e de uma outra família passou pela cabeça de todos. Mas o comboio estava repleto e havia malas. Por isso, assentou-se na resignação.
No meio da ansiedade que qualquer renúncia implica, a voz da máquina, a avisar que partia, foi como um penso. O movimento areja o corpo e o espírito, e os dois desavindos não podiam fugir à regra. A escuridão do túnel que veio logo, ajudou esta esperança. Mas era uma miragem. Apenas a luz do sol escarolou aquela sala doméstica, o conflito continuou.
Lógicamente a família inteira afilou então os ouvidos a fim de perceber a razão da contenda. Já nos outros compartimentos havia risos de troça, e era preciso documentar aquela solidariedade que o acaso impunha. Tarefa muito difícil. Os fundamentos da zanga remontavam aos tempos pré-históricos da vida particular dos dois, quando não eram ainda nossos parentes.
Uma coisa se viu claramente: é que todos, à uma, se pusera ao lado do homem. Primeiro, porque gritava menos; segundo, porque não era ele que limpava o rabo do menino, embora ajudasse.
Por alturas de Mosteirô, já quando não havia mais insultos no dicionário nem lágrimas nos olhos da Madalena, o mistério começou a aclarar-se.
Estava na base do conflito a sogra, que perdera o comboio, trazia contrabando, e talvez tivesse sido presa. O rapaz, claro, sofrera; a mulher rejubilara. Daí a desarmonia.
O resto da família compunha-se de uma velhota corada e simpática, que passou o caminho calada, a encher o biberão do menino. Viu o pai aflito naquela prática, pediu licença, e fez ela o serviço. Ninguém lhe agradeceu a gentileza, mas ela, mesmo assim, continuou a tarefa. Toda a gente deve trabalhar, numa casa.
Mesmo ao lado da fera, sentava-se um cavalheiro de olhos azuis, alto, que era o Gary Cooper por uma pena. Até na filosofia se pareciam. Quando um novo passageiro entrou, como a megera ocupava dois lugares, o pobre ficou apertado entre duas forças hostis. A que vinha, que queria espaço, e a que estava, que não cedia espaço. Mas não se desconcertava. Manteve um sorriso compreensivo nos lábios, esperou, e quando a Eva por sua recriação tirou de cima do banco a cesta dos cueiros e se compôs, passou-lhe pelos olhos o làmpejo mais irónico e mais fino que vi.
Havia ainda um rapaz ruivo, que tentou alegrar aquela tristeza com uma gaita de boca, mas desistiu, e um sujeito gordo que comeu bolos de bacalhau todo o caminho.
Os polos da família, porém, eram o casal, e também o filho, que parecia um rato, e chupava na teta do frasco como um aspirador mecãnico.
Ninguém olhava sequer a paisagem, que entrava pelas janelas, verde e generosa. O rio ia ali ao pé na sua pobreza doirada, e a estrada de Rezende, do lado de lá, fazia piruetas na encosta. Em vão. Lembro-me ao todo de ver um cacho de malvasia pendurado numa ramada. Tal era o constrangimento!
Na Régua, o rapaz foi telegrafar à mãe. E a mulher ficou finalmente só, sem alvo para esvaziar aquela bílis que não tinha fim. Ferrou, por isso, os olhos no chão, e estendia de vez em quando a chupeta à senhora corada, que se apressava a enchê-la sem dizer palavra.
Mas o comboio pôs-se em andamento antes de o rapaz aparecer. E a mulher, que lhe tinha dito de todas as maneiras que a deixasse, que não lhe pusesse mais os olhos em cima, que maldita a hora em que o conheceu, começou aos gritos. Todos lhe garantiam que o homem vinha atrás, noutra carruagem. Nada. O Gary Cooper, manhoso, explicou que o vira passar para a ambulãncia. Pior. As lágrimas inundavam tudo.
No Ferrão, o desaparecido apareceu. E todos esperaram ver finalmente, a luz da harmonia e da paz raiar entre aquelas almas. Qual o quê! Uma girândola de insultos coroou miseràvelmente a cena.
Por fim, já quando não havia esperanças, o homem descascou um pêssego, ia a metê-lo à boca, mas suspendeu o gesto e ofereceu-o à mulher. E o milagre deu-se. Como no paraíso, tinha de ser um fruto a uni-los para o bem e para o mal.
E foi então que eu deixei aquele lar que durou quatro horas, acompanhado de um adeus compreensivo da senhora corada e de um olhar inteligente do Gary Cooper.

Miguel Torga, “Diário III”, pp. 183-187, 1954, Coimbra.

13/07/2019

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O grosso dos contratos de aforamento, arrendamento ou compra-e-venda dos séculos X, XI e XII mencionam pagamento em géneros, muitas vezes combinado com dinheiro. Nem o Conde D. Henrique nem D. Teresa julgaram necessário cunhar moeda, embora o pudessem ter feito. Circulavam os dinheiros de bilhão leoneses, juntamente com o dinar de ouro e o dirham de prata islâmicos e até nomismata áureos de Bizâncio. Afonso Henriques, cujo longo reinado implicou acréscimo de fortuna, desenvolvimento do comércio e necessidade de prestígio, fez cunhar os primeiros morabitinos de ouro portugueses, que copiavam em tamanho e em valor, assim como em nome (morabitino vem de al-Murabitun, o dinheiro dos Almorávidas), o seu modelo muçulmano. Cunhou também dinheiros de bulhão e porventura meios-dinheiros ou mealhas da mesma liga. Este duplo aspecto monetário espelhava com muita precisão a integração económica de Portugal, compromisso entre a influência meridional (muçulmana) e a origem setentrional (cristã). O comércio português nascera da viabilidade das correntes de intercâmbio, tanto com Leão como com o mundo islâmico (mais exactamente o reino de Badajoz). Portugal, porém, não tinha ainda muito que oferecer em troca. Foi, assim, vagarosamente, que esse comércio se desenvolveu. Pelos fins do século XI, já se mencionavam mercados em diversas cidades e aldeias, mas as primeiras feiras só surgiram nos finais da centúria seguinte, se esquecermos o exemplo único da feira de Ponte de Lima, criada antes de 1125.
Em torno dos castelos do Porto, Guimarães, Constantim de Panóias, Mesão Frio, Gaia e outros, assim como em redor de alguns mosteiros fortificados, foram-se juntando pequenas colónias de mercadores. Nas «cidades» (Braga, Coimbra, Lamego, Viseu, Chaves) viviam outros mercadores. É possível que Coimbra desempenhasse, neste caso, um papel de relevo, próxima que estava do território muçulmano. Foi também em Coimbra, pouco antes de 1111, que se registou a única revolta «comunal» de que temos notícia, obrigando o Conde D. Henrique a conceder-lhe novo e mais favorável foral.”

A. H. de Oliveira Marques, “História de Portugal – Desde os tempos mais antigos até ao governo do Sr. Palma Carlos”, 4.ª ed., pág. 83, Ed. Palas Editores, Lisboa, 1974.

12/07/2019

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“Nas horas em que a maré deixa a descoberto a antiga Praça do Comércio e a Avenida Marginal do século XX, já tenho feito algumas ligeiras explorações, e recolhido alguns fósseis e exemplares arqueológicos, de que minuciosamente falarei no meu Diário.
À míngua de interesse científico, não deixa de ser curioso um dos primeiros objectos que se me depararam numa pequena exploração, a leste da minha tenda, no mesmo sítio, talvez, em que se emaranhavam as vielas de Alfama.
É uma prancha, ou lâmina, petrificada, e recoberta de calcário e grés de formação marina. Fi-la imergir numa solução de corrosivo antilítico, e, desligado o calcário da prancha primitiva, pude ler nela, em indecisos caracteres:
ALTO AQUI!
LEGÍTIMO VINHO DO CARTAXO!
As memórias escritas do quinto período geológico, um pouco mais claras que as do período terciário e quaternário, e bem assim as preciosas informações do cenobita açoriano, convenceram-me de que a prancha aludida era uma tabuleta comercial; e de que a aparente redundância da expressão vinho legítimo era a mais legítima consequência do estado económico e social dos portugueses, no século XX, ou fins do século XIX, a que a prancha provavelmente pertencia.
Cartaxo devia ser algum burgo vinhateiro; mas, com o seu nome, vendia-se vinho legítimo e vinho falsificado. Parece que o mesmo sucedia com outras regiões vinhateiras, porque havia vinho do Porto, que era da Bairrada; vinho de Colares , que era de Tomar; vinho de Bordéus, que era de Carcavelos; vinho de Champagne, que era do Poço do Bispo.
Este quiproquó industrial estava tão radicado nos costumes do povo e no interesse das grandes indústrias, que, quando um governo julgou indispensável dar o nome às vacas e pôr os pontos nos ii, como então se dizia, uma empresa poderosa, Mixórdia & C.ª, fez uma revolta, que obrigou o governo a cantar a palinódia e deixar correr o marfim. Em todo o caso, não havia desdouro na transigência, porque estava ainda em voga uma ciência, chamada economia política, de cujos princípios bastará citar este: «laissez faire… mixórdia e tudo».
O que se dava com o vinho reproduzia-se nas demais indústrias: a manteiga era margarina; o café era grão-de-bico, o açucar era farinha, os panos da Covilhã eram panos de além-Caia. Por desamor a estes panos e outras fazendas suspeitas, esteve um ministro em risco de ser crucificado por uma seita de contrabandistas, que infestava o país.
E as falsificações estendiam-se a tudo, desde as indústrias até aos industriais, desde o povo até aos governos. Comerciantes de gente negra, bandidos de casaca e luvas, marçanos anónimos que surgiam endinheirados dos alçapões da fortuna, tinham no seu tempo o cognome de homens de bem, beneméritos e sustentáculos da pátria.”
Cândido de Figueiredo, “Lisboa no Ano Três Mil – revelações arqueológicas obtidas pela hipnose e publicadas em 1892”, pp. 25-27, Frenesi, Lisboa, 2003.

11/07/2019

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“Falava-se numa botica de província (nas capitais já ninguém discorre sobre semelhantes assuntos) de alguns extravagantes artigos da velha farmacopeia. Alguém aludiu ao óleo de lacrau e um campónio, que, por acaso, assistia à conversa, advertiu:
«Pois se fossem precisos lacraus era só dizerem-mo, que lá para os meus sítios não faltam.»
Retorquiu-lhe um dos circunstantes, gracioso encartado:
«Arranje você uma boa canastra deles que aqui o Sr. Crespo compra-lhos.»
«E por bom preço – reforçou com malícia o Crespo, dono da farmácia – mas que venham vivos…»
E todos riram à socapa, o que não escapou ao lapuz, embora não desse sinal de que o notara.
Quando ele saiu houve um coro geral:
«Arre, que é burro!...»
Passado poucos dias volta o campónio com um cesto cheio de lacraus.
«Aqui estão eles.»
«O quê?...»
«Os lacraus.»
«Os lacraus?»
«Sim senhor, e todos vivos como V. S.ª recomendou.»
«Você é parvo, homem, pois você não viu que tudo aquilo era troça e para chuchar consigo…»
«Ah! era troça… então tome-os lá de graça», e despejou-lhe o cesto dos lacraus pelos quatro cantos da casa.
Quando souberam isto os habituais frequentadores daquele centro de má-língua recusaram-se a lá voltar; a freguesia diminuiu consideravelmente, e o Sr. Crespo levou meses a caçar lacraus, antes que se visse livre deles…
Porém onde está a moralidade do conto, que meta filósofos, lapuzes e lacraus, todos juntos?
Isso é com o leitor, não é comigo…

M. Teixeira-Gomes, “2.ª Parte de Miscelânea – Carnaval Literário”, pp. 140-141, Livraria Bertrand, 3.ª ed., 1993.

05/07/2019

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Coimbra, 5 de Julho de 1946 Na tipografia, a ver trabalhar lado a lado máquinas impressoras, desde o velho prelo renascentista até à última rotativa americana. O prelo já só tira provas; mas dele em diante o número de folhas vai subindo até ao infinito. Não são, porém, as características de rendimento que, a meu ver, separam significativamente os vários modelos e espelham a constante trajectorial de toda a criação humana. A ideia de Gutenberg não mudou profundamente na sua essência, porque, ao fim e ao cabo, estamos sempre diante de aparelhos de imprimir caracteres em papel, e o maior ou menor número de exemplares conseguidos numa unidade de tempo diz respeito apenas a um aperfeiçoamento de articulações. O que me parece ter realmente interesse na comparação destas realizações é a arquitectura aparente de cada uma. O prelo pode ser comparado a uma capela românica, sem nenhum ornamento e sem qualquer desvio da intenção original. Há uma simplicidade genial na sua estrutura, que lhe dá uma beleza recolhida e perene. Mas já na máquina seguinte esta singeleza se perdeu, e qualquer coisa de flamejante perturba a serena criação da primeira. No último modelo, então, estamos caídos no barroco integral, pasmados e ajoelhados perante um número infinito de rodinhas, de parafusos, de aspiradores, de cilindros e de fios. No colosso que há-de vir, nem vale a pena falar, de tal grandeza será o delírio…
Quanto aos operários que manobram estes engenhos, os que movem o prelo estão numa espécie de fraternidade imediata com ele, que lembra a pureza das relações com Deus na tal sé de arco redondo, onde o corpo se sentia pelo menos tão seguro como a alma. No gótico já pouco desta comunhão se mantém. O espírito sobe, mas a carne desce. E é pouco mais o que acontece na máquina seguinte. Uma vez que foi possível aplicar-lhe uma polia, o impressor começa a pairar naquele movimento como a sombra de um defunto. Na rotativa actual, é de ver, o homem perdeu inteiramente o pé na realidade, e, à semelhança da posição do crente nas igrejas setecentistas, é já só aos ornamentos que os seus olhos ficam atidos. Basta-lhe carregar num botão, para que a sua desumanização comece.
Por ter esta ânsia de chegar ao seu barroco imaturamente, é que a civilização mecânica corre o perigo de se perder ou de perder a humanidade. Matam a cabeça e o corpo equipas de sábios a conceber um Spitfire, e ainda ele está no estaleiro já se precisa dum Meteor! Exactamente o que aconteceu com o cinema, que, de sofreguidão, se devorou. Parte da humanidade não tinha acabado sequer de abrir os olhos para a maravilha (e em Portugal a maior parte das pessoas nem diante dos olhos a tiveram), e já a maravilha estava na sua decadência!
A máquina é dos mais perfeitos milagres do nosso tempo. Se não fosse ela, que oporíamos nós à Grécia, nós que não fomos capazes de uma filosofia nova, de uma arte nova, de uma plenitude espiritual e física que se lhe comparem? Mas, como todos os milagres, tem o seu perigo: o de a gente pôr neles uma fé tão cega que não fique lugar para a presença céptica da razão que os fez.

Miguel Torga, “Diário III”, pp. 178-180, 1954, Coimbra.

24/06/2019

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Coimbra, 24 de Junho de 1947 Acabar com a ideia da morte. Integrarmo-nos na natureza, para que, aos horrores das penas temporais, não juntemos ainda o castigo das eternas. O homem é, ao cabo e ao resto, um animal. Sofra pois como animal, e não como deus.

Miguel Torga, “Diário IV”, pág. 45, 1953, Coimbra.

17/06/2019

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Coimbra, 17 de Junho de 1946 A leitura do último volume do Journal de Gide fez-me pensar mais uma vez no conteúdo do meu Diário. Por que razão profunda eu o escrevo e publico, e que interesse confessional ele tem que possa atrair e lisonjear aquele público que se masturba na ilusão de ser em certas horas o confessor do artista? A ideia de um diário íntimo, de tripas na mão, é uma ideia romântica. Só uma mentalidade Byroniana pode conceber o absurdo de se julgar polo do mundo, fulcro de todos os conflitos que interessam o homem. Daí que nas próprias dores cuide resumir todas as dores possíveis, e descreva uma insónia sua como a catástrofe máxima da noite que decorreu. O masoquismo de Rosseau tem esta base. Ora se, apesar de tudo, um romantismo residual existe necessàriamente em cada artista (e emprego o termo, não como chancela de escola, mas como marca de qualidade), o certo é que ninguém responsável se coloca hoje numa posição tão ridícula.
Neste jornal de Gide, por exemplo, há um doseamento quase terapêutico do íntimo e do público, de maneira que nem o primeiro seja um estendal doméstico, nem o segundo uma lisa mistificação. Passadas pela oficina, as mazelas vestiram-se de uma túnica literária que as transfigura em motivos de arte e curiosidade.
No meu Diário creio que há muita literatura, também. É certo que nem sempre escrevi que sou intransigente, duro, obsecado, capaz de uma lógica que toca a desumanidade. Sei que nem sempre admiti que estava irritado com este camarada e com aquele amigo, e que há em mim uma manha de cavador que se sobrepõe ao desbragamento da confissão. Preferi às vezes pôr um poema onde devia estar um insulto, e em certas ocasiões acreditei mais no meu instinto sem provas do que na minha razão com argumentos. Enchi com frequência uma página de lamúrias, quando na verdade estava cheio de força e alegria.
Mas quem é que não conhece estas minhas misérias à saciedade, e sabe tão-pouco de artista que ignora a falta de sintonização do estado receptivo com o estado de criação? De resto, um diário não é necessàriamente um perpétuo mea culpa. Pode ser um simples memento, um exercício espiritual, um caderno de apontamentos, tudo que se queira. Que nele haja sempre um derrame de pecados e maceração, parece-me absurdo. Pela minha parte, não sou delator, nem meu, nem dos outros. Não tenho nada a esconder do leitor, a quem nunca vendo gato por lebre, mas quero ter mão em mim, evitando-lhe o espectáculo de uma exibição confrangedora. Há recantos do ser e da vida que precisam de silêncio. No diário de Amiel foi preciso mondar muito, e mesmo assim o que escreveu ficará sempre como um documento clínico, história patológica de um tímido, e não obra literária, aspiração de todo o criador.
Da minha pena de artista quero que saia apenas aquela intimidade que me parece ser suficiente para matar a justa curiosidade do leitor devotado, e me deixe ao abrigo de todas as bisbilhotices doentias.

Miguel Torga, “Diário III”, pp. 172-174, 1954, Coimbra.

15/06/2019

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Coimbra, 15 de Junho de 1945 O primeiro pedreiro que quebrou o arco, esse é que eu queria conhecer…
A conversa girava à volta do problema da criação, no seu aspecto individual e colectivo.
– Então mas a catedral não é precisamente uma prova irrefutável da arte por equipas? E Shakespeare e Camões e Goethe não se fartaram de construir sobre materiais carreados por outros?
– Embora. Entro na Sé Velha ou na Batalha, e digo: Aqui, o génio de tudo isto está na padieira da porta. Quem arredondou ou ogivou, esse é que tem a glória. Quanto ao Camões e aos outros, por cada cena que já estava imaginada antes deles, menos um valor. E tanto se me dá que me chamem individualista, como não. Enquanto não aparecer uma escola de ginástica que fabrique um Nijinski, em arte sou pelo dom e pela predestinação.

Miguel Torga, “Diário III”, pág. 101, 1954, Coimbra.

19/05/2019

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Coimbra, 19 de Maio de 1946 É quase inacreditável que eu tenha nascido aqui! – dizia-me
há tempos um artista amigo, diante dos casebres serranos da sua terra. E acrescentava: – Como isto me é estranho, hostil e incompatível com o hotel em que vivo!
E eu lembro-me de vez em quando daquelas palavras, mas para as aplicar precisamente ao contrário. Sentado a certas mesas, no meio de certa gente, e enrodilhado em certas situações, digo eu:
– É quase inacreditável que eu esteja aqui! Como me é estranho, hostil e oposto à choupana onde queria e devia viiver!

Miguel Torga, “Diário III”, pág. 168, 1954, Coimbra.

18/05/2019

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Coimbra, 18 de Maio de 1947 A maior desgraça que pode acontecer a um artista é começar pela literatura, em vez de começar pela vida. Cora-se de vergonha, depois, diante das ingenuidades impressas, que são cueiros sujos e pretendem ser livros. Só a experiência, a dor e o trabalho trazem a dignidade que uma obra literária exige. Mesmo que não se tenha génio, pode-se, então, ter compostura. E seja qual for a duração do que se escreve, uma coisa ao menos os vindouros poderão respeitar: a nobreza do que vão ler. Mas poucos sabem esperar pela hora da maturação. E antes desse livro curado pelo fumo da vida, vêem-se quase sempre meia dúzia de outros, infantis, imbecis, esquemáticos como o bê-á-bá. Penitet me – creio que é a fórmula do arrependimento.

Miguel Torga, “Diário IV”, pág. 41, 1953, Coimbra.

14/05/2019

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É bom ver "resgatado" de um certo esquecimento um dos elementos da tertúlia, ou "tortúria", do Café Gelo. Foi escritor e violinista em "orquestras" de navios cruzeiros. Ainda por cima com a fotografia dele (o que é raro!). A foto é do Eduardo Gageiro o livro é da editora Ponto de Fuga.

Mais aqui

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12/05/2019

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“Toda a nossa actividade literária é de uma mesquinhez atroz. Nós não temos o direito de escrever. Falo de nós todos. Postos de parte os Tónios e as Marias dos imbecis, que nos fica? O romance de gabinete, essa porcaria «inteligente», essa masturbaçãozinha de impotentes. Ou então, o romancezinho «psicológico», em que se trata o homem com desprezo, se vem contar, com petulância, como é feito por dentro e dá entre nós um génio em cada cinco anos, esse romancezinho feminino que Proust, como «mulher» que era, põs em moda. Sim, que só mesmo uma mulher podia inventar essa coscuvilhice íntima, essas histórias, e històriazinhas cheias de pequenininhas observações, esses períodos longos e complicados como folhos e rendas de uma boneca. Contra mim falo, meu amigo, ah, contra mim falo. Mas não há outra saída. E todavia a hora é da ardência, do sangue!”

Vergílio Ferreira, “Cântigo Final”, pág. 22, Portugália Editora, Lx, s/d. (escrito em Évora em 1956).

Da série as “traições” da Musa…


Coimbra, 12 de Maio de 1947

POEMA

Foi um poema casto que eu pedi
à minha Musa.
Um poema com bibes e meninas,
e ternura no meio.
Mas quando a imagem veio,
e eu, deslumbrado, a olhava,
a menina mais velha namorava,
e as outras, ao lado, aprendiam
a instintiva lição…
Minha Musa, o poema?
Este é o mesmo poema,
numa outra versão.

Miguel Torga, “Diário IV”, pág. 36, 1953, Coimbra.

05/05/2019

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Coimbra, 5 de Maio de 1947 Esta rapariguinha vem transtornada de Fátima. Tudo a deslumbrou. A multidão, o espectáculo e o lugar. Sobretudo o lugar. Sentiu verdadeiramente que havia nele qualquer coisa de sobrenatural, de divino.
E eu, então, falei-lhe de Roma. Contei-lhe que tanta emoção se sentia nas Catacumbas, como no Coliseu, como debaixo de um arco de triunfo. E visse o despropósito: nas Catacumbas, tinham vivido cristãos; no Coliseu tinham lutado gladiadores com feras; e sob o arco do triunfo tinham passado tiranos.
– Concebo a sua fé, e respeito-a, – acrescentei. – Mas para que um sítio qualquer fique carregado de uma electricidade emotiva, não é preciso que Deus ou a sua Mãe venham cá a baixo. O homem é muito capaz de uma façanha destas. Basta que um pastor ou um bispo se resolvam a criar um mito. Então, as pedras transformam-se em altares, e uma mangedoira no berço mágico de um redentor.

Miguel Torga, “Diário IV”, pág. 35, 1953, Coimbra.