15/09/2019

"Oops!"...


Por acaso, em uma das minhas anteriores visitas a Londres, eu travara relações com uma sufragista de alto coturno, à qual manifestara toda a minha simpatia pela «causa», e, por acaso também, foi ela uma das primeiras pessoas que encontrei quando entrei em funções. Reafirmei-lhe os meus sentimentos, e isso (à parte algum exagero) com sinceridade e convicção: a mulher inglesa, geralmente muito mais culta do que o homem tinha boas razões para exigir o direito do voto.
Admirável foi o efeito que produziram as minhas declarações, comunicadas sem demora aos corpos dirigentes: veio logo uma delegação perguntar-me se a República Portuguesa não estaria disposta a praticar almejada reforma, e em cada sufragista surgiu uma defensora da nossa revolução, que bem precisava desses favores, pois a atmosfera de que fruía em Londres era péssima.
Constava que o governo inglês tao cedo não reconheceria a nossa república, e assim, mostrando-me publicamente a sua estima, as sufragistas manifestavam-se contra os seus actuais opressores.
Toda esta salada seria inverosímil e absurda noutro país, mas a Inglaterra é a pátria consagrada de todas as extravagâncias, e um amigo meu, que a conhecia a fundo, comparava-a ao Celeste Império. Para em tudo se assemelharem, afirmava ele, até houve na Grã-Bretanha uma espécie de muralha da China: aquela que o imperador Adriano construiu, para separar a Escócia do resto da ilha, e estendia-se do mar do Norte ao Atlântico… E com razão se consideram os Ingleses como sendo o povo mais espiritualista da Terra – ajuntava ele: até a gramática inglesa admite incondicionalmente a existência da alma humana, como agora do «Grande Lafaiette» (um cómico que morrera queimado em Edimburgo): «o grande Lafaiette perdeu ali a vida e perdeu o seu cão», entendendo-se que a alma do cómico perdeu o seu corpo e o cão…
Estas brincadeiras, que eu transmiti num «chá das cinco» à minha amiga sufragista, granjearam-me a fama de humorista, qualidade muito apreciada no Reino Unido, e para me ouvir ofereceram-me um soberbo banquete, onde entre outras notabilidades encontrei o Conan Doyle, então já absolutamente afogado no espiritismo. Veio para mim de braços abertos, chamando-me ilustre colega: constava-lhe que eu evocava a alma do grande Lafaiette e com ela tinha amiudadas conferências!...
Esse banquete (de resto opíparo, muito bem servido, e abundante em convivas jovens e lindas) foi dos episódios mais alegres da minha vida, e tão bem disposto me encontrava que, quando me chegou a vez de discursar, dei largas à fantasia, tendo repentes felizes que foram delirantemente aplaudidos. Porém, no auge do arrebatamento, feita a apologia do sufragismo, atrevi-me a forragear pelos campos do humorismo, e declarei que pessoalmente ansiava pelo restabelecimento do matriarcado, na esperança de que os homens seriam tratados com as atenções e desvelos que hoje dispensamos ao sexo frágil, e, enquanto as mulheres suavam e tressuavam para nos sustentar e enfeitar, nós levaríamos a vida repimpados em flácidos coxins, fumando por narquilés, e tocando harpa…
Foi um balde de água fria lançado sobre aquela fogueira de entusiasmo.
Após um momento de profundo e geral silêncio ouviram-se murmúrios de desaprovação; as estenógrafas suspenderam o seu trabalho: algumas senhoras idosas levantaram-se e saíram, e até o Conan Doyle, de olhos cerrados e mãos cruzadas sobre a barriga, parecia ter mergulhado definitivamente nos abismos onde só os espíritos adejam…
De nada me valeu acudir sem demora apodando de mero gracejo a atrevida passagem, a qual eu renegava, mas veio depois uma comissão participar-me que não seria publicada na imprensa. Algo estomagado com a forma peremptória como foi feita a comunicação, respondi que não consentia em cortes: ou o discurso todo ou nada. Aqui ardeu Tróia. Houve clamores de revolta e olhares assassinos, e tomando o café já frio separámo-nos sem excessos de cordialidades.
Não há dúvida, pensava eu com os meus botões, a caminho da cama, fui buscar lã e vim tosquiado.
Puro engano. Ao dia seguinte a imprensa sufragista dava conta do banquete, nos mais elogiosos termos para Portugal e para o seu representante.
Belo exemplo de sentido político, justo e prático: naquele momento eu representava um trunfo no jogo das sufragistas e elas entenderam que não seria conveniente perdê-lo. Foi quando me convenci de que a vitória da «santa causa» era certa…

M. Teixeira-Gomes, “2.ª Parte de Miscelânea – Carnaval Literário”, pp. 157-160, Livraria Bertrand, 3.ª ed., 1993.

07/09/2019

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O «bovarysmo», expressão inventada por Júlio Gaultier, e hoje de uso corrente, pode ser ampliada no sentido de levar ignorantes obstinados à recusa de verdades evidentes, para só admitirem o que a princípio se lhes afigurava seguro e certo. Exemplo: no consultório de um meu amigo apareceu, com um tumor no ouvido, uma mulher que a muito custo, e após grandes instâncias, consentiu em ser lancetada. O ouvido estava cheio de «caca de anjinho» (excremento de criança de mama) que ela pusera na persuasão de que seria mezinha infalível. E era tanta que o médico tirou e lavou com muitíssimo trabalho. Depois da punção, a mulher, tal como lhe assegurava o médico, sentiu-se logo aliviada e observou: – «Afinal eu estava com medo e isto não doeu nada… Sinto-me melhor; bem se vê que a ‘caca de anjinho’ é excelente para estes bichocos…»
Mas o «bovarysmo» pode ir ainda muito longe, levando indivíduos de fraca envergadura intelectual a presumir das forças que a si mesmos atribuem, energias consideráveis, como se dispusessem daquela acção nervosa que é exclusivo apanágio dos heróis.”

M. Teixeira-Gomes, “2.ª Parte de Miscelânea – Carnaval Literário”, pp. 145-146, Livraria Bertrand, 3.ª ed., 1993.

06/09/2019

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Coimbra, 6 de Setembro de 1949 – Só me vem roubar tempo e maçar-me. Mas recebo-o sempre com deferência, e ouço-o com a melhor atenção que posso. Com todos os seus defeitos, é um leitor. Um homem capaz ainda de se debruçar sobre um poema, atento e enlevado horas a fio. A vida levou nos seus braços velozes a calma dos dias passados, que dava para fazer passeios, pelos campos e pelos livros. Agora reduziu tudo ao essencial, ao caldo e às batatas, e só verdadeiros heróis, sujeitos deformados e anacrónicos, têm a necessidade de ler e meditar. Por isso é preciso acarinhar estes fenómenos. E não tanto pela arte, que, afinal, se não é precisa não tem nada que fazer no mundo, mas por eles, que são doentes, diferentes, condenados paladinos duma causa perdida.”

Miguel Torga, “Diário V” 2ª ed. Revista, pág. 44, Coimbra Editora, 1955.

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04/09/2019

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cliché de uma gravura de Guilherme d' Azevedo por Rafael Bordallo Pinheiro
Veio do estrangeiro e foi posto á venda um vistoso sortimento de lenços baratos, contendo no centro d’uma corôa d’algodão a effigie do snr. presidente do conselho (Fontes) enramada de louros. Como era d’esperar, esta consagração politica tem dado logar aos comentarios mais ruidosos dos narizes que hoje se degladiam na politica militante. E caso estranho! a ira e o regosijo dos adversarios teem-se manifestado por uma fórma completamente identica, derramando os narizes conservadores sobre o dito lenço todo o seu affecto e todo o seu rapé, e os narizes avançados toda a sua colera e todo o seu defluxo. Como é triste o destino do homem d’Estado em Portugal, e como são mesquinhas e tantas vezes cómicas as consagrações que os contemporaneos lhe reservam! Depois das mais terriveis luctas, dos mais arduos combates, só consegue ir para a gloria, indo ao mesmo tempo para a lavadeira”
Guilherme d’ Azevedo in «Occidente»
Guilherme d’ Azevedo op. cit in Fialho d’Almeida, “Os Gatos – Vol. V”, pp. 191-192, 4.ª ed., Livraria Clássica Editora de A. M. Teixeira, Lisboa, 1921.

30/08/2019

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Que verdadeiramente, é S. M. a rainha a pessoa a quem mais se tem que agradecer a divulgação d’esta mania, que o professor Casanova só depois foi chamado a classificar, com o respectivo receituario d’atelier. S. M. aconteceu-lhe ter uma vez o dedo sujo de; mandou buscar cartão gris-perle, e passando o dedo, com um movimento ondulado, sobre a folha, produziu assim uma coisa que o secretario declarou ser a mais admiravel vista do Castello dos Mouros, que era de vêr. Chamados peritos, confirmaram-se as previsões do secretario, sendo coagida a princeza a expor no Gremio Artistico a famosa dedada paysagista. D’ahi por deante, tudo quanto S. M. tem produzido em nodoas, acha o mestrado digno de molduras, e ahi está como, por imital-a, toda a bôa roda desandou a revelar-se artistica, vestindo os trintanarios de cavalleiros de Luiz XIII, as titis d’incroyables e de soubrettes, os guardas-portões barbados, de Vascos da Gama, e esfuriando-se a retratal-os a todos, pelo processo do dedo sujo, sobre cartão previamente humedecido.”
Fialho d’Almeida, “Os Gatos – Vol. V”, pp. 164-165, 4.ª ed., Livraria Clássica Editora de A. M. Teixeira, Lisboa, 1921.

24/08/2019

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MAIS PORTO PONTO



Quase no mesmo momento em que a câmara municipal do Porto substitui o seu parque automóvel para o ecléctico eléctrico-ecológico, numa lavagem também ecológica e necessária aos tustos de um erário público, que cada vez mais se vê obrigado a entregar o dinheirinho empestado e empastado (e quando não emprestado) com o suor dos seus rostos e, sem que se dê o devido tempo para que esse suor se entranhe no níquel e crie a tão desejada patine; aproveita a câmara o lanço e também substitui as vassouras – tão ecológicas! – por sopradores a diesel triplamente poluentes: fazem um chinfrim danado, ficando os ouvidos a tinir; levantam uma poeira desgraçada, que logo repousa quando o zéfiro a diesel se pisga, deixando tudo praticamente na mesma para não dizer pior; a terceira já disse: são nutridos a gasóleo verde e aromático… Mas as hipóteses da minha tese são as seguintes: compraram-se sopradores barulhentos para todos ouvirem bem que os limpadores camarários ou subcontratados estão efectivamente a trabalhar; e compraram-se carros silenciosos para os engenheiros e maiorais de hierarquia, dessa instância pública, para que não os ouçam a não fazerem nenhum.
RAR

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23/08/2019

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Guimarães, 23 de Agosto de 1949 – A Penha cheia de cruzes e memórias. Estupor de país! Não tem um sítio bonito, que lhe não ponha logo um Cristo e um Gago Coutinho!
Ó senhores! deixem as fragas em paz! Deixem os montes à solta! Não canonizem nem patriotizem tudo! Conservem um bocadinho da natureza na sua virgindade natural, quanto mais não seja para que Deus e os heróis se não sintam constrangidos, por modéstia, em toda a terra lusa!”

Miguel Torga, “Diário V” 2ª ed. Revista, pág. 42, Coimbra Editora, 1955.

16/08/2019

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CINEGÉTICA


Um caçador
perdeu a cedilha
e por isso
sua mulher
nunca mais
quis ir à caça
com ele
sem cedilha


Mário-Henrique Leiria, “Contos do Gin-Tonic”, pág. 77, Editorial Estampa, 2. ª ed., 1976.

07/08/2019

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Caldelas, 7 de Agosto de 1945 A primeira bomba atómica. Que maravilhoso bicho, o homem! Teimou, teimou, teimou, e descobriu a pedra filosofal!

Miguel Torga, “Diário III”, pág. 110, 1954, Coimbra.

06/08/2019

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Afinal, isto do líquido à Zygmunt Bauman, ou da velocidade à Paul Virilio, sem falar desses homeopáticos dos sintomas: os revistaleiros do Zizek e do Chul-Han que estão tão em voga e eles próprios autores sintoma na sua produção de rali papers – os Rolands Barthês desta época, ou a isso se propondo, mas com desigual talento! Afinal, dizia eu, isto até já o era assim no tempo do Fialho d’Almeida. A propósito da tentativa de suicídio de Guy Maupassant.
Guy de Maupassant (1850-1893)

Tal foi a vida de Maupassant durante os dois anos fechados por elle ha oito dias com uma tentativa de suicídio, e tal deve estar sendo a esta hora no mundo a vida de setecentos ou oitocentos infelizes, sacrificados pelas impaciencias do publico a minusculisarem o talento e o genio em obrinhas litterarias de comprazer e ganha pão. A «actualidade» em litteratura está-se tornando para os escriptores um potro abominavel, que é impossivel soffrer por mais d’um certo tempo.
A voracidade artistica do publico vae-se complicando d’exigencias de lambarice: querem-se mets sempre variados, seja o que fôr, mas bem picante, estrambolico, archi-maluco.
As obras d’arte serenas, os livros cristallinamente escriptos para longas leituras da vida repousada, esses perderam a popularidade e foram-se ao olvido. As Illusions Perdues, a Grandeur et décadence de Cezar Birotteau, a Bovary, o Tarass Boulba, o David Copperfield, e as Memorias de Barry Lindon, são para os leitores contemporaneos, pavorosos pezadellos fastidiosamente longos, e de que só se vão compulsar as bellezas aos boletins bibliographicos das revistas.
Não ha tempo para attender deducções longamente architectadas, para seguir reconstituições de typos á Balzac, machinas psychologicas coleante, e para ingurgitar o devaneio com as quinze ou trinta paginas da paisagem zolaista. Hoje capta-se a aura condensando tudo em paragraphos curtos, dizendo tudo em linguagem inaudita, louco-lucida, e incisiva, e perturbante entrando na carne em epilepsias de som, d’emotividade mordente, de vertiginosidade paradoxal e machiavelica. Uma linha de prosa moderna deve conter o sumo de cincoenta ou sessenta paginas antigas: cada imagem deve ser um mundo, e cada notula d’observação uma psychologia humana fumegante. Escriptor que não dê no papel esta transmissibilidade d’acção vertiginosa, que não esteja disposto a dar pedaços da vida em cada volume de 3 fr. e 50, contenha elle embora na omnipotente phantasia um cosmos prodigioso, seja um revelador sinistro como Dostoievsky ou Shakespeare, ninguem o escutará se fôr moroso, e se possuir no modo de visionar o assumpto, essa especie de delirio agitante dos génios alcoolicos, tão bem iniciado para a arte em certas allucinações de Poe, Henri Heine, e Villiers de l’Isle-Adam.
Ao mesmo tempo a tensão cerebral imposta aos homens de lettras por esta litteratura exigentissima, nem dá, masculinidade ás creações, nem tao pouco assenta o publico n’uma permanencia d’escola duradora. Com o ser physiologicamente uma expressão vital da epoca , ella ingurgita-se de todas as desfallencias e saburras contemporaneas: tem o sentimento de mau estar, que é o mal de viver, com zagunchadas dolorosas que a levam ao pessimismo directamente: tem a acuidade analytica, sem saude moral, caracteristica das agrupações que soffrem da vontade, resultado da convicção da anomalia inferior e do destino falho: tem a vaidade suprema, que exagera tudo, e faz de mil auto-biographias ridiculas, constantemente assumptos de epopeia: tem o egoismo mesquinho, o predominio dos impulsos grosseiros e dos exasperos animaes d’extrema crapula, tem o estylo agitado, a imagem funebre, o delirio das grandezas no modo d’espargir a côr e instrumentar a phrase pictural – e a insociabilidade, a colera impulsiva, a obsessão da palavra technica e preciosa – finalmente, todos os caracteristicos d’uma sociedade liquidante, e d’uma litteratura escripta por doidos, devassos tabeticos, e facinoras das galés.
Ora como os escriptores não podem deixar de ser a quintessencia dos détraquements doentios da sociedade extravagante em que nasceram, resulta que a obra d’elles reflectirá em amplificado as differentes modalidades de desequilíbrio que fixei, e essa amplificação descambará ainda na deformidade, se aos desarranjos que poderemos chamar profissionaes, accrescentarmos os resultantes da necessidade de dinheiro, que os força a produzir certo por hora, a produzir á bruta, e a manter o seu rang á custa d’uma originalidade buscada a poder d’excitações. D’exagero em exagero, assim a moderna litteratura foi debochando os paladares, desviando o ideal do seu límpido vôo para as regiões classicas do bello, desorientando as sensações, forçando a nota das catastrophes, explorando o caso raro, arvorando em assumpto d’arte a anomalia; e falseando parallelamente a isto o destino educador e sanitariamente intellectual do seu papel, cedendo o passo aos caprichos da turba, e acceitando por fome a imposição dos gostos grosseiros, e dos instinctos desregrados da canalha! A ponto, que chegamos ao seguinte: a litteratura apeada do pontificado mental das sociedades, industrialisada a beau marche, e os seus cultores reduzidos a escripturarios serventes do publico, que lhes dita revoluções literárias ao semestre, por um figurino grotesco, paralelo ao dos chapelleiros e alfaiates. Finda a estação, a moda acaba, e sucede-lhe outra attinente às inconstancias do clima, às alturas do sol, e variabilidades da pressão. N’este corropio os homens de lettras, passados a simples entretenedores d’ociosidades doentias, a fabricantes de blagues para matar o tédio, os homens de lettras vão rebentando como esse Maupassant, em meia duzia d’annos de galope atraz do favor de gentes futeis e maniacas. Alguns cheios de talento, alguns febris de genio, mas sem tempo material para produzir obras pujantes, atolam-se como malditos na banalidade da producção a vapor, da producção expontanea sem ranhuras, furiosa, accidental, escripta entre lettras protestadas, para fazer com trezentos e sessenta artigos por anno, as setecentas libras necessarias ao prégo e á vida facticia dos restaurants e dos cafés!”
Fialho d’Almeida, “Os Gatos – Vol. V”, pp. 96-100, 4.ª ed., Livraria Clássica Editora de A. M. Teixeira, Lisboa, 1921.

30/07/2019

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S. Miguel de Seide, 30 de Julho de 1943 Este desgraçado Camilo nem na morte tem descanso, entendo por descanso uma camada de cinza leve a cobrir pela eternidade fora as agruras mais pungentes e os instrumentos mais aguçados da tortura de cada um. Miserável em vida, miserável continua na lembrança do país que o viu nascer e lhe perpetuou o nome escancarando aos olhos da posteridade as suas domésticas misérias. É difícil a uma nação que desconhece ou despreza os seus grandes homens em vida doirar-lhes depois a memória. Se viveram em pocilgas, mal poderão depois ser relembrados em castelos, a não ser nas academias, onde a hipocrisia supre tudo, com carpideiras oficiais, louros falsos e mármores de gesso. Mas há uma maneira decente de sanar as indecências: é esquecê-las. É passar um pano pela ardósia, e não falar mais nisso. Agora julgar que se fez qualquer coisa de limpo eternizando a privada dum génio, é que me parece um crime. A função duma memória destas é não deixar que a poeira dos móveis, dos soalhos e dos tectos simbolize a indiferença dos vindouros. É manter limpa e aliciante a presença do criador diante dos olhos novos de quem vem, de maneira que o eterno brote naturalmente do cotidiano, como a beleza brotava da sua pena. Da casa dum poeta é preciso que saia poesia. E se não sai, é urgente arrasá-la. Não é o Camilo do Amor de Perdição que aqui está vivo e revelado. É um inválido, pobre e desprezado português que não escreveu coisa alguma. Via mal, usava umas palas negras, deu um tiro na cabeça, etc., mas não se vislumbra que tivesse génio nem que fosse um dos maiores desta terra.

Miguel Torga, “Diário III”, pp. 13-15, 1954, Coimbra.

28/07/2019

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Gerês, 28 de Julho de 1945 Thomas Mann. Os Buddenbrooks. Um romance, sobretudo uma cultura. A propósito de uma tísica pulmonar ou de um negociante de cereais, este homem tem artes de nos meter num tal emaranhado de ideias, de conceitos, de cogitações, que a vida passa a ter não apenas o seu caudal de lances e de emoções, mas uma beleza maior, feita da fisiologia íntima do saber. Eu não sei se qualquer novela de terceira não terá mais vida física, muscular, um alento possìvelmente mais cotidiano e mais aliciante. Aquela declaração de amor da Montanha Mágica, feita através de uma radiografia, ou a descrição da febre tifóide, aqui, são flores que nascem de uma técnica literária magistral, mas, mais do que isso, de conhecimentos que hão-de sempre parecer-nos sagrados e secretos. Ai da humanidade quando de todo as suas pitonisas e os seus feiticeiros se forem! Com razão alguém chamou às artistas de cinema as deusas da nossa mitologia. Contudo, é um belo espectáculo ler um livro assim. Tem a gente a impressão de que toda a Grécia e toda a Europa se diluíram na caixa de compor da tipografia.

Miguel Torga, “Diário III”, pág. 109, 1954, Coimbra.

25/07/2019

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A primeira cantora começa: como um pássaro altivo eleva-se subitamente até à alma da chama. O seu grito poderoso baixa e sobe, planando como um pássaro, enquanto os outros voam à volta da estrela como satélites fiéis. Depois, todos os homens, com um grito bárbaro, apenas um, terminam em acordo com a tónica. São os cantos taitianos, os himene.
Ou então, quando se pretende cantar e falar, as pessoas reúnem-se numa espécie de cabana comum. Começamos com uma oração, primeiro recitada por um idoso, conscienciosamente, e de seguida toda a assistência repete o refrão! Depois é a vez de cantar. Outras vezes contam-se histórias que fazem rir. Mais raramente disserta-se sobre questões sérias, fazem-se propostas sensatas.
Eis aquela que ouvi numa dessas noites e que não deixou de me surpreender:
Na nossa aldeia – dizia um velhote –, já há algum tempo que vimos aqui e acolá casas que caem em ruínas, tectos apodrecidos, meios rachados, onde a água penetra se por azar começar a chover. Porquê? Todas as pessoas devem ter um abrigo. Não escasseiam nem a madeira nem a folhagem para confeccionar telhados. Proponho que trabalhemos em conjunto durante algum tempo para construir cabanas espaçosas e sólidas para substituir aquelas que se tornaram inabitáveis. Todos nós daremos sucessivamente a nossa ajuda.
Todos os assistentes, sem excepção, aplaudiram.
Muito bem.
E a proposta do velhote foi aprovada por unanimidade.
«Eis um povo sábio», pensei eu naquela noite ao regressar a casa.
Mas no dia seguinte, quando pedi informações para saber quando começaria a execução dos trabalhos decididos, apercebi-me de que já ninguém pensava no assunto. Respondiam às minhas perguntas com sorrisos evasivos que no entanto traçavam linhas significativas naquelas vastas testas pensadoras. Retirei-me, cheio de pensamentos difíceis de conciliar: tinham tido razão ao não fazerem aquilo que ele tinha aconselhado. Porquê trabalhar? Os deuses de Taiti não fornecem aos seus fiéis seguidores a subsistência do dia-a-dia? Amanhã? Talvez! E de qualquer forma amanhã o Sol irá nascer tal como nasceu hoje, bondoso e sereno. Será isso indiferença, desinteresse ou – quem sabe? – filosofia da mais profunda? Toma cuidado com o luxo, tem cuidado ao tomar o gosto sob o pretexto da prevenção!...”

Paul Gauguin, “Noa-Noa – Estada em Taiti”, pp. 43-45, Publicações Europa-América, 1998. Trad. Jacqueline Medeiros.

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Então chegaram a minha casa e disseram-me:
Mas você não consegue escrever coisas compridas! Isso que faz é uma miséria.
Coisas compridas como?
Bem, romances, crónicas autênticas, ensaios sólidos.
Não, isso não sou capaz.
Então você não é um escritor.
Pois não. Quem se atreveu a chamar-me tal coisa? – aí é que me ia encanzinando.
Não é ofensa, desculpe. Mas uma coisa comprida, por favor, não arranja?
Olhe, o mais comprido que tenho é isto. e já foi muito difícil. Quando as coisas vão a ficar maiores, deito logo fora. Compreende, não é?”
Mário-Henrique Leiria, “Contos do Gin-Tonic”, pág. 52, Editorial Estampa, 2. ª ed., 1976.

22/07/2019

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“Rebeldias de calaceiros trouxeram a língua portuguesa ao ponto em que hoje se encontra. Sempre é mais fácil, para imagens e pensamentos plagiados de segunda mão, aproveitar a expressão já poluída, do que ir ver, nos antigos, como seria que eles os coariam em vernáculo.
Uma das modas actuais é não empregar as palavras no seu sentido preciso; as aproximações dos chamados sinónimos bastam. De aí, naturalmente, a imprecisão e confusão de ideias. O conhecimento exacto da significação das palavras é indispensável à expressão pontual do pensamento. É essencial estudar os clássicos, não só para escrever e falar com elegância, mas, sobretudo, para «saber o que se diz», escrevendo ou falando.
E, então, para alcançar a ponderação, o equilíbrio?
Um livro onde a indignação estruge, crónica, perpétua, sem tréguas: facilmente se lhe apercebe a falta de reflexão, e o interesse pelo estado mórbido do autor substitui-se, pouco a pouco, ao que a matéria tratada devia inspirar. Por fim, enfastia e até os melhores argumentos do polemista se embotam, e os seus mais valentes golpes nem ferem nem causam comoção de espécie alguma.
Na grande maioria dos casos, estes escritores ferozes e furiosos são reaccionários e, portanto, pessimistas…
O pessimista: em pose literária, clamando contra a desilusão que traz o comércio do mundo; contra a miséria e desconsolo desta pobre terra em que vivemos; contra a infidelidade das mulheres, e a traição e abandono dos amigos; nunca lhe acode perguntar e investigar sobre o que a sua própria natureza, física e moral, concorreu para enegrecer um quadro, que, para tantos outros, só tem riso e festas; e se lho perguntam, irrita-se, levando logo à conta de estupidez ou insensibilidade e nem dúvida sequer de que a vida seja outra do que ele a descreve.
Por via de regra, o escritor pessimista foi, em menino, uma inteligência muito espevitada que se embotou, pouco a pouco, no correr dos anos…
Este caso das inteligências precoces!...
Há, com efeito, certos génios prematuros, que deslizam pelo estudo das matérias mais variadas e difíceis, com desembaraço tal e tal aproveitamento que, antes, parecem recordar do que aprender, mas geralmente desaparecem ainda novos.
O tipo mais comum é assim, como vários que conheci pessoalmente: muito esperto, inteligente e espevitado em menino; já, aos trinta, se especializara em gastronomia e, dos quarenta em diante, ninguém lhe arrancava um conceito, uma palavra, uma exclamação, que se não referisse às hemorróidas…
A experiência da vida confirma o aforismo aventado pelos críticos amaros: depois dos quarenta anos, é que é difícil ser inteligente!
Esse fenómeno da obliteração da inteligência (tão viva, em geral, na mocidade) com o andar dos anos é, sobretudo, sensível nas populações germânicas (ou neolatinas?) onde os rapazes são extraordinariamente animados, perspicazes, intuitivos, argutos, audazes, e, quando vão para velhos, descambam na timidez, no obscurantismo, na insulsez, e natural e insensivelmente se alistam na ala dos ultraconservadores.
E é, ali, também, que mais abundam as caras que simulam admiravelmente a inteligência e que surpreendidas, um dia, por acaso, na sua expressão verdadeira, causam pavor pelo abismo de estupidez que desvendam”.
M. Teixeira-Gomes, “2.ª Parte de Miscelânea – Carnaval Literário”, pp-25-27, Livraria Bertrand, 3.ª ed., 1993.


16/07/2019

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Uma das características, senão a principal, da produção literária do moralista está na sua incapacidade de arquitectar um sistema ou desenvolver uma tese. Procede pelo exclusivo exame dos detalhes e desentranha-se em sentenças. Daí vem o desarranjo, o desconcerto das suas obras, onde são frequentes as contradições.
Moralistas de jornais: a simples reportagem, por mais hábil e perspicaz que seja o seu autor, embora filosófica, moralista, pitoresca e faceta, não dá mais do que o superficial aspecto dos acontecimentos. Para penetrar à intimidade, ao sentido profundo dos factos, exige-se aturada experiência do país onde se produzem, perfeito conhecimento da sociedade que os pratica.”
M. Teixeira-Gomes, “2.ª Parte de Miscelânea – Carnaval Literário”, pág. 45, Livraria Bertrand, 3.ª ed., 1993.

15/07/2019

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O modo de jogar com a linguagem absolve de toda a classe de desvarios, como põe em relevo a miséria intelectual de muitos pretensiosos sem fundamento, e isso de forma que o leitor se interessa igualmente pelo bom e pelo mau, e encontra especial satisfação em lhes fazer a síntese.
Três exemplos:
1.º Explorador incansável da mentira poética; aventureiro audaz do campo das ideias; criador inexaurível de imagens resplandecentes; o mundo em que se move é o puro espelho da sua sensibilidade e da sua inteligência: não conhece limites e jamais enfastia.
2.º Há neste escritor muita fantasia premeditada, arranjada, combinada adrede para produzir efeitos de ordem puramente literária, mas salva-se pelo fundo de genuíno lirismo em que todos os seus bordados assentam.
3.º A existência, a descoberta, de criatura assim tão supinamente besta não nos deve causar indignação, mas consumado júbilo. É como se víssemos agora aparecer completo, vivo, perfeito, um desses monstros fabulosos, da idade pré-histórica, de que um só osso constitui a glória de museus famosos.
Mas não será isto um enigma, uma adivinhação, própria para ser posta a concurso na grande imprensa? O leitor que lhe ponha os nomes certos e ganha… um folar para a Festa.”

M. Teixeira-Gomes, “2.ª Parte de Miscelânea – Carnaval Literário”, pp. 31-32, Livraria Bertrand, 3.ª ed., 1993.


14/07/2019

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S. Martinho de Anta, 14 de Julho de 1946 Mesmo que se não queira, uma carruagem de comboio é um lar temporário. Os nossos vizinhos do lado chegam-se a nós como irmãos, e os da frente bafejam-nos como avós. Se a viagem é curta, a intimidade é discreta e em certa medida higiénica. Mas se é longa, se o percurso vai do Porto ao Pinhão, acaba-se na confidência da urina e das eructações. Como acontece na mais respeitável família, há de tudo, ali em materia de humanidade. A velha sabedoria de que temos cinco dedos em cada mão e nenhum é igual, também está certa num trem. Todos os passageiros que vinham no compartimento em que hoje viajei verificaram isso à saciedade.
O casal da demonstração entrou em S. Bento. Ela tinha cara de má, viu-se logo, mas trazia um filho ao colo, e ficou, portanto, ilibada em princípio de toda a mácula. Mulher parida é mulher absolvida. Ele tinha apenas um dente podre. De repente, mesmo antes de o comboio se pôr em andamento, começou o barulho. Ela encheu o compartimento de insultos, e ele imitou-a. O filho dormia.
Como ainda não houvesse tempo para cada qual se compenetrar dos seus deveres, o sobressalto foi inevitável. A ideia de uma outra carruagem e de uma outra família passou pela cabeça de todos. Mas o comboio estava repleto e havia malas. Por isso, assentou-se na resignação.
No meio da ansiedade que qualquer renúncia implica, a voz da máquina, a avisar que partia, foi como um penso. O movimento areja o corpo e o espírito, e os dois desavindos não podiam fugir à regra. A escuridão do túnel que veio logo, ajudou esta esperança. Mas era uma miragem. Apenas a luz do sol escarolou aquela sala doméstica, o conflito continuou.
Lógicamente a família inteira afilou então os ouvidos a fim de perceber a razão da contenda. Já nos outros compartimentos havia risos de troça, e era preciso documentar aquela solidariedade que o acaso impunha. Tarefa muito difícil. Os fundamentos da zanga remontavam aos tempos pré-históricos da vida particular dos dois, quando não eram ainda nossos parentes.
Uma coisa se viu claramente: é que todos, à uma, se pusera ao lado do homem. Primeiro, porque gritava menos; segundo, porque não era ele que limpava o rabo do menino, embora ajudasse.
Por alturas de Mosteirô, já quando não havia mais insultos no dicionário nem lágrimas nos olhos da Madalena, o mistério começou a aclarar-se.
Estava na base do conflito a sogra, que perdera o comboio, trazia contrabando, e talvez tivesse sido presa. O rapaz, claro, sofrera; a mulher rejubilara. Daí a desarmonia.
O resto da família compunha-se de uma velhota corada e simpática, que passou o caminho calada, a encher o biberão do menino. Viu o pai aflito naquela prática, pediu licença, e fez ela o serviço. Ninguém lhe agradeceu a gentileza, mas ela, mesmo assim, continuou a tarefa. Toda a gente deve trabalhar, numa casa.
Mesmo ao lado da fera, sentava-se um cavalheiro de olhos azuis, alto, que era o Gary Cooper por uma pena. Até na filosofia se pareciam. Quando um novo passageiro entrou, como a megera ocupava dois lugares, o pobre ficou apertado entre duas forças hostis. A que vinha, que queria espaço, e a que estava, que não cedia espaço. Mas não se desconcertava. Manteve um sorriso compreensivo nos lábios, esperou, e quando a Eva por sua recriação tirou de cima do banco a cesta dos cueiros e se compôs, passou-lhe pelos olhos o làmpejo mais irónico e mais fino que vi.
Havia ainda um rapaz ruivo, que tentou alegrar aquela tristeza com uma gaita de boca, mas desistiu, e um sujeito gordo que comeu bolos de bacalhau todo o caminho.
Os polos da família, porém, eram o casal, e também o filho, que parecia um rato, e chupava na teta do frasco como um aspirador mecãnico.
Ninguém olhava sequer a paisagem, que entrava pelas janelas, verde e generosa. O rio ia ali ao pé na sua pobreza doirada, e a estrada de Rezende, do lado de lá, fazia piruetas na encosta. Em vão. Lembro-me ao todo de ver um cacho de malvasia pendurado numa ramada. Tal era o constrangimento!
Na Régua, o rapaz foi telegrafar à mãe. E a mulher ficou finalmente só, sem alvo para esvaziar aquela bílis que não tinha fim. Ferrou, por isso, os olhos no chão, e estendia de vez em quando a chupeta à senhora corada, que se apressava a enchê-la sem dizer palavra.
Mas o comboio pôs-se em andamento antes de o rapaz aparecer. E a mulher, que lhe tinha dito de todas as maneiras que a deixasse, que não lhe pusesse mais os olhos em cima, que maldita a hora em que o conheceu, começou aos gritos. Todos lhe garantiam que o homem vinha atrás, noutra carruagem. Nada. O Gary Cooper, manhoso, explicou que o vira passar para a ambulãncia. Pior. As lágrimas inundavam tudo.
No Ferrão, o desaparecido apareceu. E todos esperaram ver finalmente, a luz da harmonia e da paz raiar entre aquelas almas. Qual o quê! Uma girândola de insultos coroou miseràvelmente a cena.
Por fim, já quando não havia esperanças, o homem descascou um pêssego, ia a metê-lo à boca, mas suspendeu o gesto e ofereceu-o à mulher. E o milagre deu-se. Como no paraíso, tinha de ser um fruto a uni-los para o bem e para o mal.
E foi então que eu deixei aquele lar que durou quatro horas, acompanhado de um adeus compreensivo da senhora corada e de um olhar inteligente do Gary Cooper.

Miguel Torga, “Diário III”, pp. 183-187, 1954, Coimbra.

13/07/2019

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O grosso dos contratos de aforamento, arrendamento ou compra-e-venda dos séculos X, XI e XII mencionam pagamento em géneros, muitas vezes combinado com dinheiro. Nem o Conde D. Henrique nem D. Teresa julgaram necessário cunhar moeda, embora o pudessem ter feito. Circulavam os dinheiros de bilhão leoneses, juntamente com o dinar de ouro e o dirham de prata islâmicos e até nomismata áureos de Bizâncio. Afonso Henriques, cujo longo reinado implicou acréscimo de fortuna, desenvolvimento do comércio e necessidade de prestígio, fez cunhar os primeiros morabitinos de ouro portugueses, que copiavam em tamanho e em valor, assim como em nome (morabitino vem de al-Murabitun, o dinheiro dos Almorávidas), o seu modelo muçulmano. Cunhou também dinheiros de bulhão e porventura meios-dinheiros ou mealhas da mesma liga. Este duplo aspecto monetário espelhava com muita precisão a integração económica de Portugal, compromisso entre a influência meridional (muçulmana) e a origem setentrional (cristã). O comércio português nascera da viabilidade das correntes de intercâmbio, tanto com Leão como com o mundo islâmico (mais exactamente o reino de Badajoz). Portugal, porém, não tinha ainda muito que oferecer em troca. Foi, assim, vagarosamente, que esse comércio se desenvolveu. Pelos fins do século XI, já se mencionavam mercados em diversas cidades e aldeias, mas as primeiras feiras só surgiram nos finais da centúria seguinte, se esquecermos o exemplo único da feira de Ponte de Lima, criada antes de 1125.
Em torno dos castelos do Porto, Guimarães, Constantim de Panóias, Mesão Frio, Gaia e outros, assim como em redor de alguns mosteiros fortificados, foram-se juntando pequenas colónias de mercadores. Nas «cidades» (Braga, Coimbra, Lamego, Viseu, Chaves) viviam outros mercadores. É possível que Coimbra desempenhasse, neste caso, um papel de relevo, próxima que estava do território muçulmano. Foi também em Coimbra, pouco antes de 1111, que se registou a única revolta «comunal» de que temos notícia, obrigando o Conde D. Henrique a conceder-lhe novo e mais favorável foral.”

A. H. de Oliveira Marques, “História de Portugal – Desde os tempos mais antigos até ao governo do Sr. Palma Carlos”, 4.ª ed., pág. 83, Ed. Palas Editores, Lisboa, 1974.

12/07/2019

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“Nas horas em que a maré deixa a descoberto a antiga Praça do Comércio e a Avenida Marginal do século XX, já tenho feito algumas ligeiras explorações, e recolhido alguns fósseis e exemplares arqueológicos, de que minuciosamente falarei no meu Diário.
À míngua de interesse científico, não deixa de ser curioso um dos primeiros objectos que se me depararam numa pequena exploração, a leste da minha tenda, no mesmo sítio, talvez, em que se emaranhavam as vielas de Alfama.
É uma prancha, ou lâmina, petrificada, e recoberta de calcário e grés de formação marina. Fi-la imergir numa solução de corrosivo antilítico, e, desligado o calcário da prancha primitiva, pude ler nela, em indecisos caracteres:
ALTO AQUI!
LEGÍTIMO VINHO DO CARTAXO!
As memórias escritas do quinto período geológico, um pouco mais claras que as do período terciário e quaternário, e bem assim as preciosas informações do cenobita açoriano, convenceram-me de que a prancha aludida era uma tabuleta comercial; e de que a aparente redundância da expressão vinho legítimo era a mais legítima consequência do estado económico e social dos portugueses, no século XX, ou fins do século XIX, a que a prancha provavelmente pertencia.
Cartaxo devia ser algum burgo vinhateiro; mas, com o seu nome, vendia-se vinho legítimo e vinho falsificado. Parece que o mesmo sucedia com outras regiões vinhateiras, porque havia vinho do Porto, que era da Bairrada; vinho de Colares , que era de Tomar; vinho de Bordéus, que era de Carcavelos; vinho de Champagne, que era do Poço do Bispo.
Este quiproquó industrial estava tão radicado nos costumes do povo e no interesse das grandes indústrias, que, quando um governo julgou indispensável dar o nome às vacas e pôr os pontos nos ii, como então se dizia, uma empresa poderosa, Mixórdia & C.ª, fez uma revolta, que obrigou o governo a cantar a palinódia e deixar correr o marfim. Em todo o caso, não havia desdouro na transigência, porque estava ainda em voga uma ciência, chamada economia política, de cujos princípios bastará citar este: «laissez faire… mixórdia e tudo».
O que se dava com o vinho reproduzia-se nas demais indústrias: a manteiga era margarina; o café era grão-de-bico, o açucar era farinha, os panos da Covilhã eram panos de além-Caia. Por desamor a estes panos e outras fazendas suspeitas, esteve um ministro em risco de ser crucificado por uma seita de contrabandistas, que infestava o país.
E as falsificações estendiam-se a tudo, desde as indústrias até aos industriais, desde o povo até aos governos. Comerciantes de gente negra, bandidos de casaca e luvas, marçanos anónimos que surgiam endinheirados dos alçapões da fortuna, tinham no seu tempo o cognome de homens de bem, beneméritos e sustentáculos da pátria.”
Cândido de Figueiredo, “Lisboa no Ano Três Mil – revelações arqueológicas obtidas pela hipnose e publicadas em 1892”, pp. 25-27, Frenesi, Lisboa, 2003.

11/07/2019

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“Falava-se numa botica de província (nas capitais já ninguém discorre sobre semelhantes assuntos) de alguns extravagantes artigos da velha farmacopeia. Alguém aludiu ao óleo de lacrau e um campónio, que, por acaso, assistia à conversa, advertiu:
«Pois se fossem precisos lacraus era só dizerem-mo, que lá para os meus sítios não faltam.»
Retorquiu-lhe um dos circunstantes, gracioso encartado:
«Arranje você uma boa canastra deles que aqui o Sr. Crespo compra-lhos.»
«E por bom preço – reforçou com malícia o Crespo, dono da farmácia – mas que venham vivos…»
E todos riram à socapa, o que não escapou ao lapuz, embora não desse sinal de que o notara.
Quando ele saiu houve um coro geral:
«Arre, que é burro!...»
Passado poucos dias volta o campónio com um cesto cheio de lacraus.
«Aqui estão eles.»
«O quê?...»
«Os lacraus.»
«Os lacraus?»
«Sim senhor, e todos vivos como V. S.ª recomendou.»
«Você é parvo, homem, pois você não viu que tudo aquilo era troça e para chuchar consigo…»
«Ah! era troça… então tome-os lá de graça», e despejou-lhe o cesto dos lacraus pelos quatro cantos da casa.
Quando souberam isto os habituais frequentadores daquele centro de má-língua recusaram-se a lá voltar; a freguesia diminuiu consideravelmente, e o Sr. Crespo levou meses a caçar lacraus, antes que se visse livre deles…
Porém onde está a moralidade do conto, que meta filósofos, lapuzes e lacraus, todos juntos?
Isso é com o leitor, não é comigo…

M. Teixeira-Gomes, “2.ª Parte de Miscelânea – Carnaval Literário”, pp. 140-141, Livraria Bertrand, 3.ª ed., 1993.