24/07/2015
20/07/2015
I...
I
«Regardez-moi,
voyons... J'aime la coleur de vos yeux...Comment vous appelez-vous?
–
Jean
–
Jean tout court?
–
Jean Gaussin.
– Du
Midi, j'entends ça.... Quel âge?
–
Vingt et un ans.
–
Artiste?
–
Non, madame.
– Ah!
Tant mieux.... »
Alphonse
Daudet, “Sapho”, pp. 5-6, C. Marpon et E. Flammarion, Paris,
1887.
Conselhos do Boca de Inferno!...
Despede-se o Poeta da Bahia, quando foi degredado para Angola
Adeus, praia; adeus, cidade,
E agora me deverás,
Velhaca, dar eu a Deus
A quem devo ao demo dar.
Quero agora que me devas
Dar-te a Deus como quem cai,
Sendo que estás tão caída,
Que nem Deus te quererá:
Adeus, povo; adeus, Bahia,
Digo canalha infernal,
E não falo na nobreza,
Tábula em que se não dá.
Porque o nobre enfim é nobre,
Quem honra tem, honra dá,
Pícaros dão picardias,
E ainda lhes fica que dar.
E tu, cidade, és tão vil,
Que o que em ti quiser campar,
Não tem mais do que meter-se
A magano, e campará.
Seja ladrão descoberto,
E qual águia imperial
Tenha na unha o rapante
E na vista o perspicaz.
A uns compre, a outros venda,
Que eu lhe seguro o medrar,
Seja velhaco notório,
E tramoeiro fatal.
Compre tudo e pague nada,
Deva aqui, deva acolá,
Perca o pejo e a vergonha,
E se casar, case mal.
Porfiar em ser fidalgo,
Que com tanto se achará.
Se tiver mulher formosa,
Gabe-a por êsses poiais;
De virtuosa talvez,
E de entendida outro tal;
Introduza-se ao burlesco
Nas casas onde se achar.
Que há donzelas de belisco,
E aos punhos se gastará;
Trate-lhes um galanteio,
E um frete, que é o principal.
Arrime-se a um poderoso
Que lhe alimente o gargaz,
Que há pagadores na terra
Tão duros como no mar.
A êstes faça alguns mandados
A título de agradar
E conserve o afetuoso
Confessando desigual.
Intime-lhe a fidalguia,
Que eu creio que lho crerá,
E que fique ela por ela
Quando lhe ouvir outro tal.
Vá visitar os amigos
No engenho de cada qual,
E comendo-os por um pé
Nunca tire o pé de lá.
Que os Brasileiros são bêstas,
E estarão a trabalhar
Tôda a vida por manterem
Maganos de Portugal.
Como se vir homem rico,
Tenha cuidado em guardar,
Que aqui honram os mofinos,
E mofam dos liberais.
No Brasil a fidalguia
No bom sangue nunca está,
Nem no bom procedimento:
Pois logo em que pode estar?
Consiste em muito dinheiro,
E consiste em o guardar:
Cada um a guardar bem,
Para ter que gastar mal.
Consiste em dá-lo a maganos
Que o saibam lisonjear,
Dizendo que é descendente
Da casa de Vila Real.
Se guardar o seu dinheiro,
Onde quiser, casará:
Que os sogros não querem homens,
Querem caixas de guardar.
Não coma o genro, nem vista,
Que êsse genro universal:
Todos o querem por genro,
Genro de todos será.
Oh! assolada veja eu
Cidade tão suja e tal,
Avesso de todo o mundo,
Só direita em se entortar.
Terra que não se parece
Neste mapa universal
Com outra; e ou são ruins tôdas,
Ou ela sòmente é má.
Obras de Gregório de Matos. IV – Satírica, vol. 1. Publicações da Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, 1930.
13/07/2015
09/07/2015
Segunda parte de "Certos Curtos Sinais"...
Projecto de
Diogo Vaz Pinto
Hugo Magro (Realização)
Paulo Tavares
03/07/2015
29/06/2015
«PROTESTO»...
São como flores fanadas os fúteis alfarrábios,
estagnados e doentios como a água adormecida,
do senhor dom artista que não quis colar os lábios
contra os seios da vida.
O homem que vende livros na velha padiola
expõe o romance da sua vida nessa espécie de montra
e grita contra os romances onde a vida estiola
em maciezas de lontra.
E em todos os cantos e recantos da rua
gritam contra os versos mornos, versos mansos, versos falsos,
as mulheres bem vestidas que ganham a vida nuas
e os garotos descalços.
Sidónio Muralha, “Antologia da Poesia Portuguesa 1940-1977” vol.I, [Org.] M. Alberta Menéres e E. M. de Melo e Castro, p. 93-4, Moraes Editores, Lisboa, 1979.
estagnados e doentios como a água adormecida,
do senhor dom artista que não quis colar os lábios
contra os seios da vida.
O homem que vende livros na velha padiola
expõe o romance da sua vida nessa espécie de montra
e grita contra os romances onde a vida estiola
em maciezas de lontra.
E em todos os cantos e recantos da rua
gritam contra os versos mornos, versos mansos, versos falsos,
as mulheres bem vestidas que ganham a vida nuas
e os garotos descalços.
Sidónio Muralha, “Antologia da Poesia Portuguesa 1940-1977” vol.I, [Org.] M. Alberta Menéres e E. M. de Melo e Castro, p. 93-4, Moraes Editores, Lisboa, 1979.
27/06/2015
26/06/2015
Silêncio de Palatina...
Tu falas de mais, homem, e em breve estarás estendido na terra.
Cala-te e, enquanto estás vivo, preocupa-te com a morte.
Páladas (sécs. VI-V d.C.)
In "Do Mundo Grego Outro Sol - Antologia Palatina e Antologia de Planudes", p. 92, sel., trad. e notas de Albano Martins, Edições Asa, Porto, 2001.
25/06/2015
«PROFUNDAMENTE»...
Quando ontem
adormeci
Na noite de São
João
Havia alegria e
rumor
Estrondos de bombas
luzes de Bengala
Vozes cantigas e
risos
Ao pé das fogueiras
acesas.
No meio da noite
despertei
Não ouvi mais vozes
nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em
quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que
há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras
acesas?
– Estavam todos
dormindo
Estavam todos
deitados
Dormindo
Profundamente
Quando eu tinha seis
anos
Não pude ver o fim
da festa de São João
Porque adormeci
Hoje não ouço mais
as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos
êles?
– Estão todos
dormindo
Estão todos
deitados
Dormindo
Profundamente.
Manuel
Bandeira, “Poesias e Prosa”, págs. 210-211, vol. I, Editôra
José Aguilar, Lda., Rio de Janeiro, 1958.
19/06/2015
O ENCONTRO
Subitamente
na esquina do poema, duas rimas
olham-se, atônitas, comovidas,
como duas irmãs desconhecidas...
Mário Quintana in “Antologia Poética” Ediouro, Rio de Janeiro, 1998.
na esquina do poema, duas rimas
olham-se, atônitas, comovidas,
como duas irmãs desconhecidas...
Mário Quintana in “Antologia Poética” Ediouro, Rio de Janeiro, 1998.
06/06/2015
05/06/2015
"OPORTOnidade"...
O TURISMO
Visitar este país
até à última gota:
O porco e o Porto a bola e a bolota
o que é como quem diz
itinerar a derrota.
Tudo tem lugar no mapa
Paris Washington Moscovo
Em Itália vê-se o papa
em Lisboa vê-se o povo.
Welcome Bienvenus Salud Willkommen Viva
a sífilis saúda-vos saúda-vos a estiva
desta carga de heróis em carne viva
nociva mas barata;
vindes matar a sede com a uva
beber o sumo de ócio que nos mata.
Desemborcais nos cais desembolsais demais
mas não sabeis
as coisas viscerais as coisas principais
deste país azul
com mais hóteis do que hospitais
talvez por ser ao sol talvez por ser ao sul.
Aqui ao pé do mar bordamos a tristeza
as toalhas de mão as toalhas de mesa
que levais para casa Souvenir
deste povo sem pão
que se cose a sorrir.
Aqui ao pé do rio gememos a saudade
nosso fado submisso nossa água a correr.
Canção de mal devir Souvenir Souvenir
deste povo de trégua
que se canta a morrer.
Aqui ao pé do vento forjamos o lamento
dum país que se vende a peso nos prospectos
tanto de sol ardente tanto de cal fervente
e uma nódoa de céu nos chailes pretos.
Aqui ao pé do fel gritamos o segredo
do que parece fácil neste país de luz:
É apenas a fome.
É apenas o medo.
É apenas o sangue.
É apenas o pus.
José Carlos Ary dos Santos, “Resumo”, pp. 73-4, ed. Autor, Lisboa, 1972.
04/06/2015
"JOGO DE REALIDADE"...
![]() |
| Daniel Maia-Pinto Rodrigues |
Este poema
chama-se Jogo de Realidade
mas também se poderia ter chamado
Comunhão ou Aventura.
Convidou-me para ver
em casa dela
no vídeo
o África Minha
filme da sua predilecção.
Eu já tinha visto esse filme
mas por uma questão de subtil delicadeza
disse-lhe que nunca o tinha visto.
Serviu-me um bom jantar
e uma intensa aguardente montanhesa.
Eu como não sabia muito bem
o que lhe hávia de dizer
saiu-me isto:
“Sabes que Isabel quer dizer cor de café com
leite?”
Ao que ela disse:
“Estou a ver que estás a pensar em alguma Isa-
bel!?”
“Não, não”, disse eu
enquanto me lembrava de uma tirada mais cine-
matográfica:
“Uma vez num filme
agradou-me ver um pequeno adesivo
na mão de um menino
adesivo esse que não veio a revelar
qualquer interferência no contexto do filme.”
Ela ficou assim a olhar para mim
com ar
de quem me estava a achar um bocado maluco
e depois foi a vez dela espetar esta:
que aqui há uns tempos atrás
pertencera a um grupo de malta rebelde
que tinha entre outros projectos inovadores
diversos programas de rádio
e algumas encenações teatrais
sendo todavia o projecto principal
o de mudar o mundo.
Ao que lhe disse
que o meu grande projecto foi sempre
o de que o mundo não me mudasse a mim.
Falou-me então de um tal Tito
… que as coisas entre eles não iam bem
que ele ultimamente não andava… bem…
“Daqui a um bocado – disse-me ela –
há-de aparecer aí uma amiga minha
e vamos abrir aquela garrafa de champagne
e uma latinha de paté-de-foie
é sempre agradável um pequeno ménage!”
Fomos depois para o sofá
para ver o filme
(alta seca, Daniel).
“Olá”, disse eu para uma revista intitulada Sexo
Bizarro
que discretamente descansava entre as almofadas.
Durante o filme ela interrompia-o várias vezes
em actual gesto electrónico
para mo explicar.
Eu lá ia dizendo
que ia percebendo
mas ela insistia na explicação
aquilo já ia em perspectivas complicadíssimas
e eu, claro, comecei a estranhar.
Foi então aí que se deram os três Abre
o abre-te Sésamo
o abre-te vestido
- abrenúncio!
Só ficou por abrir a latinha de paté-de-foie.
Chegou ao topo a intensidade da aguardente mon-
tanhesa
e passado um bocado
parece que ficámos
segundo ela
física e espiritualmente em Comunhão.
“Não te sentes em Comunhão?!”,
perguntou ela.
“Sinto, sinto”.
E ela insiste na questão
“Como é que te sentes…?”
“Olha, sinto-me sem cinto”,
estive para dizer
mas evitei este trocadilho
portador de algum mau gosto
e também algo indecente
daquele género de indecente
tão descortinável pelas mulheres.
Respondendo-lhe à questão
osculei-lhe a testa
com um tácito beijo
e murmurei
mais patético do que pateta
que me sentia em Comunhão.
24/05/2015
Osso de corno...
ARRIPIAR CARREIRA
Eu buscava editores
portugueses
Quando supunha em
Portugal leitores;
Mas hoje apenas leio
aos meus amores
Os pobres versos que
componho às vezes.
Por uma coisa que
escrevia em meses
Levar anos à busca
de editores
Só me rendia ávidos
credores
E não me fazem
conta tais fregueses.
Mudei de ofício:
agora os mais que aprendam;
Já ninguém de
juízo me lastima,
De gastar tempo em
coisas que não rendam.
Agora, sim, que o
público me anima!
Trabalho em pentes,
que elas me encomendam,
E eles fornecem-me a
matéria-prima.
João de Deus,
“Criptinas”, &etc – contramargem /8, pág. 10, Lisboa, 1981
23/05/2015
“É PAU, É PEDRA É O FIM DO CAMINHO”...
INVENTÁRIO
É um barco e uma
pedra.
É a pedrada no
charco.
É o orvalho na
erva.
É a bandeira. É o
arco.
É a chuva. É o
outono.
É a sopa de
hortelã.
É o cão que não
tem dono.
É o bicho da maçã.
O tempo que está
mudando.
É o orgulho
nacional.
É a balada. É o
fado.
A galinha no
quintal.
O carneiro a remoer
as hortenses da
avenida.
E o silêncio a
bater
numa vidraça
partida.
É o ódio que nos
cega.
É o braço que se
estende.
O discurso, a
cabra-cega.
É o homem que se
vende.
É o peito que não
pára
de apertar o
coração.
É a comida mais
cara.
É a cara contra o
chão.
É a semente na
terra.
É o trigo na seara.
É uma arma de
guerra.
É a raiva que a
dispara.
É o lobo que devora
as canelas da
poesia.
É o momento. É a
hora
de estrangular a
alegria.
É a videira é o
vinho.
É o copo de
amargura.
É a santa da
Ladeira.
São as raias da
loucura.
É o tejo que se
embala
num cacilheiro
doente.
É o desejo que
estala.
É o buraco no
dente.
É o dinheiro. É o
juro.
O amor em
percentagem.
É o passado e o
futuro.
É uma questão de
coragem.
É o que sobra. É a
falta.
É o emprego
decente.
É a amizade da
malta.
É a ternura da
gente.
É a mulher que
pariu.
É o filho que se
fez.
É a corda e o
rastilho.
É o sarilho outra
vez.
É o mapa desenhado
sobre as costelas
partidas.
É o sorriso
emprestado.
A hipoteca das
vidas.
É a mágoa
registada.
É a patente do
medo.
É a cultura
enlatada.
É o drama sem
enredo.
É o rugido da fera.
É o marquês de
Pombal.
O cravo na
primavera.
Uma prenda no Natal.
É o azul. É o
vício.
É a carga de
porrada.
É a cara do
polícia.
É a liamba fumada.
O ministro que
promete
que amanhã irá
chover.
O desenho na retrete
para toda a gente
ver.
É a dança é o
marasmo.
A paragem do
autocarro.
É atingir o orgasmo
com o fumo de um
cigarro.
É chamar nomes à
mãe
do tipo que está ao
lado
e responder a
alguém:
Eu estou bem, muito
obrigado!
Joaquim Pessoa,
“Português Suave”, pp. 65-7, Círculo de Poesia – Moraes
Editores, Lisboa, 1979.
NB: Este inventário é antes do inventário do BPN
NB: Este inventário é antes do inventário do BPN
22/05/2015
Um 'bestiário' de Manuel Bandeira...
CHAMBRE VIDE
Petit chat blanc et
gris
Reste encore dans la
chambre
La nuit est si noire
dehors
Et le silence pèse
Ce soir je crains la
nuit
Petit chat frère du
silence
Reste encore
Reste auprès de moi
Petit chat blanc et
gris
Petit chat
La nuit pèse
Il n'y a pas de
papillons de nuit
Où sont donc ces
bêtes?
Les mouches dorment
sur le fil de l'électricité
Je suis trop seul
vivant dans cette chambre
Petit chat frère du
silence
Reste à mes côtés
Car il faut que je
sente la vie auprès de moi
Et c'est toi qui
fais que la chambre n'est pas vide
Petit chat blanc et
gris
Reste dans la chambre
Eveillé minutieux
et lucide
Petit chat blanc et
gris
Petit chat.
Petrópolis, 1992.
Manuel Bandeira,
Obras Poéticas, 1ªed. Editorial Minerva, p.206, Lisboa, 1956.
ANDORINHA
Andorinha lá fora
está dizendo:
– «Passei o dia à
toa, à toa!»
Andorinha,
andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa,
à toa...
Manuel Bandeira,
Obras Poéticas, 1ªed. Editorial Minerva, p.227, Lisboa, 1956.
MADRIGAL TÃO
ENGRAÇADINHO
Teresa, você é a
coisa mais bonita que eu vi até hoje
na minha vida,
inclusive o porquinho-da-Índia que
me deram quando eu
tinha seis anos.
Manuel Bandeira,
Obras Poéticas, 1ªed. Editorial Minerva, p.230, Lisboa, 1956.
21/05/2015
20/05/2015
Boa parte...
Com
a chegada do retrato de Maria-Luíza, em que êle vê «a expressão
de uma bela alma», Napoleão fica cada vez mais inflamado. Ao
general feliz, a filha dos Césares traz a frescura da sua mocidade.
Os
maiores mestres de Viena trabalharam no retrato da princesa. O
célebre Lampi, que nenhum artista moderno iguala na perfeição do
colorido, empregou todo o seu talento para lhe fixar os traços num
quadro a óleo. E um miniaturista reputado, Gérard, teve-a
igualmente como modelo.
Senhora,
Recebi
o vosso retrato. A imperatriz da Áustria teve a gentileza de mo
enviar. Parece-me ver nêle a expressão dessa bela alma que vos torna
tam querida de todos aqueles que vos conhecem e justifica tôdas as
esperanças que eu pus em Vossa Magestade. Amareis, Senhora, um
espôso que acima de tudo quere a vossa felicidade e cujos direitos
serão fundados sôbre a vossa confiança e sôbre os sentimentos do
vosso coração. Penso que estareis já muito perto da França e
espero-vos com impaciência.
NAPOLEÃO.
Paris, 20 de
Março. [1810]
Carlos de la Roncière, “Cartas de Napoleão a Maria-Luíza”,
p.18, Livraria Lello, Porto, Trad. Ramiro Mourão, 1935.
![]() |
19/05/2015
"L' Imagination Poétique" colecção dirigida por Henri Parisot...
SONETO
No Algharb as vinhas
são jardins de Hespéria:
Com as vindimas
deste fim de Agosto,
Pisada a uva e ao
transbordar do mosto,
Abelhas zumbem numa
boda aérea.
– Tens sede, meu
amor? Toma-lhe o gosto
E, em ditirambo
espírito e matéria,
O Sol, há-de
cantar-te em cada artéria
E há-de rosar-te a
palidez do rosto.
Depois... – não
sentes? – o calor aperta,
Que já vai alta a
glória da manhã
E eu tenho a boca
seca e tão deserta!
Por mim, só quero
uns bagos de romã
A ressumar doçuras
e entreaberta
Da tua boca, esposa
minha irmã...»
Cândido Guerreiro
(1871-1954) de “Sulamitis”
op. cit. David
Mourão-Ferreira, “O Algarve”, p. 48, Bertrand.
18/05/2015
Aquela no bem e outras...
VERÃO
Caracol, caracol
onde vais com tanto
sol?
Vou à loja do
senhor Adão
comprar um girassol;
com tanto sol
ninguém aguenta o
verão.
Adeus, adeus,
caracol,
tens razão
sem guarda-sol
ninguém aguenta
este sol.
Eugénio de Andrade, “Aquela Nuvem e Outras”, Quasi, 2005.
1, 2, 3
Um, dois, três
lá vai outra vez
o gato maltês
a correr atrás
da franga pedrês,
talvez a mordesse
apenas no pé,
o sítio ao certo
não sei bem qual é
(quatro, cinco,
seis)
ou só lhe
arranhasse
a ponta da crista,
e talvez nem isso,
seria só susto,
ou nem sequer mesmo
foi susto nenhum;
sete, oito, nove,
para dez falta um.
Eugénio de Andrade, “Aquela Nuvem e Outras”, Quasi, 2005.
17/05/2015
παν=pan=todo + οραμα=orama=vista...
PANORAMAS DO BRASIL
Nos parques dormem
mendigos
enrolados em jornal.
Os notivados
insectos,
crepitam e
desabafam.
A nebelina cobre a
rua
obumbra as feições
da lua,
faz dos transeuntes
espectros.
Imerso em meus
devaneios,
assobiando cantigas
que inda no berço
aprendi,
eu sigo perambulando
vendo coisas
espantosas
que não supunha
existir.
Que fazem as negras
cingidas em postes
de iluminação?
passei-lhes por
perto
nenhuma me viu
estão obtusas
de tanta cachaça,
de tanta desgraça
e desilusão.
São negras sedentas
famintas e nuas
chorando nas ruas,
trazendo no bucho
pecados alheios,
dormindo? Coitadas
pelos escaninhos
e pelas sarjetas
dos templos sagrados
aonde ressoam
tranquilos e fartos
os gordos sicários
do meigo Jesus.
No botequim
a ruiva de henné
no colo do homem
ao qual explorava
com gesto fútil
às vezes sorria.
Na boca postiça
sorriam postiços
seus dentes de louça
No meio da noite
é o pederasta,
tipo numeroso,
que acha os boémios
em altos clamores
de tara mental.
Os que se aproximam,
desejam dinheiro
para o bacanal.
Um guarda-nocturno,
obeso e cafuzo,
em roncos suínos
de besta saciada,
tirava cochilos
num carro esquecido
que à beira da
estrada
dormia também.
De madrugada,
meio a neblina,
e que ce acirram
e recrudescem
trôpegos passos
soturnos ecos
da dura faina
das prostitutas.
Gatos que vivem ao
léu
dão uma nota de
instinto
fornicando nos
telhados
e canteiros
desfolhados
de madames
irascíveis.
De vez em quando o
berreiro
dos automóveis que
passam
conduzindo mariposas
para o amor de
milionários.
Depois retorna o
silẽncio
onde seus passos
explodem
como flores
apagadas.
O mundo é só, quem
te espera?
Os bares não têm
amigos,
mulheres não têm
sorrisos,
as estrelas
feneceram
na madrugada sem
fim.
Só globos de luz
vegetam
boiando na escuridão
como que vindo de
longe,
fazendo as vezes de
estrelas
luzeiros do engenho
humano,
iluminando a sarjeta
onde rola a perdição
E quando amanhece
e o dia estremece
saltando nos céus,
ninguém reconhece
as coisas que vê.
O mundo girando,
os ricos gozando,
os pobres penando,
os párias
morrendo...
a vida correndo...
Alguns ressonando
em camas de pene,
em leitos de pedra
em leitos de pedra
vão outros dormir.
E o mundo girando
a vida correndo
e os deuses sorrindo
sorrindo e chorando
das coisas que vêem.
E o mundo girando
e o dia passando
e a noite chegando
e os homens gritando
de fome e de dor.
Mário-Henrique
Leiria, “Depoimentos Escritos”, pp. 59-63, Editorial Estampa,
Lisboa, 1997.
Ora diga 33...
Em
Portugal, parece que esse tal otimismo da vontade está a diminuir.
As manifestações estão a tornar-se cada vez mais eventos vazios
sem consequências práticas...
Tem
havido um decréscimo drástico da democracia na Europa. E é
compreensível. “The Wall Street Journal” apontou correctamente
há alguns anos que não importa que partido ganhe as eleições,
sejam os comunistas, os fascistas ou algum outro partido no meio irão
sempre aplicar as mesmas políticas, porque as políticas não estão
nas mãos das populações mas estão sempre determinadas pela
burocracia em Bruxelas que tem em cima dos ombros a pressão dos
bancos alemães. Mas não devemos aceitar isso. Por exemplo, quando
há semanas o Governo português recusou solidarizar-se com o Syriza
e decidiu seguir as políticas e mandamentos dos bancos alemães, a
população não deveria ter aceitado. O Governo não está livre do
poder público.
Quer
dizer que nós portugueses, assim como os espanhóis e os gregos, não
deveríamos pagar a dívida?
Bem,
uma grande parte da dívida é aquilo que na terminologia legal se
chama de “dívida odiosa”, ou seja, uma dívida que não é da
responsabilidade das populações. Trata-se de um conceito da lei
internacional criado pelos EUA e que remonta há mais de um século.
Quando os EUA conquistaram Cuba. Em 1898, não queriam pagar a enorme
dívida que cuba tinha em relação a Espanha. Então os EUA
determinaram que a dívida não tinha sido contraída pelo povo
cubano, mas pelos ditadores, os colonizadores. Portanto, a dívida
foi considerada ilegítima e não teria de ser paga. Este é um
conceito que tem sido aplicado uma série de vezes. Se olharmos para
as dívidas de países como a Grécia, Portugal e Espanha, são
contraídas por banqueiros, governantes e elites. As populações não
têm nada a ver com isso e portanto não existe qualquer razão para
pagarem.
Noam
Chomsky, in “Passeio Público 33 minutos com...”
Entrevista de Bernardo Mendonça, Catarina Pomba Nabais e Diogo Silva
Cunha, 'E' a Revista do Expresso Edição 2220 de 16/Maio/2015.
13/05/2015
:( :)...
“Lucílio, a quem Horácio considera o verdadeiro criador (inventor) da sátira, foi o primeiro a circunscrever explicitamente o seu público ao círculo de amigos escolhidos, deixando de fora tanto o que hoje se chama o «grande público», como os eruditos (Horácio faz depois o mesmo, no seu tempo). Quer dizer: esta poesia a que se chama sátira atingiu então o nó da sua função estética e da sua intenção formal: dar prazer aos amigos e chatear os inimigos, assim mais ou menos diz Lucílio. Lucílio não está nada interessado em agradar às massas (que mudam como o vento), muito menos em influenciá-las: por isso considera p. ex. a tragédia como pura psicagogia.”
Alberto Pimenta, “A Musa Anti-Pombalina”, pp. 10-11, A Regra do Jogo Edições, Lx, 1982.
Alberto Pimenta, “A Musa Anti-Pombalina”, pp. 10-11, A Regra do Jogo Edições, Lx, 1982.
12/05/2015
11/05/2015
E foi mais ou menos assim...
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| Foto cedida por António Silva Oliveira |
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| Carlos Alberto Machado foto:ASO |
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| Pôr as Pernas do Lado da Cabeça e Partir foto: ASO |
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| ASO |
| Porto, Sismógrafo 9 de Maio de 2015 |
Etiquetas:
Carlos Alberto Machado,
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Edições 50kg,
Pôr as Pernas do Lado da Cabeça e Partir,
Sismógrafo
O que já não é tão actual é o povo sustentar-se de sardinha (que atingiu preços gurmé)... E "povo" ter desaparecido para dar lugar ao termo estatístico: população...
O
país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes
estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres
corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a
conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há
nenhuma solidariedade entre cidadãos. Ninguém crê na honestidade
de homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média
abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está
na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina
dormente. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Vivemos todos
ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima a baixo! Toda a
vida espiritual, intelectual, parada. O tédio invadiu todas as
almas. A mocidade arrasta-se envelhecida das mesas das secretarias
para as mesas dos cafés. A ruína económica cresce, cresce, cresce.
As quebras (ler: depressões) sucedem-se. O pequeno comércio definha. A indústria
enfraquece. A sorte dos operários é lamentável. O salário
diminui. A renda (rendimento disponível = à poupança) também
diminui. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão
e tratado como um inimigo.
Neste
salve-se quem puder a burguesia proprietária de casas explora
o aluguel. A agiotagem explora o juro. A ignorância pesa sobre o
povo como uma fatalidade. O número das escolas só por si é
dramático. O professor é um empregado de eleições. A população
dos campos, vivendo em casebres ignóbeis, sustentando-se de sardinha
e de vinho, trabalhando para o imposto por meio de uma agricultura
decadente, puxa uma vida miserável, sacudida pela penhora:
ignorante, entorpedecida, de toda a vitalidade humana conserva
unicamente um egoísmo feroz e uma devoção automática. No entanto
a intriga política alastra-se. O país vive numa sonolência
enfastiada. Apenas a devoção insciente perturba o silêncio da
opinião com padre-nossos maquinais.”
Eça de Queiroz e
Ramalho Ortigão, “Farpas 1” em Maio de 1871.
Um bom sentido de oportunidade para um poeta é a oportunidade de ser inoportuno!
URGENTE!? e Oportunidade!?... Sempre
a mesma historieta. Parece que não se aprende nada! Mas mesmo assim
repete-se aqui uma LiçOom!
“CARTA AO EGITO
A poesia não
necessita de “ser salva” porque o que nós entendemos por poesia
não necessita de espécie alguma de salvação. Todo o acto de
revolta ou de rebeldia, todo o processo de violentar “a natureza”
e de desconhecer o direito e a moral é para nós poesia embora não
se plasme, não se fixe, não se possa generalizar – ela
aqui está, implícita, a recusa terminante de amarrar o poeta a uma
técnica, seja qual for, mesmo a mais actual, a mais oportuna,
porque, precisamente, o que o distingue do homem de técnica é um
sentido de não oportunidade, de inoportunidade, que lhe advém duma
clarividência total e duma insubmissão permanente ante os
conceitos, regras e princípios estabelecidos. Com isto não queremos
dizer (Deus nos livre!) que o poeta seja um louco, um visionário,
mas que, se ele tem de possuir uma estética e uma moral é sem
sombra de dúvida, uma estética e uma moral próprias.
A poesia é um meio
de conhecimento e acção de cujos frutos, bons ou maus, só o poeta
aproveita (facto, este, de que muito poucos se dão conta) e daí a
inutilidade dos esforços para ligá-lo a qualquer filosofia,
política ou teologia, inutilidade que se não desmente no caso de
ser o próprio poeta a tentar essa aproximação. É (foi) o caso de
Régio como o de Mayakovsky: a sua voz continuará estranha e o
sentido das suas palavras incompreensível mesmo para aqueles que
escolheu como amigos ou correligionários. É que o poeta é rebelde
sem premeditação, demolidor de tudo e de si próprio,
esforçadamente
anti-caridade-encostada-às-esquinas-de-pistola-em-punho ou
caneta-na-mão-lágrima-de-jacaré.
Daí que resultem
contraditórios os termos de poeta católico, marxista, surrealista,
existencialista, anarquista ou socialista, quando não se desconhece
que só ao poeta é dado compreender o poeta. Daí que resultem
ridículas as homenagens colarinho-alto ou selecta-de-infância com
que é costume, aqui e lá fora, enfaixar o cadáver daqueles como
Fernando Pessoa, Rimbaud ou Gomes Leal foram em vida o mais esforçado
testemunho contra o bom-senso-não-deites-a-língua-de-fora.
O que possa haver
de menos compreensível em tudo isto resulta do facto de que toda a
explicação necessita de uma outra explicação para ser
compreendida. Aquilo que de um modo imediato é para nós verdadeiro
só será inteligível para outrem depois de uma determinada
“mastigação” durante cujo processo já todo o objecto em causa
adquiriu nova cor, nova forma, novo ou novos sentidos de
interpretação. O poeta tem a clarividẽncia desta transformação
e daí a sua atitude, sempre de recusa a qualquer espécie de
imposição, e ainda quando nos parece que um dos seus gestos adquire
uma cor mais conformista, ou um tom menos violento, ele não é mais
do que uma forma diferente de recusa.”
Pedro Oom (1949)
"Ontem, hoje. Único!"...
“(…)
Tal como a riqueza humana dos negros americanos é odiável e
encarada como criminosa, a riqueza em dinheiro não os pode tornar
inteiramente aceitáveis na alienação americana: de um negro, a
riqueza individual fará apenas um negro rico, porque, no seu
conjunto, os negros devem representar a pobreza
de uma sociedade de riqueza hierarquizada. Todos os observadores
ouviram o grito que apelou ao reconhecimento universal do sentido da
sublevação: «Isto é a revolução dos negros e queremos que o
mundo o saiba!»”
G. D. em 1966.
Guy
Debord, “O Planeta Doente”, p.22-3, Letra Livre, [trad. Júlio
Henriques], Lx, 2014.
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