19/05/2015

"L' Imagination Poétique" colecção dirigida por Henri Parisot...




Gisele Prassinos lendo os seus poemas. Da esquerda para a direita: Mario Prassinos, André Breton, Henri Parisot, Paul Eluard, Benjamin Peret, René Char.


SONETO

No Algharb as vinhas são jardins de Hespéria:
Com as vindimas deste fim de Agosto,
Pisada a uva e ao transbordar do mosto,
Abelhas zumbem numa boda aérea.

– Tens sede, meu amor? Toma-lhe o gosto
E, em ditirambo espírito e matéria,
O Sol, há-de cantar-te em cada artéria
E há-de rosar-te a palidez do rosto.

Depois... – não sentes? – o calor aperta,
Que já vai alta a glória da manhã
E eu tenho a boca seca e tão deserta!

Por mim, só quero uns bagos de romã
A ressumar doçuras e entreaberta
Da tua boca, esposa minha irmã...»


Cândido Guerreiro (1871-1954) de “Sulamitis”

op. cit. David Mourão-Ferreira, “O Algarve”, p. 48, Bertrand.

Eli Lotar...

Eli Lotar, Antonin Artaud, 1929-1930
Eli Lotar, Abattoirs de La Villette, 1929


18/05/2015

Aquela no bem e outras...

VERÃO

Caracol, caracol
onde vais com tanto sol?
Vou à loja do senhor Adão
comprar um girassol;
com tanto sol
ninguém aguenta o verão.
Adeus, adeus, caracol,
tens razão
sem guarda-sol
ninguém aguenta este sol.

Eugénio de Andrade, “Aquela Nuvem e Outras”, Quasi, 2005.



1, 2, 3

Um, dois, três
lá vai outra vez
o gato maltês
a correr atrás
da franga pedrês,
talvez a mordesse
apenas no pé,
o sítio ao certo
não sei bem qual é

(quatro, cinco, seis)
ou só lhe arranhasse
a ponta da crista,
e talvez nem isso,
seria só susto,
ou nem sequer mesmo
foi susto nenhum;
sete, oito, nove,
para dez falta um.


Eugénio de Andrade, “Aquela Nuvem e Outras”, Quasi, 2005.

J-J P...


Jean-Jacques Pauvert - Sade Vivant from NAYRA on Vimeo.

17/05/2015

παν=pan=todo + οραμα=orama=vista...


PANORAMAS DO BRASIL

Nos parques dormem mendigos
enrolados em jornal.
Os notivados insectos,
crepitam e desabafam.
A nebelina cobre a rua
obumbra as feições da lua,
faz dos transeuntes espectros.
Imerso em meus devaneios,
assobiando cantigas
que inda no berço aprendi,
eu sigo perambulando
vendo coisas espantosas
que não supunha existir.

Que fazem as negras
cingidas em postes
de iluminação?
passei-lhes por perto
nenhuma me viu
estão obtusas
de tanta cachaça,
de tanta desgraça
e desilusão.
São negras sedentas
famintas e nuas
chorando nas ruas,
trazendo no bucho
pecados alheios,
dormindo? Coitadas
pelos escaninhos
e pelas sarjetas
dos templos sagrados
aonde ressoam
tranquilos e fartos
os gordos sicários
do meigo Jesus.

No botequim
a ruiva de henné
no colo do homem
ao qual explorava
com gesto fútil
às vezes sorria.
Na boca postiça
sorriam postiços
seus dentes de louça
No meio da noite
é o pederasta,
tipo numeroso,
que acha os boémios
em altos clamores
de tara mental.
Os que se aproximam,
desejam dinheiro
para o bacanal.

Um guarda-nocturno,
obeso e cafuzo,
em roncos suínos
de besta saciada,
tirava cochilos
num carro esquecido
que à beira da estrada
dormia também.
De madrugada,
meio a neblina,
e que ce acirram
e recrudescem
trôpegos passos
soturnos ecos
da dura faina
das prostitutas.

Gatos que vivem ao léu
dão uma nota de instinto
fornicando nos telhados
e canteiros desfolhados
de madames irascíveis.
De vez em quando o berreiro
dos automóveis que passam
conduzindo mariposas
para o amor de milionários.
Depois retorna o silẽncio
onde seus passos explodem
como flores apagadas.
O mundo é só, quem te espera?
Os bares não têm amigos,
mulheres não têm sorrisos,
as estrelas feneceram
na madrugada sem fim.
Só globos de luz vegetam
boiando na escuridão
como que vindo de longe,
fazendo as vezes de estrelas
luzeiros do engenho humano,
iluminando a sarjeta
onde rola a perdição

E quando amanhece
e o dia estremece
saltando nos céus,
ninguém reconhece
as coisas que vê.
O mundo girando,
os ricos gozando,
os pobres penando,
os párias morrendo...
a vida correndo...

Alguns ressonando
em camas de pene,
em leitos de pedra
em leitos de pedra
vão outros dormir.
E o mundo girando
a vida correndo
e os deuses sorrindo
sorrindo e chorando
das coisas que vêem.
E o mundo girando
e o dia passando
e a noite chegando
e os homens gritando
de fome e de dor.


Mário-Henrique Leiria, “Depoimentos Escritos”, pp. 59-63, Editorial Estampa, Lisboa, 1997.

Ora diga 33...

Em Portugal, parece que esse tal otimismo da vontade está a diminuir. As manifestações estão a tornar-se cada vez mais eventos vazios sem consequências práticas...
Tem havido um decréscimo drástico da democracia na Europa. E é compreensível. “The Wall Street Journal” apontou correctamente há alguns anos que não importa que partido ganhe as eleições, sejam os comunistas, os fascistas ou algum outro partido no meio irão sempre aplicar as mesmas políticas, porque as políticas não estão nas mãos das populações mas estão sempre determinadas pela burocracia em Bruxelas que tem em cima dos ombros a pressão dos bancos alemães. Mas não devemos aceitar isso. Por exemplo, quando há semanas o Governo português recusou solidarizar-se com o Syriza e decidiu seguir as políticas e mandamentos dos bancos alemães, a população não deveria ter aceitado. O Governo não está livre do poder público.

Quer dizer que nós portugueses, assim como os espanhóis e os gregos, não deveríamos pagar a dívida?
Bem, uma grande parte da dívida é aquilo que na terminologia legal se chama de “dívida odiosa”, ou seja, uma dívida que não é da responsabilidade das populações. Trata-se de um conceito da lei internacional criado pelos EUA e que remonta há mais de um século. Quando os EUA conquistaram Cuba. Em 1898, não queriam pagar a enorme dívida que cuba tinha em relação a Espanha. Então os EUA determinaram que a dívida não tinha sido contraída pelo povo cubano, mas pelos ditadores, os colonizadores. Portanto, a dívida foi considerada ilegítima e não teria de ser paga. Este é um conceito que tem sido aplicado uma série de vezes. Se olharmos para as dívidas de países como a Grécia, Portugal e Espanha, são contraídas por banqueiros, governantes e elites. As populações não têm nada a ver com isso e portanto não existe qualquer razão para pagarem.


Noam Chomsky, in “Passeio Público 33 minutos com...” Entrevista de Bernardo Mendonça, Catarina Pomba Nabais e Diogo Silva Cunha, 'E' a Revista do Expresso Edição 2220 de 16/Maio/2015.

13/05/2015

:( :)...

“Lucílio, a quem Horácio considera o verdadeiro criador (inventor) da sátira, foi o primeiro a circunscrever explicitamente o seu público ao círculo de amigos escolhidos, deixando de fora tanto o que hoje se chama o «grande público», como os eruditos (Horácio faz depois o mesmo, no seu tempo). Quer dizer: esta poesia a que se chama sátira atingiu então o nó da sua função estética e da sua intenção formal: dar prazer aos amigos e chatear os inimigos, assim mais ou menos diz Lucílio. Lucílio não está nada interessado em agradar às massas (que mudam como o vento), muito menos em influenciá-las: por isso considera p. ex. a tragédia como pura psicagogia.”

Alberto Pimenta, “A Musa Anti-Pombalina”, pp. 10-11, A Regra do Jogo Edições, Lx, 1982.

11/05/2015

E foi mais ou menos assim...

Foto cedida por António Silva Oliveira

Carlos Alberto Machado         foto:ASO

Pôr as Pernas do Lado da Cabeça e Partir        foto: ASO

ASO

Porto, Sismógrafo 9 de Maio de 2015

O que já não é tão actual é o povo sustentar-se de sardinha (que atingiu preços gurmé)... E "povo" ter desaparecido para dar lugar ao termo estatístico: população...



“Aproxima-te um pouco de nós, e vê.
O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há nenhuma solidariedade entre cidadãos. Ninguém crê na honestidade de homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima a baixo! Toda a vida espiritual, intelectual, parada. O tédio invadiu todas as almas. A mocidade arrasta-se envelhecida das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. A ruína económica cresce, cresce, cresce. As quebras (ler: depressões) sucedem-se. O pequeno comércio definha. A indústria enfraquece. A sorte dos operários é lamentável. O salário diminui. A renda (rendimento disponível = à poupança) também diminui. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.
Neste salve-se quem puder a burguesia proprietária de casas explora o aluguel. A agiotagem explora o juro. A ignorância pesa sobre o povo como uma fatalidade. O número das escolas só por si é dramático. O professor é um empregado de eleições. A população dos campos, vivendo em casebres ignóbeis, sustentando-se de sardinha e de vinho, trabalhando para o imposto por meio de uma agricultura decadente, puxa uma vida miserável, sacudida pela penhora: ignorante, entorpedecida, de toda a vitalidade humana conserva unicamente um egoísmo feroz e uma devoção automática. No entanto a intriga política alastra-se. O país vive numa sonolência enfastiada. Apenas a devoção insciente perturba o silêncio da opinião com padre-nossos maquinais.”

Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, “Farpas 1” em Maio de 1871.

Um bom sentido de oportunidade para um poeta é a oportunidade de ser inoportuno!


«"URGENTE É A POESIA" impôs-se como tema, porque é urgente a inspiração, a renovação e a arte, que a rotina - ou o mercado -, nos vai fazendo esquecer ou que, cada vez mais, é urgente contrariar.

A forma encontrada para materializar esse conceito, foi a criação de um laço entre o Design e as livrarias, tornando-as no objeto da intervenção. Ou, por outras palavras, a Poesia do Design serve de mote para a atribuição de montras de livrarias a designers e ateliers nacionais que nelas trabalharam, alguns dos profissionais mais reconhecidos nesta área. Aproveitando esta oportunidade, e no sentido de a potencializar nos seus objetivos, na próxima semana ocorrerá um evento literário ligado à poesia em cada uma das livrarias, consecutivamente nos dias 5, 6, 7 e 8 de Maio,........»
URGENTE!? e Oportunidade!?... Sempre a mesma historieta. Parece que não se aprende nada! Mas mesmo assim repete-se aqui uma LiçOom!

“CARTA AO EGITO

A poesia não necessita de “ser salva” porque o que nós entendemos por poesia não necessita de espécie alguma de salvação. Todo o acto de revolta ou de rebeldia, todo o processo de violentar “a natureza” e de desconhecer o direito e a moral é para nós poesia embora não se plasme, não se fixe, não se possa generalizar – ela aqui está, implícita, a recusa terminante de amarrar o poeta a uma técnica, seja qual for, mesmo a mais actual, a mais oportuna, porque, precisamente, o que o distingue do homem de técnica é um sentido de não oportunidade, de inoportunidade, que lhe advém duma clarividência total e duma insubmissão permanente ante os conceitos, regras e princípios estabelecidos. Com isto não queremos dizer (Deus nos livre!) que o poeta seja um louco, um visionário, mas que, se ele tem de possuir uma estética e uma moral é sem sombra de dúvida, uma estética e uma moral próprias.
A poesia é um meio de conhecimento e acção de cujos frutos, bons ou maus, só o poeta aproveita (facto, este, de que muito poucos se dão conta) e daí a inutilidade dos esforços para ligá-lo a qualquer filosofia, política ou teologia, inutilidade que se não desmente no caso de ser o próprio poeta a tentar essa aproximação. É (foi) o caso de Régio como o de Mayakovsky: a sua voz continuará estranha e o sentido das suas palavras incompreensível mesmo para aqueles que escolheu como amigos ou correligionários. É que o poeta é rebelde sem premeditação, demolidor de tudo e de si próprio, esforçadamente anti-caridade-encostada-às-esquinas-de-pistola-em-punho ou caneta-na-mão-lágrima-de-jacaré.
Daí que resultem contraditórios os termos de poeta católico, marxista, surrealista, existencialista, anarquista ou socialista, quando não se desconhece que só ao poeta é dado compreender o poeta. Daí que resultem ridículas as homenagens colarinho-alto ou selecta-de-infância com que é costume, aqui e lá fora, enfaixar o cadáver daqueles como Fernando Pessoa, Rimbaud ou Gomes Leal foram em vida o mais esforçado testemunho contra o bom-senso-não-deites-a-língua-de-fora.

O que possa haver de menos compreensível em tudo isto resulta do facto de que toda a explicação necessita de uma outra explicação para ser compreendida. Aquilo que de um modo imediato é para nós verdadeiro só será inteligível para outrem depois de uma determinada “mastigação” durante cujo processo já todo o objecto em causa adquiriu nova cor, nova forma, novo ou novos sentidos de interpretação. O poeta tem a clarividẽncia desta transformação e daí a sua atitude, sempre de recusa a qualquer espécie de imposição, e ainda quando nos parece que um dos seus gestos adquire uma cor mais conformista, ou um tom menos violento, ele não é mais do que uma forma diferente de recusa.”

Pedro Oom (1949)

"Ontem, hoje. Único!"...



“(…) Tal como a riqueza humana dos negros americanos é odiável e encarada como criminosa, a riqueza em dinheiro não os pode tornar inteiramente aceitáveis na alienação americana: de um negro, a riqueza individual fará apenas um negro rico, porque, no seu conjunto, os negros devem representar a pobreza de uma sociedade de riqueza hierarquizada. Todos os observadores ouviram o grito que apelou ao reconhecimento universal do sentido da sublevação: «Isto é a revolução dos negros e queremos que o mundo o saiba!»”

G. D. em 1966.

Guy Debord, “O Planeta Doente”, p.22-3, Letra Livre, [trad. Júlio Henriques], Lx, 2014.

29/04/2015

Dia 9 de Maio às 21h30...

"Pôr as Pernas do Lado da Cabeça e Partir" de Carlos Alberto Machado 
capa de Fabrizio Matos
No Sábado, 9 de Maio pelas 21h30, será apresentado o livro “Pôr as pernas do lado da cabeça e partir” de Carlos Alberto Machado (n. 1954), Edições 50kg, no espaço Sismógrafo no Porto. E contará com a presença do autor. O título deste livro, que é um único poema, pode ser encontrado num verso final de um poema que foi publicado em A Realidade Inclinada (ed. Averno 2003), “/ agora é só pôr as pernas do lado da cabeça e partir” (pág. 39).
 Rememorações, divindades perdidas, um solo de cantor desolado, um corpo que se desfaz em duplos (whiskeys?) mas nunca em cúmplices. É uma viagem ao final da noite, mas cruzando o Céline, o Joyce com Xavier de Maistre e com o fôlego de quem só tem um dos pulmões e sabendo, também, que a noite é um teatro de sombras. Uma viagem é um fracasso quando tem por destino um regresso. O quê? Da morte não há regresso? Então é boa viagem…
RAR

Fernando Assis Pacheco...


BAH!


Fora os livros não vejo
muita outra coisa
a que possa chamar
minha propriedade


a gilete? O pente
imitação tartaruga? a tesoura
das unhas?


nem mesmo a roupa
enchendo todo um armário
que se queima com o suor
gasta rasga
desfia em pouco tempo
condenada
por um corpo infeliz
e quando nova a estrear
faria talvez já
as delícias do adelo


álbuns de fotos?
estojo caneta-lapiseira?
pesa-papéis
deitando a sua neve falsa
sobre o castelo alemão?


inclusive o carro
envelhece mês a mês
sem uso: o prazer de guiar
é coisa dos anúncios


e a gasolina cara
e para quê tirá-lo da rua
para arrumá-lo aonde?
guiem agora as filhas


Lisboa, 15.2.94
Vilagarcía de Arousa, 31.8.95

Inédito de Fernando Assis Pacheco, na revista Espácio / Espaço Escrito – revista de literatura en dos lenguas, número 15 y 16, pp. 27-8, Badajoz, 1998. 
 
José Cardoso Pires, A. Guerra, Assis Pacheco.
Aniversário de 'O Jornal', 21 de Maio de 1982.

FELIZES PUTAS (Jerez/ Lisboa, 1995/96, Laus Deo)
Às prostitutas da Avenida da Liberdade:


Eu vi gelar as putas da Avenida
ao griso de Janeiro e tive pena
do que elas chamam em jargão a vida
com um requebro triste de açucena


vi-as às duas e às três falando
como se fala antes de entrar em cena
o gesto já compondo à voz o mando
do director fatal que lhe ordena


essa pose de flor recém-cortada
que para as mais batidas não é nada
senão fingirem lírios da Lorena


mas a todas o griso ia aturdindo
e eu que do trabalho vinha vindo
calçando as luvas senti tanta pena


Fernando Assis Pacheco, in revista Espácio / Espaço Escrito – revista de literatura en dos lenguas, número 15 y 16, pág. 17, Badajoz, 1998.


MJG...

Manuel João Gomes por Carlos Ferreiro
16

Que vejo eu nesta página impressa? Um espelho, o meu reflexo? Fiel? Um espelho com pouco de mim, sim! Vejo os artistas que derreteram o chumbo e forjaram os tipos, que compuseram e imprimiram as frases. E os revisores de provas. E os poetas que cito, além de Alice, da gata e dos grandes clássicos do hai-kai japonês, todos fantasmais, mas tão evidentes como a tintas que escorre pelo chumbo das máquinas de imprimir, inconsistente e fantasmal. Eu estou presente, mas atrás do meu Duplo, citação de mim, homem de névoa, névoa de chumbo escorrendo pelo espelho, togas, dentadas nas máscaras em liquefacção: sou de outro mundo, tenho apenas duas dimensões, caibo entre duas folhas de um livro fechado, tenho dezassete sílabas e dei caça ao snark nas lentes dos óculos de um eléctrico às seis da tarde uso narciso na lapela toco rebeca com uma escova de dentes na vulva da gata de Carroll, violeta na coroa funerária de Adalbert von Chamisso, digo da sua sombra Peter Schlemihl, digo da sua sombra Erasmus Spikher, ou quiçá do seu reflexo no espelho de Julieta Glannegg ou o Diabo a ver o rabo no espelho da feiticeira pintada na gravata de Humpty Dumpty fálica como a de Álvaro de Campos engenheiro naval entregue à descoberta do Mundo Fundo das Sereias, espelho de Jeová, o Único que vive séculos dos séculos na contemplação lúbrica do Homem criado à imagem e semelhança da sua Omnimpotência,
 


Esta página é o reflexo de si própria. Sombra que existe num espaço, enquanto o eu que a provoca é invisível e não ocupa lugar.
Numa outra vida, nas cavernas platónicas, esta página teve corpo e alma.
Hoje é o fantasma do que foi, duplicado, aparência, negativo.
Gutenberg, o agiota, aprendeu no Espelho a reprodução através da dureza do chumbo e do esperma sépia das tintagens.
Morreu pobre e, lá do céu, projecta nestas páginas névoas de borrasca.
Só peço a Deus que não demore a Era de Off-Set, espelho dos
espelhos, reflexo fidelíssimo, Terra Prometida às caligrafias
que o Dedo de Alice e a Voz de Eco criaram no corpo de Narciso.

Canção,
se te disserem que nada disto interessa ao Interesse
Nacional,
se te disserem que o tema é já revelho,
se te disserem que regressaste à fase anal,
canção,
diz-lhes para se verem ao espelho
e não leves a mal!


 Manuel João Gomes, “Almanaque dos Espelhos”, pp. 63-5, &etc, 1980, Lisboa.

 


                                                   1.º ponto
                       A MÃO DO INQUISIDOR QUANDO ESCREVE

    Um Inquisidor, quando escreve, escreve no cumprimento da sua função. A escrita de um Directorium é a prática de acto útil, digamos, a fabricação de um objecto funcional. E isso, desde a capa, lombada, letras capitulares, índices, peso e formato do livro: tudo condiciona a forma de o livro se escrever.
 
    Um Directorium não é para estar na estante; é para andar em exercício debaixo do braço do Inquisidor, que o abre e consulta em pleno tribunal e em plena rua, tanto ao julgar como ao investigar – tanto ao prender como ao executar. (…)
 


    Um Inquisidor, ao escrever um livro, não deixa de ter em mente que é também pregador. (São Domingos inventou a Ordem dos Pregadores para, pela palavra, os pôr a combater os hereges.) Um Inquisidor é portanto um polemista.
 
    Detective e polícia, um Inquisidor dificilmente fugirá a escrever literatura policial. Carcereiro e juiz, o Inquisidor não se safa de ser um canonista, conferindo isso ao seu discurso um tom didáctico. Na sua qualidade de executor e sacerdote, necessàriamente cultivará o género psalmódico: daí um discurso profético, criador de uma linguagem que faça ponte entre a terra e o céu.

E tudo isto se envolve em um discurso polémico, como vimos.
Acrescentemos ainda – ao considerarmos concretamente o Directorium Inquisitorum que o inquisidor é um memoralista. Com efeito, Emérico escreveu já afastado dos misteres inquisitoriais, em Avinhão, nos últimos anos da vida, e no gozo da reforma que lhe dava o título de capelão do papa.
 
Por isso – por isso? – é o Directorium muito mais que uma colecção de cânones e decretais, sendo, como é, obra de toda uma vida e de uma muito elaborada forma de se exprimir (e oprimir).
 
Manuel João Gomes, in “O Manual dos Inquisidores” de Nicolau Emérico, pp. 230-231, Fernando Ribeiro de Mello | Edições Afrodite, 1972, Lisboa.

Álvaro Cunqueiro...


20/04/2015

Revolucionários e Querubins...



_________________ e viva o povo!

Ramiro Ramires de Ramada e Ramos, cultivador das Musas e de alguma Indústria, casado católicamente com Dona Marta Martim de Coutim e Coutinho, cultivadora das Musas e de propriedades rurais, sentiu-se um dia profundamente triste na sequência de mais um conflito israelo-árabe, o de 1973.
– O homem moderno precisa de velocidade! – confidenciou a um amigo.
De facto, por meras questões ideológicas, o combustível escasseava. Os três automóveis do casal sofriam horrores para atestarem os depósitos. E em fins-de-semana nem uma bomba funcionava, visto o Governo, como todos os imbecis Governos desta terra, clamar incessantemente por austeridade.

JoséMartins Garcia, “Revolucionários e Querubins”, Fernando Ribeiro de Mello / Edições Afrodite, p. 13, Lisboa, 1977.

17/04/2015

Hoje às 22h00...


Prontos para logo! Mais info aqui

“Oito Cascatas e Um Desabamento” é o título da publicação de Renato Ferrão a ser lançada aquando da exposição “Cascatas e Desabamentos”, do mesmo autor, no espaço Sismógrafo, no próximo dia 17.

Esta publicação consiste numa recolha etnográfica (melhor seria dizer exploratória – mas por causa de uma série de escuteiros – estragou-se este conceito) de tradições (traz na dicção), ritos e costumes que estão associados ao elemento natural e jorrante que são as cascatas. Esta publicação consiste num apanhado de situações, de como diferentes locais geográficos e os seus habitantes, exploram e convivem com esse elemento. Isto permitiu a Renato Ferrão, que tudo isso testemunhou in loco, aglomerar, se não para a posteridade pelo menos para um poster, a recolha que agora nos fornece (e que só podemos estar gratos) criando-se assim um importante documento que terá, a partir de agora, de ser tido em conta sempre que um levantamento da mesma ordem, assunto e ou matéria, ou em suma: do mesmo cariz se proporcionar. Produziu-se por isso bibliografia. Coisa que não tive vontade de averiguar, mas que me disseram que não havia até então e que agora já há. Bem haja!

p.s. O desabamento, não é um capítulo em formato de conclusão. Trata-se apenas de um faits-divers (termo que, como se sabe, em jargão jornalístico quer dizer: fazer mergulhadores) e cuja gravidade, por semelhança, o autor teve a necessidade de incluir no seu estudo que agora se publica.

RAR em Abril de 2015



Publicação feita pelo colectivo Sismógrafo em Abril de 2015. São 100 exemplares (numerados) em tipografia de caracteres móveis e uma zincogravura.

14/04/2015

02/04/2015

Escritores Esquecidos 12...



“Foi simplesmente a história de como os patriotas fuzilaram um oficial que os traíra. De como o levaram, livre e aristocrata, de camisa aberta à névoa da manhã. De como o soldado reconheceu que os campos eram de alfafa. De como ouviu o balir dos animais, o tanger dos sinos e o crescer das hastes novas nos pinheiros. De como não se cruzaram palavras duras. De como falaram com dignidade mútua. De como não houve ódios nem castas. Porque não se disse que foi um ajuste de contas. Porque apenas foi uma vitória adiada por esquecidas derrotas. De como o país cabia no meu bolso, tão encolhido. E como tantos eram os horrores, tão encanecidas as histórias que se contavam pela noite.”

João Palma-Ferreira, “Os Crânioclastas”, pp. 31-2, Estúdios Cor, Natal de 1972.



“Oeiras, 17 de Fevereiro de 1969.
Sou um grande escritor de actas. Tenho escrito actas toda a vida. Escrevi actas na Escola, no primeiro emprego, no segundo emprego, no terceiro e no quarto. Estou a fazer a acta de mim próprio e, para que se conste, foi feita esta acta que, depois de lida e aprovada, vai ser assinada nos termos da Lei.
Em tempo vou aditar algumas verdades amargas para uso legal. O documento será autenticado com selo em branco. O funcionário arquivista averbará: está conforme. Aos dezassete dias do mês de Fevereiro de mil novecentos e sessenta e nove, pelas dezassete horas e quarenta e cinco minutos, nesta vila de Oeiras, reuniu o Conselho de decisões definitivas para apreciar o caso do cidadão João. Após as saudações habituais aos membros do Conselho, o Presidente expôs a doutrina e a actuação mais aconselhável para a concretização dos propósitos. Procedeu-se a um rigoroso inventário dos temas a abordar, em obdiência à ordem do dia. Não havendo qualquer assunto a tratar antes da ordem do dia, foi a sessão imediatamente aberta. O Presidente retomou a palavra e fez uma longa descrição da vida do cidadão João. Sublinhou as suas falsidades e torpezas, a sensualidade desenfreada e que é possesso, o estilo de vida que mantém com grande escãndalo público. Acentuou o seu pendor para a divagação, a tibieza do seu comportamento, auto-suficiência, timidez e orgulho. Ilustrou com numerosos exemplos do conhecimento geral. O Vogal representante do Instituto de Direitos Privados tomou a palavra para descrever as qualidades do cidadão João, demonstrando a sua capacidade de humor e de paciência, tolerância, sensibilidade e bondade. O Presidente chamou a atenção do Conselho, insistindo na proibição de exemplificações abstractas. O termo bondade foi substituído pela expressão fraqueza humana. O Presidente retomou a palavra para prosseguir na análise do comportamento social do cidadão João, exemplificando com o seu desprezo pelas instituições religiosas e pelas opções e ideologias políticas, doutrinas, governos e regimes, demonstrando certos aspectos do seu mau humor perante a obrigatoriedade de qualquer dever colectivo, da sua relutância em observar as regras da moralidade tradicional e demais pormenores de natureza pessoal que designou como nítida paranóia. O Vogal representante do Instituto de Direitos Privados pediu ao Conselho que todas as informações fossem devidamente comprovadas com documentação oficial. O Presidente tomou a palavra para afirmar que se opunha à petição do Vogal representante do Instituto de Direitos Privados. Foi proposta a votação. O Conselho não aceitou a proposta do Vogal representante do Instituto de Direitos Privados que foi derrotada por uma margem de quatro votos. O Presidente tomou a palavra e pediu a pena capital para o cidadão João. A proposta foi apresentada à votação e aceite por uma margem de cinco votos a favor. Nada mais havendo a tratar, foi encerrada a Sessão da qual se lavrou a presente acta que, depois de lida e aprovada, vai ser assinada nos termos da lei. Em tempo: faz-se constar que o cidadão João foi enforcado pelas dezoito horas deste dia dezassete de Fevereiro de mil novecentos e sessenta e nove. Na hora da morte mostrou-se convenientemente arrependido, como manda a Lei.”

João Palma-Ferreira, “Diário (1962-1972)”, pp. 121-23, Editora Arcádia, Abril de 1972.




“Em 1944 Ernest dedicou dois longos poemas a Mary Welsh, escritos entre Maio e Setembro daquele ano. Foram, pela primeira vez, publicados na revista The Atlantic (Agosto de 1965, vol. 216, n.o 2) com uma nota de Mary Hemingway. O Segundo Poema Para Mary encontra-se gravado no disco Ernest Hemingway Reading, editado pela Cadmon Records, de Nova Iorque. Até à data, uma única tradução dos poemas foi divulgada no estrangeiro, que se saiba: a versão em língua castelhana do cubano Armando Alvarez Bravo. A tradução em língua portuguesa, que terminei há dias, é, portanto a segunda que até agora se realizou. Baseia-se no texto original inglês e na versão de Armando Bravo.


Segundo Poema Para Mary

Dorme ele agora
Com essa cabra velha, a Morte,
Que ainda ontem três vezes se negou.
Repitam comigo
Dorme ele agora
Com essa cabra velha, a Morte
Que ainda ontem três vezes se negou.
Esperem. Aguardem que eles terminem.
Continuemos.
Negaste-a?
Sim.
Três vezes?
Sim.
Repitam comigo.
Aceita esta cabra velha, a Morte,
Por legítima esposa
Diante da lei?
Sim.
Sim.
Sim.
M. E. A. 6 of. 61 s. 13 Set. 2400 – 14 Set. 2400
Traduzam.
Mortos em Acção 6 oficiais, 61 soldados, da meia-
[-noite de 13 de Setembro à meia-noite de
[14 de Setembro.
Repitam comigo sessenta e sete vezes
Sim
Sim
Sim, sessenta e sete vezes
Continuemos
E continua-se.
Na próxima guerra sepultaremos os nossos mortos
[amortalhados em celofane
Na próxima guerra sepultaremos os nossos mortos
[amortalhados em celofane
A Hóstia virá empacotada nas rações K
A Hóstia virá empacotada nas rações K
Distribuir-se-á a cada homem um pequeno, mas
[perfeito,
Arcebispo Spellman que enche automaticamente
(por deferência da Air Reduction – aberto-fechado-
[-aberto-fechado)
Isto não é para repetir. A cerimónia terminou.
Já se foram todos e a ti próprio o dizes em voz alta.
Neste momento estás só e este momento é sempre.
[Sempre era uma palavra que utilizava nas
[promessas. Carece de valor.
A todos os oficiais, subalternos e soldados será distri-
[buída uma réplica do seu verdadeiro amor,
[aquele que não mais viram, e todas estas
[réplicas poderão ser devolvidas pelas vias
[competentes.
O meu verdadeiro amor é Mary Welsh.
Logo, supõe-se, poderá ser devolvida.
Mas hoje, neste dia, não aceitarei a rubrica do
[Arcebispo Spellman. Nem a dela.
Vocês todos podem ir-se embora, todos vós. Ponham-
[-se ao fresco o mais caladinhos que vos for
[possível. E podem levar o possível convosco,
[caso o encontrem. E podem desfazer-se dele
[do modo que acharem mais conveniente.
Hoje ninguém emprega o calão porque a clareza é de
[vital importância
Convém amenizar, mas só como adjectivo.
Ameniza o suor.
Significa isto que devemos padecer sem nenhuma
[possibilidade de modificarmos o resultado
ou o desenlace.
E nós, os que conhecemos este segredo, caminhamos
[lentamente e contemplamo-nos com infinito
[amor
e compaixão
Isto sobrevém unicamente quando já cem dias decor-
[reram e é um dos sintomas finais.
E temos irritação, ira, medo, dúvida, culpa, negação,
[má interpretação, erro, cobardia, torpeza e
[falta de talento para este trabalho.
Tudo isto tivemos e voltaremos a ter. E terá de ser
[enfrentado com firmeza, segurança, coragem,
[rápida compreensão e habilidade para ma-
[nobrar
e combater
Mas agora, por um instante, apenas há amor e
[compaixão.
Repitam.
Só amor e compaixão.
Para os B.F's também?
Battle Fatigues, oficiais, soldados, meia-noite 13 de
[Setembro... (?) meia-noite 14 de Setembro)
Não.
Logo não é compaixão.
Nem sequer para os B.F's.
Sim, é amor e compaixão.
Como podes dizer uma coisa dessas aqui?
E como podes dizer as outras?
Não somos nós que pediremos mais. Não somos nós
[que a desejaremos outra vez. Não somos
[nós que a desejaremos. Nem a desejaremos
[maior.
Mas quando eles se despediram daquele ignoto país
[de cujos limites nenhum viajante
que ali não tenha estado poderá regressar,
Despediram-se eles de tudo que não podemos
[exprimir. E neles morreu esse profundo co-
[nhecimento que cresce com maior fragância
[e formusura do que qualquer rosa.
Protegido pela morte e apenas regado pelas lágrimas
[retidas até que, hoje, floresce neste amor e
[nesta compaixão.
Para eles não.
Não. É pena.
Não está, por isso, completo.
Não, nem jamais estará.
E sem contrição.
Não, sem uma estúpida e velha contrição.
Só compaixão e amor.
Estende a tua mão á obscura irmã do Amor, o Ódio,
[e caminha com ela por essa colina que lenta-
[mente precorremos, e verifica se lá em cima
[nos guarda o Amor
Ou quem, em seu lugar, nos aguarda
Já te disse que devido às circunstâncias ficou branco
[o meu coração?
A encantadora irmã do Amor
Amorosa desamorável
Que despreocupadamente se aproxima
Enamorando sem submeter
Mas nunca inteiramente equivocada
Só de metade verídica
Prendendo sem prender para prender no ponto de
[onde ligeiramente pare o Amor sem nos
[deixar
o endereço.
O Amor parte levemente sem deixar recado e é
[a sua obscura irmã quem ocupa todos os
[espaços
Todas as formas completamente ocupadas.
O que se escreve revela um qualidade onde o Amor
[é muitas vezes ilegível
Garatujado à pressa enquanto ela sorri
Sem dar importância à página.
Crês que a encontraremos no alto da colina?
Não, há muito que se foi embora. Nunca oferece
[batalha,
Sabendo muito bem que o combate é imbecil, para
[sempre ido o amor,
só nos deixa o desolado sacramento.
Tal como a refeição que encontramos sobre a mesa
[de qualquer casa de uma aldeia recém-
[-ocupada.
Assim o consumimos agora. As suas pegadas marcam
[os nossos maxilares. Como os restos de gema
do raro e desejado ovo, e o nosso recém-devorado
[sacramento
Levemo-lo com os recentes retratos dos nossos amores
[verdadeiros até aos altos terrenos para lá
[da aldeia.
Até à fácil, suja boca sorridente que tantos dias
[temos negado
Até à fácil, suja boca sorridente que temos negado
[tantos dias (D plus 108)
Movamo-nos agora laboriosamente, até ao cimo dessa
[colina
E deixemo-nos levar lentamente pelos pés até onde
[melhor nos saibam conduzir.
Sábios são os pés cautelosos
Os pés de John e os pés de Harry
Os pés sabem
Os pés não partirão.
Faz agora com que os pés se movam lentamente
Faz com que os pés te levem até onde nenhum arado
Marque o teu caminho
Onde tudo se dissemine
Até ao local onde estará morto.
DEVOLVAM-NA AGORA PELAS VIAS COMPE-
[TENTES. DEVOLVAM-NA.
Isto ajudar-te-á.

E. Hemingway

in João Palma-Ferreira, “Diário (1962-1972)”, pp. 98-105, Editora Arcádia, Abril de 1972.

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