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| Gisele Prassinos lendo os seus poemas. Da esquerda para a direita: Mario Prassinos, André Breton, Henri Parisot, Paul Eluard, Benjamin Peret, René Char. |
19/05/2015
"L' Imagination Poétique" colecção dirigida por Henri Parisot...
SONETO
No Algharb as vinhas
são jardins de Hespéria:
Com as vindimas
deste fim de Agosto,
Pisada a uva e ao
transbordar do mosto,
Abelhas zumbem numa
boda aérea.
– Tens sede, meu
amor? Toma-lhe o gosto
E, em ditirambo
espírito e matéria,
O Sol, há-de
cantar-te em cada artéria
E há-de rosar-te a
palidez do rosto.
Depois... – não
sentes? – o calor aperta,
Que já vai alta a
glória da manhã
E eu tenho a boca
seca e tão deserta!
Por mim, só quero
uns bagos de romã
A ressumar doçuras
e entreaberta
Da tua boca, esposa
minha irmã...»
Cândido Guerreiro
(1871-1954) de “Sulamitis”
op. cit. David
Mourão-Ferreira, “O Algarve”, p. 48, Bertrand.
18/05/2015
Aquela no bem e outras...
VERÃO
Caracol, caracol
onde vais com tanto
sol?
Vou à loja do
senhor Adão
comprar um girassol;
com tanto sol
ninguém aguenta o
verão.
Adeus, adeus,
caracol,
tens razão
sem guarda-sol
ninguém aguenta
este sol.
Eugénio de Andrade, “Aquela Nuvem e Outras”, Quasi, 2005.
1, 2, 3
Um, dois, três
lá vai outra vez
o gato maltês
a correr atrás
da franga pedrês,
talvez a mordesse
apenas no pé,
o sítio ao certo
não sei bem qual é
(quatro, cinco,
seis)
ou só lhe
arranhasse
a ponta da crista,
e talvez nem isso,
seria só susto,
ou nem sequer mesmo
foi susto nenhum;
sete, oito, nove,
para dez falta um.
Eugénio de Andrade, “Aquela Nuvem e Outras”, Quasi, 2005.
17/05/2015
παν=pan=todo + οραμα=orama=vista...
PANORAMAS DO BRASIL
Nos parques dormem
mendigos
enrolados em jornal.
Os notivados
insectos,
crepitam e
desabafam.
A nebelina cobre a
rua
obumbra as feições
da lua,
faz dos transeuntes
espectros.
Imerso em meus
devaneios,
assobiando cantigas
que inda no berço
aprendi,
eu sigo perambulando
vendo coisas
espantosas
que não supunha
existir.
Que fazem as negras
cingidas em postes
de iluminação?
passei-lhes por
perto
nenhuma me viu
estão obtusas
de tanta cachaça,
de tanta desgraça
e desilusão.
São negras sedentas
famintas e nuas
chorando nas ruas,
trazendo no bucho
pecados alheios,
dormindo? Coitadas
pelos escaninhos
e pelas sarjetas
dos templos sagrados
aonde ressoam
tranquilos e fartos
os gordos sicários
do meigo Jesus.
No botequim
a ruiva de henné
no colo do homem
ao qual explorava
com gesto fútil
às vezes sorria.
Na boca postiça
sorriam postiços
seus dentes de louça
No meio da noite
é o pederasta,
tipo numeroso,
que acha os boémios
em altos clamores
de tara mental.
Os que se aproximam,
desejam dinheiro
para o bacanal.
Um guarda-nocturno,
obeso e cafuzo,
em roncos suínos
de besta saciada,
tirava cochilos
num carro esquecido
que à beira da
estrada
dormia também.
De madrugada,
meio a neblina,
e que ce acirram
e recrudescem
trôpegos passos
soturnos ecos
da dura faina
das prostitutas.
Gatos que vivem ao
léu
dão uma nota de
instinto
fornicando nos
telhados
e canteiros
desfolhados
de madames
irascíveis.
De vez em quando o
berreiro
dos automóveis que
passam
conduzindo mariposas
para o amor de
milionários.
Depois retorna o
silẽncio
onde seus passos
explodem
como flores
apagadas.
O mundo é só, quem
te espera?
Os bares não têm
amigos,
mulheres não têm
sorrisos,
as estrelas
feneceram
na madrugada sem
fim.
Só globos de luz
vegetam
boiando na escuridão
como que vindo de
longe,
fazendo as vezes de
estrelas
luzeiros do engenho
humano,
iluminando a sarjeta
onde rola a perdição
E quando amanhece
e o dia estremece
saltando nos céus,
ninguém reconhece
as coisas que vê.
O mundo girando,
os ricos gozando,
os pobres penando,
os párias
morrendo...
a vida correndo...
Alguns ressonando
em camas de pene,
em leitos de pedra
em leitos de pedra
vão outros dormir.
E o mundo girando
a vida correndo
e os deuses sorrindo
sorrindo e chorando
das coisas que vêem.
E o mundo girando
e o dia passando
e a noite chegando
e os homens gritando
de fome e de dor.
Mário-Henrique
Leiria, “Depoimentos Escritos”, pp. 59-63, Editorial Estampa,
Lisboa, 1997.
Ora diga 33...
Em
Portugal, parece que esse tal otimismo da vontade está a diminuir.
As manifestações estão a tornar-se cada vez mais eventos vazios
sem consequências práticas...
Tem
havido um decréscimo drástico da democracia na Europa. E é
compreensível. “The Wall Street Journal” apontou correctamente
há alguns anos que não importa que partido ganhe as eleições,
sejam os comunistas, os fascistas ou algum outro partido no meio irão
sempre aplicar as mesmas políticas, porque as políticas não estão
nas mãos das populações mas estão sempre determinadas pela
burocracia em Bruxelas que tem em cima dos ombros a pressão dos
bancos alemães. Mas não devemos aceitar isso. Por exemplo, quando
há semanas o Governo português recusou solidarizar-se com o Syriza
e decidiu seguir as políticas e mandamentos dos bancos alemães, a
população não deveria ter aceitado. O Governo não está livre do
poder público.
Quer
dizer que nós portugueses, assim como os espanhóis e os gregos, não
deveríamos pagar a dívida?
Bem,
uma grande parte da dívida é aquilo que na terminologia legal se
chama de “dívida odiosa”, ou seja, uma dívida que não é da
responsabilidade das populações. Trata-se de um conceito da lei
internacional criado pelos EUA e que remonta há mais de um século.
Quando os EUA conquistaram Cuba. Em 1898, não queriam pagar a enorme
dívida que cuba tinha em relação a Espanha. Então os EUA
determinaram que a dívida não tinha sido contraída pelo povo
cubano, mas pelos ditadores, os colonizadores. Portanto, a dívida
foi considerada ilegítima e não teria de ser paga. Este é um
conceito que tem sido aplicado uma série de vezes. Se olharmos para
as dívidas de países como a Grécia, Portugal e Espanha, são
contraídas por banqueiros, governantes e elites. As populações não
têm nada a ver com isso e portanto não existe qualquer razão para
pagarem.
Noam
Chomsky, in “Passeio Público 33 minutos com...”
Entrevista de Bernardo Mendonça, Catarina Pomba Nabais e Diogo Silva
Cunha, 'E' a Revista do Expresso Edição 2220 de 16/Maio/2015.
13/05/2015
:( :)...
“Lucílio, a quem Horácio considera o verdadeiro criador (inventor) da sátira, foi o primeiro a circunscrever explicitamente o seu público ao círculo de amigos escolhidos, deixando de fora tanto o que hoje se chama o «grande público», como os eruditos (Horácio faz depois o mesmo, no seu tempo). Quer dizer: esta poesia a que se chama sátira atingiu então o nó da sua função estética e da sua intenção formal: dar prazer aos amigos e chatear os inimigos, assim mais ou menos diz Lucílio. Lucílio não está nada interessado em agradar às massas (que mudam como o vento), muito menos em influenciá-las: por isso considera p. ex. a tragédia como pura psicagogia.”
Alberto Pimenta, “A Musa Anti-Pombalina”, pp. 10-11, A Regra do Jogo Edições, Lx, 1982.
Alberto Pimenta, “A Musa Anti-Pombalina”, pp. 10-11, A Regra do Jogo Edições, Lx, 1982.
12/05/2015
11/05/2015
E foi mais ou menos assim...
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| Foto cedida por António Silva Oliveira |
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| Carlos Alberto Machado foto:ASO |
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| Pôr as Pernas do Lado da Cabeça e Partir foto: ASO |
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| ASO |
| Porto, Sismógrafo 9 de Maio de 2015 |
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Pôr as Pernas do Lado da Cabeça e Partir,
Sismógrafo
O que já não é tão actual é o povo sustentar-se de sardinha (que atingiu preços gurmé)... E "povo" ter desaparecido para dar lugar ao termo estatístico: população...
O
país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes
estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres
corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a
conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há
nenhuma solidariedade entre cidadãos. Ninguém crê na honestidade
de homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média
abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está
na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina
dormente. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Vivemos todos
ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima a baixo! Toda a
vida espiritual, intelectual, parada. O tédio invadiu todas as
almas. A mocidade arrasta-se envelhecida das mesas das secretarias
para as mesas dos cafés. A ruína económica cresce, cresce, cresce.
As quebras (ler: depressões) sucedem-se. O pequeno comércio definha. A indústria
enfraquece. A sorte dos operários é lamentável. O salário
diminui. A renda (rendimento disponível = à poupança) também
diminui. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão
e tratado como um inimigo.
Neste
salve-se quem puder a burguesia proprietária de casas explora
o aluguel. A agiotagem explora o juro. A ignorância pesa sobre o
povo como uma fatalidade. O número das escolas só por si é
dramático. O professor é um empregado de eleições. A população
dos campos, vivendo em casebres ignóbeis, sustentando-se de sardinha
e de vinho, trabalhando para o imposto por meio de uma agricultura
decadente, puxa uma vida miserável, sacudida pela penhora:
ignorante, entorpedecida, de toda a vitalidade humana conserva
unicamente um egoísmo feroz e uma devoção automática. No entanto
a intriga política alastra-se. O país vive numa sonolência
enfastiada. Apenas a devoção insciente perturba o silêncio da
opinião com padre-nossos maquinais.”
Eça de Queiroz e
Ramalho Ortigão, “Farpas 1” em Maio de 1871.
Um bom sentido de oportunidade para um poeta é a oportunidade de ser inoportuno!
URGENTE!? e Oportunidade!?... Sempre
a mesma historieta. Parece que não se aprende nada! Mas mesmo assim
repete-se aqui uma LiçOom!
“CARTA AO EGITO
A poesia não
necessita de “ser salva” porque o que nós entendemos por poesia
não necessita de espécie alguma de salvação. Todo o acto de
revolta ou de rebeldia, todo o processo de violentar “a natureza”
e de desconhecer o direito e a moral é para nós poesia embora não
se plasme, não se fixe, não se possa generalizar – ela
aqui está, implícita, a recusa terminante de amarrar o poeta a uma
técnica, seja qual for, mesmo a mais actual, a mais oportuna,
porque, precisamente, o que o distingue do homem de técnica é um
sentido de não oportunidade, de inoportunidade, que lhe advém duma
clarividência total e duma insubmissão permanente ante os
conceitos, regras e princípios estabelecidos. Com isto não queremos
dizer (Deus nos livre!) que o poeta seja um louco, um visionário,
mas que, se ele tem de possuir uma estética e uma moral é sem
sombra de dúvida, uma estética e uma moral próprias.
A poesia é um meio
de conhecimento e acção de cujos frutos, bons ou maus, só o poeta
aproveita (facto, este, de que muito poucos se dão conta) e daí a
inutilidade dos esforços para ligá-lo a qualquer filosofia,
política ou teologia, inutilidade que se não desmente no caso de
ser o próprio poeta a tentar essa aproximação. É (foi) o caso de
Régio como o de Mayakovsky: a sua voz continuará estranha e o
sentido das suas palavras incompreensível mesmo para aqueles que
escolheu como amigos ou correligionários. É que o poeta é rebelde
sem premeditação, demolidor de tudo e de si próprio,
esforçadamente
anti-caridade-encostada-às-esquinas-de-pistola-em-punho ou
caneta-na-mão-lágrima-de-jacaré.
Daí que resultem
contraditórios os termos de poeta católico, marxista, surrealista,
existencialista, anarquista ou socialista, quando não se desconhece
que só ao poeta é dado compreender o poeta. Daí que resultem
ridículas as homenagens colarinho-alto ou selecta-de-infância com
que é costume, aqui e lá fora, enfaixar o cadáver daqueles como
Fernando Pessoa, Rimbaud ou Gomes Leal foram em vida o mais esforçado
testemunho contra o bom-senso-não-deites-a-língua-de-fora.
O que possa haver
de menos compreensível em tudo isto resulta do facto de que toda a
explicação necessita de uma outra explicação para ser
compreendida. Aquilo que de um modo imediato é para nós verdadeiro
só será inteligível para outrem depois de uma determinada
“mastigação” durante cujo processo já todo o objecto em causa
adquiriu nova cor, nova forma, novo ou novos sentidos de
interpretação. O poeta tem a clarividẽncia desta transformação
e daí a sua atitude, sempre de recusa a qualquer espécie de
imposição, e ainda quando nos parece que um dos seus gestos adquire
uma cor mais conformista, ou um tom menos violento, ele não é mais
do que uma forma diferente de recusa.”
Pedro Oom (1949)
"Ontem, hoje. Único!"...
“(…)
Tal como a riqueza humana dos negros americanos é odiável e
encarada como criminosa, a riqueza em dinheiro não os pode tornar
inteiramente aceitáveis na alienação americana: de um negro, a
riqueza individual fará apenas um negro rico, porque, no seu
conjunto, os negros devem representar a pobreza
de uma sociedade de riqueza hierarquizada. Todos os observadores
ouviram o grito que apelou ao reconhecimento universal do sentido da
sublevação: «Isto é a revolução dos negros e queremos que o
mundo o saiba!»”
G. D. em 1966.
Guy
Debord, “O Planeta Doente”, p.22-3, Letra Livre, [trad. Júlio
Henriques], Lx, 2014.
29/04/2015
Dia 9 de Maio às 21h30...
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| "Pôr as Pernas do Lado da Cabeça e Partir" de Carlos Alberto Machado capa de Fabrizio Matos |
Rememorações,
divindades perdidas, um solo de cantor desolado, um corpo que se
desfaz em duplos (whiskeys?) mas nunca em cúmplices. É uma viagem ao
final da noite, mas cruzando o Céline, o Joyce com Xavier de Maistre
e com o fôlego de quem só tem um dos pulmões e sabendo, também,
que a noite é um teatro de sombras. Uma viagem é um fracasso quando
tem por destino um regresso. O quê? Da morte não há regresso? Então é
boa viagem…
RAR
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capa: Fabrizio Matos,
Carlos Alberto Machado,
Edições 50kg,
Pôr as Pernas do Lado da Cabeça e Partir,
Sismógrafo
Fernando Assis Pacheco...
Fora
os livros não vejo
muita outra coisa
a que possa
chamar
minha propriedade
a gilete? O pente
imitação
tartaruga? a tesoura
das unhas?
nem mesmo a roupa
enchendo todo um
armário
que se queima com
o suor
gasta rasga
desfia em pouco
tempo
condenada
por um corpo
infeliz
e quando nova a
estrear
faria talvez já
as delícias do
adelo
álbuns de fotos?
estojo
caneta-lapiseira?
pesa-papéis
deitando a sua
neve falsa
sobre o castelo
alemão?
inclusive o carro
envelhece mês a
mês
sem uso: o prazer
de guiar
é coisa dos
anúncios
e a gasolina cara
e para quê
tirá-lo da rua
para arrumá-lo
aonde?
guiem agora as
filhas
Lisboa,
15.2.94
Vilagarcía
de Arousa, 31.8.95
Inédito de
Fernando Assis Pacheco, na revista Espácio / Espaço Escrito –
revista de literatura en dos lenguas, número 15 y 16, pp. 27-8,
Badajoz, 1998.
![]() |
| José Cardoso Pires, A. Guerra, Assis Pacheco. Aniversário de 'O Jornal', 21 de Maio de 1982. |
Às
prostitutas da Avenida da Liberdade:
Eu vi gelar as
putas da Avenida
ao griso de
Janeiro e tive pena
do que elas
chamam em jargão a vida
com um requebro
triste de açucena
vi-as às duas e
às três falando
como se fala
antes de entrar em cena
o gesto já
compondo à voz o mando
do director fatal
que lhe ordena
essa pose de flor
recém-cortada
que para as mais
batidas não é nada
senão fingirem
lírios da Lorena
mas a todas o
griso ia aturdindo
e eu que do
trabalho vinha vindo
calçando as
luvas senti tanta pena
Fernando Assis
Pacheco, in revista Espácio / Espaço Escrito – revista de
literatura en dos lenguas, número 15 y 16, pág. 17, Badajoz, 1998.
MJG...
![]() |
| Manuel João Gomes por Carlos Ferreiro |
16
Que vejo eu nesta página impressa? Um espelho, o meu reflexo? Fiel? Um espelho com pouco de mim, sim! Vejo os artistas que derreteram o chumbo e forjaram os tipos, que compuseram e imprimiram as frases. E os revisores de provas. E os poetas que cito, além de Alice, da gata e dos grandes clássicos do hai-kai japonês, todos fantasmais, mas tão evidentes como a tintas que escorre pelo chumbo das máquinas de imprimir, inconsistente e fantasmal. Eu estou presente, mas atrás do meu Duplo, citação de mim, homem de névoa, névoa de chumbo escorrendo pelo espelho, togas, dentadas nas máscaras em liquefacção: sou de outro mundo, tenho apenas duas dimensões, caibo entre duas folhas de um livro fechado, tenho dezassete sílabas e dei caça ao snark nas lentes dos óculos de um eléctrico às seis da tarde uso narciso na lapela toco rebeca com uma escova de dentes na vulva da gata de Carroll, violeta na coroa funerária de Adalbert von Chamisso, digo da sua sombra Peter Schlemihl, digo da sua sombra Erasmus Spikher, ou quiçá do seu reflexo no espelho de Julieta Glannegg ou o Diabo a ver o rabo no espelho da feiticeira pintada na gravata de Humpty Dumpty fálica como a de Álvaro de Campos engenheiro naval entregue à descoberta do Mundo Fundo das Sereias, espelho de Jeová, o Único que vive séculos dos séculos na contemplação lúbrica do Homem criado à imagem e semelhança da sua Omnimpotência,
Que vejo eu nesta página impressa? Um espelho, o meu reflexo? Fiel? Um espelho com pouco de mim, sim! Vejo os artistas que derreteram o chumbo e forjaram os tipos, que compuseram e imprimiram as frases. E os revisores de provas. E os poetas que cito, além de Alice, da gata e dos grandes clássicos do hai-kai japonês, todos fantasmais, mas tão evidentes como a tintas que escorre pelo chumbo das máquinas de imprimir, inconsistente e fantasmal. Eu estou presente, mas atrás do meu Duplo, citação de mim, homem de névoa, névoa de chumbo escorrendo pelo espelho, togas, dentadas nas máscaras em liquefacção: sou de outro mundo, tenho apenas duas dimensões, caibo entre duas folhas de um livro fechado, tenho dezassete sílabas e dei caça ao snark nas lentes dos óculos de um eléctrico às seis da tarde uso narciso na lapela toco rebeca com uma escova de dentes na vulva da gata de Carroll, violeta na coroa funerária de Adalbert von Chamisso, digo da sua sombra Peter Schlemihl, digo da sua sombra Erasmus Spikher, ou quiçá do seu reflexo no espelho de Julieta Glannegg ou o Diabo a ver o rabo no espelho da feiticeira pintada na gravata de Humpty Dumpty fálica como a de Álvaro de Campos engenheiro naval entregue à descoberta do Mundo Fundo das Sereias, espelho de Jeová, o Único que vive séculos dos séculos na contemplação lúbrica do Homem criado à imagem e semelhança da sua Omnimpotência,
Esta página é o reflexo de si própria. Sombra que existe num espaço, enquanto o eu que a provoca é invisível e não ocupa lugar.
Numa outra vida, nas cavernas platónicas, esta página teve corpo e alma.
Hoje é o fantasma do que foi, duplicado, aparência, negativo.
Gutenberg, o agiota, aprendeu no Espelho a reprodução através da dureza do chumbo e do esperma sépia das tintagens.
Morreu pobre e, lá do céu, projecta nestas páginas névoas de borrasca.
Só peço a Deus que não demore a Era de Off-Set, espelho dos
espelhos, reflexo fidelíssimo, Terra Prometida às caligrafias
que o Dedo de Alice e a Voz de Eco criaram no corpo de Narciso.
Canção,
se te disserem que nada disto interessa ao Interesse
Nacional,
se te disserem que o tema é já revelho,
se te disserem que regressaste à fase anal,
canção,
diz-lhes para se verem ao espelho
e não leves a mal!
Manuel João Gomes, “Almanaque dos Espelhos”, pp. 63-5, &etc, 1980, Lisboa.
Numa outra vida, nas cavernas platónicas, esta página teve corpo e alma.
Hoje é o fantasma do que foi, duplicado, aparência, negativo.
Gutenberg, o agiota, aprendeu no Espelho a reprodução através da dureza do chumbo e do esperma sépia das tintagens.
Morreu pobre e, lá do céu, projecta nestas páginas névoas de borrasca.
Só peço a Deus que não demore a Era de Off-Set, espelho dos
espelhos, reflexo fidelíssimo, Terra Prometida às caligrafias
que o Dedo de Alice e a Voz de Eco criaram no corpo de Narciso.
Canção,
se te disserem que nada disto interessa ao Interesse
Nacional,
se te disserem que o tema é já revelho,
se te disserem que regressaste à fase anal,
canção,
diz-lhes para se verem ao espelho
e não leves a mal!
Manuel João Gomes, “Almanaque dos Espelhos”, pp. 63-5, &etc, 1980, Lisboa.
1.º ponto
A MÃO DO INQUISIDOR QUANDO ESCREVE
Um Inquisidor, quando escreve, escreve no cumprimento da sua função. A escrita de um Directorium é a prática de acto útil, digamos, a fabricação de um objecto funcional. E isso, desde a capa, lombada, letras capitulares, índices, peso e formato do livro: tudo condiciona a forma de o livro se escrever.
A MÃO DO INQUISIDOR QUANDO ESCREVE
Um Inquisidor, quando escreve, escreve no cumprimento da sua função. A escrita de um Directorium é a prática de acto útil, digamos, a fabricação de um objecto funcional. E isso, desde a capa, lombada, letras capitulares, índices, peso e formato do livro: tudo condiciona a forma de o livro se escrever.
Um Directorium não é para estar na estante; é para andar em exercício debaixo do braço do Inquisidor, que o abre e consulta em pleno tribunal e em plena rua, tanto ao julgar como ao investigar – tanto ao prender como ao executar. (…)
Um Inquisidor, ao escrever um livro, não deixa de ter em mente que é também pregador. (São Domingos inventou a Ordem dos Pregadores para, pela palavra, os pôr a combater os hereges.) Um Inquisidor é portanto um polemista.
Detective e polícia, um Inquisidor dificilmente fugirá a escrever literatura policial. Carcereiro e juiz, o Inquisidor não se safa de ser um canonista, conferindo isso ao seu discurso um tom didáctico. Na sua qualidade de executor e sacerdote, necessàriamente cultivará o género psalmódico: daí um discurso profético, criador de uma linguagem que faça ponte entre a terra e o céu.
E tudo isto se envolve em um discurso polémico, como vimos.
Acrescentemos ainda – ao considerarmos concretamente o Directorium Inquisitorum que o inquisidor é um memoralista. Com efeito, Emérico escreveu já afastado dos misteres inquisitoriais, em Avinhão, nos últimos anos da vida, e no gozo da reforma que lhe dava o título de capelão do papa.
Por isso – por isso? – é o Directorium muito mais que uma colecção de cânones e decretais, sendo, como é, obra de toda uma vida e de uma muito elaborada forma de se exprimir (e oprimir).
Manuel João Gomes, in “O Manual dos Inquisidores” de Nicolau Emérico, pp. 230-231, Fernando Ribeiro de Mello | Edições Afrodite, 1972, Lisboa.
22/04/2015
20/04/2015
Revolucionários e Querubins...
_________________ e viva o
povo!
Ramiro Ramires de Ramada e
Ramos, cultivador das Musas e de alguma Indústria, casado
católicamente com Dona Marta Martim de Coutim e Coutinho,
cultivadora das Musas e de propriedades rurais, sentiu-se um dia
profundamente triste na sequência de mais um conflito israelo-árabe,
o de 1973.
– O homem moderno precisa de
velocidade! – confidenciou a um amigo.
De facto, por meras questões
ideológicas, o combustível escasseava. Os três automóveis do
casal sofriam horrores para atestarem os depósitos. E em
fins-de-semana nem uma bomba funcionava, visto o Governo, como todos
os imbecis Governos desta terra, clamar incessantemente por
austeridade.
JoséMartins Garcia, “Revolucionários e Querubins”, Fernando Ribeiro
de Mello / Edições Afrodite, p. 13, Lisboa, 1977.
17/04/2015
Hoje às 22h00...
| Prontos para logo! Mais info aqui |
“Oito
Cascatas e Um Desabamento” é o título da publicação de Renato
Ferrão a ser lançada aquando da exposição “Cascatas e
Desabamentos”, do mesmo autor, no espaço Sismógrafo, no próximo
dia 17.
Esta
publicação consiste numa recolha etnográfica (melhor seria dizer
exploratória – mas por causa de uma série de escuteiros –
estragou-se este conceito) de tradições (traz na dicção), ritos e
costumes que estão associados ao elemento natural e jorrante que são
as cascatas. Esta publicação consiste num apanhado de situações,
de como diferentes locais geográficos e os seus habitantes, exploram
e convivem com esse elemento. Isto permitiu a Renato Ferrão, que
tudo isso testemunhou in loco,
aglomerar, se não para a posteridade pelo menos para um
poster, a
recolha que agora nos fornece
(e que só podemos estar
gratos) criando-se
assim um importante documento
que terá, a partir de agora, de ser tido em conta sempre que um
levantamento da mesma ordem, assunto e ou matéria, ou em suma: do
mesmo cariz se proporcionar. Produziu-se por isso bibliografia. Coisa
que não tive vontade de averiguar, mas que me disseram que não
havia até então e que agora já há. Bem haja!
p.s.
O desabamento, não é um capítulo em formato de conclusão.
Trata-se apenas de um faits-divers (termo
que,
como se sabe, em jargão
jornalístico quer dizer: fazer
mergulhadores) e cuja
gravidade, por semelhança, o autor teve a necessidade de incluir no
seu estudo que agora se publica.
RAR
em Abril de 2015
Publicação feita pelo colectivo Sismógrafo em Abril de 2015. São 100 exemplares (numerados) em tipografia de caracteres móveis e uma zincogravura.
14/04/2015
Página 22...
13/04/2015
...oito cascatas e um desabamento
| Publicação que estará disponível no Sismógrafo na próxima Sexta (17 de Abril) |
09/04/2015
06/04/2015
04/04/2015
02/04/2015
Escritores Esquecidos 12...
“Foi simplesmente
a história de como os patriotas fuzilaram um oficial que os traíra.
De como o levaram, livre e aristocrata, de camisa aberta à névoa da
manhã. De como o soldado reconheceu que os campos eram de alfafa. De
como ouviu o balir dos animais, o tanger dos sinos e o crescer das
hastes novas nos pinheiros. De como não se cruzaram palavras duras.
De como falaram com dignidade mútua. De como não houve ódios nem
castas. Porque não se disse que foi um ajuste de contas. Porque
apenas foi uma vitória adiada por esquecidas derrotas. De como o
país cabia no meu bolso, tão encolhido. E como tantos eram os
horrores, tão encanecidas as histórias que se contavam pela noite.”
João
Palma-Ferreira, “Os Crânioclastas”, pp. 31-2, Estúdios Cor,
Natal de 1972.
“Oeiras,
17 de Fevereiro de 1969.
Sou
um grande escritor de actas. Tenho escrito actas toda a vida. Escrevi
actas na Escola, no primeiro emprego, no segundo emprego, no terceiro
e no quarto. Estou a fazer a acta de mim próprio e, para que se
conste, foi feita esta acta que, depois de lida e aprovada, vai ser
assinada nos termos da Lei.
Em
tempo vou aditar algumas verdades amargas para uso legal. O documento
será autenticado com selo em branco. O funcionário arquivista
averbará: está conforme. Aos dezassete dias do mês de Fevereiro de
mil novecentos e sessenta e nove, pelas dezassete horas e quarenta e
cinco minutos, nesta vila de Oeiras, reuniu o Conselho de decisões
definitivas para apreciar o caso do cidadão João. Após as
saudações habituais aos membros do Conselho, o Presidente expôs a
doutrina e a actuação mais aconselhável para a concretização dos
propósitos. Procedeu-se a um rigoroso inventário dos temas a
abordar, em obdiência à ordem do dia. Não havendo qualquer assunto
a tratar antes da ordem do dia, foi a sessão imediatamente aberta. O
Presidente retomou a palavra e fez uma longa descrição da vida do
cidadão João. Sublinhou as suas falsidades e torpezas, a
sensualidade desenfreada e que é possesso, o estilo de vida que
mantém com grande escãndalo público. Acentuou o seu pendor para a
divagação, a tibieza do seu comportamento, auto-suficiência,
timidez e orgulho. Ilustrou com numerosos exemplos do conhecimento
geral. O Vogal representante do Instituto de Direitos Privados tomou
a palavra para descrever as qualidades do cidadão João,
demonstrando a sua capacidade de humor e de paciência, tolerância,
sensibilidade e bondade. O Presidente chamou a atenção do Conselho,
insistindo na proibição de exemplificações abstractas. O termo
bondade foi substituído pela expressão fraqueza humana.
O Presidente retomou a palavra para prosseguir na análise do
comportamento social do cidadão João, exemplificando com o seu
desprezo pelas instituições religiosas e pelas opções e
ideologias políticas, doutrinas, governos e regimes, demonstrando
certos aspectos do seu mau humor perante a obrigatoriedade de
qualquer dever colectivo, da sua relutância em observar as regras da
moralidade tradicional e demais pormenores de natureza pessoal que
designou como nítida paranóia. O Vogal representante do Instituto
de Direitos Privados pediu ao Conselho que todas as informações
fossem devidamente comprovadas com documentação oficial. O
Presidente tomou a palavra para afirmar que se opunha à petição do
Vogal representante do Instituto de Direitos Privados. Foi proposta a
votação. O Conselho não aceitou a proposta do Vogal representante
do Instituto de Direitos Privados que foi derrotada por uma margem de
quatro votos. O Presidente tomou a palavra e pediu a pena capital
para o cidadão João. A proposta foi apresentada à votação e
aceite por uma margem de cinco votos a favor. Nada mais havendo a
tratar, foi encerrada a Sessão da qual se lavrou a presente acta
que, depois de lida e aprovada, vai ser assinada nos termos da lei.
Em tempo: faz-se constar que o cidadão João foi enforcado pelas
dezoito horas deste dia dezassete de Fevereiro de mil novecentos e
sessenta e nove. Na hora da morte mostrou-se convenientemente
arrependido, como manda a Lei.”
João
Palma-Ferreira, “Diário (1962-1972)”, pp. 121-23, Editora
Arcádia, Abril de 1972.
“Em 1944 Ernest
dedicou dois longos poemas a Mary Welsh, escritos entre Maio e
Setembro daquele ano. Foram, pela primeira vez, publicados na revista
The Atlantic (Agosto de 1965, vol. 216, n.o 2) com
uma nota de Mary Hemingway. O Segundo Poema Para Mary
encontra-se gravado no disco Ernest Hemingway Reading, editado
pela Cadmon Records, de Nova Iorque. Até à data, uma única
tradução dos poemas foi divulgada no estrangeiro, que se saiba: a
versão em língua castelhana do cubano Armando Alvarez Bravo. A
tradução em língua portuguesa, que terminei há dias, é, portanto
a segunda que até agora se realizou. Baseia-se no texto original
inglês e na versão de Armando Bravo.
Segundo Poema
Para Mary
Dorme ele agora
Com essa cabra
velha, a Morte,
Que ainda ontem três
vezes se negou.
Repitam comigo
Dorme ele agora
Com essa cabra
velha, a Morte
Que ainda ontem três
vezes se negou.
Esperem. Aguardem
que eles terminem.
Continuemos.
Negaste-a?
Sim.
Três vezes?
Sim.
Repitam comigo.
Aceita esta cabra
velha, a Morte,
Por legítima esposa
Diante da lei?
Sim.
Sim.
Sim.
M. E. A. 6 of. 61 s.
13 Set. 2400 – 14 Set. 2400
Traduzam.
Mortos em Acção 6
oficiais, 61 soldados, da meia-
[-noite de 13 de
Setembro à meia-noite de
[14 de Setembro.
Repitam comigo
sessenta e sete vezes
Sim
Sim
Sim, sessenta e sete
vezes
Continuemos
E continua-se.
Na próxima guerra
sepultaremos os nossos mortos
[amortalhados em
celofane
Na próxima guerra
sepultaremos os nossos mortos
[amortalhados em
celofane
A Hóstia virá
empacotada nas rações K
A Hóstia virá
empacotada nas rações K
Distribuir-se-á a
cada homem um pequeno, mas
[perfeito,
Arcebispo Spellman
que enche automaticamente
(por deferência da
Air Reduction – aberto-fechado-
[-aberto-fechado)
Isto não é para
repetir. A cerimónia terminou.
Já se foram todos e
a ti próprio o dizes em voz alta.
Neste momento estás
só e este momento é sempre.
[Sempre era uma
palavra que utilizava nas
[promessas. Carece
de valor.
A todos os oficiais,
subalternos e soldados será distri-
[buída uma réplica
do seu verdadeiro amor,
[aquele que não
mais viram, e todas estas
[réplicas poderão
ser devolvidas pelas vias
[competentes.
O meu verdadeiro
amor é Mary Welsh.
Logo, supõe-se,
poderá ser devolvida.
Mas hoje, neste dia,
não aceitarei a rubrica do
[Arcebispo
Spellman. Nem a dela.
Vocês todos podem
ir-se embora, todos vós. Ponham-
[-se ao fresco o
mais caladinhos que vos for
[possível. E podem
levar o possível convosco,
[caso o encontrem.
E podem desfazer-se dele
[do modo que
acharem mais conveniente.
Hoje ninguém
emprega o calão porque a clareza é de
[vital importância
Convém amenizar,
mas só como adjectivo.
Ameniza o suor.
Significa isto que
devemos padecer sem nenhuma
[possibilidade de
modificarmos o resultado
ou o desenlace.
E nós, os que
conhecemos este segredo, caminhamos
[lentamente e
contemplamo-nos com infinito
[amor
e compaixão
Isto sobrevém
unicamente quando já cem dias decor-
[reram e é um dos
sintomas finais.
E temos irritação,
ira, medo, dúvida, culpa, negação,
[má interpretação,
erro, cobardia, torpeza e
[falta de talento
para este trabalho.
Tudo isto tivemos e
voltaremos a ter. E terá de ser
[enfrentado com
firmeza, segurança, coragem,
[rápida
compreensão e habilidade para ma-
[nobrar
e combater
Mas agora, por um
instante, apenas há amor e
[compaixão.
Repitam.
Só amor e
compaixão.
Para os B.F's
também?
Battle Fatigues,
oficiais, soldados, meia-noite 13 de
[Setembro... (?)
meia-noite 14 de Setembro)
Não.
Logo não é
compaixão.
Nem sequer para os
B.F's.
Sim, é amor e
compaixão.
Como podes dizer uma
coisa dessas aqui?
E como podes dizer
as outras?
Não somos nós que
pediremos mais. Não somos nós
[que a desejaremos
outra vez. Não somos
[nós que a
desejaremos. Nem a desejaremos
[maior.
Mas quando eles se
despediram daquele ignoto país
[de cujos limites
nenhum viajante
que ali não tenha
estado poderá regressar,
Despediram-se eles
de tudo que não podemos
[exprimir. E neles
morreu esse profundo co-
[nhecimento que
cresce com maior fragância
[e formusura do que
qualquer rosa.
Protegido pela morte
e apenas regado pelas lágrimas
[retidas até que,
hoje, floresce neste amor e
[nesta compaixão.
Para eles não.
Não. É pena.
Não está, por
isso, completo.
Não, nem jamais
estará.
E sem contrição.
Não, sem uma
estúpida e velha contrição.
Só compaixão e
amor.
Estende a tua mão á
obscura irmã do Amor, o Ódio,
[e caminha com ela
por essa colina que lenta-
[mente precorremos,
e verifica se lá em cima
[nos guarda o Amor
Ou quem, em seu
lugar, nos aguarda
Já te disse que
devido às circunstâncias ficou branco
[o meu coração?
A encantadora irmã
do Amor
Amorosa desamorável
Que
despreocupadamente se aproxima
Enamorando sem
submeter
Mas nunca
inteiramente equivocada
Só de metade
verídica
Prendendo sem
prender para prender no ponto de
[onde ligeiramente
pare o Amor sem nos
[deixar
o endereço.
O Amor parte
levemente sem deixar recado e é
[a sua obscura irmã
quem ocupa todos os
[espaços
Todas as formas
completamente ocupadas.
O que se escreve
revela um qualidade onde o Amor
[é muitas vezes
ilegível
Garatujado à pressa
enquanto ela sorri
Sem dar importância
à página.
Crês que a
encontraremos no alto da colina?
Não, há muito que
se foi embora. Nunca oferece
[batalha,
Sabendo muito bem
que o combate é imbecil, para
[sempre ido o amor,
só nos deixa o
desolado sacramento.
Tal como a refeição
que encontramos sobre a mesa
[de qualquer casa
de uma aldeia recém-
[-ocupada.
Assim o consumimos
agora. As suas pegadas marcam
[os nossos
maxilares. Como os restos de gema
do raro e desejado
ovo, e o nosso recém-devorado
[sacramento
Levemo-lo com os
recentes retratos dos nossos amores
[verdadeiros até
aos altos terrenos para lá
[da aldeia.
Até à fácil, suja
boca sorridente que tantos dias
[temos negado
Até à fácil, suja
boca sorridente que temos negado
[tantos dias (D
plus 108)
Movamo-nos agora
laboriosamente, até ao cimo dessa
[colina
E deixemo-nos levar
lentamente pelos pés até onde
[melhor nos saibam
conduzir.
Sábios são os pés
cautelosos
Os pés de John e os
pés de Harry
Os pés sabem
Os pés não
partirão.
Faz agora com que os
pés se movam lentamente
Faz com que os pés
te levem até onde nenhum arado
Marque o teu caminho
Onde tudo se
dissemine
Até ao local onde
estará morto.
DEVOLVAM-NA AGORA
PELAS VIAS COMPE-
[TENTES.
DEVOLVAM-NA.
Isto ajudar-te-á.
E.
Hemingway
in João
Palma-Ferreira, “Diário (1962-1972)”, pp. 98-105, Editora
Arcádia, Abril de 1972.
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