19/09/2011

Manual de letras (mais)

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Poema ao Sábado (Inédito de José Carlos Soares)


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18/09/2011

Meia dúzia...



já está na tipografia


PIOLHO Revista de Poesia
«Se dois homens se querem entender verdadeiramente, têm primeiro que se contradizer» Gaston Bachelard

 Sandra Filipe (ilustrações), Golgona Anghel, Marta Chaves, Ana Dias, Mariana Pinto dos Santos, Oliveira Martins Roxo, Renata Correia Botelho, A. Maria de Jesus, Sílvia C. Silva, Rui Caeiro, José Carlos Soares, Miguel Martins, Vitor Nogueira, António Barahona, manuel a. domingos, Fernando Guerreiro, Diogo Vaz Pinto, Rui Miguel Ribeiro, Jorge Roque, Luís Manuel Gaspar, A. Pedro Ribeiro, Pedro Calcoen, Rui Pires Cabral, Rui Azevedo Ribeiro, Ricardo Álvaro e Charles Bukowski

fazem (entre outros) mais ou menos por esta desordem este
 número

o sexto Setembro 2011
Coordenado por Sílvia C. Silva, Meireles de Pinho (capa e arranjo gráfico),Fernando Guerreiro e A. Dasilva O.

MAIS INFORMAÇÕES AQUI

16/09/2011

Lepidóptero...

Manuel Cintra (n. 1956)

I – CRISÁLIDA

dissolver o cansaço na aspirina o açúcar a angústia
a lembrança no sono o tropeço os falhanços, ligar
com cimento, construir

chorar de vez em quando às escuras para a febre descer

polir palavras com escova colocá-las com pinça
no interior, derramá-las num jarro sem vinho sobre o papel,
deixar secar, recortar, recompor, calar gritos, escrever

sonhar os poemas que não se escreve, escrever os poemas
      [que não.
podar as plantas nos filhos, mostrar os frutos, o caroço,
o saco de lixo, a hora de ponta, suor. depois lavar. levar
o peito à rua, receber os outros, perdê-los, trocá-los,
devolver este par de mãos àquele mar, afogar em esforço
a carótida torcida do tempo, parar sempre noutra esquina,
fugir à vertigem com o prazer das alturas, perder,

permanecer sentado até à dor nos ossos, cronometrar paciências,
aprender na lentidão a única saída,
rápida

e envelhecer.
   acreditar?

Manuel Cintra, “Bicho de Sede”, p.9, Ulmeiro, Lisboa, 1986.


II – BORBOLETA

1.       e
cá estamos nós mulher então
embarcados em torrentes de água seca
descidos nos sapatos onde a lama
se cola se descola a aprender invernos
no vento intermitente do monte
abaixo cada dia acima
do sorriso está a carne sem vergonha
das estrelas

e
a dose incerta de loucura nervo a nervo
a dose incerta de respiro e asfixia
coloquei-as juntas num cadinho
onde à noite a horas altas e baixas
costumava cozinhar os males de umbigo
que agora se amam se costuram se mordem
até ficar mais nada
no fundo com todos os braços
a ginástica do vento nos meus dedos
a poda nos goles de ar

e
um espinho ou dois tiritam-me
nos restos apalpados da pele de verão
nas partes amolgadas das árvores
de metal que conta o tempo sentado
no crescer da ferrugem sobre os nomes
que troquei por faixas de chão

e
o filho novo é soletrado com os dentes
beijo a beijo se registam naquela carne palavras
no desfrisar tecidos e a ti mulher
crescem mãos parecem nuvens
os dias que vestes são tecido novo
que desfibra o ritmo e o torna
a fibrar

e
às vezes cai-me o vento todo do bolso
derrama-se o cadinho lá se vai a química
desato a respirar

(…)
Manuel Cintra, “Bicho de Sede”, pp.13-14, Ulmeiro, Lisboa, 1986.

III – OVOS?

contido nesta tampa.
emparedado entre as duas
têmporas e as cinco
e meia da tarde
ardida quase
sempre inútil,
tocha chata de cera
que no verão derrete
e no inverno não se molda,
bolas, a esta situação.
há sempre o sopro
de a levantar, manter
intacto o jorro de luz
guardado subterrâneo,
correndo como um rio correndo,
até gastar trocar coçar
capachos

não tenho este formato.
terei talvez tempo de ser
eu a destruir a tampa
e fico, caramba, certo
de manter por dentro
nessa caixa o espaço
da futura destruição.

nem sempre como.
nem sempre como eles,
como sempre eu.

coisas da fome.

Manuel Cintra, “Bicho de Sede”, p.24, Ulmeiro, Lisboa, 1986.

Manuel Cintra, "Bicho de Sede", col. «Imagem do Corpo N.º31, Ed. Ulmeiro, 45 pág., Lisboa,  Fevereiro de 1986. Capa de Cristina Reis. 

08/09/2011

Escritores esquecidos 10

António Gancho, (1940? - 2006)

CONSTELAÇÃO VEGA

E tinhas o brilho duma estrela gravado pelo peito
como se fosse uma tua tatuagem de luz
era um olho amarelo que te brilhava no peito
no sítio onde o esterno é metade.
Isso era a sapiência do teu tórax todo feito luz
era precisamente a sapiência dos teus pulmões
a explorarem fogo por fora do peito
e tinhas o brilho da constelação de Vega
gravado pelo peito todo
feito por que mulher não sei e não sei em que praia
porque é na praia que as tatuagens se iluminam ainda mais
ao brilho do iodo que do Sol desce
e cobre as pestanas do peito que são os cabelos.
Tinhas uma estrela de luz gravada no meio do esterno
reconheço-te a pousada da mesma o sítio onde ela se põe
e o teu peito era gruta.
Se imagino um presépio abre-se-te a cova da garganta
que da garganta te vai
até onde o dito começa
e onde o fluxo da luz da dita inundaria depois
a dimensão do teu presépio
a dimensão do teu presépio virado para o Norte
ao confronto da Estrela Polar
que de noite viria escrever pela sua própria mão
o nome dela por cima dos bicos da tua.
Fusão da fusão, cíproco do recíproco
a tua que de estrela seria depois Polar
nos indicaria depois o caminho dos Celtas
o caminho do Norte e da Inglaterra de Ricardo
e então uma cruzada nasceria na imaginação do teu peito
uma cruzada para pôr em bico de guerra
a glava do princípio do teu esterno.
Se imagino a recuperação do túmulo
nasce-te um milagre
no sítio da tábua do dito
há uma aparição no sítio da mesma tábua.
Lázaro vem nu
se traz a Bíblia na mão é o começo dos Evangelhos.
Vê-se João no sítio do horizonte
onde o Sol põe cobre por cima da cabeça do apóstolo
nasce a Bíblia na mão do Sol
e então o astro ensina à galáxia
o sentido que o homem tem.
Tem um galo nas costas e não vê
Adão que não acorda ao sentido do corpo da cobra.

António Gancho in “Edoi Lelia Doura – antologia das vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa”, Org. Herberto Helder, Assírio e Alvim, pp. 302-303, Lisboa, 1985.

MÚSICA

A música vinha duma mansidão de consciência
era como que uma cadeira sentada sem
um não falar de coisa alguma com a palavra por baixo
nada fazia prever que o vento fosse de azul para cima
e que a pose uma nostalgia de movimento deambulante
era-se como se tudo por cima duma vontade de fazer uma asa
nós não movimentamos o espaço mas a vida erege a cifra
constrói por dentro um vocábulo sem se saber
como o que será
era um sinal que vinha duma atmosfera simplificante
silêncio como um pássaro caído a falar do comprimento.

António Gancho in “Edoi Lelia Doura – antologia das vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa”, Org. Herberto Helder, Assírio e Alvim, p. 307, Lisboa, 1985.

António Gancho, "As Dioptrias de Elisa", Assírio e Alvim
António Gancho, "O Ar da Manhã ", Assírio e Alvim
mais poemas de António Gancho

07/09/2011

Finalmente

A editora 7 nós prepara-se para lançar entre nós uma tradução portuguesa de Ferdydurke de Witold Gombrowicz.

Witold Gombrowicz

Witold e Rita Gombrowicz

Aqui uma excelente entrevista do pintor e escritor Álvaro Lapa a Witold Gombrowicz que entre outras muitas pérolas responde à questão da comparação da sua escrita com a de Carlos Emílio Gadda, e deixa a sua opinião acerca do então fenómeno William Burroughs.

04/09/2011

03/09/2011

«Palinopsia» disponível e em destaque...

O livro Palinopsia de Pedro S. Martins já se encontra disponível para aquisição em algumas livrarias (consulte 'Locais de Venda' na área lateral deste blog). Segue-se com imagens do destaque dado pela Livraria Capítulos Soltos em Braga. O nosso Obrigado.
Palinopsia disponível na Livraria Capítulos Soltos


Palinopsia na Livraria Capítulos Soltos com o livreiro Bruno Malheiro

Por que não existe um meio buraco...



SPLEEN DE BRENDA GISELE

No polibã do T0, Brenda,
Brenda Gisele, no conforto da toalha,
Apara as unhas dos pés.
Todo ele é Um, de lés-a-lés,
Dobrada aleta sobre si,
Manicure, com pé de atleta.

Lá fora, não sabe que horas são!

Naquele prazer escarlate depõe
Corta-unhas, cotonete, e hidratante,
E tal não sendo bastante
Não abre a porta a quem lá fora bate
«senhor, senhor, por favor».

Também ele se reserva, como Xangai,
E por vezes incontinente,
Esses momentos quando grita, eloquente,
«já vai»; e o mundo espera-o, «já vão!».

Também ele tem as suas horas louras

Por amar como um sol regressa ao céu
Ou houve «favas com entrecosto»,

Porque toda a poesia é verdadeira se, e somente se,
Todo o bestiário for doméstico,
Como aquele luto sob a unhaca que ora retira,
Como os pêlos do ralo do bidé.

Nunes da Rocha, “Cova Funda”, pp, 11-12, &etc, 2011.


26/08/2011

Novidades das Edições 50kg


Para Setembro, em data e local a anunciar, as Edições 50kg irão apresentar o livro de poesia «Palinopsia» de Pedro S. Martins uma tiragem de 150 exemplares numerados e assinados pelo autor. A capa é uma reprodução de uma aguarela de Ana Ulisses. Composto em tipografia de caracteres móveis.

150 exemplares numerados e assinados pelo autor

Palinopsia de Pedro S. Martins, Poesia, 24 págs.

ficha técnica - numerado e assinado pelo autor

página 14
matriz tipográfica pag. 6 de "Palinopsia"
Mais informações sobre o autor aqui

21/08/2011

Cartucho


116 - Alexandre (António Franco); Pereira (Hélder Moura; Jorge (João Miguel Fernandes) & Magalhães (Joaquim Manuel). - Cartucho. - Lisboa: ed. autores, 1976. - 21 ff.; 215 mm.
Originalíssima edição limitada contendo poemas “amarrotados” de António Franco Alexandre, Hélder Moura Pereira, João Miguel Fernandes Jorge e Joaquim Manuel Magalhães. Peça de composição artesanal, provavelmente pelos próprios autores, cujos materiais - cartuchos, cordel e chumbos - foram oferecidos pelo Pai de João Miguel Fernandes Jorge. A concepção deve-se a Joaquim Manuel Magalhães. Cada um dos quatro poetas participou nesta publicação com cinco poemas, no total de 20 folhas impressas de um só lado, às quais se acrescentou ainda uma folha de rosto contendo os nomes dos autores, lugar e data de publicação. O papel comummente atribuído ao «Cartucho» é comparável ao de Poesia 61, facilitando a apreensão dos novos caminhos que se desenhavam para a poesia portuguesa na década de 70. O principal impacto do lance vanguardístico de «Cartucho» foi a estranheza que causou aos leitores devido ao amassamento dos poemas. O leitor é desafiado a posicionar-se diante de poemas amarrotados na sequência de uma tradição inscrita na modernidade por Baudelaire. Obra plurisignificativa, o «Cartucho» pode sinalizar correspondência colectiva, depósito de balas de revólver, explosivo, dessacralização, perda de aura do literário, ludismo ou festa (cartucho de fogo de artifício), etc. Famosa ficou a expressão de Fiama tratando a obra como “aquilo”. Objecto não-livro, as folhas amassadas veiculam as ideias de multiplicidade, fluidez, fragmentação, descentramento, escrita em companhia, escrita do prazer. Raríssimo.

 Retirado daqui (blog da Tertúlia Bibliófila)

20/08/2011

Para o censor desse “velho” tempo. E do novo… de novo!


ESTA FORÇA

"Um texto. Letra de forma com os outros na Imprensa. Todos para serem lidos. Este é para estar no Suplemento Literário do jornal «República». E assinado. Por mim. E eu sei que ele tem que ser lido. Até ao fim. E se não for lido até ao fim por todos, por alguns, é lido ao menos por um. Até ao fim. Aconselho pois aos todos e alguns que parem aqui. Porque eu estou só a obrigar que me leiam até ao fim sem que eu diga nada. Porque eu não estou a dizer nada. Estou a dizer o que estou a dizer. Mas pode ser que lá para o fim eu diga qualquer coisa que não deva dizer. Por isso isto vai ser lido até ao fim. E quem ler isto até ao fim, vai ver comigo o que é obrigado a ler quem é obrigado a ler isto até ao fim. Não é que eu tenha qualquer coisa de pessoal contra uma pessoa que, por qualquer razão, tenha que ler isto até ao fim. Eu até nem conheço nenhuma assim. Mas já que tenho de pensar numa só pessoa que não conheço quando estou a escrever coisas, acho que hoje vou pensar só nessa pessoa. Aliás sem prejudicar ninguém, porque eu já avisei que isto era para uma só pessoa que, essa, tem que me ler, e sempre vou ganhando o meu escrevendo isto até ao fim. E o fim da leitura disto é quando eu quiser, nem antes, nem depois. Porque eu aqui não digo absolutamente nada. Toda a gente que tenha lido até aqui, e uns é porque querem, e outro é porque tem de ser, vêem que eu não disse nada de nada. E se isto fosse um livro e eu quisesse e um editor tivesse um feitio desses e mo comprasse, trezentas páginas nisto, ainda assim teria de ser lido até ao fim. Esta é a força da escrita aqui – ser escrita e ser escrita e ter que ser lida aqui. Força reconhecida pela lei é só essa. E bom dia. Eu só queria que tivesse por lei que ler bom dia. E tem.
In República, 12.10.1972" 

Maria Velho da Costa, “Desescrita”, pp.65-66, Afrontamento, Porto, 1973.

09/08/2011

Oficiosamente d’ Agosto


OSSOS DO OFÍCIO
“Às vezes, se me encosto a esta terra, sinto um embate impetuoso que me arrebata como uma enxurrada e quer submergir-me. Uma voz, um odor, bastam para prender-me e atirar-me quem sabe para onde. Sou feito pedra, humilde, estrume, suco de fruta, vento. Do limite humano não me resta mais do que o instinto de me coagular em palavras, mas estas já não são nada e debato-me como uma árvore ou uma fera que tivesse sido homem e agora é incapaz de se exprimir. Cedo relutante porque sei que a minha natureza é outra e de cada vez encontro no fundo deste ímpeto uma vã saciedade. Todo o esforço para entumecer os sentidos mantendo a consciência conduz a esta derrota. Em suma, é um pecado, como a libertinagem, como o sadismo e a embriaguez.
                O limite humano – o meu – traz em si esta norma: o que quer e não se pode exprimir é pecado. Pior: é futilidade. É-lhe consentido só este perdão: a recordação. Através da recordação o que era desumano e bestial pode talvez resgatar-se e produzir um som de clara razão. Mas logo se tornando recordação deixa de ser tumidez dos sentidos.
                Falo aqui de tentações actuais. Paro diante de um campo desmemoriado, de um céu claro, de um curso de água, de um bosque, buscar a palavra que o traduza todo, até aos fios de erva, até ao odor, até ao vazio. Eu não existo; existe o campo, existe o céu. Existem os meus sentidos, escancarados como bocas a devorar o objecto. Duas naturalidades se defrontam: uma tensa, espasmódica; outra inexorável e bruta. Repito que fico todo tendido para o exterior. Não me sigo a mim próprio, não palpo uma ideia fugidia; em contrapartida, por dentro, o espírito está-me como que estrangulado. Na sua brutalidade este estado é, embora fútil, um esforço de endeusamento através da besta. Como beber ou matar. Se parece ser mais venial e quase meritório porque tende, em suma, para um fruto espiritual, é, todavia, mais venenoso porque é inexplicável da genuína vida interior e por isso sempre pronto a estragar o trabalho legítimo. É uma crise, um motim das faculdades boas que, enganadas por um choque de sentidos, julgam ganhar abandonando-se às coisas. E estas agarram, arrastam, tragam como um mar agitado, ilusórias, inagarráveis por seu turno, como espuma. Há nelas qualquer coisa de obsceno: exactamente o mesmo abandonar-se ao sexo e querer-lhe narrar as sensações secretas.
                Na recordação o tumulto se aplaca. Isto diz-se, bem entendido, da recordação-renúncia, da recordação que soube tornar-se senhora das coisas através da separação, a assunção do natural ao absoluto. De aqui em que o mais seguro viveiro de símbolos é o da infância: sensações remotas que se despojaram, macerando-se longamente, de toda a matéria e assumiram na memória a transparência do espírito. De aqui vem que aos talentos contemplativos nunca se recomendará suficientemente que tapem os sentidos diante da realidade e se contentem da que, filtrada pelos anos, aflora do fundo da fechada consciência. A ilusória riqueza do real não pode ser justamente avaliada senão por aqueles que sabem que só é nosso o que sempre possuímos; e isto explica porque são tão inenarravelmente aborrecidos os livros de viagens ou, como se diz, documentais. Um só documento nos interessa sempre e resulta novo: o que sabíamos desde crianças.
Por que, deveras, na infância éramos outra coisa. Pequenos brutos inscientes, o real nos acolhia como acolhe sementes e pedras. Nenhum perigo que então admirássemos e quiséssemos mergulhar no seu sorvedouro. Mas a história secreta da infância é feita precisamente de sobressaltos e dos arrancos que nos extirparam do real, pelos quais – hoje uma forma, amanhã uma cor –, através da linguagem nos contrapusemos às coisas e aprendemos a avaliá-las e contemplá-las. No fundo o que é preciso para nós é, portanto, esta concórdia discordante de encontros, de descobertas, de desenvolvimento. A tentação de reatingir como num abraço antinatural o universo pré-infantil das coisas, é o pecado. Se é possível, cabe-nos exercitar no oposto, repelir aquela naturalidade que à volta lhe restar, repeli-la para poder possuir. Mas bem pouco a vida adulta pode acrescentar ao tesouro infantil de descobertas. Pode-se, porém, trazer para a luz aquelas formas primitivas e contemplar-lhes o viço, como raízes que o terriço dos dias continuou a nutrir. Depois, de coisa coisa nasce e os dias futuros germinarão nestas cepas.”

Cesare Pavese, “ Férias de Agosto”, pp. 162-164, trad. Ana Hatherly, Quasi, Famalicão, 2008.


05/08/2011

Da América com amor...

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Nota: grafia antiga

“Vejamos porém o que nos diz Herbert Spencer[1] no seu Dialogo e no Discurso sobre os Americanos. Começa por louvar o enorme desenvolvimento da sua civilisação material: a grandeza e magnificiencia das suas cidades, o esplendor de Nova York; a actividade das gentes, o seu poder de trabalho, de invenção e de decisão; as suas riquezas mineira, a enormidade dos seus campos virgens e fertilíssimos. Nota depois que eles poderam lançar mão, e de facto lançaram, dos progressos realisados nas nações da Europa, corrigindo-lhe os defeitos e aproveitando a longa experiencia desses velhos paizes. Reconhece por fim que podem legitimamente aspirar a produzir, passado tempo, uma civilisação mais grandiosa do que todas as conhecidas até hoje. – Mas cita-lhes tambem a sua vida violenta, feita a alta pressão, a qual acarreta consigo os grandes desastres financeiros e produz o Surmenage, a incapacidade permanente e as correspondentes heranças para as gerações que se sucedem. Diz-lhes que o seu unico interesse está nos negocios, que esses são o fim superior de sua vida, e que eles se contrapõem naturalmente o enfado e a existência sem encantos. E condena o desprezo ilegítimo a que votam os seus competidores na luta desses negocios. Relativamente á politica, afirma e prova a intensa corrupção que lavra naquele paiz, a real negação da liberdade, a falta do respeito mutuo que faz a essência da vida ingleza, a luta tremenda, sem nobreza, dos interesses materiais. Numa sintese lapidar, o filosofo acaba por lhes aconselhar que substituam o poder intelectual pela beleza moral, e o desejo de serem admirados pelo de serem amados.”

Op. Cit in Antonio Arroyo, “A Viagem de Antero de Quental á America do Norte”, pp.67-69, Fac-smile da Estante Editora, 1992.



Herbert Spencer  (1820-1903)

02/08/2011

Se numa altercação alguém sobe o nível quando aquece...

   "Rara era a noite em que Antero e Germano não tinham uma discussão violentíssima que terminava duma forma sempre engraçada. Dormiam ambos no mesmo quarto e davam-se como irmãos (1). Chegados ao quarto, começavam conversando tranquilamente; mas a pouco e pouco iam perdendo a serenidade, já altercavam com calor. Do tu cá, tu lá, passavam ao você, até terminarem, no auge da contenda, em V. Exa. diz, faz ou acontece.

Nesse ponto intervinha João de Deus:
- Oh! menino, Oh! menino!...

Antero metia-se então na cama, apagava a luz e dizia sacudidamente:

- Boa noite.

E Germano, sentando-se á mesa, punha-se a encher linguados para o jornal.

Os seus temperamentos eram muito dessemelhantes. Antero ingenuo, leal e arrebatado; Germano por vezes aspero, mas sempre penetrante, e aproveitando cruamente as fraquezas ou ingenuidades do adversario. Entre o cajado de Antero e o florete de Germano, aparecia porém a Senhora da Graça, o João de Deus, a serenar os combatentes."

Antonio Arroyo in "A Viagem de Antero de Quental á America do Norte", pp.19-20, Fac-smile da Estante Editora, 1992.

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_________________
(1) As filhas de Germano Vieira de Meireles, como se sabe, foram herdeiras dos bens de Antero de Quental.