26/10/2010

Uma ποιέω (Poiesis) do poema.



Poema

O primeiro verso é para começar,
O segundo é o penúltimo do fundo.
O terceiro dá terreno para avançar.
O quarto vai rimar com o segundo.

O quinto prega-nos uma partida.
O sexto abate os custos mais de um terço.
O sétimo é conversa distraída.
O oitavo seriíssimo. Ou o inverso.

O nono conta o mesmo por inteiro.
O décimo é, se calha, desilusão.
O undécimo é só o décimo primeiro.
O duodécimo é de nada a conclusão.

Gerrit Komrij in Contrabando: uma antologia poética, Assírio & Alvim, trad. do neerlandês de Fernando Venâncio, col. «documenta poética /101», Lx., pág.9, 2005.

11/10/2010

"à cata da melhor poesia alternativa". Hugo Xavier

Já está disponível o segundo número da revista Piolho com o subtítulo de "entre a pedra suja e o diamante de sangue" uma publicação das Edições Mortas que neste número partilha a edição com a Black Sun Editores. (Será que esta editora lisboeta está de regresso? Isso seria uma excelente notícia.)

LANÇAMENTO NO SÁBADO DIA 23 DE OUTUBRO CAFÉ PIOLHO ÁS 16H00.

Segundo número Setembro de 2010: Coordenado por Sílvia C. Silva, Meireles de Pinho (Capa e arranjo gráfico), Ricardo Álvaro, Fernando Guerreiro e A. Dasilva O.
Participações de: Mesuline de Matos, Sílvia C. Silva, Renato Filipe Cardoso, manuel a. domingos, Fernando Esteves Pinto, Zarelleci, Rui Costa, Ivar Corceiro, B. Duarte, Ricardo Álvaro, BiXinho, Raul Simões Pinto, Gilberto de Lascariz, Rui Azevedo Ribeiro, Meireles de Pinho (ilustrações), Luís Serra, Miguel Sá Marques, António S. Oliveira, Sérgio Almeida, Humberto Rocha, A. Dasilva O. e Théodore Fraenckel.

NO LANÇAMENTO DO SEGUNDO NÚMERO DA PIOLHO ESTARÁ À VENDA EXEMPLARES DO PRIMEIRO



Primeiro número Maio de 2010:
Coordenado por Sílvia C. Silva, Meireles de Pinho, Ricardo Álvaro e A. Dasilva O.
Participações de: António Barahona, Fernando Guerreiro, M. Parissy, Sílvia C. Silva, Suzana Guimarães, Teresa Câmara Pereira, Humberto Rocha, Pedro Águas, Nuno Brito, Ricardo Gil Soeiro, Raul Simões Pinto, A. Pedro Ribeiro, Miguel Martins, Zarelleci, B. Duarte, João Pereira de Matos, Ricardo Vil, Rui Costa, António S. Oliveira, Ricardo Álvaro, Meireles de Pinho, A. Dasilva O. e Jaroslav Seifert. + info Aqui ou Aqui

PIOLHO é uma revista de poesia
Uma sebenta que circula de mão em mão
Nesse charco que É o POEMA
COM NOVE BURACOS
QUE SANGRAM escárnio e maldizer
nesta época em que os poetas
se crepusculizam
António S. Oliveira

05/10/2010

Escritores Esquecidos 8

Virgílio Martinho (Lx, 1928 - Lx, 1994)

"Em 1941 houve um ciclone e eu conheci o senhorio da nossa casa. Tinha uma das pernas paralisada. Tinha uma voz que lembrava as notas mais esganiçadas da gaita de beiços. Tinha os olhos estranhamente deslocados para o lado das orelhas. Era um homem triste e viúvo. Tudo porque fora soldado da guerra de 1914-1918 e os estilhaços de um obus fizeram carambola no seu corpo, estropiando-o. Houve o ciclone e o vento arrancou algumas telhas do nosso telhado, razão porque o pai ferroviário me mandou a casa dele para lhe comunicar o sucedido e tomar providências. Fui e conheci-o. A seu mandado sentei-me na extremidade da cadeira de verga, ele sentou-se diante de mim ficando com a perna paralisada perpendicular ao corpo, dizendo eu o que tinha a dizer, perguntando ele: quantas? respondendo eu o que o pai me havia ensinado: seis e duas do beirado, foi o ciclone. Ouviu e abanou a cabeça várias vezes de cima para baixo, fixando o olho esquerdo no aparador, o direito na minha pessoa, porque a bem dizer era mais do que vesgo, tinha os olhos repuxados para os lados, como os do sapo, ocorreu-me na altura. Depois falou-me, não de telhas, de si próprio, dizendo-me com aquela sua voz: sabes, a mulher é um arrimo, um consolo; o que me deixou transido porque nunca ouvira dizer semelhante coisa. E via-o ali sentado diante de mim, com a perna doente na horizontal, pingando dos dois olhos, lamuriando que era um pobre senhorio, que perdera tudo no mundo: a perna, o sítio exacto dos olhos, a voz viril, a esposa e agora, em 1941, seis telhas e duas do beirado. Então comecei a pensar que ele não queria arranjar o nosso telhado e falei-lhe da chuva, do vento, do frio que por ali entravam, ao que me respondeu que a solidão é como um prego metido na cabeça, coisa que também nunca ouvira dizer. Foi nessa altura que olhei para tudo e vi que o retrato da esposa estava em todos os lados da saleta, repetindo-se igualzinho dentro de todas as espécies de molduras; que havia uma população de esposas naquela casa. Em cima dos móveis, penduradas nas paredes, postas aos cantos em pequenas mísulas, e todas com o mesmo rosto a três quartos, o mesmo penteado, o mesmo olhar para cima. E não só na saleta, também no quarto, na cozinha, no corredor. Também nele próprio, no anel, no alfinete de gravata, suponho que na carteira, nas gavetas, no sótão, na despensa, sei lá onde mais, enquanto ele não deixava de abanar a cabeça, de chorar, não por estar exactamente a fazê-lo, porque desde que fora ferido pelos estilhaços do obus ficara com aquela voz de gaita e os olhos não lhe retinham as lágrimas, eram uma fonte, uma desgraça na sua vida. Depois levantou-se e apoiando-se nas muletas levou-me ao quintal. Aqui, mostrou-me uma campa como as dos cemitérios, com mármore, retrato e cruz em cima, aprendendo eu no Barreiro que entre coisas vivas podiam haver coisas mortas, e um senhorio que embora não tivesse pago o arranjo do telhado ao pai ferroviário tinha no seu quintal uma sepultura inventada e dentro de casa uma esposa multiplicada em centenas."

Virgílio Martinho in "O Relógio de Cuco", pp-77-79, Editorial Estampa, Lx, 1973.


Bibliografia principal:
  • Festa Pública (1958)
  • Orlando em Tríptico e Aventuras (contos) (1961)
  • O Grande Cidadão (romance) (1963)
  • A Caça
  • O Concerto das Buzinas (romance) (1976)
  • Filopópolus (teatro) (1973)
  • Relógio de Cuco (1973)
  • A Sagrada Família (farsa) (1980)
  • O Herói Chegado da Guerra e outros Textos em Teatro (teatro) (1981)
  • O Menino Novo (contos) (1989)
  • 1383 (1976)
  • Rainhas Cláudias ao Domingo (1982)
  • O Grande Cidadão (1975)
  • A Menina, O Gato e o Robot
  • Fernão, sim ou não?
  • O Gelo na Mesa
clicar na imagem para ampliar
(A Regra do Jogo Edições,  col. «Os Olhos Férteis, Porto, 1974=


Homenagem a Virgílio Martinho:

Carlos Alberto Machado, 5 Cervejas para o Virgílio, &etc, Lisboa, 2009.

26/09/2010

Escritores Esquecidos 7


Eduardo Guerra Carneiro (Chaves, 1942 - Lisboa, 2004)



O PÓ NOS PASSEIOS

O pó nos passeios com vagar
se ergue. A luz é mais nítida.
Os corpos se mostram. Em algumas
praias residem dialectos. Turismo
nos marca com ferro diferente
em costumes e fala. Nas ruas se vende
o jornal da estranja. O burro
ainda merca. Alfarroba em bolsa.
O pó nos passeios com vagar
se ergue. A luz ainda é nítida.
Só de certo modo. Só em certas terras.
Turismo na farda. No bolso o desdém.


Eduardo Guerra Carneiro in "Algumas Palavras", p.16, Porto, 1969.


ISTO ANDA TUDO LIGADO
(...)

O feijão cresce no nariz (o quarto das
traseiras, a boneca de louça despedaçada,
a bola amarela, o guarda-chuva da mãe,
os vidros da Escola pintados de branco,
aqui e além um espaço visível, pessoas no
passeio em frente, um enorme domingo
de pasmo sem tempo).

De novo olha o mapa-cor-de-rosa onde es-
creveu anotações a lápis, pensamentos de
ocasião, pequenos insultos. Onde traçou
muitos itinerários - na sua maior parte
banais, fáceis de realizar. De novo abre
o mapa da cidade, suja, cinzenta, ama-
relecida, sem um parque, nem mesmo um
lago, apenas São Lázaro da infância.
E outra cidade (ou a mesma?) com um
ou outro quarto escondido pelas altas ca-
sas, uma rua de domingo, antigos meses
de Outubro numa Coimbra para sempre
ligada a mistérios (mais tarde a har-
monia - sofrosiné em grego).

Seguro, por exemplo, o teu ombro es-
querdo. Podes sorrir e dizer qualquer
coisa: O último eléctrico. Alguns bolos
e um gelado. Desde as onze. Mas, entre
as palavras, há súbitos silêncios, um es-
tranho olhar, um fósforo que se apaga, a
lembrança de uma infância dourada de
palmas e sorrisos - à maneira de Perse.

Onde estás agora? Disseram-me que a
tristeza se instalou nas cadeiras da tua
casa, nos teus móveis de estilo, entre os
lençóis da tua imensa cama. A tua voz
ainda soa por entre os meus livros, em
alguns discos, no fundo de algumas gar-
rafas. Onde estás agora? Disseram-me
que o vento já não afasta os teus cabelos.
Em alguns descampados ficou a recor-
dação da tua magnífica água-de-colónia,
do shampoo que em certas tardes de
Março íamos comprar ao supermercado
perto do Hotel. Lembro o teu corpo como
quem recorda um navio ou um poema de
Camilo Pessanha.

O feijão é já feijoeiro (as traseiras dos
prédios, as escadas de serviço, o que os
meus olhos viram, tesouras, cimento, es-
cadas, tanques de lavar a roupa, antes
a querra - Coreia? China? -, botas, o
jardim da Estrela em 1949, Naná, a So-
nata a Kreutzer, cartas em caixotes, a
grande solidão, Chiado, Camões, o pre-
sépio de madeira).

Continua...

Eduardo Guerra Carneiro in "Isto Anda Tudo Ligado", pp.26-30, Cadernos Peninsulares, 1970.



PREFÁCIO A UMA HOMENAGEM A CESÁRIO VERDE

As clarabóias deste lado da cidade acendem-se mais cedo.
sinal que alguém projecta o fogo sobre o bairro
incendiando casas, talvez certas pessoas, as ruas
mais estreitas junto ao Tejo. Em manhãs como esta o sol
entra na mesa e pára junto às teclas. Parece um sorriso;
diria mesmo uma ternura. Poucos são os Palácios, mas imenso
é o espaço. E as águas, no rio e junto às teclas, acendem-se
com o fogo de outras clarabóias.

Depois são as luzes, as indústrias, o último petroleiro.
Descansam moradores em casas altas
enquanto se ergue a cidade nocturna de bares e liamba
e cresce um ou outro clandestino. É tempo de sair
por entre a névoa; rondar as esquinas; sorrir à puta;
apertar o copo; sentir o suor da cidade, corpo a tremer
de frio e febre neste tempo de amoníaco e éter
com ambulâncias lentas a caminho da morgue.

Antes ainda das luzes, quando, à maneira de Cesário,
o fumo se eleva no espaço, o recorte das fachadas
é mais nítido, o vermelho de Lisboa é mais intenso,
podemos imaginar escadas cansadas da madeira,
fogões acesos nas cozinhas,
crianças já com sono,
etc, etc...

Eduardo Guerra Carneiro in "Como Quem Não Quer A Coisa", pp.29-30, &etc, Lisboa, 1978.


DAMA DE COPAS

Entre ases e manilhas
Duque e terno da sueca
As damas são maravilhas
Quem as tem que as não perca

Diz-lhe lá então ó mesa
Qual o nome de eleição
Eu quero ter a certeza
Da carta em meu coração

Naipe já tu o disseste
E cortar com espadas não
Nem com oiros me fizeste
Nem paus te chegam à mão

São copas, venham mais taças
Vamos pois brindar à dama
Só não quero que o faças
No meio da minha cama

Muito agradecido fico
Pano verde onde joguei
Em dinheiro não sou rico
Mas levo a dama do rei

Tem cuidado com a sorte
Ó jogador afamado
Pode a dama ser a morte
E depois ficas parado

Não te saia pé de cabra
Ó meu cavaleiro andante
Procura a chave que abra
O seu coração de amante

A dama de copas canto
Bem alto os copos erguendo
Cuidado não seja tanto
Que a percas anoitecendo

Dama de copas é amor
Vence a morte em qualquer mesa
Não tenhas medo ou temor
O vinho deu-me a certeza

Eduardo Guerra Carneiro


ÁLCOOL

Os álcoois espalham-se em véu
pelas tuas veias. Julgas de alegria
essa névoa baça: divagas na forma
mas nem memória fica. Assim foi
no caminho de outros tempos, outras
horas. Agora vês a névoa, já sem
álcool, e fixas no espaço a demora
para encontrar na vida outros álcoois.
Mais certos para ti, mais remadores
contra a maré que invade
a história tua. Julgas de alegria
essa vida, feiro juiz de fora,
vulgar tonto. Mas esse álcool
te entontece. Desvenda então a vida - revivida.

No teatro mexes, entre as mesas,
repovoado o palco, com as musa.
Moves cordelinhos, entretelas,
e recusas mexilhão quando
não usas, nem abusas,
da bebida. Farturas de teatro
já te dão as divas - divinas
meninas desse palco. Recusas
o drama, entre actos
que povoam tua vida. Comovida,
a outra repovoava esses espaços
onde os álcoois fortes bem sabiam
à miséria doce que gastavas
- medronho eras.


Continua...

Eduardo Guerra Carneiro in "Contra a Corrente", pp.9-10, &etc, Lisboa, 1988.

OS CAFÉS

Nos café desenham os paisanos, vulgares
senhores de bagaço e genebra, raspando o mármore
entre as folhas do jornal. Morrem os cafés
com seu bilhar, bengaleiro e escarrador. Música
de rédio ainda sintoniza a serradura e os vidros
baços quando chove. Recordo cafés
da província, ou da cidade grande,
destruídos por ímpias criaturas do plástico.
Já não servem cevada ou eduardinho e o açúcar
não vem no açucareiro. Alguns ainda assinam
os jornais, o cobre limpam e pagam
aos paquetes. Autorizam cauteleiros, a caixa
do engraxador, a rapariga das violetas. Violentam
os cafés aqueles da usura, ratos do cimento.

Avesso à militança, são os cafés retrato militante
de algumas senhoras de batina e capa, entornando
no pires o leite do caniche. Alvoraçados os velhos
titilam nas retretes e os tabacos esgotam-se em
___ suspiro.
São cafés com espelhos e amarelas luzes onde o néon
ainda não entrou. Também de padres são feitas
essas lojas; de marçanos, rapazelhos e trapistas.
Desenvolvo teorias sobre os ditos. Em tempo de
___ ditadura
era o café a teia da intriga, o bocejar jacobino,
o guarda-chuva pingando tristes ais. Insisto pois
no rádio e radiador. Quem lembra os pianos?
Carambolas secas já cortavam o fumo dos charutos;
no marcador quinze de partido; na mesa ao fundo,
igual à história antiga, dois jogadores de xadrez
___ ou de gamão.


Eduardo Guerra Carneiro in "Contra a Corrente", pp.23-24, &etc, Lisboa, 1988.



II

Em lamas mergulhas e voltas
ao lodo. Dos lameiros da infância guardas
alguns cheiros e já lamentas não teres
no lodaçal entrado. Sabes ladear
o tanque do mosto e viras cangaço
na esperança de saberes. Não sabes
que crescem raízes na lama? Logo
ligarás o negro fundo: deixa
que o lodo marque essa brancura.
O fogo crepita nas margens da lama
e o que tu lixo julgavas era ouro.
Alambiques demonstram alquimias
fáceis. Vais aprender no escuro
sótão: a ravina esboroa-se nos teus olhos.

É oum bairro de barro. Outros preferem
a palavra adobe. Tijolo, por vezes,
entre zinco ou palha. Liga-se a lama
com restos de excrementos e pintam-se
os homens com vermelhão no rosto.
Não sei se é de guerra ou paz esse sinal
nos labirintos miúdos entre as rugas.
Chuva pesada envolve-te as sandálias
e já pensas regressar a cimento e asfalto.
Uma flor irrompe, outra e outra,
nos cactos sagrados, em vermelho vivo.
Desfazes o encanto da paisagem inventada
antes que os padres cheguem e destruam
o voo do condor - o teu voar.

Pesada é a máscara de argila seca.
Aguentas sofrimento para amanhã
voltares a estas festa. Outros
o fizeram, mais ágeis do que tu
e o estalar do barro abriu-lhes
novos rostos. Feiticeiro: quem é agora o príncipe? A resposta fica
à espera que pássaros se ergam
do topo da pirâmide. Abutres
agucam ensanguentados bicos e os corações
latejam nas mãos do sacerdote.
É a altura de ergueres o copo
e beberes as gotas que te restam.
Arranca a máscara - também és Deus.

Eduardo Guerra Carneiro in "Lixo", pp.15-17, &etc, Lisboa, 1993.

A NOIVA DAS ASTÚRIAS

Misturam-se agora as linhas do bordado
e confessa que o enredo foi difícil.
É fácil dizer assim que o fim é isto.
A dor não passa com tantos álcoois fortes e o desejo
arde e marca-lhe as artérias. Misturam-se
as tardes e as ondas ainda batem nesse muro.
Não é fácil, não, esqueçer não basta. Amor
ele julgava que buscava nas ermidas,
e os outeiros ardiam, desesperados. Misturam-se
as noites e ele resolve-se, sem resolver
a história inacabada. Buscou as pedras
e com barro uniu o frágil coração,
mas tão ardente. O coração ardia e o fogo
continuava. Maldição de outros álcoois,
noutras terras, evocava o príncipe, imperfeito.

Sim: era o princípio de um fim anunciado.
Ela dizia-o de início e ele não sabia
do presente envenenado - tantas noites! Misturam-se
as manhãs nesses poentes e ainda o Cantábrico
batia naquele muro. Sonhava com princesas
e rezava, dessa maneira estranha que sabia.

Não é fácil, não, esquecer não basta. Amor
ainda procura noutros corpos. Mas é ela
que vê, entre suspiros, e o ar que ainda respira
é dessa boca. No mar, além, imaginava
as barcas da aurora. Ora!, ora!, tenta ironizar,
nas barras onde bebe o desamor. Resolve-se
nas insónias, desce aos infernos nas barcas
da cidade. Misturam-se as linhas
do bordado e já se desengana de um regresso.
Traça estas linhas e nem sabe quem escreve,
se ele ou o desgosto que o marcou.
Mas volta ao labirinto que escolheu e sabe
já: é isto uma história projectada, um filme
antigo que ele próprio realizou. Desliga
o fio e a luz se apaga. Calma! Não findou.

Rebobina então do fim para o princípio.
Projecta o filme, que outro já ele é.
Mistura príncipe e princesa e às Astúrias regressa,
do passado. Mas sabe bem que o sonhador
sonhado pode estar além no muro.
É isso: recomeçar do nada, o tal bordado.


Eduardo Guerra Carneiro in "A Noiva das Astúrias", pp.7-9, &etc, Lisboa, 2001.


Bibliografia:


* O Perfil da Estátua (poesia, 1962)
* Corpo Terra (poesia, 1966)
* Algumas Palavras (poesia, 1969)
* Isto Anda Tudo Ligado (poesia, 1970)
* É Assim Que Se Faz a História (poesia, 1973)
* Como Quem Não Quer a Coisa (poesia, 1978)
* Dama de Copas (poesia, 1981)
* Contra a Corrente (poesia, 1988)
* Profissão de Fé (poesia, 1990)
* Lixo (poesia, 1993)
* O Revólver do Repórter (crónicas, 1994)
* Outras Fitas (crónicas, 1999)
* A Noiva das Astúrias (poesia, 2001)


Fotografia dos coordenadores da revista Setentrião (nºs 2 e 3), datada de Julho de 1962, vemos da esquerda para a direita, António Cabral, Carlos Loures, Eduardo Guerra Carneiro e Ascenso Gomes






ANTOLOGIA DA POESIA CONTEMPORANEA DE TRÁS OS MONTES E ALTO DOURO

(composto e impresso na Minerva Trasmontana, Vila Real). In-4.º peq. De 95-VII págs. B.

Poesias de Afonso Costa, Alberto Miranda, Alfredo Margarido, António Borges Coelho, António josé Maldonado, António Cabral, Bento da Cruz, Domingos Monteiro, Edgar Carneiro, Eduardo Guerra-Carneiro, Fausto José, Francisco Cordeiro, Granjo de Matos, J. Gonçalinho de Oliveira, José Barcos, José Magem, Manuel Pinto, Maria Augusta Ribeiro, Miguel Montes, Miguel Torga, Nelson Vilela e Nuno Teixeira Neves. Muito invulgar.

Capa de João Dixo e ilustrações em separado de Nadir Afonso, João Dixo e Nuno Barreto.



POEMAS LIVRES (1962-1968)

Coimbra Editora, lda. E Tipografia do Carvalhido, Porto. 3 números In-4º B.

Colaboração de César Oliveira, Ferreira Guedes, Francisco Delgado, Maragarida Losa, Rui Namorado, António Manuel Lopes Dias, Armando da Silva Carvalho, Fernando Assis Pacheco, Fernando Miguel Bernardes, Luís Guerreiro, Luís Serrano e Manuel Alberto Valente. Daniel Pires no seu "Dicionário da Imprensa Periódica Literária Portuguesa do Século XX», 2º vol., tomo 1º, fornece uma extensa notícia sobre esta publicação, baseada em depoimentos de Margarida Losa, Ferreira Guedes e César Oliveira.


18/08/2010

Escritores Esquecidos 6


António Manuel Almeida Mattos, Fafe em 1944

Raiz ou flor assim eram palavras
de tuas mão abrindo como trigo
A madura semente mas estéril
por força dessa voz que vem de longe

E cada vez mais fundas se raízes
E cada vez mais belas se eram flores

Na sombra desses dias que te espero
o mar talhou as grutas onde o eco
das palavras que grito se perdeu

Porque as palavras não geraram gestos
Porque as semente não geraram frutos


Almeida Mattos in "Golpe de Sol na Lucidez Amarga", Brasília Editora, 1985, p.32.



Só te darei um ritmo de ternura
por esta ausência súbita inconstante
roendo-se por dentro insatisfeita
de sempre pré ausente mareante
de verde e algas cheiros bons da terra

Pássaro preso em asas de loucura


Almeida Mattos in "O Quinto Elemento", Editorial Caminho, 1987, p.37.


Bibliografia Principal:
  • Golpe de Sol na Lucidez Amarga, Edições Brasília, col. poesia de Autores Portugueses /20, Porto, 1985.
  • O Quinto Elemento, Editorial Caminho com pref. de Óscar Lopes e desemhos de Jaime Azinheira, col. Caminho da Poesia, Lisboa, 1987. (Prémio José Régio AEFCUP 1986)
  • Palavras: Poetas Portugueses Contemporâneos, Átrio, col. (Harpa /11), Lisboa, 1988.
  • Conjunto Presente, Edições Afrontamento, col. Poesia, Porto, 1991.
  • Canção de Guerra e Outros Poemas Seleccionados: 1960-1985, Edição de Autor, Graf. Gouveia, 1991.
  • Cantos do Meu Cantar, Edição de Autor, Graf. Gouveia, 1992.
  • Antologia de Poetas do Concelho de Gouveia (org.), 3 Volumes, Novel Gráfica, Viseu, 1997-2000.

13/08/2010

Escritor de um livro só



Luís de Sousa Costa (1932-1986) no filme Veredas de João César Monteiro

"32

A rapariga destinada tinha o rabo fino. Usava peitilhos duros para disfarçar um ou outro seio maior. Falava línguas para excitar a idade dos homens. Humedecia. A água crescia muito na boca. Mostrava nas poucas esquinas toleradas. Tinham patente a sujidade desses bairros. Vinham velhos de lixo na barba e securas de boca. Grandes periferias da cidade imensa no meio. Ela dava no peditório todas as humanidades para esse fim. Na água pela barba escorrida, vinham-se gratos. Imitavam, no original, o reconhecimento, solidário. Ao fim do mês quotizavam." (59:1999)


Bibliografia:
  • Cancioneiro Policial da Menina Alzira, Moraes Editores, 1977.
  • Cancioneiro Policial da Menina Alzira, 2ªed., Fenda, 1999.





10/08/2010

Escritores Esquecidos 5

Egito Gonçalves / Luís Veiga Leitão /Papiniano Carlos



Egito Gonçalves, Luís Veiga Leitão, Papiniano Carlos, António Rebordão Navarro, Ernâni Melo Viana e Daniel Filipe dirigiram a revista Notícias do Bloqueio (1957-61). Ficaram conhecidos como os Poetas Neo-Realistas Portuenses... E pela sua combatividade por - a Geração de 50.

José Egito de Oliveira Gonçalves (1920-2001)

DE QUE FALO!

Falo das ruas e do amor,
do teu ventre sobre os lençóis,
falo da cidade que amo
onde a conjura amadurece.

Falo dos papéis que se rasgam
na hora do primeiro alarme,
da mão aberta para a esmola
onde germinará a vingança.

Falo do sangue de desejo
que abre em mim quando sorris,
e do carvão e da lareira
onde o combate aquece as mãos.

Falo dos motores que já vibram
na expedição contra o anátema
e dos dentes com que mordisco
os intervalos do teu riso.


Egito Gonçalves in "Sonhar a Terra Livre e Insubmissa...", p.28, 1973.


Bibliografia (Incompleta):
  • Poemas para os Companheiros da Ilha, 1950
  • Um Homem na Neblina, 1950
  • A Evasão Possível, 1952
  • O Vagabundo Decepado, 1957
  • A Viagem com o Teu Rosto, 1959
  • Memória de Setembro, 1959
  • Diário Obsessivo, 1962
  • Os Arquivos do Silêncio, 1962
  • O Fósforo na Palha, 1970
  • O Amor Desagua em Delta, 1971
  • Luz Vegetal, 1975
  • Poemas Políticos (1952-1979), 1980
  • Os Pássaros Mudam no Outono, 1981
  • Falo da Vertigem, 1983
  • Dedikatória, 1989
  • E no Entanto Move-se, 1995
  • O Mapa do Tesouro, 1998
  • A Ferida Amável, 2000
e ainda as Antologias e edições póstumas:
  • A Palavra Interdita, 2001
  • O Pêndulo Afectivo - Antologia Poética 1950-1990, 1991
  • Entre Mim e a Minha Morte há Ainda um Copo de Crepúsculo, 2006
Foi fundador e/ou director de diversas revistas literárias: A Serpente (1951); Árvore (1952-54); Notícias do Bloqueio (1957-61); Plano (1965-68) do Cineclube do Porto e da Limiar.



Luís Veiga Leitão (1915-1987) (Pseud. de Luís Maria Leitão)

RESISTÊNCIA

Não. Digo à explosão de ameaça
e à rapada paisagem do desterro.
E não. Digo à minha carcaça
encalhada em bancos de ferro
e ao cordame dos nervos, fustigado,
a ranger no silêncio a sós:
Por cada nervo quebrado
que se inventem mais nós.


Luís Veiga Leitão in "Sonhar a Terra Livre e Insubmissa...", p.48. 1973.


Bibliografia Principal:

  • Latitude, 1950
  • Noite de Pedra, 1955
  • Ciclo de Pedras, 1964
  • Livro de Andar e Ver, 1976
  • Linhas do Trópico, 1977
  • Longo Caminho Breve. Poesias Recolhidas (1943-1983), 1985
  • Livro da Paixão, 1986
e ainda as Antologias e edições póstumas:
  • Biografia Pétrea, 1989
  • Rosto por Dentro, 1992
  • Obra Completa, 1997



Papiniano Manuel Carlos de Vasconcelos Rodrigues (1918)

IMPROVISO NA MORTE DO SEMEADOR

Carregavas em teus ombros um navio
de relâmpagos, em teu coração a pedra
e a voz das cidades insubmissas.

Levavas em teu rastro uma aurora
de espigas, em teus lábios as palavras
que não temem fogo, frio ou morte.

Submerso no ódio e no terror, chegavas
em cada noite e, feroz, reconstruías
uma vez mais a esperança.

A terra semeavas e, por amá-la tanto,
(transforma-se o amador na coisa amada)
és agora, ó semeador, a própria semente
oculta e violenta.


Papiniano Carlos in "Sonhar a Terra Livre e Insubmissa...", pp.68-69, 1973.



Bibliografia Principal:
  • Esboço, 1942 (poesia)
  • Ó Lutador, 1944 (poesia)
  • Poema da Fraternidade, 1945
  • Estrada Nova - cadernos de poesia, 1946 (apreendido pela PIDE)
  • Terra com Sede, 1946 (ficção)
  • Mãe Terra, 1948 (poesia)
  • As Florestas e os Ventos - contos e poemas, 1952
  • Caminhemos Serenos, 1957 (poesia)
  • Uma Estrela Viaja na Cidade, 1958 (poesia)
  • A Rosa Nocturna, 1961 (crónicas)
  • A Menina Gotinha de Água, 1962 (infantil)
  • A Ave Sobre a Cidade, 1973 (poesia)
  • O Rio na Treva, 1975 (romance)
  • Luisinho e as Andorinhas, 1977 (infantil)
  • O Cavalo das Sete Cores e o Navio, 1980 (infantil)
  • O Grande Lagarto da Pedra Azul, 1989 (infantil)
  • A Viagem de Alexandra, 1989 (infantil)
Colaboração dispersa nas revistas Seara Nova, Vértice, Bandarra e Notícias do Bloqueio.





Um Exemplar de Notícias do Bloqueio




04/08/2010

Poeta resgatado ao esquecimento...

Graças a Luís Amorim de Sousa amigo de longa data de Alberto de Lacerda é possível resgatar este poeta de um certo esquecimento... o que era uma enorme injustiça. Luís Amorim de Sousa é responsável pela Colecção Alberto de Lacerda editada pela Assírio em conjunto com a Fundação Mário Soares.
  • Alberto de Lacerda,O Pajem Formidável dos Indícios, Assírio & Alvim - Fundação Mário Soares, Lisboa, 2010.
  • Luís Amorim de Sousa, Às Sete no Sa Tortuga - um retrato de Alberto de Lacerda, Assírio & Alvim - Fundação Mário Soares, Lisboa, 2010.