29/03/2011

Homenagem


A... Ângelo de Sousa (1938-2011)


Foi mais ou menos assim...


Lançamento do livro Rendimento Mínimo e Revista Piolho n.º 4 na Livraria Gato Vadio em 27.III.2011.
(arquivo fotográfico de Bruno Diogo)

pág. 5 do livro 'Rendimento Mínimo' - A. daSilva O.


pág. 9 do livro 'Rendimento Mínimo' - Rui Azevedo Ribeiro.


Ficha Técnica do livro 'Rendimento Mínimo'

O livro 'Rendimento Mínimo' é um opúsculo de 16 páginas contendo dois poema - um de A. daSilva O. e outro de Rui Azevedo Ribeiro. Foram editados 300 exemplares. Para mais informações envie-nos um email para edicoes50kg@gmail.com

Em restauro

As Edições 50kg acabam de adquirir um prelo de provas. Apesar de uma camada de ferrugem o rolo está bem conservado e o carreto desliza perfeitamente. Penso que será um restauro rápido e fácil. E se tudo correr bem será uma excelente aquisição para a editora.

23/03/2011

Lançamento do livro 'Rendimento Mínimo"



No Domingo 27 de Março, às 17H00, será lançado o livro Rendimento Mínimo das Edições 50kg dos autores A. Dasilva O. e Rui Azevedo Ribeiro (a capa é da Ana Ulisses). Decorrerá na Livraria Gato Vádio na Rua do Rosário, 281 - Porto.

Também será lançado o número 4 da revista de Poesia Piolho.


Sobre o Rendimento Mínimo: "Não fizemos nenhuma elegia à pobreza e muito menos lhe alceamos virtudes. E a haver queixas é sem queixume. De um mote de ajuntamento, de uma condição em comum, fiz ao A. daSilva O. uma proposta. Um poema dele e outro meu fazem este livro."

Rui Azevedo Ribeiro

Compareçam!...

20/03/2011

Dia Mundial da Poesia

Hoje no CCB...

Diga lá um Poema
Foyer da Galeria Mário Cesariny Piso 1
O público é convidado a dizer poesia em frente a uma câmara num espaço informal montado como um estúdio de gravações com estrado e microfone. As gravações são transmitidas em diferido em vários écrans distribuídos pelo CCB.

O Jogo e o Caos
Exposição de Mário Botas (1952-1983)
Bengaleiro Norte Piso 1
Uma seleção de cerca de 80 desenhos do artista-médico que desenvolveu a sua curta carreira a partir de 1971, em que as referências literárias e poéticas percorrem um universo visual inquietante, de grande riqueza simbólica. Em colaboração com a Fundação Mário Botas.


14:00 - 15:30

ARTES POÉTICAS - De poesia e de vida
Sala Eugénio de Andrade Piso 1
Workshop com António Carlos Cortez*
Do modo como ela se tece e se contorce, do seu trabalho, da sua técnica, dos modos vários em que a poesia apresenta como linguagem estranha.
De poesia falemos. Depois de termos, no ano passado, viajado por alguns poemas portugueses, desde a Idade Média, passando por Camões até à actualidade, eis que, agora, faremos um percurso contrário: como falar de poesia, que é no fundo a poesia, quando lida por poetas de hoje? Lendo e dando a ler a melodia, a música das palavras, dando livre curso à imaginação, à palavra poética como palavra transfiguradora, falaremos, pois, de poesia. Assim, viajando no tempo das palavras, veremos (porque ler é ver) poemas de Ana Luísa Amaral, Irene Lisboa e Adília Lopes, Vasco Graça Moura, Nuno Júdice, Fernando Pinto do Amaral, Gastão Cruz, Fiama Hasse Pais Brandão, Luiza Neto Jorge, Maria Teresa Horta, João Rui de Sousa, António Ramos Rosa, Herberto Helder, Sophia de Mello Breyner, Jorge de Sena, Vitorino Nemésio, David Mourão-Ferreira, Mário Cesariny, Fernando Echavarría, Eugénio de Andrade, Alexandre O'Neill, Manuel Gusmão, Luís Quintais, Luís Miguel Nava, Carlos de Oliveira, Ruy Belo, Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro vendo a ideia de poesia e de poema em alguns textos destes autores. Falemos, assim, de poesia.
*
Professor de Literatura Portuguesa. Poeta e crítico literário.
Colaborador do Jornal de Letras e de revistas da especialidade, Relâmpago (Fundação Luís Miguel Nava) e Colóquio-Letras (Fundação Calouste Gulbenkian)
Publicou cinco livros de poesia, o último dos quais "Depois de Dezembro" (Licorne/ Casa do Sul, 2010)

14:30
De viva voz
Sala Luis de Freitas Branco Piso 1
Poetas e outras personalidades dizem poesia sua ou de outros.
Apresentação e coordenação
Elisabete Caramelo
Convidados Fernando Echevarría / Filipa Leal / Jaime Rocha / Armando Silva Carvalho / Pedro Mexia / Gastão Cruz / Pedro Tamen / Margarida Vale de Gato / Nuno Júdice / Miguel Manso / A. Dasilva O. / António Carlos Cortez

14:30
Maratona de Leitura

Sala Fernando Pessoa Piso 2
Seleção de poemas de Herberto Helder ditos por diferentes personalidades.
Apresentação e coordenação Pedro Lamares
Convidados António Mega Ferreira / Paula Morão / Isabel Alçada / Fernando Pinto do Amaral / Gabriela Canavilhas / Paulo da Costa Domingos / Lídia Jorge / Maria João Seixas / Diana Pimentel / Inês Fonseca Santos / Filipa Leal / Diogo Dória

14:30 - 16:30
Conferências
Sala de Leitura Piso 1
14:30 > Diana Pimentel
Grande plano, montagem, ar falado: o macropoema de Hérberto Hélder

16:30 > Gil Heitor Cortesão
“Harmonizam-se os sons, os perfumes e as cores” (Charles Baudelaire, As flores do mal)
Gil Heitor Cortesão aborda a questão das correspondências entre as artes visuais e a literatura, destacando a originalidade e “excentricidade” de Mário Botas.

15:30
Rodrigo Amado
Un Certain Malaise
Sala Almada Negreiros Piso 2
Rodrigo Amado (músico e fotógrafo) constrói uma narrativa imaginária com música e imagens em torno da temática de Os Passos em Volta e do próprio universo pessoal de Herberto Helder.
Rodrigo Amado Saxofone e imagens
Gabriel Ferrandini Bateria

17:30
Social Smokers
Magnetic Poetry
Sala Almada Negreiros Piso 2
Os Social Smokers aproveitaram o 1º Concurso de Poetry Slam, realizado em Portugal, para encetar um projecto transversal de spoken word, música e imagem. O espetáculo apresenta diversas criações do seu primeiro disco, editado em Portugal. A formação reúne: Silva o Sentinela, Jorge Vaz Nande e Biru nas vozes e autoria dos poemas e Alex Cortez no baixo, programações, teclados e composição musical. Os Social Smokers contam habitualmente com a participação de José Lencastre (saxofone), Sérgio Costa (guitarra e teclados), Ivo Palitos (bateria e percussões) e João Pedro Gomes (vídeo).

Social Smokers
Magnetic Poetry

Exposição de Fotografias de João Silveira Ramos
Foyer da Sala Almada Negreiros Piso 2
Para assinalar o Dia Mundial da Poesia, os Social Smokers e a Galeria Monumental, com o apoio do CCB, promovem esta exposição sobre o tema “Magnetic Poetry”.
Projeto apoiado pelo Festival Silêncio!


Para consultar o programação completa: http://www.ccb.pt/sites/ccb/pt-PT/Programacao/Literatura/Pages/DIAMUNDIALDAPOESIAMAR2011.aspx

13/03/2011

O Número 4 da Revista Piolho

«Tu numeris elementa ligas» Dragonetti




Com as participações de Erberto H. Elder, Vasco Desgraça, António Lobo de Carvalho, Joël Basso, Pedro de Melo Fonseca, Miguel Oliveira, Joaquim Barlavento, Charles B. Trak, Atília Oops, Mário de Sá Cordeiro, Doutor Três Pescoços, Jonh Resistence, Phil Lupi , Joe Texas, Jorge Barros, Oliveira Martins Roxo, ARL, Emanuel Frieiras, Animal Licorne, Lurdes Terracota, (ilustrações), Grupo Porteño,Pedro Calcoen, Jack B. Daniels

número dedicado à heteronomia. Março 2011

Coordenado por Sílvia C. Silva, Meireles de Pinho (capa e arranjo gráfico), Fernando Guerreiro e A. Dasilva O.

Da luta...

foto tirada por Ana Ulisses

05/03/2011

Foi mais ou menos assim...


Segunda série das jornadas Galego Portuguesas da Edição
Independente... Até dia 18 de Março.

Livraria Gato Vádio em 26-03-2011

Alguns oradores a partir da esq. (Mula, Edições Mortas + Madame Best Seller aka Krida, Estaleiro Editora e Oficina do Cego)

28/02/2011

Novidades das Edições 50kg

Encontra-se no prelo (literalmente), e em fase final... o novo livro de poesia das Edições 50kg.

Brevemente anunciar-se-à, aqui, a data e o local de lançamento bem como onde o poderá adquirir

(clicar na imagem para aumentar)


27/02/2011

Foi mais ou menos assim...



O doutor Avalanche abriu consultório* em Braga na Livraria Capítulos Soltos (Rua de Santo André, 93 r\c).

(Rui Manuel Amaral e Luís Morão) Clicar para aumentar a imagem



*Esta informação não se destina a delegados de propaganda médica.

06/02/2011

Foi mais ou menos assim...


LANÇAMENTO DA REVISTA PIOLHO N.º 3

(José Carlos Soares e A. Dasilva O.)

(Jorge Velhote a ler poemas de José Carlos Soares )


Entrevista a A. Dasilva O.
A poesia suja de um homem apaixonado dos insectos
por Francisco Mangas na secção GENTE no DN de 5-02-2011

Herberto Helder, sem querer, publica para alfarrabistas, acusa o responsável das Edições Mortas. O editor volta à "trincheira" com a 'Piolho', revista de poesia que não é produto

Como pode a frágil poesia reocupar o lugar de combate e o lado conspirativo? Numa revista despojada, que circula de mão em mão, gesto de clandestinidade à luz do dia. Eis a proposta de A. Dasilva O., velho agitador urbano, que admira a "resistência" dos insectos. A revista chama-se Piolho por esse motivo, e por um outro: o projecto foi concebido (com algum pecado, por certo) no café portuense que tem o mesmo nome.

"Regressamos à trincheira", proclama o poeta e director da nova publicação. Uma trincheira de palavras feita revista, como noutros tempos de combate e generosas utopias. Sendo assim, renega-se o gosto oficial, padronizado. "Criamos uma revista suja em termos de poesia", ponto de encontro e partilha de "várias gerações de escritores".

A Piolho propõe o combate. E, ao mesmo tempo, assume-se como lugar de sobrevivência da poética. Livre, insubmissa. Hoje, "as editoras oficiais recusam a poesia: não é produto, não vende", acusa A. Dasilva O. Recentemente, refira-se, um dos mais importantes editores portugueses decretou o fim da poesia: os poetas, se quiserem, mandam imprimir meia dúzia de exemplares para os amigos, e mais não será necessário - disse.

Nos prosaicos dias que correm, na opinião do coordenador da Piolho, apenas Herberto Helder fura o bloqueio e apresenta tiragens aceitáveis. No entanto, involuntariamente, o autor de A Cabeça entre as Mãos "publica para alfarrabistas, que esgotam a edição em poucos dias: estão à espera que o poeta morra para, depois, vender primeiras edições esgotadas".

Co-fundador da Caos, uma das primeiras rádios livres do Porto, A. Dasilva O., na poesia, ou António S. Oliveira quando a mão lhe descai para a prosa, desenvolveu diversos projectos editoriais ao longo das últimas três décadas. Criou e editou revistas como a Marquesa Negra , Última Geração ou a Voz de Deus. É responsável das Edições Mortas, editora agora quase em pousio, porque trabalhava com "cerca de 400 livrarias e outros postos de venda" que, entretanto, fecharam na sua maioria e "não pagam nem devolvem os livros".

O mesmo destino teve a sua própria livraria. A paixão dos insectos e dos livros levou-o a abrir a Pulga, no Porto, onde apenas havia espaço para obras de pequenas editoras. O projecto era mais vasto: pretendia o livreiro-poeta incentivar outros pequenos editores a abrirem a Pulga em Braga, Coimbra, Lisboa e no Algarve. A frenética ideia quedou pelo caminho. Fica na penumbra a Pulga, emerge a Piolho - "poesia suja" em capa branca, imaculada.

Uma publicação para "honrar o passado combativo, refractário e de conspiração" das revistas dos anos 60 e 70, "feitas em stencil , que circulavam debaixo das mesas". Nasceu no histórico Piolho,porque os sobreviventes cafés à moda antiga na cidade devem recuperar o espírito combativo de outrora, "partindo de conflitos estéticos".

Antes do Piolho, o lugar conspirativo de A. Dasilva O. e do seu grupo - promotores das "Conferências do Inferno" e dos "Encontros do Maldito" - , era no Magestic, mas o conhecido e belíssimo café da Rua de Santa Catarina, após a remodelação, "virou-se contra o povo".

Há três anos, com outras editoras independentes, participou numa feira do livro, realizada na Faculdade de Letras do Porto. "Os sete mil alunos e respectivos professores desprezaram por completo a iniciativa, só se vendeu alguma coisa a estudantes italianos. A verdadeira iliteracia está na Universi- dade". Mas o homem das palavras persiste, como os insectos que admira. A poesia continua.


Mais informações e vídeo do lançamento em http://www.inculta.tv/

31/01/2011

Homenagem





Maria Aldina da Costa Neves Forte
(1939-2011)





Poema
Alguma coisa onde tu parada
fosses depois das lágrimas uma ilha,
e eu chegasse para dizer-te adeus
de repente na curva duma estrada

alguma coisa onde a tua mão
escrevesse cartas para chover
e eu partisse a fumar
e o fumo fosse para se ler

alguma coisa onde tu ao norte
beijasses nos olhos os navios
e eu rasgasse o teu retrato
para vê-Io passar na direcção dos rios

alguma coisa onde tu corresses
numa rua com portas para o mar
e eu morresse
para ouvir-te sonhar

António José Forte




30/01/2011

Para fazer uma ponte...


(clicar na imagem para ampliar)


TRANSFIGURAÇÃO

DEIXA-ME adormecer e não perguntes nada.
O mundo foi brutal e a vida comprida
nos seus desenganos de coisa perdida.

Deixa-me ficar nesta atitude sem gestos.
Leva para trás a hipocrisia das falas:
o silêncio é um corredor que vai dar a muitas salas.

E agora vai-te embora que eu quero ser sòzinho.
A morte não tarda e eu hei-de recebê-la
tão grave como o céu perante uma nova estrela.

Alberto de Lacerda in "Cadernos de Poesia", Lx, 1951.

(clicar na imagem para ampliar)

11/01/2011

Alexandre Grande


Alexandre Pinheiro Torres (1923-1999)

10

A VIDA: ÚLTIMAS TEIMOSIAS

À carne são permitidos todos os desastres.

Esta oliveira segura ainda

os próprios intestinos com as mão. Nada

veio de súbito preveni-la do fim.

Mas não há noites totais. Na mais escura

o peixe do fundo do rio vem até à superfície

fazer sinais com o seu semáforo. Penso

no sorriso da deusa ausente acaso do Olimpo

quando o monje veio procurá-la. Uma deusa

de seios tão firmes que neles se poderia partir

um martelo de bronze. E o Olimpo ensopado pela

[urina

doutros poetas e doutros monjes mesmo assim de

[bexigas cheias.

Tu vês? A vida insiste em excesso para que sobre-

[vivamos:

emprenhar deusas! Uma luz intensamente

brilha. Sim! Brilha! Brilha! É uma oliveira

teimando em dar azeite até ao desastre.


Alexandre Pinheiro Torres in “A Flor Evaporada”, p.45, D. Quixote, Lx, 1984.


13

OS NÁUFRAGOS

Os visitantes deixaram-se ficar até que o

soalho se tornou visível através

do tapete. E o que é mais: já não tinham

nada para dizer. As cabeças

tinham regressado a casa e as suas

línguas eram agora os polegares dos próprios

pés. Falavam para baixo mordendo a

carpete mordiam-na e ruminavam-na.


Alexandre Pinheiro Torres in “A Flor Evaporada”, p.51, D. Quixote, Lx, 1984.


14

O MORTO: A FLOR DE SI

A única coisa certa sobre o morto

é que já foi senhorio de carne:

agora é perdê-la flor que se

evapora e sorrir até aos ossos.


Amarante, tarde e noite de 10 de Julho de 1983


Alexandre Pinheiro Torres in “A Flor Evaporada”, p.53, D. Quixote, Lx, 1984.


Bibliografia:

§ Científico-Cosmogónico-metafísico de Perseguição,1942 (ensaio)

§ Novo Génesis,1950 (poesia)

§ Quarteto para Instrumentos de Dor, 1950 (poesia)

§ A Voz Recuperada, 1953 (poesia)

§ Programa para o Concreto, 1966 (ensaio)

§ O Mundo em Equação, 1967 (ficção)

§ A Ilha do Desterro, 1968 (poesia)

§ A Terra de Meu Pai, 1972 (poesia)

§ Vida e Obra de José Gomes Ferreira, 1975 (ensaio)

§ O Neo-realismo Literário Português, 1977 (ensaio)

§ A Nau de Quixibá, 1977 (romance)

§ Os Romances de Alves Redol, 1979 (ensaio)

§ O Ressentimento de um Ocidental, 1981 (poesia)

§ A Flor Evaporada, 1984 (poesia)

§ Antologia da poesia brasileira do Padre Anchieta a João Cabral de Melo Neto, 1984 (antologia)

§ Contos, 1985 (romance)

§ Tubarões e Peixe Miúdo, 1986 (ficção)

§ Espingardas e Música Clássica, 1987 (ficção)

§ Antologia da Poesia Trovadoresca Galego-Portuguesa, 1987 (antologia)

§ Ensaios Escolhidos I, 1989 (ensaio)

§ Ensaios Escolhidos II, 1990 (ensaio)

§ O Adeus às Virgens, 1992 (romance)

§ Sou Toda Sua, Meu Guapo Cavaleiro, 1994 (ficção)

§ A Quarta Invasão Francesa, 1995 (romance)

§ Trocar de Século, 1995 (poesia)

§ A Ilha do Desterro, 1996 (poesia)

§ Vai Alta a Noite, 1997 (romance)

§ O Meu Anjo Catarina, 1998 (romance)

§ Amor, Só Amor, Tudo Amor, 1999 (romance)

§ A Paleta de Cesário Verde, 2003 (ensaio)



27/12/2010

Revista Piolho 003

O terceiro número da revista Piolho tem o subtítulo de "a eufomania do cálculo poético" uma publicação das Edições Mortas e Black Sun Editores.

terceiro número dezembro 2010

Coordenado por Sílvia C. Silva, Meireles de Pinho (capa e arranjo gráfico),Fernando Guerreiro e A. Dasilva O.

Com as participações de

Ana Almeida Santos, A. Pedro Ribeiro, Rui Caeiro, Rui Tinoco, Rui Azevedo Ribeiro, Jorge Humberto Pereira, Miguel Sá Marques, Pedro Tiago,José Carlos Soares, Rui Manuel Amaral, manuel a. domingos, Jorge Fallorca, Efe de Lagos,Pedro Águas, Ricardo Álvaro,Raul Simões Pinto, Mário Augusto, Manuel Filipe e Hart Crane

16/12/2010

Guerra em Paz


A Barba


A barba é o meu gato. Afago-a

nesse jeito de quem passa os dedos

pelo dorso de um bichano. Eu sei

que estou a tocar num tigre: a barba

encrespa-se, revolve-se mesmo.

Ondas, campos de milho, searas,

também conhecem afago igual.

Mas este gato rebelde, a minha barba

apenas, é agora tudo a que me prendo.

Mestres já me dizem do excesso

de assim me virar para dentro.

Não! É para fora! Mora a barba

noutras eras, noutro espaço. É ela

que me afaga a mim: a última ternura.

Eduardo Guerra Carneiro in Profissão de Fé, p.28, Quetzal Editores, Lx, 1990

08/12/2010

A «Flânerie» no Ocidente…

O SENTIMENTO D’UM OCCIDENTAL

A Guerra Junqueiro

I

AVE MARIA


Nas nossas ruas, ao anoitecer,

Ha tal soturnidade, ha tal melancholia,

Que as sombras, o bulicio, o Tejo, a maresia

Despertam-me um desejo absurdo de soffrer.


O ceu parece baixo e de neblina,

O gaz extravasado enjôa-me, perturba;

E os edificios, com as chaminés, e a turba

Toldam-se d’uma côr monótona e londrina.


Batem os carros d’aluguer, ao fundo,

Levando á via ferrea os que se vão. Felizes!

Occorem-me em revista exposições, paizes:

Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!


Semelham-se a gaiolas, com viveiros,

As edificações sómente emmadeiradas:

Como morcegos, ao cair das badaladas,

Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.


Voltam os calafates, aos magotes,

De jaquetão ao hombro, enfarruscados, seccos;

Embrenho-me, a scismar, por boqueirões, por beccos,

Ou érro pelos caes a que se atracam botes.


E evoco, então, as chronicas navaes:

Mouros, baixeis, heroes, tudo resuscitado!

Lucta Camões no Sul, salvando um livro a nado!

Singram soberbas naus que eu não verei jámais!


E o fim da tarde inspira-me; e incommoda!

De um couraçado inglez vogam os escaleres;

E em terra n’um tinir de louças e talheres

Flammejam. Ao jantar, alguns hoteis da moda.


N’um trem de praça arengam dois dentistas;

Um tropego arlequim braceja n’umas andas;

Os cherubins do lar fluctuam nas varandas;

Ás portas, em cabello, enfadam-se os logistas!


Vasam-se os arsenaes e as officinas;

Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;

E n’um cardume negro, herculeas, galhofeiras,

Correndo com firmeza, assomam as varinas.


Vem sacudindo as ancas opulentas!

Seus troncos varonis recordam-me pilastras;

E algumas, á cabeça, embalam nas canastras

Os filhos que depois naufragam nas tormentas.


Descalças! Nas descargas de carvão,

Desde manhã á noite, a bórdo das fragatas;

E apinham-se n’um bairro aonde miam gatas,

E o peixe pôdre géra os focos de infecção!


…Continua!

Cesário Verde


Cesário foge pelos herbanários


Cesário andava na cidade com plantas

silvestres metidas na cabeça

Irrompiam-lhe nas calçadas no repuxo das fontes

no grito das varinas no trote das patrulhas


Ninguém sabe contudo que em fidelíssimo segredo

deixou outro livro do qual Silva Pinto nada soube

Nem o Caeiro da planta é uma planta é uma planta

que se apanhasse fechava-o à chave na arca


para girândolas futuras dos casmurros das Universidades

Mas nada de suspense O livro é apenas um herbário

todo rechunchudo de coisas trivialíssimas

como a receita para lavar manchas de amora nos bigodes


ou de como arrancar sem dor cucos de tojo que um dia

lhe pegaram uma coceira dos infernos Depois há folhas

e folhas amarelecidas de chuvas-de-oiro mongaricas

urzes torgas estevas-dos-saloios sarças


alecrins alfenas lentiscos e loendros

Um nunca acabar Ao lado de um esparto

a nota: tenho o pulso como um cajado de pastor

e meus dedos amadurecidos como um céu de Verão


Assim se sentimentaliza um ocidental

Confiar como? Se quando menos se precata

salta ou voa sobre a Dor humana

e as marés de fel como um sinistro mar?


Folhear o herbário é vê-lo como abria as portas

A toda a moscaria É vê-lo esquecer-se da Cólera

E da Febre Ver com deixava que a terra lhe marinhasse

Como um vinho de fogo pelo exangue corpo acima


E ver isso é bom Admirar-lhe os ouvidos

encostados ao sol à escuta que os estames

e pistilos se pusessem a ferver O pólen

a descer o corrimão da luz até cobrir de um certo oiro


a sombra pisada da sua melancolia O vinho

a espirrar numa chuva muda de palavras

Coisa estranha: o cântico de um homem

expresso em folhas secas caules flores


breves notas num herbário como: é meu irmão

o entrecasco de sobro bom para a taninagem

As maçãs de espelho não andam bem empapeladas

Fica-lhes mal o verde e a serradura


Alexandre Pinheiro Torres in O Ressentimento dum Ocidental, Moraes editores, col. Círculo de Poesia, 1981