29/03/2011
Foi mais ou menos assim...




Em restauro
23/03/2011
Lançamento do livro 'Rendimento Mínimo"


20/03/2011
Dia Mundial da Poesia
Diga lá um Poema
Foyer da Galeria Mário Cesariny Piso 1
O público é convidado a dizer poesia em frente a uma câmara num espaço informal montado como um estúdio de gravações com estrado e microfone. As gravações são transmitidas em diferido em vários écrans distribuídos pelo CCB.
O Jogo e o Caos
Exposição de Mário Botas (1952-1983)
Bengaleiro Norte Piso 1
Uma seleção de cerca de 80 desenhos do artista-médico que desenvolveu a sua curta carreira a partir de 1971, em que as referências literárias e poéticas percorrem um universo visual inquietante, de grande riqueza simbólica. Em colaboração com a Fundação Mário Botas.
14:00 - 15:30
ARTES POÉTICAS - De poesia e de vida
Sala Eugénio de Andrade Piso 1
Workshop com António Carlos Cortez*
Do modo como ela se tece e se contorce, do seu trabalho, da sua técnica, dos modos vários em que a poesia apresenta como linguagem estranha.
De poesia falemos. Depois de termos, no ano passado, viajado por alguns poemas portugueses, desde a Idade Média, passando por Camões até à actualidade, eis que, agora, faremos um percurso contrário: como falar de poesia, que é no fundo a poesia, quando lida por poetas de hoje? Lendo e dando a ler a melodia, a música das palavras, dando livre curso à imaginação, à palavra poética como palavra transfiguradora, falaremos, pois, de poesia. Assim, viajando no tempo das palavras, veremos (porque ler é ver) poemas de Ana Luísa Amaral, Irene Lisboa e Adília Lopes, Vasco Graça Moura, Nuno Júdice, Fernando Pinto do Amaral, Gastão Cruz, Fiama Hasse Pais Brandão, Luiza Neto Jorge, Maria Teresa Horta, João Rui de Sousa, António Ramos Rosa, Herberto Helder, Sophia de Mello Breyner, Jorge de Sena, Vitorino Nemésio, David Mourão-Ferreira, Mário Cesariny, Fernando Echavarría, Eugénio de Andrade, Alexandre O'Neill, Manuel Gusmão, Luís Quintais, Luís Miguel Nava, Carlos de Oliveira, Ruy Belo, Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro vendo a ideia de poesia e de poema em alguns textos destes autores. Falemos, assim, de poesia.
* Professor de Literatura Portuguesa. Poeta e crítico literário.
Colaborador do Jornal de Letras e de revistas da especialidade, Relâmpago (Fundação Luís Miguel Nava) e Colóquio-Letras (Fundação Calouste Gulbenkian)
Publicou cinco livros de poesia, o último dos quais "Depois de Dezembro" (Licorne/ Casa do Sul, 2010)
14:30
De viva voz
Sala Luis de Freitas Branco Piso 1
Poetas e outras personalidades dizem poesia sua ou de outros.
Apresentação e coordenação Elisabete Caramelo
Convidados Fernando Echevarría / Filipa Leal / Jaime Rocha / Armando Silva Carvalho / Pedro Mexia / Gastão Cruz / Pedro Tamen / Margarida Vale de Gato / Nuno Júdice / Miguel Manso / A. Dasilva O. / António Carlos Cortez
14:30
Maratona de Leitura
Sala Fernando Pessoa Piso 2
Seleção de poemas de Herberto Helder ditos por diferentes personalidades.
Apresentação e coordenação Pedro Lamares
Convidados António Mega Ferreira / Paula Morão / Isabel Alçada / Fernando Pinto do Amaral / Gabriela Canavilhas / Paulo da Costa Domingos / Lídia Jorge / Maria João Seixas / Diana Pimentel / Inês Fonseca Santos / Filipa Leal / Diogo Dória
14:30 - 16:30
Conferências
Sala de Leitura Piso 1
14:30 > Diana Pimentel
Grande plano, montagem, ar falado: o macropoema de Hérberto Hélder
16:30 > Gil Heitor Cortesão
“Harmonizam-se os sons, os perfumes e as cores” (Charles Baudelaire, As flores do mal)
Gil Heitor Cortesão aborda a questão das correspondências entre as artes visuais e a literatura, destacando a originalidade e “excentricidade” de Mário Botas.
15:30 ●
Rodrigo Amado
Un Certain Malaise
Sala Almada Negreiros Piso 2
Rodrigo Amado (músico e fotógrafo) constrói uma narrativa imaginária com música e imagens em torno da temática de Os Passos em Volta e do próprio universo pessoal de Herberto Helder.
Rodrigo Amado Saxofone e imagens
Gabriel Ferrandini Bateria
17:30 ●
Social Smokers
Magnetic Poetry
Sala Almada Negreiros Piso 2
Os Social Smokers aproveitaram o 1º Concurso de Poetry Slam, realizado em Portugal, para encetar um projecto transversal de spoken word, música e imagem. O espetáculo apresenta diversas criações do seu primeiro disco, editado em Portugal. A formação reúne: Silva o Sentinela, Jorge Vaz Nande e Biru nas vozes e autoria dos poemas e Alex Cortez no baixo, programações, teclados e composição musical. Os Social Smokers contam habitualmente com a participação de José Lencastre (saxofone), Sérgio Costa (guitarra e teclados), Ivo Palitos (bateria e percussões) e João Pedro Gomes (vídeo).
Social Smokers
Magnetic Poetry
Exposição de Fotografias de João Silveira Ramos
Foyer da Sala Almada Negreiros Piso 2
Para assinalar o Dia Mundial da Poesia, os Social Smokers e a Galeria Monumental, com o apoio do CCB, promovem esta exposição sobre o tema “Magnetic Poetry”.
Projeto apoiado pelo Festival Silêncio!
Para consultar o programação completa: http://www.ccb.pt/sites/ccb/pt-PT/Programacao/Literatura/Pages/DIAMUNDIALDAPOESIAMAR2011.aspx
13/03/2011
O Número 4 da Revista Piolho

«Tu numeris elementa ligas» Dragonetti
Com as participações de Erberto H. Elder, Vasco Desgraça, António Lobo de Carvalho, Joël Basso, Pedro de Melo Fonseca, Miguel Oliveira, Joaquim Barlavento, Charles B. Trak, Atília Oops, Mário de Sá Cordeiro, Doutor Três Pescoços, Jonh Resistence, Phil Lupi , Joe Texas, Jorge Barros, Oliveira Martins Roxo, ARL, Emanuel Frieiras, Animal Licorne, Lurdes Terracota, (ilustrações), Grupo Porteño,Pedro Calcoen, Jack B. Daniels
número dedicado à heteronomia. Março 2011
Coordenado por Sílvia C. Silva, Meireles de Pinho (capa e arranjo gráfico), Fernando Guerreiro e A. Dasilva O.
05/03/2011
Foi mais ou menos assim...
28/02/2011
Novidades das Edições 50kg
27/02/2011
Foi mais ou menos assim...
06/02/2011
Foi mais ou menos assim...

Herberto Helder, sem querer, publica para alfarrabistas, acusa o responsável das Edições Mortas. O editor volta à "trincheira" com a 'Piolho', revista de poesia que não é produto
Como pode a frágil poesia reocupar o lugar de combate e o lado conspirativo? Numa revista despojada, que circula de mão em mão, gesto de clandestinidade à luz do dia. Eis a proposta de A. Dasilva O., velho agitador urbano, que admira a "resistência" dos insectos. A revista chama-se Piolho por esse motivo, e por um outro: o projecto foi concebido (com algum pecado, por certo) no café portuense que tem o mesmo nome.
"Regressamos à trincheira", proclama o poeta e director da nova publicação. Uma trincheira de palavras feita revista, como noutros tempos de combate e generosas utopias. Sendo assim, renega-se o gosto oficial, padronizado. "Criamos uma revista suja em termos de poesia", ponto de encontro e partilha de "várias gerações de escritores".
A Piolho propõe o combate. E, ao mesmo tempo, assume-se como lugar de sobrevivência da poética. Livre, insubmissa. Hoje, "as editoras oficiais recusam a poesia: não é produto, não vende", acusa A. Dasilva O. Recentemente, refira-se, um dos mais importantes editores portugueses decretou o fim da poesia: os poetas, se quiserem, mandam imprimir meia dúzia de exemplares para os amigos, e mais não será necessário - disse.
Nos prosaicos dias que correm, na opinião do coordenador da Piolho, apenas Herberto Helder fura o bloqueio e apresenta tiragens aceitáveis. No entanto, involuntariamente, o autor de A Cabeça entre as Mãos "publica para alfarrabistas, que esgotam a edição em poucos dias: estão à espera que o poeta morra para, depois, vender primeiras edições esgotadas".
Co-fundador da Caos, uma das primeiras rádios livres do Porto, A. Dasilva O., na poesia, ou António S. Oliveira quando a mão lhe descai para a prosa, desenvolveu diversos projectos editoriais ao longo das últimas três décadas. Criou e editou revistas como a Marquesa Negra , Última Geração ou a Voz de Deus. É responsável das Edições Mortas, editora agora quase em pousio, porque trabalhava com "cerca de 400 livrarias e outros postos de venda" que, entretanto, fecharam na sua maioria e "não pagam nem devolvem os livros".
O mesmo destino teve a sua própria livraria. A paixão dos insectos e dos livros levou-o a abrir a Pulga, no Porto, onde apenas havia espaço para obras de pequenas editoras. O projecto era mais vasto: pretendia o livreiro-poeta incentivar outros pequenos editores a abrirem a Pulga em Braga, Coimbra, Lisboa e no Algarve. A frenética ideia quedou pelo caminho. Fica na penumbra a Pulga, emerge a Piolho - "poesia suja" em capa branca, imaculada.
Uma publicação para "honrar o passado combativo, refractário e de conspiração" das revistas dos anos 60 e 70, "feitas em stencil , que circulavam debaixo das mesas". Nasceu no histórico Piolho,porque os sobreviventes cafés à moda antiga na cidade devem recuperar o espírito combativo de outrora, "partindo de conflitos estéticos".
Antes do Piolho, o lugar conspirativo de A. Dasilva O. e do seu grupo - promotores das "Conferências do Inferno" e dos "Encontros do Maldito" - , era no Magestic, mas o conhecido e belíssimo café da Rua de Santa Catarina, após a remodelação, "virou-se contra o povo".
Há três anos, com outras editoras independentes, participou numa feira do livro, realizada na Faculdade de Letras do Porto. "Os sete mil alunos e respectivos professores desprezaram por completo a iniciativa, só se vendeu alguma coisa a estudantes italianos. A verdadeira iliteracia está na Universi- dade". Mas o homem das palavras persiste, como os insectos que admira. A poesia continua.
31/01/2011
Homenagem


Poema |
| Alguma coisa onde tu parada fosses depois das lágrimas uma ilha, e eu chegasse para dizer-te adeus de repente na curva duma estrada alguma coisa onde a tua mão escrevesse cartas para chover e eu partisse a fumar e o fumo fosse para se ler alguma coisa onde tu ao norte beijasses nos olhos os navios e eu rasgasse o teu retrato para vê-Io passar na direcção dos rios alguma coisa onde tu corresses numa rua com portas para o mar e eu morresse para ouvir-te sonhar António José Forte |

30/01/2011
Para fazer uma ponte...

TRANSFIGURAÇÃO

11/01/2011
Alexandre Grande

Alexandre Pinheiro Torres (1923-1999)
10
A VIDA: ÚLTIMAS TEIMOSIAS
À carne são permitidos todos os desastres.
Esta oliveira segura ainda
os próprios intestinos com as mão. Nada
veio de súbito preveni-la do fim.
Mas não há noites totais. Na mais escura
o peixe do fundo do rio vem até à superfície
fazer sinais com o seu semáforo. Penso
no sorriso da deusa ausente acaso do Olimpo
quando o monje veio procurá-la. Uma deusa
de seios tão firmes que neles se poderia partir
um martelo de bronze. E o Olimpo ensopado pela
[urina
doutros poetas e doutros monjes mesmo assim de
[bexigas cheias.
Tu vês? A vida insiste em excesso para que sobre-
[vivamos:
emprenhar deusas! Uma luz intensamente
brilha. Sim! Brilha! Brilha! É uma oliveira
teimando em dar azeite até ao desastre.
Alexandre Pinheiro Torres in “A Flor Evaporada”, p.45, D. Quixote, Lx, 1984.

13
OS NÁUFRAGOS
Os visitantes deixaram-se ficar até que o
soalho se tornou visível através
do tapete. E o que é mais: já não tinham
nada para dizer. As cabeças
tinham regressado a casa e as suas
línguas eram agora os polegares dos próprios
pés. Falavam para baixo mordendo a
carpete mordiam-na e ruminavam-na.
Alexandre Pinheiro Torres in “A Flor Evaporada”, p.51, D. Quixote, Lx, 1984.
14
O MORTO: A FLOR DE SI
A única coisa certa sobre o morto
é que já foi senhorio de carne:
agora é perdê-la flor que se
evapora e sorrir até aos ossos.
Amarante, tarde e noite de 10 de Julho de 1983
Alexandre Pinheiro Torres in “A Flor Evaporada”, p.53, D. Quixote, Lx, 1984.

§ Científico-Cosmogónico-metafísico de Perseguição,1942 (ensaio)
§ Novo Génesis,1950 (poesia)
§ Quarteto para Instrumentos de Dor, 1950 (poesia)
§ A Voz Recuperada, 1953 (poesia)
§ Programa para o Concreto, 1966 (ensaio)
§ O Mundo em Equação, 1967 (ficção)
§ A Ilha do Desterro, 1968 (poesia)
§ A Terra de Meu Pai, 1972 (poesia)
§ Vida e Obra de José Gomes Ferreira, 1975 (ensaio)
§ O Neo-realismo Literário Português, 1977 (ensaio)
§ A Nau de Quixibá, 1977 (romance)
§ Os Romances de Alves Redol, 1979 (ensaio)
§ O Ressentimento de um Ocidental, 1981 (poesia)
§ A Flor Evaporada, 1984 (poesia)
§ Antologia da poesia brasileira do Padre Anchieta a João Cabral de Melo Neto, 1984 (antologia)
§ Contos, 1985 (romance)
§ Tubarões e Peixe Miúdo, 1986 (ficção)
§ Espingardas e Música Clássica, 1987 (ficção)
§ Antologia da Poesia Trovadoresca Galego-Portuguesa, 1987 (antologia)
§ Ensaios Escolhidos I, 1989 (ensaio)
§ Ensaios Escolhidos II, 1990 (ensaio)
§ O Adeus às Virgens, 1992 (romance)
§ Sou Toda Sua, Meu Guapo Cavaleiro, 1994 (ficção)
§ A Quarta Invasão Francesa, 1995 (romance)
§ Trocar de Século, 1995 (poesia)
§ A Ilha do Desterro, 1996 (poesia)
§ Vai Alta a Noite, 1997 (romance)
§ O Meu Anjo Catarina, 1998 (romance)
§ Amor, Só Amor, Tudo Amor, 1999 (romance)
§ A Paleta de Cesário Verde, 2003 (ensaio)

27/12/2010
Revista Piolho 003
terceiro número dezembro 2010
Coordenado por Sílvia C. Silva, Meireles de Pinho (capa e arranjo gráfico),Fernando Guerreiro e A. Dasilva O.
Com as participações de
Ana Almeida Santos, A. Pedro Ribeiro, Rui Caeiro, Rui Tinoco, Rui Azevedo Ribeiro, Jorge Humberto Pereira, Miguel Sá Marques, Pedro Tiago,José Carlos Soares, Rui Manuel Amaral, manuel a. domingos, Jorge Fallorca, Efe de Lagos,Pedro Águas, Ricardo Álvaro,Raul Simões Pinto, Mário Augusto, Manuel Filipe e Hart Crane
16/12/2010
Guerra em Paz
A Barba
A barba é o meu gato. Afago-a
nesse jeito de quem passa os dedos
pelo dorso de um bichano. Eu sei
que estou a tocar num tigre: a barba
encrespa-se, revolve-se mesmo.
Ondas, campos de milho, searas,
também conhecem afago igual.
Mas este gato rebelde, a minha barba
apenas, é agora tudo a que me prendo.
Mestres já me dizem do excesso
de assim me virar para dentro.
Não! É para fora! Mora a barba
noutras eras, noutro espaço. É ela
que me afaga a mim: a última ternura.
Eduardo Guerra Carneiro in Profissão de Fé, p.28, Quetzal Editores, Lx, 1990
08/12/2010
A «Flânerie» no Ocidente…
O SENTIMENTO D’UM OCCIDENTAL
A Guerra Junqueiro
I
AVE MARIA
Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Ha tal soturnidade, ha tal melancholia,
Que as sombras, o bulicio, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de soffrer.
O ceu parece baixo e de neblina,
O gaz extravasado enjôa-me, perturba;
E os edificios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se d’uma côr monótona e londrina.
Batem os carros d’aluguer, ao fundo,
Levando á via ferrea os que se vão. Felizes!
Occorem-me em revista exposições, paizes:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!
Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações sómente emmadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.
Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao hombro, enfarruscados, seccos;
Embrenho-me, a scismar, por boqueirões, por beccos,
Ou érro pelos caes a que se atracam botes.
E evoco, então, as chronicas navaes:
Mouros, baixeis, heroes, tudo resuscitado!
Lucta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jámais!
E o fim da tarde inspira-me; e incommoda!
De um couraçado inglez vogam os escaleres;
E em terra n’um tinir de louças e talheres
Flammejam. Ao jantar, alguns hoteis da moda.
N’um trem de praça arengam dois dentistas;
Um tropego arlequim braceja n’umas andas;
Os cherubins do lar fluctuam nas varandas;
Ás portas, em cabello, enfadam-se os logistas!
Vasam-se os arsenaes e as officinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E n’um cardume negro, herculeas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.
Vem sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, á cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.
Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã á noite, a bórdo das fragatas;
E apinham-se n’um bairro aonde miam gatas,
E o peixe pôdre géra os focos de infecção!
…Continua!
Cesário Verde
Cesário foge pelos herbanários
Cesário andava na cidade com plantas
silvestres metidas na cabeça
Irrompiam-lhe nas calçadas no repuxo das fontes
no grito das varinas no trote das patrulhas
Ninguém sabe contudo que em fidelíssimo segredo
deixou outro livro do qual Silva Pinto nada soube
Nem o Caeiro da planta é uma planta é uma planta
que se apanhasse fechava-o à chave na arca
para girândolas futuras dos casmurros das Universidades
Mas nada de suspense O livro é apenas um herbário
todo rechunchudo de coisas trivialíssimas
como a receita para lavar manchas de amora nos bigodes
ou de como arrancar sem dor cucos de tojo que um dia
lhe pegaram uma coceira dos infernos Depois há folhas
e folhas amarelecidas de chuvas-de-oiro mongaricas
urzes torgas estevas-dos-saloios sarças
alecrins alfenas lentiscos e loendros
Um nunca acabar Ao lado de um esparto
a nota: tenho o pulso como um cajado de pastor
e meus dedos amadurecidos como um céu de Verão
Assim se sentimentaliza um ocidental
Confiar como? Se quando menos se precata
salta ou voa sobre a Dor humana
e as marés de fel como um sinistro mar?
Folhear o herbário é vê-lo como abria as portas
A toda a moscaria É vê-lo esquecer-se da Cólera
E da Febre Ver com deixava que a terra lhe marinhasse
Como um vinho de fogo pelo exangue corpo acima
E ver isso é bom Admirar-lhe os ouvidos
encostados ao sol à escuta que os estames
e pistilos se pusessem a ferver O pólen
a descer o corrimão da luz até cobrir de um certo oiro
a sombra pisada da sua melancolia O vinho
a espirrar numa chuva muda de palavras
Coisa estranha: o cântico de um homem
expresso em folhas secas caules flores
breves notas num herbário como: é meu irmão
o entrecasco de sobro bom para a taninagem
As maçãs de espelho não andam bem empapeladas
Fica-lhes mal o verde e a serradura
Alexandre Pinheiro Torres in O Ressentimento dum Ocidental, Moraes editores, col. Círculo de Poesia, 1981











