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22/04/2014

O ÓDIO AO PÃO

“Sade não gosta do pão. A razão é duplamente política. Por um lado, o Pão é emblema de virtude, de religião, de trabalho, de esforço, de necessidade, de pobreza, e é como objecto moral que deve ser desprezado; por outro lado, é um meio de chantagem: os tiranos escravizam o povo ameaçando tirarem-lhe o pão; é um símbolo de opressão. Por isso, o pão sadiano é um signo contraditório: moral e imoral, condenado no primeiro caso pelo Sade contestatário e no segundo pelo Sade republicano.
                Todavia, o texto não pode limitar-se ao sentido ideológico (mesmo contraditório): ao pão cristão e ao pão tirânico, acrescenta-se um terceiro pão, um pão «textual»; este pão é uma «amálgama pestilencial de água e farinha»; como substância faz parte do sistema propriamente sadiano, o corpo; é suprimido da alimentação dos serralhos porque produziria nos indivíduos digestões impróprias à coprofagia. Assim giram os sentidos: carrossel de determinações que não pára em parte alguma e de que o texto é o movimento perpétuo.”

Roland Barthes, “Sade, Fourier, Loiola”, pp. 126-127, Edições 70, LX, 1999. Trad. Maria de Santa Cruz