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08/09/2018

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Gerez, 8 de Setembro de 1942 – Passeio no jardim botânico. Cedros, acácias, palmeiras, eucaliptos, e tudo me pareceu mais ou menos bem. Mas de repente surgiu qualquer coisa a perturbar a harmonia. Vi melhor, e era uma Ginkgo Biloba, que estava ali, trémula, delicada, aflita, como uma deusa verdadeira num templo falso de exposição. Aterrei-me. Sou assim: diante de uma bananeira, duma araucária, ou de qualquer outra planta assim quente e distante, sinto-me em paz. No meu sangue, os Incas, os Aztecas, os Guaranis, os Hotentotes, os Senegaleses, e todas as outras raças de que a história seiscentista reza, estão de facto conquistadas. Mas, com respeito aos Japoneses, sinto que o tiro do Zeimoto não chegou. Por isso, sempre que me aparece diante dos olhos um leque ou uma árvore assim, a sugerir outra arquitectura, outra música, outra pintura e outra alma, é como se visse o demónio em pessoa diante de mim.”

Miguel Torga, “Diário II” 3ª ed. Revista, pp. 64-65, Coimbra Editora, 1960.

05/09/2018

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S. Vicente, 5 de Setembro de 1943 Um desgraçado com a doença de Ayerza. Que tristeza deve ser ligar o nome a uma coisa destas! Sorte os astrónomos, que dão o seu a estrelas!

Miguel Torga, “Diário III”, pág. 17, 1954, Coimbra.

28/08/2018

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Coimbra, 28 de Agosto de 1944 Ontem uma tarde pavorosa, com raios de quilómetros e graniso de arrátel, e hoje uma manhã calma, doce, fresca e conciliante. Uma paz tão completa em tudo, uma serenidade tão autêntica do céu e da terra, que até as próprias couves destroçadas dos quintais se esforçam para disfarçar as comprometedoras lenhaduras do corpo.
E foi esta hipocrisia da natureza que me estragou os nervos. Os coriscos, embora lhes tivesse, como sempre, um terror vergonhoso, aceitei-os; a pedra, embora uma mais desabrida me tivesse magoado, aceitei-a também. Mas este sorriso sonso do cosmos, irritou-me. Achei-o indigno de uma força que pode abanar montanhas e secar mares. Tive a impressão de que estava a ver todas as tartufices dos homens abençoadas e copiadas por Deus.

Miguel Torga, “Diário III”, pp. 79-80, 1954, Coimbra.

25/08/2018

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Gerez, 25 de Julho de 1943 Aqui apresento ao leitor benévolo o João Cantador, ou seja o Nijinski do Minho. Nasceu em Rio Calvo, nunca foi vencido em desafios de cavaquinho e de malhão, funda na Bíblia as suas réplicas, e é de verdade um bailarino extraordinário único, que só a nossa incultura consente se perca por estas serras a embebedar-se com vinho verde.

Miguel Torga, “Diário III”, pág. 13, 1954, Coimbra.

24/08/2018

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Gerez, 24 de Agosto de 1942 – Mas porque não deixa você de escrever durante uma temporada, para descansar? – perguntava-me hoje alguém.
– Porque era a mesma coisa que um crente deixar de rezar um mês ou dois, por higiene.”
 
Miguel Torga, “Diário II” 3ª ed. Revista, pág. 58, Coimbra Editora, 1960.

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Monte Real, Agosto de 1938, Sexta Uma semana inteira a olhá-la muito em segredo para que nem ela mesmo soubesse que só a cor dos seus olhos enchia a minha solidão. E hoje, quando entrei na sala, tinha o noivo ao lado! O que depois o pobre do violinista fez para me consolar! Até a Viúva Alegre tocou!

Miguel Torga, “Diário I”, pág. 72, 1941, Coimbra.

22/08/2018

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Arrouca, 22 de Agosto de 1945 A moldura vazia de um Murillo roubado, um cicerone que começa a mostrar um orgão de 1.200 vozes e acaba por levar a gente a uma fábrica doméstica de murcelas, e a princesa D. Mafalda num túmulo de prata, muito reconfortada sobre cochins.
– Está conservada… – insinuei eu, a olhar irònicamente a cera da cara e da mão.
E o funcionário, espicaçado nos seus brios, esclareceu:
– Foi retocada… Autênticos, são só os dentes, as pestanas e as unhas…
Diante desta côrnea e calcárea declaração, ainda cuidei que uma devota que resava ao lado estremecesse. Mas não. A fé pode muito. Tanto, que nem era preciso a igreja ter o trabalho de conservar as pestanas, os dentes e as unhas originais da santa…

Miguel Torga, “Diário III”, pág. 111, 1954, Coimbra.

17/08/2018

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Gafanhas, Aveiro, 17 de Agosto de 1944 Este Portugal é assim: meio natural, meio segregado. O natural é de pedra, duro, onde o sal das lágrimas e do suor consegue abrir uma cova plantar uma vide; o segregado é de bosta de gente e de ovelhas, de sargaço e mexilhão, e é roubado aos ribeiros e ao mar.
E há quem tenha coragem de parasitar isto!

Miguel Torga, “Diário III”, pág. 77, 1954, Coimbra.

15/08/2018

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Caldelas, 15 de Agosto de 1945 O Japão pediu a paz. O imperador, na sua qualidade de Deus, resolveu neutralizar pela mansa a bomba atómica. Os seus súbditos, porque acreditam nele, desataram a abrir a barriga, que é um fedor. Ele, felizmente, é que não tem em quem acreditar, e fica.

Miguel Torga, “Diário III”, pág. 110, 1954, Coimbra.

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Figueira da Foz, 15 de Agosto de 1939 Leitura das cartas de Lawrence. Grande bicho! Mas quando falava com entusiasmo da sua coragem de solidão, fui atacado à má-cara:
– O Lawrence era como muitos sujeitos, que se dizem auto-suficientes, mas acabam sempre por acrescentar em post-scriptum: – ...Não venha, não é cá preciso, mas, se quisesse vir, seria a maravilha das maravilhas...

Miguel Torga, “Diário I”, pág. 104, 1941, Coimbra.

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Monte Real, Agosto de 1938, Quarta É preciso dizer isto. É preciso fazer esta confissão, mesmo que a posteridade depois desista desta lápide. É preciso dizer que li hoje de enfiada dois romances, dum tal Sr. Amstrong, e que gostei. E acrescentar que tinha ao lado, interrompida, A Luz de Agosto de Faulkner.

Miguel Torga, “Diário I”, pág. 72, 1941, Coimbra.

09/08/2018

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Altar de Cabrões, 9 de Agosto de 1944 Estou a 1536 metros, perto do céu, a ver o Barroso, o Marão, a Peneda, a Serra Amarela e o Lindoso. Estou sentado num marco que separa Portugal de Espanha, mas o sítio chama-se Altar de Cabrões e foi, como se vê, o olimpo de majestades cornudas, a ara de alguns daqueles sagrados deuses lusitanos, de que só restam nomes e cascos. Cada vez sei menos de rezas e de santos. Mas quando pressinto pègada do velho Endovélicos, tenho logo vontade de me prosternar e benzer. O catolicismo, sem o Cristo querer, encheu este mundo de cruzes e água benta. Ora os nossos patrícios deuses de chifres eram portadores de uma virilidade mágica, que não nega nem degrada a natureza. Nada de agonias lentas em madeiros de cedro. Água, frutos, sol, e uma divindade fundamentada na verdade feiticeira das coisas.

Miguel Torga, “Diário III”, pág. 77, 1954, Coimbra.

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S. Vicente, 9 de Agosto de 1942Manon Lescaut. Se alguém for capaz de me mostrar um dia um romance francês com uma mulher honrada, um homem honrado, e meia dúzia de vizinhos honrados, dou-lhe um doce.”
Miguel Torga, “Diário II” 3ª ed. Revista, pág. 53, Coimbra Editora, 1960.

07/08/2018

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Monte Real, Agosto de 1938, Terça Que tristeza isto de a gente escrever! Secos como paus na vida, e sai-nos depois a ternura pelo bico da pena! Comigo é assim. E como ninguém me lê – ninguém dos que eu mais desejava que recebessem ternura de mim (minha Mãe, meu Pai, minha Irmã, uns pobres amigos rudes que tenho na minha terra e uns infelizes que encontro por este mundo) –, fica tudo em letra morta. Hoje todo eu fui uma sede ardente de abraçar um infeliz que calcorreava às apalpadelas as ruas escaroladas da Nazaré. Um dia como uma estrela, aquela maravilha ali para se ver, e o desgraçado cego de nascença! Mas o abraço saiu-me aqui, a tinta.

Miguel Torga, “Diário I”, pp. 71-72, 1941, Coimbra.

05/08/2018

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Monte Real, Agosto de 1938, Domingo Quatro horas num destes comboios portugueses que parecem arcas de Noé. Quatro horas arrumado entre uma canastra de sardinhas e a sua dona, a ouvir o que nunca cudei de ouvir. Quando cheguei ao fim, por fora, era pescador. Por dentro é que fui verificar. Mas não: – Olhei-me bem e, infelizmente, era o mesmo pobre-diabo de sempre, poeta, etc e tal, amarfanhado, mas com ares de Traga-Moiros, quase a pedir desculpa por não ser realmente o homem daquela Maria Cação.

Miguel Torga, “Diário I”, pp. 70-71, 1941, Coimbra.

04/08/2018

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Sete-Pedras, 4 de Agosto de 1942 – (…) Hoje, numa das minhas peregrinações por esta terra portuguesa, que eu amo como um namorado, fui descobrir numa quinta perdida entre milharais e ramadas uma mulherzinha que me fez saltar o coração no peito. A criatura tinha estrume nas mãos, uma rima de netos à volta, os dentes podres, e tudo quanto era preciso para ser dali; mas havia nela um nada indefinido e suspeito que me arrebitou a orelha. Reparei melhor. Penteava o cabelo sem risca, puxado ao alto, andava duma maneira particular, brilhava-lhe nos olhos um sorriso fino, irónico, e falava do Porto como do único sítio do mundo onde a gente se podia lavar à vontade. Com jeito, lá cheguei ao fim – a um cartão que dizia isto:

Carolina Michaëlis de Vasconcelos

Declara que M.R. a serviu durante anos,
É limpa, fiel, e sabe do seu ofício.


Miguel Torga, “Diário II” 3ª ed. Revista, pp. 48-49, Coimbra Editora, 1960.

03/08/2018

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Coimbra, 3 de Agosto de 1939 Se lhe pudesse dizer o que a sua dispersão me aflige, me desanima…
Para mim o artista é uma espécie de animal obstinado, com antolhos, que anda a gemer a vida inteira à roda de um poço, sem ver mais nada, sem acreditar em mais nada, sem lhe doer mais nada.

Miguel Torga, “Diário I”, pág. 100, 1941, Coimbra.

29/07/2018

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Coimbra, 29 de Julho de 1942 – Cada vez mais doente e mais só, a lutar contra este Portugal como um insecto contra a parede do frasco onde foi encerrado. Encho-me de coragem, faço das tripas coração, e subo um centímetro pelo muro acima. Mas escorrego e caio. Não há esforço nem garras que vençam isto. O frasco é de vidro grosso, e absolutamente liso.”
Miguel Torga, “Diário II” 3ª ed. Revista, pág. 36, Coimbra Editora, 1960.

26/07/2018

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Gerez, 26 de Julho de 1943 A máxima desilusão destas curas senti-a eu hoje ao ouvir um velhote dizer isto:
– Quando aqui vim pela primeira vez, as moscas mordiam-me nas pernas; agora mordem-me na careca.

Miguel Torga, “Diário III”, pág. 13, 1954, Coimbra.

11/07/2018

Kehre, khere... Querias?...


Coimbra, 11 de Julho de 1944 É preciso dar uma volta a esta minha poesia ou desanda tudo numa choradeira de funeral. A depuração lírica que tentei não bastou, como se viu. Os motivos foram-se diluindo no regato da emoção, e qualquer expressão pura, que será o êxtase dado numa palavra. Na rua tudo a desfazer-se em água, por exemplo, e eu por dentro da janela a escrever – Chove! A exaltação foi dando lugar em mim a uma morrinha subjectiva, e os grandes motivos de inspiração olham-me de soslaio, desconfiados. Parece que nem o sol me aquece, nem o frio me regela, nem as flores me entram nos olhos. Sem falar nos semelhantes, que devem ler estes versos como eu leio os Haikai japoneses.
Se eu ao menos tivesse paz neste lirismo doméstico, vá que não vá. Mas não tenho. Acabo o poema, e fica-me o coração cheio de fome. Os meus braços nasceram para abranger fraternidades largas, sentimentos profundos, emoções fortes e naturais. Em certos momentos apetece-me, realmente, o sorriso dicreto e ecreto de uma violeta. Mas são pequenos desvios ou distracções na rota aberta dos meus passos.
Bem sei que esta carnificina que me rodeia concorreu largamente para a repressão dos meus sentimentos universais e cósmicos. O choque foi tão brutal, morreram-me tantas esperanças à nascença que. Como um caracol acossado, naturalmente fui fazendo da minha concha o meu mundo. Foram muitas derrotas junta, muitas desilusões seguidas. A minha sensibilidade não estava preparada para enfrentar uma catástrofe tão dura. Criado literàriamente à sombra e Prousts e de Joyces, a arte era para mim um descampado lúdico e pessoal de quermesse. Embora todo o meu ser tivesse protestado desde o início contra esta visão, paradisíaca e privativa, da beleza, a verdade é que nunca tive forças para rever inteiramente a minha posição. Ia cantando as minhas dores e as minhas alegrias, sobretudo as primeiras, às vezes a pensar nas dos outros, mas sem fazer finca-pé nessa solidariedade. Todos os Gides me tinham ensinado que os homens se dividiam em artistas e não artistas, e que os dois grupos não se podiam encontrar na vida. Nem o facto de eu ter certas ideias política me valeu. A lição era peremptória. Tanto quanto possível, o homem e o artista deviam viver dentro de mim em compartimentos estanques. Veio então a guerra. Não a que se contempla agora com os olhos esbugalhados, mas a que ninguém quis ver, e que começou por levar latinidade e cultura dentro de bombas incendiárias às palhotas selvagens da Abissínia… E o sofrimento de milhões de irmãos poderia ser a redenção, se não fosse o peso excessivo de ódio e crueldade que trazia. Espontâneamente, todo eu fui chamado para o campo da comunhão humana, para o terreno chão onde se encontram todos os que sabem que viver é sobretudo amar e ser amado. Mas o cântigo de fraternidade cobriu-se de lágrimas e manchou-se de nódoas de sarcasmo. Escrevi uma Lamentação, quando queria escrever uma libertação. Mas na alma de um poeta nunca se apaga de todo a luz duma esperança. A onda de sangue não foi capaz de submergir em mim uma sede contínua de amor universal. E eu sinto cada vez mais urgente a necessidade de pôr de acordo a minha poesia com a minha razão e o meu instinto.
Rampa e O outro livro de Job eram ferozes de mais, havia neles uma espécie de maceração desumana, de grelha em fogo onde a alma e o corpo se queimavam de desespero, e onde só cabia um homem de cada vez. Tributo e Abismo são tentativas vãs para sair dessa polé de tortura.
Os poemas líricos do Diário foram o primeiro vislumbre de uma beleza objectiva e serena. Mas não chegaram. Perderam-se pelo caminho, mudaram de sinal, e os grandes problemas, que continuavam à espera, vão encontrar na Lamentação uma terra carregada de desânimo e amargura.
E não é isso que eu quero, nem o que a vida quer. Basta de agonias e de masturbações! O mundo luta pela sua redenção, que está perto. Cantem os poetas esta nova manhã!

Miguel Torga, “Diário III”, pp. 70-73, 1954, Coimbra.