22/07/2019

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“Rebeldias de calaceiros trouxeram a língua portuguesa ao ponto em que hoje se encontra. Sempre é mais fácil, para imagens e pensamentos plagiados de segunda mão, aproveitar a expressão já poluída, do que ir ver, nos antigos, como seria que eles os coariam em vernáculo.
Uma das modas actuais é não empregar as palavras no seu sentido preciso; as aproximações dos chamados sinónimos bastam. De aí, naturalmente, a imprecisão e confusão de ideias. O conhecimento exacto da significação das palavras é indispensável à expressão pontual do pensamento. É essencial estudar os clássicos, não só para escrever e falar com elegância, mas, sobretudo, para «saber o que se diz», escrevendo ou falando.
E, então, para alcançar a ponderação, o equilíbrio?
Um livro onde a indignação estruge, crónica, perpétua, sem tréguas: facilmente se lhe apercebe a falta de reflexão, e o interesse pelo estado mórbido do autor substitui-se, pouco a pouco, ao que a matéria tratada devia inspirar. Por fim, enfastia e até os melhores argumentos do polemista se embotam, e os seus mais valentes golpes nem ferem nem causam comoção de espécie alguma.
Na grande maioria dos casos, estes escritores ferozes e furiosos são reaccionários e, portanto, pessimistas…
O pessimista: em pose literária, clamando contra a desilusão que traz o comércio do mundo; contra a miséria e desconsolo desta pobre terra em que vivemos; contra a infidelidade das mulheres, e a traição e abandono dos amigos; nunca lhe acode perguntar e investigar sobre o que a sua própria natureza, física e moral, concorreu para enegrecer um quadro, que, para tantos outros, só tem riso e festas; e se lho perguntam, irrita-se, levando logo à conta de estupidez ou insensibilidade e nem dúvida sequer de que a vida seja outra do que ele a descreve.
Por via de regra, o escritor pessimista foi, em menino, uma inteligência muito espevitada que se embotou, pouco a pouco, no correr dos anos…
Este caso das inteligências precoces!...
Há, com efeito, certos génios prematuros, que deslizam pelo estudo das matérias mais variadas e difíceis, com desembaraço tal e tal aproveitamento que, antes, parecem recordar do que aprender, mas geralmente desaparecem ainda novos.
O tipo mais comum é assim, como vários que conheci pessoalmente: muito esperto, inteligente e espevitado em menino; já, aos trinta, se especializara em gastronomia e, dos quarenta em diante, ninguém lhe arrancava um conceito, uma palavra, uma exclamação, que se não referisse às hemorróidas…
A experiência da vida confirma o aforismo aventado pelos críticos amaros: depois dos quarenta anos, é que é difícil ser inteligente!
Esse fenómeno da obliteração da inteligência (tão viva, em geral, na mocidade) com o andar dos anos é, sobretudo, sensível nas populações germânicas (ou neolatinas?) onde os rapazes são extraordinariamente animados, perspicazes, intuitivos, argutos, audazes, e, quando vão para velhos, descambam na timidez, no obscurantismo, na insulsez, e natural e insensivelmente se alistam na ala dos ultraconservadores.
E é, ali, também, que mais abundam as caras que simulam admiravelmente a inteligência e que surpreendidas, um dia, por acaso, na sua expressão verdadeira, causam pavor pelo abismo de estupidez que desvendam”.
M. Teixeira-Gomes, “2.ª Parte de Miscelânea – Carnaval Literário”, pp-25-27, Livraria Bertrand, 3.ª ed., 1993.


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