28/05/2018

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Coimbra, 28 de Maio de 1942 – O dia foi um boi que morreu aqui ao pé, num lameiro. Andava a lavrar, e de repente caiu redondo no chão. Tiraram-lhe a pele e enterraram-no ali mesmo. A charrua a brilhar em cima da sepultura foi o seu ramo de flores.”
Miguel Torga, “Diário II” 3ª ed. Revista, pág. 36, Coimbra Editora, 1960.

27/05/2018

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Porto, 27 de Maio de 1944 O romance é a vida de relação. Onde não há convívio não pode haver enredos, nem lances. Ora como em Portugal cada um tem a sua toca e a sua pateguice, não há romance. O pobre do Camilo bem quis. Mas era sempre a mesma gente a fazer as mesmas cenas. O que matou aquele grande génio foi nunca ninguém o convidar para tomar chá.

Miguel Torga, “Diário III”, pág. 58, 1954, Coimbra.

25/05/2018

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“Uma accasião, em Paris, entrei numa barraca de feira onde se exhibia uma phoca e uma mulher de barbas. A mulher era um homem, de vestido decotado, a phoca era um cão, coberto com a pelle do animal em questão, e nadando num pequeno tanque. Uma coisa sem graça. Quando sahi, o dono da barraca, dizia, apontando-me: «Perguntem a este senhor se vale ou não a pena, vêr estas maravilhas! Senhores, senhores, entrae, entrae!» Não posso explicar o motivo, porque me teria sido desagradável desmentir esse homem. Era sobre sobre esse facto que elle contava. Succede o mesmo com os desilludidos da lua de mel: não querem destruir o sonho dos outros.”

Leão Tolstoi, “A Sonata de Kreutzer”, pág. 47, Guimarães & C.ª Editores, trad. Maria Benedicta Pinho, s/d.

23/05/2018

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Coimbra, 23 de Maio de 1942 – No meio desta desgraçada guerra, toda aço, ferro, bombas, e coisas técnicas onde entra tudo menos uma instintiva e sanguínea vontade de combater, um lampejo de esperança: a notícia nos jornais de que na Austrália, entre a tropas americanas, existe um homem, um índio, que ouve o som do aviões inimigos antes dos aparelhos de escuta!”
Miguel Torga, “Diário II” 3ª ed. Revista, pág. 34, Coimbra Editora, 1960.

20/05/2018

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Lorvão, 20 de Maio de 1944 Como tudo se desatualiza, perde o sentido, se torna anacrónico e monstruoso! Na Idade Média, e mesmo depois, casarões destes, grades destas, ermos destes, eram moradas, atributos e lugares de salvação. A tísica e a brancura de uma monja significavam estigmas de santidade e de triunfo, e a história, a filosofia e a moral só tinham que partir daí para explicar, justificar e louvar. Hoje, cada ser humano enclausurado nestas celas gradeadas, a pagar renda ao Estado, é um condenado à morte por uma sociedade reles, que não pode encontrar em nenhuma consciência ou tribunal um sentimento de defesa.

Miguel Torga, “Diário III”, pág. 51, 1954, Coimbra.

19/05/2018

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Um debate "Animado" (mas não foi a Porto Lazer), no Palácio da Bolsa em 14_05_2018 que quase não foi noticiado. Numa iniciativa da união de freguesia do centro histórico do Porto. Viu-se a indignação dos cada vez menos moradores 'autóctones' contra os despejos derivados desta especulação imobiliária, ganância, e turistificação selvagem...

16/05/2018

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Coimbra, 16 de Maio de 1944
RAÚL BRANDÃO
Ao lado das grandes figuras realizadas, cuja sombra, de tão cerrada, nos arrefece, há uma outra categoria de artistas, que o são deveras, debaixo da copa de quem a gente refresca e medita. Insisto em que se não trata de artistas menores, ou coisa assim. Quando se diz artista, não há escala. Tão grande é, especificamente, Shakespeare como Baudelaire. Apenas um tocava num piano sem fim, e o outro num violino.
Destes homens assim, cujo poder material só vai à gaita feita dum caule de cevada verde, há aqui em Portugal imensos. Raúl Brandão, que é desses, é para mim dos mais atraentes e dos mais fecundos.
A obra realizada em tamanho, em Lusíadas, em Comédia Humana, em Sinfonias, destrói a obra por acabar, sonhada, esboçada, nimbada duma preguiça de promissão. As Berlengas que Brandão no deixou, as maravilhosas e nunca decifradas Berlengas que todos hoje conhecemos, não são as dos Pescadores. São o próprio assombro do artista, deitado nas rochas de Peniche a olhar os brumosos penedos. Um romance articulado da Candidinha talvez fosse eu, sei lá!, um grande livro. Mas não seria tão sugestivo como essa balbuciada Farsa que nos deixou, cósmica, protoplásmica, com portas para todos os horizontes da vida, e sem destino nenhum. Sempre que pego num livro de Raúl Brandão, estremeço. Como não sou capaz de o levar ao fim, como não é capaz de me possuir inteiro, parece-me sempre que toquei no grande corpo humano do autor, informe, mansarrão, aparentemente morto, e onde um raio de luz desencadeava uma tormenta. Já na estante, cada letra do título é ainda um dos seus olhos azuis de pescador, meigos e lancinantes, a contemplar-me.
As suas obras mais falhadas são para mim as melhores. As Memórias, por exemplo. De O Doido e a morte, obra perfeita, a gente ri-se e gosta, certamente. Das Ilhas Desconhecidas, a gente lê e gosta também. Dos Pescadores, a gente relê e gosta mais. Mas das Memórias, do Húmus, dos Pobres e do resto a gente não gosta. Fica com aquela massa imensa cá dentro para ir articulando pela vida fora de seu vagar. Porque uma coisa é um livro falhado e condenado à morte, e outra um livro falhado e condenado à vida. Há lá coisa mais palpitante de seiva, de eternidade, do que certos bosquejos de Raúl Brandão, a arfar como ondas sem vento num mar de emoção!
O grande sonhador não foi capaz de contar uma história direita. Não tinha imaginação romanesca, nem sabia. Mas cada esforço, cada passo para nos dizer a palavra específica sobre uma figura, é um alanceado desespero de ternura e trágica beleza.
Não é preciso que Raúl Brandão, ou qualquer outro artista assim, fique no primeiro lugar da história da literatura. Um primeiro lugar ao lado de Frei Heitor Pinto ou mesmo de Sá de Miranda interessa pouco. Mas já não é o mesmo ficar ao lado da sua própria evidência, tentador como um fruto imaturo.

Miguel Torga, “Diário III”, pp. 43-45, 1954, Coimbra.

12/05/2018

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“(...)
Hoje falarei do Marrão.
Morreu o portador desta alcunha há um bom par de anos nas costas de África, mas ainda não está esquecido. Aliás, os mais simples casos passados há vinte, trinta ou mais anos, contam-se aqui como do tempo que corre. Os antigos têm poucas distracções: não entraram para as fábricas de Gouveia e Moimenta, como os novos, não se dividiram nem se dispersaram, não mudaram de vida. Curtem o seu reumatismo e as suas memórias. Memórias vivas, nunca alteradas, mas apesar de tudo sem aquele fartum de velhas que enfada o ouvinte. Parece-me a mim… Já me tem calhado perguntar, com o devido respeito: Isso passou-se?… E obter de resposta: Deixe-me cá ver: ô! Inda eu não tinha ido prà América; ou já tinha voltado da América; a minha Teresa inda não era nacida… Em resumo, à roda de uns trinta anos. Porém os fins do Marrão são mais recentes. Morreu degredado, comido pelos pretos, constou cá na aldeia. Mas ninguém o chorou, nem a mulher, uma coxa, a única do povo, de modo fino, cauteloso e sabido.
O Marrão foi casado, como se vê, e teve filhos de que hoje só resta um. É torto, como o pai, mas ainda não tem cadastro oficial. É bruto, mal falante e sombrio, a prometer sempre que há-de vir a morrer degredado lá por coisas a que o obriguem… Serão ditos do vinho, ou o sangue maligno do pai que ainda bula nele. Porém, os companheiros acomodam-no e ele não vai além das promessas. A vida do Marrão era digna de ser contada. Mas por quem? Por algum dos seus parelhas da serra. Pelo Maurício, pastor que bastas vezes o defrontou, homem firme, incapaz de dar costas a outro. Mas o Maurício, que tantas referências lhe faz, remata o assunto sempre mais ou menos deste jeito: Foi um miserável, um desgraçado! Já pagou e nós inda estamos a dever.
(…) “

Irene Lisboa, “Crónicas da Serra”, pp.12-13, Livraria Bertrand, Lisboa, s/d.

10/05/2018

Pormenores de "Sob o Olhar de Neptuno"...






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Coimbra, 10 de Maio de 1939 Não, não trouxe da aldeia a paz do arado que trazem todos. Conheço alguns que investigam, medicam, litigam, professam, com a serenidade e a paz com que os pais abrem regos de batata na terra. Eu não. Eu trouxe de lá a angústia, tortura, crítica negativa a tudo. A razão não a sei. Talvez sina, talvez desilusão crónica que se me colou à pele ao nascer...

Miguel Torga, “Diário I”, pág. 96 , 1941, Coimbra.