30/03/2018

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(...)
Estes homens de São Paulo,
todos iguais e desiguais,
quando vivem dentro dos meus olhos tão ricos,
parecem-me uns macacos, uns macacos.

Mário de Andrade, op cit “Paulicéia Desvairada”, Poesias Completas / MárIo de Andrade. Edição Crítica de Diléa Zanotto Manfio, Editora da Universidade de São Paulo. 1987.

24/03/2018

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São Martinho de Anta, 24 de Março de 1940 Tentativa fustrada para ir às Terras do Preste Baçal. Bragança é longe. Além disso, o carro, apenas atravessou o distrito de Vila Real, pôs-se a refilar, a refilar, até que parou de todo.
E aí vou eu por aqueles ermos, doido, aos gritos, sob um sol africano, a pedir gasolina às fragas e aos sobreiros. De regresso, com um regador dela, ordenhada a seis quilómetros de distância do fundo dum bidão providencial, alagado em água, dou de caras com o motor esventrado pelo companheiro.
E aquela miséria mecânica, ali ao sol como os figos, tirou-me quantas ilusões em nome da humanidade eu tinha posto nos cilindros e nas rodas. Evidentemente que uma dedada singular imprimira no aço e no latão a marca do primeiro arfar da vida. Mas a coisa era cosida com parafusos a mais. Não havia naqueles ferros a interpenetração de tudo, a mágica ligação de tudo, que faz dum corpo humano um milagre de resistência e adaptação.Lá estavam realmente as causas da paragem inesperada: a bóia solta, a gasolina entornada, e o coração do carro sem alento. Mas um homem, mesmo estendido e aberto numa mesa de pedra, era outra coisa. Não tinha nunca aquele ar mesquinho e ridículo de brinquedo estragado.

Miguel Torga, “Diário I”, pp. 139-140, 1941, Coimbra.

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"Cacei-me com a boca na botija a pensar numa tristeza minha como se fosse um poeta. Mais um perigo a evitar, este de considerar a tristeza um tesouro particular de que se fala com respeito e ternura, Se não tomo cuidado perco-me completamente. Fico para aí  escrever versos sobre os meus furunculozinhos mentais e a impingi-los aos outros como sendo obras duma importância fundamental."

Luis de Sttau Monteiro, “Um Homem Não Chora”, pp. 53-4, Ática, Lisboa, 1963.

21/03/2018

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“(…)
Eu feito homem da gravata às riscas – Pois invejo-lhe a sua posição. Também gostava de ser independente.
O Sr. Pomposo – Pelo que lhe ouvi dizer pareceu-me que já o era.
Eu feito homem da gravata às riscas – Sim… dentro da medida do impossível…
O Sr. Pomposo – Dentro da medida do possível, quer V. Ex.ª dizer…
Eu feito homem da gravata às riscas – If you say so.
O Sr. Pomposo – Peço-lhe o especial favor de se não usar palavras estrangeiras. Considero tal hábito antipatriótico. Uma pessoa esclarecida como V. Ex.ª deve auxiliar-me nesta minha campanha em favor do aportuguesamento da língua.
(…)
Felizmente o elevador chegou ao fim da viagem. Saímos todos para a rua. Um «chauffeur» bem fardado abre a porta do carro do sr. Pomposo e este pergunta se nos pode ser útil ou se desejamos que nos leve de carro a qualquer sítio.
Por amor de Deus, meu amigo. Moramos aqui mesmo. De qualquer forma nunca entro num automóvel.
Porquê?
Porque o automóvel não é uma invenção portuguesa. Trata-se dum autêntico estrangeirismo. Pessoalmente sou pelos meios de transporte tradicionais portugueses: a mula, o coche e a cadeirinha. V. Ex.ª, que é uma pessoa esclarecida, deveria auxiliar-me na minha campanha pelo aportuguesamento dos meios de transporte, pelo regresso às velhas tradições que tão bem serviram os nossos avós. Não acha?

Luis de Sttau Monteiro, “Um Homem Não Chora”, pp. 32-35, Ática, Lisboa, 1963.

17/03/2018

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Leiria, 17 de Março de 1941 Outro dia de cartas e críticas do José Agostinho de Macedo, o melhor que saíu da mãos do frade. Muito aprendeu o Camilo com este homem!
Pois é verdade: o dito padre Lagosta tem missivas a uma freira trina e pareceres sobre certos livros que são obras primas de prosa humoral. Como coisa sanguínea, grossa, de ferroadas e arrotos, pouco se escreveu em Portugal tão vivo e tão lapidar.

Miguel Torga, “Diário I”, pág. 183, 1941, Coimbra.


13/03/2018

INSCRIÇÕES ABERTAS...


INSCRIÇÕES ABERTAS
Informo que a partir de hoje dou um curso de “literatura” para vitrinistas – designers com Windows em inglês. Sabendo que livros em montras, de qualquer coisa, ficam sempre bem (excepto de livrarias). No meu curso encorajo os alunos a serem mais audazes. A colocarem livros, por exemplo, em montras de talhos. O Duplo do Dostoievsky inserido numa unha de vaca é uma ideia... E não me alongo mais porque abordar-se-á esta e outras ideias no curso.
O que é importante salientar é que mesmo sendo possível comprar livros a 1 euro o quilo é preciso saber o que trazer. Para depois não se ir gastar dois ou três euros naqueles sacos super resistentes, que aguentam vários quilos, só porque não existe nenhuma certeza que trazem os livros certos para a execução da montra. É um desperdício…
Àqueles que compram “monos” com dourados porque acham chique. Eu ensino a distinguir por épocas e estilos.
Com os melhores cumprimentos,
RAR, Porto, 13 de Março de 2018.

p.s. as inscriçṍes terminam no final do mês. 
 
Livros em montras de artigos sanitários. Outra boa ideia. Quem é que nunca leu na casa de banho?!...

Livros em montra de joalharias e pechisbeques...

Livros em montra de óculista...

Livros em montra de especiarias gourmé

Livros em montra de garrafeira...

12/03/2018

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Soube que V. vem por hábito aqui às 2 menos quarto. Não poderei estar. Despeço-me de si até breve. Agradecido. Tenho pena de não ter encontrado segunda vez com Mznuel de Oliveira.
Interessa-me encontrá-lo na volta. Ele é indispensável no Cinema Novo (português). Será na minha volta aqui a continuação da nossa conversa. Peço-lhe me despeça dele. Um abraço. Vou contente com tudo quanto aqui se passou comigo no Porto. A primeira semente está posta na terra boa. Levo boas notícias da gente nova daqui para a gente nova de lá.
Dois sítios diferentes para gente igual é excelente. […]
Ainda tenho este quarto de guardanapo para lhe pôr o meu serviço ao que lhe preste lá ou onde seja. Não foi novidade absolutamente nenhuma para mim que o Alberto Serpa é um fixe e que o é também para o
almada

Porto 15-11-50







Desenho, escrevo, esculpo, vitralizo, danço, teatralizo, cinematografizo e, se a minha arte não falar por qualquer destas vozes, que havemos nós de fazer? Façam de conta que eu já morri – e que deixei essas obras póstumas…”

Almada entrevistado por Luís de Oliveira

A Engomadeira




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10/03/2018

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Coimbra, 10 de Março de 1943 – Dois chineses na sua algaraviada, e esta ideia que me ocorreu:
Que, apesar da dificuldade aparente, aprender a língua de Confúcio não deve ser coisa de atrapalhar ninguém. O homem, embora às vezes pareça o contrário, é modesto. Inventa dois mil caracteres, e serve-se apenas de vinte ou trinta. Descobre a metafísica, o cálculo diferencial, a lógica formal, a botânica, mas fala cotidianamente de coisas triviais. De pão, de vinho e de pantufas.”

Miguel Torga, "Diário II", pág. 136, Coimbra.

03/03/2018

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Leiria, 16 de Fevereiro de 1940 É um casal de relógios de parede, dos que sempre foram feios.
Pela manhã, haja o que houver, à mesma hora, passa ele por esta rua para o escritório. Vai almoçar ao meio-dia. Volta à uma. E às seis em ponto sai outra vez.
Nem vale a pena dizer-lhe o nome. É só mais um dos milhões iguais que há por este mundo, que o quotidiano determina, como o sol os heliotrópicos. Não sei, é certo, o que se passa lá por dentro, onde às vezes os hábitos e a monotonia doem muito. É possível que tenha um sonho, que tenha um drama, que tenha consciência desta agonia universal de que ele próprio, queira ou não queira, compartilha. Mas é possível também que não saiba nada disto, que não sinta nada disto, que a sua vida interior seja um ir às nove para o escritório e um sair às seis do escritório. Há tempos apareceu casado. Mas viu-se logo que o casamento lhe acontecera, como acontece às vezes apanhar uma carga de água a caminho do emprego.
A mulher é uma pessoa baixa, pálida, com sobrancelhas muito carregadas. Uma pura máquina de cozinha, que acende o lume às dez, lava a loiça à uma e um quarto, limpa o fogão depois, esfrega a seguir, e acende novamente o lume às cinco e meia.
Não namoram. Ele lembrou-se dela no intervalo do escritório, ela já sabia que com alguém havia de ser, e um dia, sem saberem como, aí estavam de casa e pucarinho, a comer o almoço. Uma vizinha, a princípio, ainda tentou meter um bocadinho de graça naquilo. Mas terra assim não dá mais. O escritório às nove, o lume acesso às dez, e, fora disto, um vazio que seca tudo. Nem sequer uma cria!
– Filhos, para quê?!
Dizem isto, e nenhum deles estremece.
Tudo quanto a vida consegue exprimir ali, em beleza, graça e perfume, que se veja, está resumido num cravo enigmático e viçoso que ele usa perpètuamente na lapela.

Miguel Torga, “Diário I”, pp. 129-131, 1941, Coimbra.