29/08/2017
27/08/2017
Encadernação...
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FACTOTUM:
Há o Teatro D. Maria, que se não apresenta cem quadros dá-nos em
cada melodrama cem mortes, duzentas choradeiras e quatrocentos
reconhecimentos!
COMETA:
Belo, belo! Venha ao Teatro D. Maria! Eu sou doido por emoções
fortes! (Música)
1.º
NOTICIARISTA: Silêncio, aí o tem justamente num lance bem patético,
numa cena de reconhecimento!
DAMA
(entra em cena espavorida, com os cabelos caídos): É
possível? Meu pai?... Ele?... Ele?... E o meu coração não me
dizia nada… (Indo lançar-se-lhe nos braços) Ah!... Meu P a
a a a a i!
PAI
(correndo da direita com os braços abertos): Minha F i i i i
lha!
AVÓ
(idem da direita): Minha neta!
NETA
(idem da esquerda): Minha Avó!
DAMA
(idem da direita): Meu esposo!
ESPOSO
(idem da esquerda): Minha Esposa!
(Saindo
ao mesmo tempo de diversas partes, caindo todos nos braços uns dos
outros e soluçando sobre o ponto, este abre um guarda-chuva)
TODOS
(dando muitas palmas): Bravo! Bravo! Bravo!
COMETA
(limpando os olhos): É bonito, mas sensibiliza de mais!
PAI:
É tarde meus queridos filhos! Agora que afinal sou venturoso não
quer a desventura que eu sobreviva à minha ventura! (Cambaleia)
TODOS:
Bravo! Bravo!
COMETA
(ao mesmo tempo): Bravo! Que pureza de linguagem!
PAI:
Sinto-me desfalecer… um veneno fatal percorre as minhas veias…
Adeus, eu morro!
TODOS:
Envenenado?! Ah!
PAI
(ansiando): Sim, meus filhos, mas vou morrer lá p’ra dentro
para não entulhar a cena! (Sai aos pulinhos)
TODOS:
(os de D. Maria II): Oh! Não, não; não lhe devemos
sobreviver!
(Tiram
frascos d’água-de-colónia e garrafinhas caricatas, que põem à
boca, bebem e vão para dentro tragicamente, figurando que se
envenenaram.)
26/08/2017
21/08/2017
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“Não
há poema sem acidente, não há poema que não se abra como uma
ferida, mas também não o há que não fira”
Jacques
Derrida, “Che cós'è la poesia? Angelus Novus, Coimbra, 2003.
19/08/2017
17/08/2017
Biopolítica...
"(...) o escritor, há cem anos, dirigia-se particularmente a uma pessoa de saber e de gosto, amiga da eloquência e da tragédia, que ocupava os seus ócios luxuosos a ler, e que se chamava «o Leitor»: e hoje dirige-se esparsamente a uma multidão azafamada e tosca que se chama «o público».
(...) a ideia de leitura, hoje, lembra apenas uma turba folheando páginas à pressa, no rumor de uma praça."
(...) a ideia de leitura, hoje, lembra apenas uma turba folheando páginas à pressa, no rumor de uma praça."
Eça de Queiroz, “Notas Contemporâneas”, pág. 96, ed. Livros do Brasil, Lisboa.
"Quem lê hoje Homero? Quem lê Dante? Qual de vós, qual de nós leu a «Odisseia» e «Os Sete diante de Tebas», e Sófocles, e Tácito. e o «Purgatório», e os dramas históricos de Shakespeare, e até Voltaire, e até Camões? Decerto têm-se opiniões sobre o «nosso estilo de Tácitos», e a «ironia de Aristofánes»; mas essas sentenças transmitem-se, já feitas, para uso da eloquência, um pouco apagadas e cheias de verdete, como os patacos que vão de mão em mão."
Eça de Queiroz, “Notas Contemporâneas”, pág. 93, ed. Livros do Brasil, Lisboa.
15/08/2017
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“Claro
que vai sendo difícil saber-se o que é uma literatura (uma arte)
revolucionária, qual o seu grau de incidência num contexto social
marcado pelo predomínio cultural e económico das classes burguesas.
É nestas, já se sabe, que se recrutam os consumidores “cultos”,
ávidos de “surpresas”, abertos às “inovações”. Aquela
burguesia insatisfeita culturalmente mas muito instalada nas suas
prerrogativas económicas devora tudo, inclusivamente o que a
“contesta”. Este o drama das estéticas ditas de “vanguarda”,
cedo transformadas – e conformadas – em novos academismos. Elas,
por si só, não constroem um novo sistema cultural: muito pelo
contrário, dão injecções de vitalidade ao sistema estabelecido.
Julgando destruí-lo, prolongam-no. Querendo-se bombas, verificam-se
(quando dão por isso) bichas de rabiar – atrevidas, barulhentas,
divertidas, inofensivas.”
Vitor
Silva Tavares, “Notas para um Prefácio (a Haver) com Pedido de
Posfácio”, pág. 14, ed. Viúva Frenesi, Lisboa, 2017.
14/08/2017
“Meu Querido Mês de Agosto”...
“Quando
chego a Portugal, depois de um ano de Inglaterra – além de tanta,
tanta, coisa que estranho – há uma coisa que me deslumbra, e outra
que me desola: deslumbra-me as fachadas caiadas, e desola-me a
população anémica. Que figuras! O andar desengonçado, o olhar
mórbido e acarneirado, cores de pele de galinha, um derreamento de
rins, o aspecto de humores linfáticos, a passeata triste de uma raça
caquética em corredores de hospital: e depois um olhar de vadiagem,
de «ora aqui vou, sim senhor, de madricice, olhando em redor
com fadiga, o crânio exausto, e a unha comprida, para quebrar a
cinza do cigarro, à catita.”
Eça
de Queiroz, “Notas Contemporâneas”, pp. 38-9, ed. Livros do
Brasil, Lisboa.
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12/08/2017
07/08/2017
02/08/2017
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