31/05/2016

Suetônio...

"Festina lente é um oximoro latino que significa "apressa-te devagar". É atribuída a Augusto imperador romano, e quer dizer que o trabalho executado devagar é melhor do que quando feito apressadamente.

A expressão " apressa-te devagar" na verdade quer dizer: " Faça o seu trabalho de maneira rápida, porém não apressada. A diferença é que na primeira modalidade, temos prazo a cumprir, isso não nos impede de desenvolver a tarefa de maneira curada, com precisão e máxima atenção. Na segunda modalidade o indivíduo desenvolveria a tarefa atabalhoadamente só se importando em terminá-la o quanto antes sem levar em consideração o produto final acabado".

Festina lente é o slogan da fábrica de relógios Festina."

fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Festina_lente

27/05/2016

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QUEM FOI O ARQUITECTO QUE FEZ ESTE CAFÉ
(De novo em Lisboa. Sensação do mundo desarrumado.)

Quem foi o arquitecto
que fez este Café
tão longe da Natureza
e tantos homens de pé?

Criado: põe esta gente na rua!
E abre um buraco no tecto
que eu quero ver a lua.


José Gomes Ferreira

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Deixo-o solto, e vai para o prado, e acaricia levemente com o focinho, mal as roçando, as florinhas róseas, azuis-celeste e amarelas... Chamo-o docemente: «Platero», e ele vem até mim com um trote curto e alegre que parece rir em não sei que guizalhar ideal...”

Juan Ramón Jiménez, “Platero e Eu”, pág. 9, Livros do Brasil, s/d, Lisboa. Trad. José Bento.

26/05/2016

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A FLOR E A NÁUSEA

Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Carlos Drummond de Andrade

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24/05/2016

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THIS IS THE FIRST THING

This is the first thing
I have understood:
Time is the echo of an axe
Within a wood.


Philip Larkin

23/05/2016

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OXFORD SHORES


Quero o bem, e quero o mal, e afinal não quero nada.
Estou mal deitado sobre a direita, e mal deitado sobre a esquerda
E mal deitado sobre a consciência de existir.
Estou universalmente mal, metafisicamente mal,
Mas o pior é que me dói a cabeça.
Isso é mais grave que a significação do universo.

Uma vez, ao pé de Oxford, num passeio campestre,
Vi erguer-se, de uma curva da estrada, na distância próxima
A torre-velha de uma igreja acima de casas da aldeia ou vila.
Ficou-me fotográfico esse incidente nulo
Como uma dobra transversal escangalhando o vinco das calças.
Agora vem a propósito...
Da estrada eu previa espiritualidade a essa torre de igreja
Que era a fé de todas as eras, e a eficaz caridade.
Da vila, quando lá cheguei, a torre da igreja era a torre da igreja,
E, ainda por cima, estava ali.

É-se feliz na Austrália, desde que lá se não vá.



Fernando Pessoa

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21/05/2016

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Perguntas-me meu bom amigo, se conheço a maneira de desencadear um delírio, uma vertigem, uma loucura qualquer, sobre estas pobres multidões ordenadas e tranquilas, que nascem, comem, dormem, se reproduzem e morrem. Não haverá um meio, dizes-me de reproduzir a epidemia dos flagelantes ou dos convulsionários? E falas-me do milénio.

Miguel de Unamuno, “Vida de D. Quixote e Sancho” pág. 11, Assírio & Alvim, 2005, Lisboa. Trad. António Mega Ferreira.

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Obrigado Oliveira!

15/05/2016

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"Democritus" de Hendrick ter Brugghen, 1628, Óleo s/ Tela, 85.7 x 70 cm. Rijksmuseum, Amsterdäo.
Recordo-me por vezes do riso louco do duque de Atenas que ria a bandeiras despregadas, um riso louco que durava um quarto de hora e que incomodava a maior parte dos sorridentes convivas (...)”

Stendhal, “Do Riso”, pág. 65, Europa-América, 2008.

 

14/05/2016

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Não podemos viver eternamente rodeados de mortos e de morte.
E se ainda restam preconceitos há que destrui-los.
O dever”
Digo bem
O DEVER”
do escritor, do poeta, não é encerrar-se cobardemente num texto,
num livro, numa revista, donde não mais se libertará, mas pelocontrário sair para fora
para sacudir
para atacar
o espírito público
senão
para que serve?
Para que nasceu?


Antonin Artaud, “Carta Aberta... aos Poderes”, pág. 17, Padrões Culturais Editora, 2009, Lisboa.
  
parte 1
parte 2

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Alberto Giacometti e Jean Genet em Paris (14 de Outubro de 1956)

Tem um modo de falar rude, como se escolhesse a dedo a entoação e os termos mais próximos da linguagem corrente. Parece um tanoeiro.
    ELE – Viu-as em gesso... lembra-se do gesso?
    EU – Sim.
    ELE – Acha que perdem por ser bronze?
    EU – Não. Nada.
    ELE – E ganhar, ganham?
Hesito de novo proferir a frase que melhor se aplica aos meus sentimentos:
    EU – Vai voltar a rir-se. Mas curiosamente eu não diria que elas ganham, mas sim que o bronze ganhou. Pela primeira vez na vida o bronze acaba de triumfar. As suas mulheres são uma vitória do bronze. Sobre o próprio bronze, creio.
    ELE – Seria bom se assim fosse.

Jean Genet, “O Estúdio de Alberto Giacometti”, pág. 22, Assírio & Alvim, 2.ª ed., 1999, Lx.
Trad. Paulo da Costa Domingos 

 
Samuel Beckett e Alberto Giacometti, Paris, 1961
Alberto Giacometti e Samuel Beckett em "À Espera de Godot", 1961, por Georges Pierre


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PARMÉNIDES
Em primeiro lugar, é necessário,julgo, é necessário, julgo eu, que as outras coisas existam de algum modo, porque, se não existissem, não poderiamos falar das coisas.

ARISTÓTELES
Com efeito.

PARMÉNIDES
E quando falamos das outras coisas, subentende-se que essas «outras coisas» são diferentes. Ou não aplicas tu as palavras «outro» e «diferente» à mesma coisa?

ARISTÓTELES
Sim.

PARMÉNIDES
Não dizemos que o que é «diferente» difere de alguma coisa diferente, e o que é «outro» o é em relação a alguma outra coisa?

ARISTÓTELES
Sim.

PARMÉNIDES
Deste modo, para que as outra coisas sejam «outras», deve haver alguma coisa em relação â qual elas sejam «outras».

ARISTÓTELES
Forçosamente.

PARMÉNIDES
Que coisa será essa? Não é relativamente ao uno que ela serão «outras», visto que o uno não existe.

ARISTÓTELES
Não.

Platão,”Paménides ou das Ideias”, Editorial Inquérito, pp. 140-1, s/d, Lx.
Trad. A. Lobo Vilela.



Ao contrário do que diz Vieira, o non não é «terrível». É uma palavra inteira, acabada, por qualquer lado que se tome. Mais brilhante que a afirmação é sempre a negação . Porque a negação é a afirmação que pára no limite dos riscos.

Quem nega, afirma um critério, mas não se responsabiliza pela reconstituição do que esse mesmo critério destruiu. Sim, a negação é sempre mais brilhante que a afirmação. Porque quem apenas nega tem na sua mão a possibilidade de todas as soluções positivas, inclusive, portanto, a de quem, além de negar, afirma.

Vergílio Ferreira, “Do Mundo Original (ensaios)”, pág.25, Livraria Bertrand, 2.ª ed., 1979, Lx.