25/04/2016

Errata...


“– E quando escrevi o meu drama, como eu errei! Era eu então um imitador e um louco para precisar de um terceiro para contar do destino de dois seres humanos que faziam a vida dura um ao outro?...”

Rainer Maria Rilke, “Diários de Malte Laurids Brigge, pp. 20-1, Instituto Alemão da universidade de Coimbra, 1955. Trad. Paulo Quintela.

19/04/2016

...

A CARROÇA DOS POETAS


Arre burro pra Loulé, carregado de café
Arre burro para a Guarda, carregado de mostarda
Arre burro pra Viana, carregado de banana
Arre burro pra Lisboa, carregado
Com os restos mortais
Do Fernando Pessoa
E mais os seus trinta heterónimos
- Nem vão caber nos Jerónimos

A Carroça dos Poetas
Segue à solta a Poesia
E eu vou dentro a recitar
O poema da minha autoria

Meu amor eu gosto tanto
Da forma como tu gostas
Mas por favor anda buscar
As tuas unhas às minhas costas

Sérgio Godinho

18/04/2016

...

“(…) «quando tudo tiver sido dito, fica ainda tudo por dizer» – por outras palavras: é o «dizer» que importa, não o dito – “

André Gorz, “Carta a D.”, ed. Pianola, pág. 56, Lisboa, 2013. Trad. Rui Caeiro.

02/04/2016

The Themersons...


POR DEFINIÇÃO, O ESCRITOR NÃO SABE PARA ONDE VAI E ESCREVE PARA TENTAR COMPREENDER PORQUE ESCREVE


por Alain Robbe-Grillet

                
Ouvimos aqui muitas intervenções altamente interessantes. Mas eu queria afirmar o meu espanto por ter encontrado na boca da maior parte dos oradores soviéticos críticas tão vivas dirigidas às pesquisas da literatura moderna, que se assemelham exactamente às críticas que nos fazem na sociedade burguesa do Ocidente. Aqui, como ali, acusam-nos de «gratuitidade» e de «formalismo». Julgam a nossa arte «decadente» e «desumana». Perguntam-nos: «Porque é que você escreve?» «Para que é que você serve?» «Qual é a sua função na sociedade?»
                Naturalmente, estas perguntas são absurdas. Tanto como qualquer outro artista, o escritor não pode saber para que serve. A literatura não é para ele um meio que ponha ao serviço de qualquer causa. E quando nós ouvimos fazer o elogio desse «bom instrumento» que é o romance do século XIX, esse bom instrumento do qual se acusa o novo romance de querer afastar-se (quando poderia ainda expor ao povo os males do mundo actual e os remédios na moda, ainda que, se necessário, com alguns pequenos melhoramentos, como se se tratasse de aperfeiçoar um martelo ou uma foice…), quando nos enchem os ouvidos com a «responsabilidade» do escritor, somos forçados a responder que estão a troçar de nós, que o romance não é um instrumento e que até, provavelmente, do ponto de vista da sociedade, ele não serve para grande coisa.
                Comprometido, o romancista é-o, certamente – como o são, de qualquer maneira e nem mais nem menos, todos os homens –, no sentido em que ele é cidadão dum país, duma época, dum sistema económico, que vive no seio de hábitos e de regras sociais, religiosas, sexuais, etc. Em suma, é comprometido na medida exacta em que não é livre. E uma das formas particulares – muito virulenta – que toma neste momento a restrição da sua liberdade é precisamente esta pressão exercida pela sociedade tentando-lhe fazer crer que ele escreve para ela (ou contra ela, o que vem dar no mesmo). E aqui temos um caso bastante interessante daquilo que hoje em dia se convencionou chamar alienação.
                Digamos, portanto, as coisas com clareza. Como toda a gente, o escritor sofre as desgraças dos seus semelhantes; pretender que ele escreve para remediá-las é desonesto. O romancista alemão-oriental que declarou, nesta tribuna, escrever romances para lutar contra o fascismo, provoca-me o riso e causar-me-ia inquietação sobre as suas qualidades de escritor se nós não compreendêssemos, nós, que também ele não sabe porque escreve e que os seus álibis não têm nenhuma importância.
                Quanto a mim, prefiro dizer que aquilo que me interessa é a literatura; a forma dos romances parece-me muito mais importante do que as anedotas – mesmo as antifascistas – que neles se possam encontrar; no momento da criação ignoro o que estas formas, de que sinto a necessidade, significam, e ainda muito mais para que elas poderão servir.
                A comparação que aqui foi feita entre um escritor e um piloto de aviação comercial só pode ser tomada como uma brincadeira. O romance não é um meio de expressão – quer dizer, na medida em que conheceria de antemão as verdades (ou as interrogações) que teria de exprimir. Para nós, o romance é uma pesquisa, e uma pesquisa não sabe mesmo o que procura. Claro que o piloto deve saber o destino imediato para onde conduz os seus passageiros; por definição, o escritor não sabe onde vai. E se me fosse absolutamente necessário responder à pergunta: «Porque escreve você?», eu responderia somente: «Eu escrevo para tentar compreender porque desejo escrever.»
                Mas o que nos parece mais escandaloso é encontrar no campo socialista e no mundo burguês as mesmas ilusões quanto ao poder político da arte, o mesmo culto pelas formas artísticas ultrapassadas, o mesmo vocabulário crítico e, no fim de contas, os mesmos valores.
                «Decadente», dizeis vós? Em relação a quê? «Desumana»? Não será talvez a vossa concepção do homem que necessita de ser renovada? Porque, se é compreensível que a crítica burguesa do Ocidente defenda obstinadamente (ainda mais timidamente que vocês) as formas romanescas, as quais encarnam, para eles, evidentemente, a idade de ouro do romance e o paraíso da classe possuidora, parece-nos estranho que combateis, aqui, pela mesma causa e que faleis duma escritura romanesca inocente e natural, da qual já Gustave Flaubert começava a duvidar em 1848.
                Acusais-me de «formalismo», mas são as formas literárias que contêm a significação das obras; e as formas que enalteceis, sabemos, justamente, que elas representam o mundo que reputadamente combateis.


In “Romance e Realidade”, pp. 135-9, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1969. Trad. Luísa Fialho.