26/03/2016
23/03/2016
22/03/2016
...
“…
Eu era um moço bisonho, quase donzel, nada estreado, digamos, no
entrecasco das coisas do mundo, ainda com a envide de rústico. Nem
colégios, seminário, pensões de Lisboa, embora nelas soprassem
forte as auras do mundo livre, me tinham arrancado para fora dos
alicerces de provinciano. Teoricamente eu estava em dia com o que
havia de mais progressivo no meu século. Mas a teoria só por si o
que vale? Que vale conhecer os movimentos da natação e nunca ter
entrado no mar? Conhecer os passes da esgrima e nunca ter pegado numa
espada? Eu era o incorruptível e inteiriço bárbaro, debruçado
cheio de sede para o rio da mundanidade, que corria ao fundo dum
socalco de mármore, fora do alcance.”
Aquilino
Ribeiro
...
34
Temos as nossas
noites insones…
Os poetas conclamam
a verdade,
e talvez até
profetas,
porque temos de
esmagá-los
contra uma parede de
chamas?
No entanto os poetas
são inermes,
a álgebra doce do
nosso destino.
Têm um corpo para
todos
e uma memória
universal,
porque devemos
extirpá-los
como se desarreigam
ervas impuras?
Temos as nossas
noites insones,
mil penosas ruínas
e a palidez dos
êxtases do entardecer,
temos bonecas de
fogo
como Copélia
e temos seus
túrgidos de mal
que nos infectam
corações e rins
porque não nos
rendemos…
Deixemo-los com a
sua linguagem, o exemplo
das suas vidas nuas
irá suster-nos até
ao fim do mundo
quando pegarem nas
trombetas
e tocarem para nós.
Alda
Merini, “A Terra
Santa”, pág. 95, Cotovia, 2004. Tradução
de Clara Rowland.
...
Dos vivos
herdam-se palavras. Dos mortos, coisas.
José
Gomes Ferreira, “Uma
Inútil Nota Preambular” em “Um Escritor Confessa-se” de
Aquilino Ribeiro, pág. 10, Livraria Bertrand, 1974.
21/03/2016
...
Perguntas
do jornalista Sérgio Almeida para um artigo que saiu no Jornal de
Notícias de 21-03-2016.
1
As Edições 50 kg são a prova de que não só a edição de poesia
continua bem viva como tem sabido de certa forma reinventar-se, não
estando tão dependente do papel das grandes editoras?
R:
Prova, não o diria, continuo a achar que as Edições 50kg, por si
só, não têm uma presença relevante para servir um embandeirar
desse arco da sobrevivência editorial da poesia. No entanto penso
que já há muito que existe uma pretensão que a poesia se vai
renovando nas pequenas editoras. Basta pensar, por exemplo, que antes
destes conglomerados editoriais que agora proliferam, uma
editora como a Assírio, que não era propriamente pequena, insistia
em se denominar como pequena editora para assim reivindicar um certo
papel de luta e
de resistência. Porém acho,
que as “grandes editoras” assumiram sempre, pelo menos em relação
à poesia, mas também penso que o fazem em relação a outros
géneros literários, o papel de antologiadores – de apresentadores
à urbi e
à orbi
de autores já consagrados, tomando-se por formadores e conservadores
de um cânone poético. E isto de certa forma era uma atitude que se
podia entender. O problema que se põe agora é que esse papel de
certo modo inverteu-se, porque é necessário alimentar um mercado
editorial e é aí que estes “conglomerados”, que também já
possuem meios de expressão da crítica, que são donos de revistas
literárias, começaram a introduzir novos autores, que francamente
penso, não passam por um crivo de “qualidade” isento e
criticamente eficaz. Não sei onde isto vai parar, mas como dizia o
Cesariny: “em algum sítio muito longe”.
2
Falta arrojo às editoras convencionais?
R:
Falta pensarem no que é importante e no que fica e não no que
vende. Uma biografia do Toni Carreira vende, toda a gente sabe, mas é
tão importante como ter um segundo cu!
3
Pela tua experiência enquanto editor, achas que o número de
leitores de poesia ao longo da última década tem sofrido alguma
alteração significativa?
R:
Sim, foi reduzindo em termos de números. São menos os leitores. E a
redução das tiragens são o reflexo disso. E não penso que foi a
introdução das novas tecnologias, ou sequer a crise a razão
principal. Nunca foi tão fácil possuir livros de poesia. No
alfarrabismo é possível obter excelentes livros de poesia a preços
quase irrisórios. O motivo para tal redução de leitores de poesia,
a meu ver, é o facto de não existir deveras uma comunicação
geracional. O saber que se acumulou não está a passar. E os órgãos
de comunicação social (salvo raras excepções) desistiram desse
papel. Por palavras mais situacionistas direi que me parece que o
“Espectáculo” é o que vigora.
4 A manutenção ou diminuição desse número
significa que as imensas iniciativas sobre poesia que existem pelo
país fora têm uma eficácia diminuta?
R:
Essas iniciativas sobre a poesia estão na ordem do espectáculo. É
por isso que se assiste a espectáculos poéticos, com música,
cuspidores de fogo, novos jograis, e strippers… Isso tudo para
plena satisfação de um público consumidor de espectáculos… Mas
leitores? Ui tá quieto!
RAR
18/03/2016
15/03/2016
...
“Queremos ser realmente
livres? Não
teremos talvez inventado Deus para não termos de ser livres? Perante
Deus, todos somos devedores em falta. Mas a dívida (die
Schuld1)
elimina a liberdade. Hoje os políticos acusam o endividamento como
causa que limita em enorme medida a sua liberdade de acção. Se
estivermos livres da dívida, quer dizer, se formos plenamente
livres, teremos de agir
deveras. É até possível que nos endividemos permanentemente para
não termos de agir – quer dizer para não termos de ser livres
nem responsáveis.
Não serão talvez as dívidas elevadas uma prova de que não temos
em nosso poder ser livres? Não será o capital um novo
Deus que nos torna
de novo devedores em falta? Walter Benjamin concebe o capitalismo
como uma religião. Trata-se do “primeiro caso de um culto que não
é expiatório, mas culpabilizante”. O estado de falta de liberdade
perpetua-se porque não é possível liquidar as dívidas: “Uma
terrível consciência de culpa que não sabe como expiar-se, recorre
ao culto, não para expiar a culpa, mas para a tornar universal”2.”
Byung-Chul Han,
“Psicopolítica”, pág. 17, Relógio D’Água, Lisboa, 2015.
“ De início, saudou-se a
rede digital como um meio de liberdade ilimitada. O primeiro
slogan publicitário
da Microsoft – Where
do you want to go today?
– sugeria uma liberdade e uma mobilidade ilimitadas na web.
Ora, esta euforia dos primeiros tempos revela-se hoje uma ilusão. A
liberdade e a comunicação ilimitadas transformam-se em controle e
vigilância totais. Também os meios de comunicação sociais são
cada vez mais equiparados a pan-óticos3
digitais que vigiam e exploram impiedosamente o social. Mal acabamos
de nos libertar do pan-ótico disciplinar, eis que entramos num
outro, novo e ainda mais eficaz.
Os reclusos do pan-ótico
benthamiano eram isolados com intuitos disciplinares e não se lhes
permitia que falassem com os outros. Os residentes do pan-ótico
digital, em contrapartida, comunicam intensamente uns com os outros e
expõem-se por sua iniciativa. Participam activamente na construção
do pan-ótico digital. A sociedade do controle digital procede a um
uso intensivo da liberdade. Só é possível graças a uma exibição
e uma exposição próprias de carácter voluntário. O Big
Brother digital trespassa o seu trabalho aos reclusos.
Assim, a transmissão dos dados não ocorre devido à coacção, mas
por necessidade interior. Tal é a eficácia do pan-ótico.”
Byung-Chul Han,
“Psicopolítica”, pág. 18, Relógio D’Água, Lisboa, 2015.
“O neoliberalismo transforma
o cidadão em consumidor. A liberdade do cidadão cede ante a
passividade do consumidor. O votante, enquanto consumidor, não tem
um interesse real pela política, pela configuração ativa da
comunidade. Não está disposto nem capacitado para a ação política
comum. Limita-se a reagir de forma passiva à política,
protestando e queixando-se, do mesmo modo que o consumidor perante as
mercadorias e os serviços que lhe desagradam. Os políticos e os
partidos também seguem esta lógica do consumo. Têm de fornecer.
É assim que se degradam em fornecedores que têm de satisfazer os
votantes enquanto consumidores ou clientes. (..) A reivindicação da
transparência pressupõe a posição de um espectador que se
escandaliza. Não é a reivindicação de um cidadão com iniciativa,
mas de um espectador passivo.”
Byung-Chul Han,
“Psicopolítica”, pp. 19-20, Relógio D’Água, Lisboa, 2015.
“Todos os dispositivos e
todas as técnicas de dominação engendram objetos de devoção que
são introduzidos tendo em vista submeter. Que materializam e
estabilizam a dominação. “Devoto” significa “submisso”. O
smartphone é um objecto digital de devoção, ou até mesmo
um objecto de devoção do digital em geral. Enquanto aparelho
de subjetivação funciona como o rosário, que é também, no seu
manejo, uma espécie de telemóvel. Um e outro servem para o exame e
o controle de si. A dominação aumenta a sua eficácia ao delegar em
cada um a sua vigilância. O Gosto é o ámen digital. Quando
clicamos no Gosto, submetemo-nos a uma estrutura de dominação.
O smartphone é não só um aparelho de vigilância eficaz,
mas também um confessionário móvel. O Facebook é a igreja,
a sinagoga global (literalmente, a congregação) do digital.”
Byung-Chul Han,
“Psicopolítica”, pp. 21-2, Relógio D’Água, Lisboa, 2015.
1
Die Schuld
tanto pode traduzir-se por “culpa” como por “dívida” (N.T.)
2
W. Benjamin, “Kapitalismus als Religion”, em Gesammelte
Schriften, tomo IV, Frankfurt, 1992, p. 100.
3
Esta aqui é mais uma prova da imbecilidade do novo acordo
ortográfico. Agora panóptico é “panótico” mudando
completamente o sentido da vista para a ouvidos. (RAR)
12/03/2016
10/03/2016
09/03/2016
07/03/2016
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