22/03/2016

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Um Escritor Confessa-se
“… Eu era um moço bisonho, quase donzel, nada estreado, digamos, no entrecasco das coisas do mundo, ainda com a envide de rústico. Nem colégios, seminário, pensões de Lisboa, embora nelas soprassem forte as auras do mundo livre, me tinham arrancado para fora dos alicerces de provinciano. Teoricamente eu estava em dia com o que havia de mais progressivo no meu século. Mas a teoria só por si o que vale? Que vale conhecer os movimentos da natação e nunca ter entrado no mar? Conhecer os passes da esgrima e nunca ter pegado numa espada? Eu era o incorruptível e inteiriço bárbaro, debruçado cheio de sede para o rio da mundanidade, que corria ao fundo dum socalco de mármore, fora do alcance.”
Aquilino Ribeiro

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Temos as nossas noites insones…


Os poetas conclamam a verdade,
poderiam ser ditadores
e talvez até profetas,
porque temos de esmagá-los
contra uma parede de chamas?
No entanto os poetas são inermes,
a álgebra doce do nosso destino.
Têm um corpo para todos
e uma memória universal,
porque devemos extirpá-los
como se desarreigam ervas impuras?
Temos as nossas noites insones,
mil penosas ruínas
e a palidez dos êxtases do entardecer,
temos bonecas de fogo
como Copélia
e temos seus túrgidos de mal
que nos infectam corações e rins
porque não nos rendemos…
Deixemo-los com a sua linguagem, o exemplo
das suas vidas nuas
irá suster-nos até ao fim do mundo
quando pegarem nas trombetas
e tocarem para nós.


Alda Merini, “A Terra Santa”, pág. 95, Cotovia, 2004. Tradução de Clara Rowland.



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Dos vivos herdam-se palavras. Dos mortos, coisas.
José Gomes Ferreira, “Uma Inútil Nota Preambular” em “Um Escritor Confessa-se” de Aquilino Ribeiro, pág. 10, Livraria Bertrand, 1974.

21/03/2016

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Perguntas do jornalista Sérgio Almeida para um artigo que saiu no Jornal de Notícias de 21-03-2016.


1 As Edições 50 kg são a prova de que não só a edição de poesia continua bem viva como tem sabido de certa forma reinventar-se, não estando tão dependente do papel das grandes editoras?

R: Prova, não o diria, continuo a achar que as Edições 50kg, por si só, não têm uma presença relevante para servir um embandeirar desse arco da sobrevivência editorial da poesia. No entanto penso que já há muito que existe uma pretensão que a poesia se vai renovando nas pequenas editoras. Basta pensar, por exemplo, que antes destes conglomerados editoriais que agora proliferam, uma editora como a Assírio, que não era propriamente pequena, insistia em se denominar como pequena editora para assim reivindicar um certo papel de luta e de resistência. Porém acho, que as “grandes editoras” assumiram sempre, pelo menos em relação à poesia, mas também penso que o fazem em relação a outros géneros literários, o papel de antologiadores – de apresentadores à urbi e à orbi de autores já consagrados, tomando-se por formadores e conservadores de um cânone poético. E isto de certa forma era uma atitude que se podia entender. O problema que se põe agora é que esse papel de certo modo inverteu-se, porque é necessário alimentar um mercado editorial e é aí que estes “conglomerados”, que também já possuem meios de expressão da crítica, que são donos de revistas literárias, começaram a introduzir novos autores, que francamente penso, não passam por um crivo de “qualidade” isento e criticamente eficaz. Não sei onde isto vai parar, mas como dizia o Cesariny: “em algum sítio muito longe”.


2 Falta arrojo às editoras convencionais?

R: Falta pensarem no que é importante e no que fica e não no que vende. Uma biografia do Toni Carreira vende, toda a gente sabe, mas é tão importante como ter um segundo cu!


3 Pela tua experiência enquanto editor, achas que o número de leitores de poesia ao longo da última década tem sofrido alguma alteração significativa?

R: Sim, foi reduzindo em termos de números. São menos os leitores. E a redução das tiragens são o reflexo disso. E não penso que foi a introdução das novas tecnologias, ou sequer a crise a razão principal. Nunca foi tão fácil possuir livros de poesia. No alfarrabismo é possível obter excelentes livros de poesia a preços quase irrisórios. O motivo para tal redução de leitores de poesia, a meu ver, é o facto de não existir deveras uma comunicação geracional. O saber que se acumulou não está a passar. E os órgãos de comunicação social (salvo raras excepções) desistiram desse papel. Por palavras mais situacionistas direi que me parece que o “Espectáculo” é o que vigora.



4 A manutenção ou diminuição desse número significa que as imensas iniciativas sobre poesia que existem pelo país fora têm uma eficácia diminuta?
R: Essas iniciativas sobre a poesia estão na ordem do espectáculo. É por isso que se assiste a espectáculos poéticos, com música, cuspidores de fogo, novos jograis, e strippers… Isso tudo para plena satisfação de um público consumidor de espectáculos… Mas leitores? Ui tá quieto!

RAR

15/03/2016

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Queremos ser realmente livres? Não teremos talvez inventado Deus para não termos de ser livres? Perante Deus, todos somos devedores em falta. Mas a dívida (die Schuld1) elimina a liberdade. Hoje os políticos acusam o endividamento como causa que limita em enorme medida a sua liberdade de acção. Se estivermos livres da dívida, quer dizer, se formos plenamente livres, teremos de agir deveras. É até possível que nos endividemos permanentemente para não termos de agir – quer dizer para não termos de ser livres nem responsáveis. Não serão talvez as dívidas elevadas uma prova de que não temos em nosso poder ser livres? Não será o capital um novo Deus que nos torna de novo devedores em falta? Walter Benjamin concebe o capitalismo como uma religião. Trata-se do “primeiro caso de um culto que não é expiatório, mas culpabilizante”. O estado de falta de liberdade perpetua-se porque não é possível liquidar as dívidas: “Uma terrível consciência de culpa que não sabe como expiar-se, recorre ao culto, não para expiar a culpa, mas para a tornar universal”2.”

Byung-Chul Han, “Psicopolítica”, pág. 17, Relógio D’Água, Lisboa, 2015.

De início, saudou-se a rede digital como um meio de liberdade ilimitada. O primeiro slogan publicitário da Microsoft – Where do you want to go today? – sugeria uma liberdade e uma mobilidade ilimitadas na web. Ora, esta euforia dos primeiros tempos revela-se hoje uma ilusão. A liberdade e a comunicação ilimitadas transformam-se em controle e vigilância totais. Também os meios de comunicação sociais são cada vez mais equiparados a pan-óticos3 digitais que vigiam e exploram impiedosamente o social. Mal acabamos de nos libertar do pan-ótico disciplinar, eis que entramos num outro, novo e ainda mais eficaz.
Os reclusos do pan-ótico benthamiano eram isolados com intuitos disciplinares e não se lhes permitia que falassem com os outros. Os residentes do pan-ótico digital, em contrapartida, comunicam intensamente uns com os outros e expõem-se por sua iniciativa. Participam activamente na construção do pan-ótico digital. A sociedade do controle digital procede a um uso intensivo da liberdade. Só é possível graças a uma exibição e uma exposição próprias de carácter voluntário. O Big Brother digital trespassa o seu trabalho aos reclusos. Assim, a transmissão dos dados não ocorre devido à coacção, mas por necessidade interior. Tal é a eficácia do pan-ótico.”

Byung-Chul Han, “Psicopolítica”, pág. 18, Relógio D’Água, Lisboa, 2015.


O neoliberalismo transforma o cidadão em consumidor. A liberdade do cidadão cede ante a passividade do consumidor. O votante, enquanto consumidor, não tem um interesse real pela política, pela configuração ativa da comunidade. Não está disposto nem capacitado para a ação política comum. Limita-se a reagir de forma passiva à política, protestando e queixando-se, do mesmo modo que o consumidor perante as mercadorias e os serviços que lhe desagradam. Os políticos e os partidos também seguem esta lógica do consumo. Têm de fornecer. É assim que se degradam em fornecedores que têm de satisfazer os votantes enquanto consumidores ou clientes. (..) A reivindicação da transparência pressupõe a posição de um espectador que se escandaliza. Não é a reivindicação de um cidadão com iniciativa, mas de um espectador passivo.”

Byung-Chul Han, “Psicopolítica”, pp. 19-20, Relógio D’Água, Lisboa, 2015.


Todos os dispositivos e todas as técnicas de dominação engendram objetos de devoção que são introduzidos tendo em vista submeter. Que materializam e estabilizam a dominação. “Devoto” significa “submisso”. O smartphone é um objecto digital de devoção, ou até mesmo um objecto de devoção do digital em geral. Enquanto aparelho de subjetivação funciona como o rosário, que é também, no seu manejo, uma espécie de telemóvel. Um e outro servem para o exame e o controle de si. A dominação aumenta a sua eficácia ao delegar em cada um a sua vigilância. O Gosto é o ámen digital. Quando clicamos no Gosto, submetemo-nos a uma estrutura de dominação. O smartphone é não só um aparelho de vigilância eficaz, mas também um confessionário móvel. O Facebook é a igreja, a sinagoga global (literalmente, a congregação) do digital.”

Byung-Chul Han, “Psicopolítica”, pp. 21-2, Relógio D’Água, Lisboa, 2015.

1 Die Schuld tanto pode traduzir-se por “culpa” como por “dívida” (N.T.)
2 W. Benjamin, “Kapitalismus als Religion”, em Gesammelte Schriften, tomo IV, Frankfurt, 1992, p. 100.
3 Esta aqui é mais uma prova da imbecilidade do novo acordo ortográfico. Agora panóptico é “panótico” mudando completamente o sentido da vista para a ouvidos. (RAR)

Café Gelo...

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Via Ricardo A.

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Alfred Hitchcock servindo chã ao leão da Metro Goldwyn Mayer em 1950


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Agnès Varda: auto-retrato em Veneza, 1960