28/01/2016

"A CIDADE VAI MORRENDO, MAS HÁ FESTA"...



«Não consigo calar o desabafo. Talvez pelo sentimento que perpassa de guerra perdida. Hoje, lá foram mais uma vez, moradores que ainda vão resistindo, cada vez com mais baixas, na denominada zona de(s)marcada da movida, sempre em expansão, com os estabelecimentos de animação nocturna a tomar conta do centro do Porto. 
Reclamações de treze anos sobre o ruído noturno, a limpeza e o estacionamento, que tornaram a vida destas pessoas num inferno. A Indiferença com que hoje as suas queixas são ouvidas, quer pelos poderes municipais, quer pelos poderes mediáticos, mostra bem a escolha que há muito se fez, de transformar o centro da cidade num enorme bar/discoteca a céu aberto, aliás um modelo desenvolvimento da cidade assente nisso e na monocultura do turismo. Os moradores existentes eram por isso um estorvo. No espaço de uma década deu-se mais uma machadada, talvez derradeira, na identidade da cidade. Os milhares que aqui viviam foram paulatinamente desaparecendo no mesmo rácio em que aumentava o número de bares, discotecas e outros espaços de denominação difícil, que vendem bebidas para rua. 
Os milhares, entre a desistência e a lei da vida, a morte, foram transformando-se em centenas, cada vez contando menos, hoje cada vez menos ainda, entre o nada fazer ou fingir fazer dos poderes públicos. Este processo de expulsão e não renovação do tecido residente, é de facto a última das grandes migrações e expulsões das gentes da cidade, depois das expulsões das gentes da zona ribeirinha para a periferia da cidade, para bairros sociais e mesmo para fora cidade, nomeadamente para Gondomar e Gaia. 
Com ela também foi o pequeno comércio tradicional, os artesãos e os serviços de proximidade de apoio às famílias, com as rendas a tornarem-se insustentáveis e base residente em erosão e a envelhecer. O centro da cidade transforma-se num deserto de residentes, numa enorme Santa Catarina, onde ninguém lá vive, com a diferença que a rua vazia é transformado em tráfego humano noctívago, muito dele importado. 
A manhã guarda os despojos das noites em ruas desertas de estabelecimentos abertos, aguardando o entardecer. Este é o cosmopolitismo pós-moderno, que domina quem governa a cidade, com desdém pelas gentes e origens da cidade que deram alma ao Porto, invicta. Pseudo modernidade, serôdia, com q.b. de provincianismo, que faz desaparecer o Porto que conhecemos, deixando apenas memória e vestígios arqueológicos, algum património cultural e polvilhos de cultura, a dar nome aos eventos de encher o olho e h(á) festa. Os holofotes cegam, até a comunicação social domesticada. Resta a impunidade.
A cidade como a conhecemos vai morrendo. A dita modernidade faz-se contra o passado, as suas gentes, a sua identidade, aquilo que a diferencia. O plástico gourmet toma conta. O Porto morre entre o fantasma de vida. Mas há festa. Muita festa. E Eles continuam a dançar. Seremos todos espectadores desta dança? Até quando?»
Pedro Carvalho
Vereador na CMP

Sem comentários: