29/06/2015

«PROTESTO»...

São como flores fanadas os fúteis alfarrábios,
estagnados e doentios como a água adormecida,
do senhor dom artista que não quis colar os lábios
contra os seios da vida.

O homem que vende livros na velha padiola
expõe o romance da sua vida nessa espécie de montra
e grita contra os romances onde a vida estiola
em maciezas de lontra.

E em todos os cantos e recantos da rua
gritam contra os versos mornos, versos mansos, versos falsos,
as mulheres bem vestidas que ganham a vida nuas
e os garotos descalços.


Sidónio Muralha, “Antologia da Poesia Portuguesa 1940-1977” vol.I, [Org.] M. Alberta Menéres e E. M. de Melo e Castro, p. 93-4, Moraes Editores, Lisboa, 1979.

26/06/2015

Silêncio de Palatina...


Tu falas de mais, homem, e em breve estarás estendido na terra.
Cala-te e, enquanto estás vivo, preocupa-te com a morte.

Páladas (sécs. VI-V d.C.)
In "Do Mundo Grego Outro Sol - Antologia Palatina e Antologia de Planudes", p. 92, sel., trad. e notas de Albano Martins, Edições Asa, Porto, 2001.

25/06/2015

«PROFUNDAMENTE»...

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

– Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos êles?

– Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.


Manuel Bandeira, “Poesias e Prosa”, págs. 210-211, vol. I, Editôra José Aguilar, Lda., Rio de Janeiro, 1958.

19/06/2015

O ENCONTRO

Subitamente
na esquina do poema, duas rimas
olham-se, atônitas, comovidas,
como duas irmãs desconhecidas...

Mário Quintana in “Antologia Poética” Ediouro, Rio de Janeiro, 1998.

05/06/2015

"OPORTOnidade"...


O TURISMO


Visitar este país
até à última gota:
O porco e o Porto    a bola e a bolota
o que é como quem diz
itinerar a derrota.

Tudo tem lugar no mapa
Paris    Washington    Moscovo
Em Itália    vê-se o papa
em Lisboa    vê-se o povo.

Welcome  Bienvenus  Salud  Willkommen  Viva
a sífilis saúda-vos    saúda-vos a estiva
desta carga de heróis em carne viva
nociva mas barata;
vindes matar a sede com a uva
beber o sumo de ócio que nos mata.

Desemborcais nos cais    desembolsais demais
mas não sabeis
as coisas viscerais    as coisas principais
deste país azul
com mais hóteis do que hospitais
talvez por ser ao sol    talvez por ser ao sul.

Aqui ao pé do mar    bordamos a tristeza
as toalhas de mão    as toalhas de mesa
que levais para casa            Souvenir
deste povo sem pão
que se cose a sorrir.

Aqui ao pé do rio    gememos a saudade
nosso fado submisso    nossa água a correr. 
Canção de mal devir        Souvenir    Souvenir
deste povo de trégua
que se canta a morrer.

Aqui ao pé do vento    forjamos o lamento
dum país que se vende a peso nos prospectos
tanto de sol ardente    tanto  de cal fervente
e uma nódoa de céu nos chailes pretos.

Aqui ao pé do fel    gritamos o segredo
do que parece fácil neste país de luz:

É apenas a fome.

É apenas o medo.

É apenas o sangue.

É apenas o pus.


José Carlos Ary dos Santos, “Resumo”, pp. 73-4, ed. Autor, Lisboa, 1972.

04/06/2015

"JOGO DE REALIDADE"...

Daniel Maia-Pinto Rodrigues


Este poema
chama-se Jogo de Realidade
mas também se poderia ter chamado
Comunhão ou Aventura.

Convidou-me para ver
em casa dela
no vídeo
o África Minha
filme da sua predilecção.
Eu já tinha visto esse filme
mas por uma questão de subtil delicadeza
disse-lhe que nunca o tinha visto.

Serviu-me um bom jantar
e uma intensa aguardente montanhesa.
Eu como não sabia muito bem
o que lhe hávia de dizer
saiu-me isto:
“Sabes que Isabel quer dizer cor de café com
    leite?”
Ao que ela disse:
“Estou a ver que estás a pensar em alguma Isa-
    bel!?”
“Não, não”, disse eu
enquanto me lembrava de uma tirada mais cine-
    matográfica:
“Uma vez num filme
agradou-me ver um pequeno adesivo
na mão de um menino
adesivo esse que não veio a revelar
qualquer interferência no contexto do filme.”
Ela ficou assim a olhar para mim
com ar
de quem me estava a achar um bocado maluco
e depois foi a vez dela espetar esta:
que aqui há uns tempos atrás
pertencera a um grupo de malta rebelde
que tinha entre outros projectos inovadores
diversos programas de rádio
e algumas encenações teatrais
sendo todavia o projecto principal
o de mudar o mundo.
Ao que lhe disse
que o meu grande projecto foi sempre
o de que o mundo não me mudasse a mim.

Falou-me então de um tal Tito
… que as coisas entre eles não iam bem
que ele ultimamente não andava… bem…
“Daqui a um bocado – disse-me ela –
há-de aparecer aí uma amiga minha
e vamos abrir aquela garrafa de champagne
e uma latinha de paté-de-foie
é sempre agradável um pequeno ménage!”

Fomos depois para o sofá
para ver o filme
(alta seca, Daniel).
“Olá”, disse eu para uma revista intitulada Sexo
    Bizarro
que discretamente descansava entre as almofadas.
Durante o filme ela interrompia-o várias vezes
em actual gesto electrónico
para mo explicar.
Eu lá ia dizendo
que ia percebendo
mas ela insistia na explicação
aquilo já ia em perspectivas complicadíssimas
e eu, claro, comecei a estranhar.

Foi então aí que se deram os três Abre
o abre-te Sésamo
o abre-te vestido
- abrenúncio!
Só ficou por abrir a latinha de paté-de-foie.

Chegou ao topo a intensidade da aguardente mon-
    tanhesa
e passado um bocado
parece que ficámos
segundo ela
física e espiritualmente em Comunhão.
“Não te sentes em Comunhão?!”,
perguntou ela.
“Sinto, sinto”.
E ela insiste na questão
“Como é que te sentes…?”
“Olha, sinto-me sem cinto”,
estive para dizer
mas evitei este trocadilho
portador de algum mau gosto
e também algo indecente
daquele género de indecente
tão descortinável pelas mulheres.

Respondendo-lhe à questão
osculei-lhe a testa
com um tácito beijo
e murmurei
mais patético do que pateta
que me sentia em Comunhão.