20/02/2015

Novidade das Edições 50kg...


PÚSIAS de Vitor Silva Tavares
Capa de Luís Henriques
Edições 50kg
300 exemplares
Fevereiro de 2015
P.V.P €13
ISBN: 978-989-97891-5-9 

07/02/2015

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ilustração de Lima de Freitas

Que vens contar-me
se não sei ouvir senão o silêncio?
Estou parado no mundo.
Só sei escutar de longe
antigamente ou lá pró futuro.
É bem certo que existo:
chegou-me a vez de escutar.

Que queres que te diga
se não sei nada e desaprendo?
A minha paz é ignorar.
Aprendo a não saber:
que a ciência aprenda comigo
já que não soube ensinar.

O meu alimento é o silêncio do mundo
que fica no alto das montanhas
e não desce à cidade
e sobe às nuvens que andam à procura de forma
antes de desaparecer.

Para que queres que te apareça
se me agrada não ter horas a toda a hora?
A preguiça do céu entrou comigo
e prescindo da realidade como ela prescinde de mim.

Para que me lastimas
se este é o meu auge?!
Eu tive a dita de me terem roubado tudo
menos a minha torre de marfim.
Jamais os invasores levaram consigo as nossas torres de marfim.

Levaram-me o orgulho todo
deixaram-me a memória envenenada
e intacta a torre de marfim.
Só não sei que faça da porta da torre
que dá para donde vim.

José de Almada-Negreiros in “Tesouros da Poesia Portuguesa”, org. António Manuel Couto Viana, p.289, Editorial Verbo, 1983.

Nota...


Na Livraria Utopia existem ainda alguns exemplares das Edições 50kg que já estão esgotados na editora.

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NATAL DE 1950

Nenhum Natal será possível: sei
que tudo enfim suspenso aguarda
não já Natais sempre de guerra mas
mas a morte iluminada como aurora
entre esta gente que se junta rindo
e as luzes interiores, muitas cabeças juntas;
entre lágrimas de ternura e os murmúrios de esperança,
entre as vozes e os silêncios, as pedras e as árvores,
entre muralhas de janelas sob chuva,
entre agonias dos que lutam porque são mandados
e a cobarde angústia dos que apenas mandam,
no meio da vida, círculo de fogo,
à luz de que se vê uma calçada suja
de restos de comida e de papéis rasgados
– se sei, embora saiba, quanto soube:
ah canto do meu canto, olhar do meu olhar,
Nenhum Natal, bem sei, mas outra gente,
e tanta gente, e mesmo que um só fosse,
já louco, envelhecido, apenas hábito,
que podeis fazer, senão humildemente
cantar?

Jorge de Sena in “Poemas de Natal”, coord. Manuel Miranda, p. 38, PEC – Biblioteca Povo e Cultura, s/d.

foto de Eduardo Gageiro