31/03/2014
Feira de Edições TRANSFER...
A Feira de Edições TRANSFER realiza-se no próximo sábado em Guimarães, no âmbito do ciclo expositivo patente no Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG), que explora a imagem produzida através de contacto ou por transferência. Este evento de carácter laboratorial em torno do livro de artista e do experimentalismo editorial terá lugar entre as 11:00 e as 20:00 do dia 5 de Abril nos Ateliers Criativos e no CIAJG, espaços integrados na Plataforma das Artes e da Criatividade. A entrada é livre. Com uma forte componente oficinal, esta feira reúne editores independentes, artistas gráficos e ateliers tipográficos que desenvolverão no local diversos processos de composição de texto e imagem em diferentes técnicas de impressão, procurando catalisar o encontro entre editores e o público. O convite estendeu-se igualmente a outros editores que desenvolvem o seu trabalho no campo da auto-edição e em vertentes tão diversas como a música, a ilustração ou a banda desenhada. Neste dia estarão disponíveis múltiplos e originais, edições únicas e tiragens reduzidas a preço de feira: cartazes, fanzines, edições de autor, livros de artista, serigrafias, gravuras, CDs, vinis, ilustrações, entre outros. Um dos destaques do TRANSFER será promovido pelo Instituto Fonográfico Tropical e acompanhará todo o período do evento. A Fonografia Tropical tem assim o prazer de oferecer um contorcionismo musical entre duas vogais, do Semba para o Samba, passando a jusante de uma tranche de Cumbias folgadas. Devido à natureza selectiva da colecção, há uma escassez de repertório anglo-saxónico, pelo que é solicitada a mais sincera compreensão a quem seja intolerante a forrobodós de baixas latitudes. A este ambiente musical juntar-se-á ainda «Cantares Sopa de Pedra ao Vento que Vent'Arara» às 18:00, uma performance da responsabilidade do grupo vocal feminino Sopa de Pedra (dedicado ao canto a capella de canções de raiz tradicional) e do coletivo Oficina ARARA. No campo das novidades editoriais, há a registar «Às Cegas» – edição da Oficina do Cego impressa em tipografia móvel e serigrafia, com encartes em linogravura –, «A Dobra» – com poemas de António Madureira Rodrigues e desenhos de Bruno Borges, das Edições do Tédio nr. 3 – e «AUTOCATACLISMOS» – livro de Alberto Pimenta, publicado na editora Pianola, numa edição especial de 100 exemplares numerados e assinados compostos em tipografia linotype e caracteres móveis, e encadernação manual japonesa. No que diz respeito a Oficinas de Impressão, TRANSFER oferece várias possibilidades de aprendizagem, partilha e participação promovidas pelo Atelier guilhotina (Porto), O homem do saco (Lisboa), Oficina do Cego (Lisboa), Oficina ARARA (Porto), Edições 50kg (Porto) e Pé de Mosca (Guimarães). Esta feira contará com a presença de inúmeras editoras, chancelas e participantes especiais como o Atelier guilhotina, O homem do saco, Landscapes d'Antanho, Pianola, Momo, Diário de um Ladrão, 100 cabeças, troppo inchiostro, Oficina do Cego, Imprensa Canalha, Papeleiro Doido, Playground.atelier, Montesinos, Mike Goes West, Oficina ARARA, Edições 50kg, Pé de Mosca, alfaiataria, CICP Dominicas, Sopa de Pedra, Instituto Fonográfico Tropical, We came from space, Marvellous Tone, Faca Monstro, Lovers & Lollypops, Panda Gordo, Pangrama, Cru/ Mr. Esgar, Chili Com Carne, Chão da Feira, Plana, Frenesi, Douda Correria, Mia Suave, Medula, Língua Morta, Averno, Snob-Livraria, alunos da ESAP Guimarães, entre outros. FONTE: http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=693766
25/03/2014
...
“Aristóteles
fala de poesia sublime e vulgar, e esta oposição, explicitada sobretudo na
oposição tragédia/comédia, reflecte desde início a organização social nas suas
duas classes: a classe dos senhores, voltada para cima, onde normalmente é a
residência dos deuses, e a classe dos servos voltada para baixo, onde
normalmente é o trabalho e a produção. Enquanto a tragédia representa a
reverência perante a ordem que vem de cima a comédia ocupa-se da ‘baixa humanidade’.
O facto de as tragédias terem sido proibidas muito mais raramente que as
comédias está ligado à própria propensão destas para transgredir os limites do
papel ético-social das classes oprimidas. Não é só o desfecho que distingue radicalmente
este dois géneros e está a priori
fixado, mas também a construção e a intenção. Em termos claros e evidentes,
poderiam reduzir-se os dois géneros às seguintes combinações: se há senhores
logrados por deuses ou por outros
senhores é trágico; se há servos logrados por servos ou por senhores é cómico;
as restantes combinações estão fora do âmbito do sistema poetológico.
Pelo século XVIII, este estado de coisas começou a
desagregar-se, dentro do processo geral de desagregação de toda a estrutura da
sociedade antiga, que se baseava numa ‘razão’ transcendente e não racional e,
menos ainda, existencial. Esta libertação da arte literária da transcendência absoluta
dos estilos e dos géneros faz portanto parte da libertação da consciência
operada ao longo do processo da revolução burguesa.
Acontece, porém, que esta quebra de estrutura social libertou
não só o produtor de arte literária como também o seu consumidor, o público;
formou-se por essa época um novo público, naif no que toca ao conhecimento da técnica literária
tradicional, interessado no consumo e assimilação de um novo tipo de arte,
menos complexa e cifrada, mais espontânea e posta naturalmente ao serviço dos
seus específicos interesses de classe, reais ou ideais.”
Alberto Pimenta in “O Silêncio dos Poetas”, pp. 21-23, Edições
A Regra do Jogo, Lisboa, 1978.
24/03/2014
Do "Coração Quase Branco"...
Sinopse:
O Coração Quase
Branco de António Cabrita é, mas não só, uma carta póstuma ao Ricarte Dácio que, para quem não sabe, foi um gentleman e livreiro
alfarrabista, bem como um dos maiores apoiantes vs. mecenas de poetas e escritores surrealistas, e não só, do
Café Gelo. A sua morte, uma espécie de potlatch (“uma coisa à romana” como o disse Mário
Cesariny) é ainda hoje um assunto muito ‘cadáver esquisito’... e não só!
21/03/2014
Dia da Poesia?...
Questionário do jornalista Sérgio
Almeida (JN) e as respostas de Rui Azevedo Ribeiro (50kg).
(JN): Como diz o
A. Dasilva O, achas que a poesia voltou à trincheira, ou seja, voltou
a uma espécie de clandestinidade com edições restritas e artesanais? Vês essa
tendência com agrado ou nem por isso?
(50kg): Assumindo
uma totalidade (a poesia) mas sabendo bem que isso faz pouco sentido. Direi que
ela insiste em resistir! É uma situação parecida com aquelas ervinhas que
crescem entre os empedrados ou, o que é ainda mais bonito, as plantas que
nascem das paredes dos prédios porque as sementes foram juntas com o cimento. Porém,
julgo que ninguém duvida que, as condições para este protótipo de vida são
terríveis e uma luta constante contra variadíssimas adversidades. É certo que é
vida, mas é uma vida atrofiada e abaixo da sua potência. A trincheira não é um
lugar à qual dê gosto regressar. Se se está entrincheirado, é uma situação,
está-se a resistir e agrada-me que exista quem resiste. E a estar numa
trincheira que seja só com voluntários! Mas também quero dizer que não pode ser
apenas reacção. É preciso agir! Já chega de cavar trincheiras, cavar buracos, de
“fazer como o verme”. Vamos lá fazer ninhos para as metralhadoras!
(JN): 2 É possível detectar
pontos de contacto (linhas estéticas ou ideológicas) entre os nossos novos
poetas?
(50kg): Isso é
um assunto para a crítica se debruçar. Eu apenas pergunto porque é que não
existe crítica literária, porque a que há não é. Por que é que os Mídias só se
lembram da poesia quando é o dia dela calhar no calendário de todo o mundo! Ou
porquê que eu abrindo um jornal para ler ‘novas’ literárias – tenho a impressão
que trouxe por engano as promoções do supermercado. Quanto aos novos, o Paulo
Leminski escreveu: “(…) apenas o mesmo/ ovo de sempre/ choca o mesmo novo”. E
sendo assim, se o novo novo for igual a outro novo que se parece com aquele
outro novo perguntem se a chocadeira é do mesmo dono. Se for não fiquem
chocados! Sobre as linhas estéticas que as snifem os estetas. Quanto às
ideológicas, direi que não, os poetas ainda não se unem por ideias lógicas por
umas tantas ilógicas isso sim, já aconteceu! Ninguém sabe o que é o novo.
Repito, ninguém! Os que andam por aí a dizer: é novo!; é novíssimo! São os
vendedores da banha da cobra! E há muitos!
(JN): 3 Se tivesses que
destacar alguns nomes que se destacam desta geração, quais elegerias?
(50kg): Preferiria
dizer quais os que estacava mas apenas pelo receio de que este primeiro dia de
Primavera os puxe para enxertos não o faço! Se me permitirem não responderei. Acho
que esta pergunta é daquelas que contribuem para que o vórtice da pressa, do palavreado
e de uma série de “ah pois!” se instalem. Também não estou seguro que haja essa
coisa chamada geração, que não seja apenas um estarmos todos aqui e por um
período coincidimos nisso. Por que se falarmos de afinidades isso não faz muito
sentido, pois poderei ser mais “próximo” de um poeta satírico do séc. XVIII que
dos meus contemporâneos. No entanto gosto que haja grandes poetas árvores
ensimesmados (ou em-si-mimados) que tapem a luz do sol quase toda… Para que na
sua sombra haja deliciosos poetas trufas ou poetas cogumelos (hum!) e alguns
são bem venosos a destilar. Já a árvore ao sol parece ser só capaz de dar uma madeira
seca e quebradiça (não sei se servirá para palitos!)
(JN): 4 Apesar da escassez de
meios, a 50 kg tem publicado nomes de prestígio da poesia nacional. Esses
livros só são possíveis precisamente porque as editoras tradicionais se
desligaram da poesia?
(50kg): Não,
acho que as 50 kg e outros projectos similares teriam sempre um lugar, mesmo
que essas editoras fizessem um bom trabalho (ou apenas o seu trabalho). É certo
que continuaria a não ser edições populares. Continuariam a ter tiragens pequenas
e de circulação restrita e entraria no conceito de luxo ou do inglês “deluxe”.
Não se trataria de fazer públicos, mas antes para um público já devidamente
conhecedor e apreciador deste conceito artesanal e de rarefacção. O que é
estranho, é serem editoras como a 50kg a terem que fazer públicos. A lançarem e
a darem a conhecer autores sem que estes tenham qualquer possibilidade de chegarem
ao conhecimento do tal “grande público”. Por isso já parece uma mania destes autores
destas pequeníssimas editoras, de parecerem tão restritos, ou de culto... É que
se é obrigado a saltar por cima de uma série de etapas (olha um bom nome para
uma casa de tapas) e muitas das vezes o primeiro livro parece logo uma coisa de
luxuosa.
(JN): 5 Uma questão agora
como poeta: quais os traços que consideras fundamentais na tua poesia e em que
sentido estão ou não em convergência com o que se escreve e publica hoje?
Diverge convergindo
com os que divergem. O meu traço é na verdade uma traça. Traço-o traçando tudo!...
19/03/2014
14/03/2014
Novidade das Edições 50kg...
SUCK MY DECK de Rui Azevedo Ribeiro
Desenho de capa de Bruno Fonseca da Silva
Edições 50kg
100 Exemplares
P.V.P: € 6
ISBN: 978-989-97891-4-2
SINOPSE:
Este texto é um musical de piratas, penso que é algo inédito
se bem que talvez o Lubitsch o tenha já feito – mas não o fez certamente em
português. Sai-se do Porto em bode marítimo e a dada altura, olha que ali vai o
Herberto Helder a nado. E tenta-se bruni-lo com a quilha deste barco que é para
ter a paga das vezes que ele me quilhou bem quilhado. Mas o vento atraiçoa-nos
e falha-se o intento, acabando por ir-se passar a ferro um Camões velho perto
do Restelo, que vinha ou ia à missinha, não se sabe bem. E é mais ou menos
isto. Mais ciganice menos ciganice.
Nota: Só se falou no Herberto Helder no
intuito de aumentar as vendas do livrinho.
Para saber os locais de venda consulte a barra lateral deste blog
13/03/2014
No armazém de papel da Almeida & Neves, Lda...
Para se obter uma atençãozinha no preço dos papéis da Almeida
& Neves, Lda. Descobri que mais do que comentar com o empregado (de costas na
foto) os calendários da Tesa (a marca de fita-cola) e que se vêem ao fundo na
foto… (já percebem porquê a Tesa)… Devemos, por um período não inferior a 20
minutos, elaborar com o empregado um Top-10 dos melhores anos… Se o empregado gostar da selecção atiramos
com a tal atençãozinha que ele não irá rejeitar!... No fim despedimo-nos assim: se não antes, até pró ano quando tiver um novo calendário!
12/03/2014
...
abro-te
a porta entorno o alguidar
cais de joelhos começas a rezar
são 5 horas horas de acordar
e mal te certas levas a dobrar
falas da noite senhoras e bilhar
andas na tosse vou-te cantar
fecho-te a porta ponho-te a andar
caio de joelhos quem vou eu amar?
Nuno Moura in “Nova Asmática Portuguesa”, p. 20, 2ªed.,
Mariposa Azual, 2013.
05/03/2014
O que é o contemporâneo? (Giorgio Agamben)
«[...] O poeta – o
contemporâneo – deve ter o olhar fixo no seu tempo. Mas que coisa vê quem vê o
seu tempo, o sorriso demente do seu século? [... C]ontemporâneo é aquele que
tem o olhar fixo no seu tempo, para nele se aperceber não das luzes mas da
escuridão. Todos os tempos são, para quem neles experimenta a
contemporaneidade, obscuros. Contemporâneo é aquele que, precisamente, sabe ver
esta obscuridade, que está à altura de escrever mergulhando a pena nas trevas
do presente. Mas que significa “ver as trevas”, “aperceber-se da escuridão”?
Uma primeira resposta é-nos
sugerida pela neurofisiologia da visão. O que acontece quando nos encontramos
num ambiente privado de luz, ou quando fechamos os olhos? O que é a escuridão
que então vemos? Os neurofisiologistas dizem-nos que a ausência de luz desinibe
uma série de células periféricas da retina, ditas, precisamente, off-cells, que
entram em actividade e produzem aquela espécie particular de visão a que
chamamos escuridão. A escuridão não é, portanto, um conceito privativo, a
simples ausência da luz, algo como uma não-visão, antes o resultado da
actividade das off-cells, um produto da nossa retina. Isto significa, se
voltarmos agora à nossa tese sobre a escuridão da contemporaneidade, que
aperceber-se desta escuridão não é uma forma de inércia ou de passividade,
antes implica uma actividade e uma habilidade particular, que, no nosso caso,
equivalem a neutralizar as luzes que provêem da época para descobrir as suas
trevas, a sua escuridão especial, que, no entanto, não é separável daquelas
luzes.
Pode dizer-se contemporâneo
somente quem não se deixa cegar pelas luzes do século e consegue nelas
distinguir a parte da sombra, a sua íntima obscuridade. Com isto, todavia, não
respondemos ainda à nossa pergunta. Porque nos deveria interessar chegar a
aperceber-nos das trevas que provêem da época? Não é talvez a escuridão uma
experiência anónima e por definição impenetrável, algo que não nos é dirigido e
que não pode assim dizer-nos respeito? Pelo contrário, o contemporâneo é aquele
que se apercebe da escuridão do seu tempo como algo que lhe diz respeito e que
não cessa de o interpelar, algo que, mais do que todas as luzes, se dirige
directa e singularmente a ele. Contemporâneo é aquele que recebe em pleno rosto
o feixe de trevas que provêem do seu tempo.
No firmamento que olhamos de
noite, as estrelas brilham circundadas por uma espessa treva. Dado que no
universo há um número infinito de galáxias e de corpos luminosos, a escuridão
que vemos no céu é algo que, segundo os cientistas, necessita de explicação. É
precisamente acerca da explicação que a astrofísica contemporânea dá sobre esta
escuridão que vos queria agora falar. No universo em expansão, as galáxias mais
remotas distanciam-se de nós a uma velocidade tão grande que a sua luz não
chega a alcançar-nos. Aquilo de que nos apercebemos como escuridão do céu é
esta luz que viaja velocíssima em direcção a nós e que, no entanto, não nos
pode alcançar, porque as galáxias de onde provêm distanciam-se a uma velocidade
superior à da luz.
Aperceber-se, na escuridão do
presente, desta luz que procura alcançar-nos e que não o pode fazer, eis o que
significa ser contemporâneo. Por isso é que os contemporâneo são raros. E por
isso é que ser contemporâneo é, antes de mais, uma questão de coragem: porque
significa ser capaz não apenas de ter o olhar fixo na escuridão da época, mas
também aperceber-se, nessa escuridão, de uma luz que, dirigida na nossa
direcção, se distancia infinitamente de nós. Ou ainda: ser pontual ao encontro
a que se pode somente faltar.
Por isso o presente de que a
contemporaneidade se apercebe tem a espinha partida. O nosso tempo, o presente
não é, na verdade, apenas o mais longínquo: não pode em caso algum alcançar-nos.
As suas costas estão despedaçadas e nós situamo-nos exactamente no ponto da
fractura. Por isso somos, apesar de tudo, contemporâneos. Compreendam bem que o
encontro que está em questão na contemporaneidade não tem lugar simplesmente no
tempo cronológico: é, no tempo cronológico, algo que urge dentro dele e que o
transforma. E esta urgência é a intempestividade, o anacronismo que nos permite
aferir o nosso tempo na forma de um “demasiado cedo” que é, também, um
“demasiado tarde”, de um “já” que é, também, um “ainda não”. E, conjuntamente,
reconhecer nas trevas do presente a luz que, sem nunca poder alcançar-nos, está
perenemente em viagem na nossa direcção. [...]»
Giorgio Agamben, Che cos'è il
contemporaneo? (2006),
nottetempo, Roma, 2008, pp.
13-17.
Não me sei quem foi o tradutor
Subscrever:
Mensagens (Atom)











