29/08/2013

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INFORMAÇÕES SOBRE A MUSA

Musa pegou no meu braço. Apertou.
Fiquei excitadinho pra mulher.
Levei ela pra um lugar ermo (que eu tinha que fazer uma lírica):
 – Musa, sopre de leve em meus ouvidos a doce poesia,
a de perdão para os homens, porém… quero seleção, ouviu?
– Pois sim, gafanhoto, mas arreda a mão daí que a hora é imprópria, sá?
Minha musa sabe asneirinhas
Que não deviam de andar
Nem na boca de um cachorro!
Um dia briguei com Ela
Fui pra debaixo da Lua
E pedi uma inspiração:
– Essa Lua que nas poesias dantes fazia papel principal, não quero nem pra meu cavalo; até logo, vou gozar da vida; vocês poetas são uns intersexuais…
E por de japá ajuntou:
– Tenho uma coleguinha que lida com sonetos de dor de corno; por que não vai nela?

Manoel de Barros in “Poemas Concebidos Sem Pecados”, 1937.

28/08/2013

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FMI


Cachucho não é coisa que me traga a mim
Mais novidade do que lagostim
Nariz que reconhece o cheiro do pilim
Distingue bem o Mortimor do Meirim
A produtividade, ora aí está, quer dizer
Há tanto nesta terra que ainda está por fazer
Entrar por aí a dentro, analisar, e então
Do meu 'attaché-case' sai a solução!



FMI Não há graça que não faça o FMI
FMI O bombástico de plástico para si
FMI Não há força que retorça o FMI



Discreto e ordenado mas nem por isso fraco
Eis a imagem 'on the rocks' do cancro do tabaco
Enfio uma gravata em cada fato-macaco
E meto o pessoal todo no mesmo saco
A produtividade, ora aí está, quer dizer
Não ando aqui a brincar, não há tempo a perder
Batendo o pé na casa, espanador na mão
É só desinfectar em superprodução!



FMI Não há truque que não lucre ao FMI
FMI O heróico paranóico hara-kiri
FMI Panegírico, pro-lírico daqui



Palavras, palavras, palavras e não só
Palavras para si e palavras para dó
A contas com o nada que swingar o sol-e-dó
Depois a criadagem lava o pé e limpa o pó
A produtividade, ora nem mais, célulazinhas cinzentas
Sempre atentas
E levas pela tromba se não te pões a pau
Num encontrão imediato do 3º grau!



FMI Não há lenha que detenha o FMI
FMI Não há ronha que envergonhe o FMI
FMI ...



Entretém-te filho, entretém-te, não desfolhes em vão este malmequer que bem-te-quer, mal-te-quer, vem-te-quer, ovomalt'e-quer, messe gigantesca, vem-te vindo, VIM na cozinha, VIM na casa-de-banho, VIM no Politeama, VIM no Águia D'ouro, VIM em toda a parte, vem-te filho, vem-te comer ao olho, vem-te comer à mão, olha os pombinhos pneumáticos que te arrulham por esses cartazes fora, olha a Música no Coração da Indira Gandi, olha o Moshe Dayan que te traz debaixo d'olho, o respeitinho é muito lindo e nós somos um povo de respeito, né filho? Nós somos um povo de respeitinho muito lindo, saímos à rua de cravo na mão sem dar conta de que saímos à rua de cravo na mão a horas certas, né filho? Consolida filho, consolida, enfia-te a horas certas no casarão da Gabriela que o malmequer vai-te tratando do serviço nacional de saúde. Consolida filho, consolida, que o trabalhinho é muito lindo, o teu trabalhinho é muito lindo, é o mais lindo de todos, como o Astro, não é filho? O cabrão do Astro entra-te pela porta das traseiras, tu tens um gozo do caraças, vais dormir entretido, não é? Pois claro, ganhar forças, ganhar forças para consolidar, para ver se a gente consegue num grande esforço nacional estabilizar esta destabilização filha-da-puta, não é filho? Pois claro! Estás aí a olhar para mim, estás a ver-me dar 33 voltinhas por minuto, pagaste o teu bilhete, pagaste o teu imposto de transação e estás a pensar lá com os teus zodíacos: Este tipo está-me a gozar, este gajo quem é que julga que é? Né filho? Pois não é verdade que tu és um herói desde de nascente? A ti não é qualquer totobola que te enfia o barrete, meu grande safadote! Meu Fernão Mendes Pinto de merda, né filho? Onde está o teu Extremo Oriente, filho? A-ni-ki-bé-bé, a-ni-ki-bó-bó, tu és Sepúlveda, tu és Adamastor, pois claro, tu sozinho consegues enrabar as Nações Unidas com passaporte de coelho, não é filho? Mal eles sabem, pois é, tu sabes o que é gozar a vida! Entretém-te filho, entretém-te! Deixa-te de políticas que a tua política é o trabalho, trabalhinho, porreirinho da Silva, e salve-se quem puder que a vida é curta e os santos não ajudam quem anda para aqui a encher pneus com este paleio de Sanzala em ritmo de pop-chula, não é filho?


A one, a two, a one two three

FMI dida didadi dadi dadi da didi
FMI ...


Come on you son of a bitch! Come on baby a ver se me comes! 'Camóne' Luís Vaz, amanda-lhe com os decassílabos que eles já vão saber o que é meterem-se com uma nação de poetas! E zás, enfio-te o Manuel Alegre no Mário Soares, zás, enfio-te o Ary dos Santos no Álvaro de Cunhal,zás, enfio-te a Natalia Correia no Sá Carneiro, zás, enfio-te o Zé Fanha no Acácio Barreiros, zás, enfio-te o Pedro Homem de Melo no Parque Mayer e acabamos todos numa sardinhada ao integralismo Lusitano, a estender o braço, meio Rolão Preto, meio Steve McQueen, ok boss, tudo ok, estamos numa porreira meu, um tripe fenomenal, proibido voltar atrás, viva a liberdade, né filho? Pois, o irreversível, pois claro, o irreversívelzinho, pluralismo a dar com um pau, nada será como dantes, agora todos se chateiam de outra maneira, né filho? Ora que porra, deixa lá correr o marfil, homem, andas numa alta, pá, é assim mesmo, cada um a curtir a sua, podia ser tão porreiro, não é? Preocupações, crises políticas pá? A culpa é dos partidos pá! Esta merda dos partidos é que divide a malta pá, pois pá, é só paleio pá, o pessoal na quer é trabalhar pá! Razão tem o Jaime Neves pá! (Olha deixaste cair as chaves do carro!) Pois pá! (Que é essa orelha de preto que tens no porta-chaves?) É pá, deixa-te disso, não destabilizes pá! Eh, faz favor, mais uma bica e um pastel de nata. Uma porra pá, um autentico desastre o 25 de Abril, esta confusão pá, a malta estava sossegadinha, a bica a 15 tostões, a gasosa a sete e coroa... Tá bem, essa merda da pide pá, Tarrafais e o carágo, mas no fim de contas quem é que não colaborava, ah? Quantos bufos é que não havia nesta merda deste país, ah? Quem é que não se calava, quem é que arriscava coiro e cabelo, assim mesmo, o que se chama arriscar, ah? Meia dúzia de líricos, pá, meia dúzia de líricos que acabavam todos a fugir para o estrangeiro, pá, isto é tudo a mesma carneirada! Oh sr. guarda venha cá, á, venha ver o que isto é, é, o barulho que vai aqui, i, o neto a bater na avó, ó, deu-lhe um pontapé no cu, né filho? Tu vais conversando, conversando, que ao menos agora pode-se falar, ou já não se pode? Ou já começaste a fazer a tua revisãozinha constitucional tamanho familiar, ah? Estás desiludido com as promessas de Abril, né? As conquistas de Abril! Eram só paleio a partir do momento que tas começaram a tirar e tu ficaste quietinho, né filho? E tu fizeste como o avestruz, enfiaste a cabeça na areia, não é nada comigo, não é nada comigo, né? E os da frente que se lixem... E é por isso que a tua solução é não ver, é não ouvir, é não querer ver, é não querer entender nada, precisas de paz de consciência, não andas aqui a brincar, né filho? Precisas de ter razão, precisas de atirar as culpas para cima de alguém e atiras as culpas para os da frente, para os do 25 de Abril, para os do 28 de Setembro, para os do 11 de Março, para os do 25 de Novembro, para os do... que dia é hoje, ah?


FMI Dida didadi dadi dadi da didi
FMI ...


Não há português nenhum que não se sinta culpado de qualquer coisa, não é filho? Todos temos culpas no cartório, foi isso que te ensinaram, não é verdade? Esta merda não anda porque a malta, pá, a malta não quer que esta merda ande, tenho dito. A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém, não é isto verdade? Quer-se dizer, há culpa de todos em geral e não há culpa de ninguém em particular! Somos todos muita bons no fundo, né? Somos todos uma nação de pecadores e de vendidos, né? Somos todos, ou anti-comunistas ou anti-faxistas, estas coisas até já nem querem dizer nada, ismos para aqui, ismos para acolá, as palavras é só bolinhas de sabão, parole parole parole e o Zé é que se lixa, cá o pintas é sempre o mexilhão, eu quero lá saber deste paleio vou mas é ao futebol, pronto, viva o Porto, viva o Benfica! Lourosa! Lourosa! Marrazes! Marrazes! Fora o arbitro, gatuno! Qual gatuno, qual caralho! Razão tinha o Tonico de Bastos para se entreter, né filho? Entretém-te filho, com as tuas viúvas e as tuas órfãs que o teu delegado sindical vai tratando da saúde aos administradores, entretém-te, que o ministro do trabalho trata da saúde aos delegados sindicais, entretém-te filho, que a oposição parlamentar trata da saúde ao ministro do trabalho, entretém-te, que o Eanes trata da saúde à oposição parlamentar, entretém-te, que o FMI trata da saúde ao Eanes, entretém-te filho e vai para a cama descansado que há milhares de gajos inteligentes a pensar em tudo neste mesmo instante, enquanto tu adormeces a não pensar em nada, milhares e milhares de tipos inteligentes e poderosos com computadores, redes de policia secreta, telefones, carros de assalto, exércitos inteiros, congressos universitários, eu sei lá! Podes estar descansado que o Teng Hsiao-ping está a tratar de ti com o Jimmy Carter, o Brezhnev está a tratar de ti com o João Paulo II, tudo corre bem, a ver quem se vai abotoar com os 25 tostões de riqueza que tu vais produzir amanhã nas tuas oito horas. A ver quem vai ser capaz de convencer de que a culpa é tua e só tua se o teu salário perde valor todos os dias, ou de te convencer de que a culpa é só tua se o teu poder de compra é como o rio de S. Pedro de Moel que se some nas areias em plena praia, ali a 10 metros do mar em maré cheia e nunca consegue desaguar de maneira que se possa dizer: porra, finalmente o rio desaguou! Vão te convencer de que a culpa é tua e tu sem culpa nenhuma, tens tu a ver, tens tu a ver com isso, não é filho? Cada um que se vá safando como puder, é mesmo assim, não é? Tu fazes como os outros, fazes o que tens a fazer, votas à esquerda moderada nas sindicais, votas no centro moderado nas deputais, e votas na direita moderada nas presidenciais! Que mais querem eles, que lhe ofereças a Europa no natal?! Era o que faltava! É assim mesmo, julgam que te levam de mercedes, ora toma, para safado, safado e meio, né filho? Nem para a frente nem para trás e eles que tratem do resto, os gatunos, que são pagos para isso, né? Claro! Que se lixem as alternativas, para trabalho já me chega. Entretém-te meu anjinho, entretém-te, que eles são inteligentes, eles ajudam, eles emprestam, eles decidem por ti, decidem tudo por ti, se hás-de construir barcos para a Polónia ou cabeças de alfinete para a Suécia, se hás-de plantar tomate para o Canada ou eucaliptos para o Japão, descansa que eles tratam disso, se hás-de comer bacalhau só nos anos bissextos ou hás-de beber vinho sintético de Alguidares-de-Baixo! Descansa, não penses em mais nada, que até neste país de pelintras se acha normal haver mãos desempregadas e se acha inevitável haver terras por cultivar! Descontrai baby, come on descontrai, afinfa-lhe o Bruce Lee, afinfa-lhe a macrobiótica, o biorritmo, o hoscópio, dois ou três ovniologistas, um gigante da ilha de Páscoa e uma Grace do Mónaco de vez em quando para dar as boas festas às criancinhas! Piramiza filho, piramiza, antes que os chatos fujam todos para o Egipto, que assim é que tu te fazes um homenzinho e até já pagas multa se não fores ao recenseamento. Pois pá, isto é um país de analfabetos, pá! Dá-lhe no Travolta, dá-lhe no disco-sound, dá-lhe no pop-chula, pop-chula pop-chula, iehh iehh, J. Pimenta forever! Quanto menos souberes a quantas andas melhor para ti, não te chega para o bife? Antes no talho do que na farmácia; não te chega para a farmácia? Antes na farmácia do que no tribunal; não te chega para o tribunal? Antes a multa do que a morte; não te chega para o cangalheiro? Antes para a cova do que para não sei quem que há-de vir, cabrões de vindouros, ah? Sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu ah? Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá, e eu? José Mário Branco, 37 anos, isto é que é uma porra, anda aqui um gajo cheio de boas intenções, a pregar aos peixinhos, a arriscar o pêlo, e depois? É só porrada e mal viver é? O menino é mal criado, o menino é 'pequeno burguês', o menino pertence a uma classe sem futuro histórico... Eu sou parvo ou quê? Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro, que se foda o progresso, mais vale só do que mal acompanhado, vá mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos! 

Deixem-me em paz porra, deixem-me em paz e sossego, não me emprenhem mais pelos ouvidos caralho, não há paciência, não há paciência, deixem-me em paz caralho, saiam daqui, deixem-me sozinho, só um minuto, vão vender jornais e governos e greves e sindicatos e policias e generais para o raio que vos parta! Deixem-me sozinho, filhos da puta, deixem só um bocadinho, deixem-me só para sempre, tratem da vossa vida que eu trato da minha, pronto, já chega, sossego porra, silêncio porra, deixem-me só, deixem-me só, deixem-me só, deixem-me morrer descansado. Eu quero lá saber do Artur Agostinho e do Humberto Delgado, eu quero lá saber do Benfica e do bispo do Porto, eu quero se lixe o 13 de Maio e o 5 de Outubro e o Melo Antunes e a rainha de Inglaterra e o Santiago Carrilho e a Vera Lagoa, deixem-me só porra, rua, larguem-me, desopila o fígado, arreda, T'arrenego Satanás, filhos da puta. Eu quero morrer sozinho ouviram? Eu quero morrer, eu quero que se foda o FMI, eu quero lá saber do FMI, eu quero que o FMI se foda, eu quero lá saber que o FMI me foda a mim, eu vou mas é votar no Pinheiro de Azevedo se eu tornar a ir para o hospital, pronto, bardamerda o FMI, o FMI é só um pretexto vosso seus cabrões, o FMI não existe, o FMI nunca aterrou na Portela coisa nenhuma, o FMI é uma finta vossa para virem para aqui com esse paleio, rua, desandem daqui para fora, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe...


Mãe, eu quero ficar sozinho... Mãe, não quero pensar mais... Mãe, eu quero morrer mãe.
Eu quero desnascer, ir-me embora, sem ter que me ir embora. Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe? Diz, são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento. E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí nessa viagem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar...


Assim mesmo, como entrevi um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o azul dos operários da Lisnave a desfilar, gritando ódio apenas ao vazio, exército de amor e capacetes, assim mesmo na Praça de Londres o soldado lhes falou: Olá camaradas, somos trabalhadores, eles não conseguiram fazer-nos esquecer, aqui está a minha arma para vos servir. Assim mesmo, por detrás das colinas onde o verde está à espera se levantam antiquíssimos rumores, as festas e os suores, os bombos de Lavacolhos, assim mesmo senti um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o bater inexorável dos corações produtores, os tambores. De quem é o carvalhal? É nosso! Assim te quero cantar, mar antigo a que regresso. Neste cais está arrimado o barco sonho em que voltei. Neste cais eu encontrei a margem do outro lado, Grandola Vila Morena. Diz lá, valeu a pena a travessia? Valeu pois.

Pela vaga de fundo se sumiu o futuro histórico da minha classe, no fundo deste mar, encontrareis tesouros recuperados, de mim que estou a chegar do lado de lá para ir convosco. Tesouros infindáveis que vos trago de longe e que são vossos, o meu canto e a palavra, o meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, dos vossos antepassados que ainda não nasceram. A minha arte é estar aqui convosco e ser-vos alimento e companhia na viagem para estar aqui de vez. Sou português, pequeno burguês de origem, filho de professores primários, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro, faltam-me dentes. Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto, muito mais vivo que morto, contai com isto de mim para cantar e para o resto.

José Mário Branco

26/08/2013

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14

sobre a expulsão do ditador islâmico
há a dizer o seguinte

os políticos ocidentais
como sempre inspirados
mobilizaram as suas redes sociais
sempre inpirados pela Epístola I
de S. Paulo aos Romanos

a salvação de Deus
será enviada aos gentios
e eles a entenderão,
28, 28

ajudaram
outros islamitas
a revoltar-se
e a expulsar o ditador

o dono do café Farol
no porto do Suez
queixa-se desde então
«julgam que podem
fazer o que querem
agora até às raparigas
fazem o que está mal
já nem sequer hiyab a tapar
a sem-vergonha»

Walid o muezim
e os amigos
fazem ronda nocturna
 vão de moto
em demanda do mal

Walid
esfaqueou Ahmed
quando o viu
beijar a namorada
num recanto do parque
e Ahmed reagiu
aos insultos

ora graças a deus
esfaquear já não parece tão mal
como a bárbara lapidação

ainda desconhecem
outros castigos simples
que não oferecem dificuldade

o método por exemplo
que os jovens católicos
usaram no Porto
para eliminar Gisberta
a herege

Alberto Pimenta, in “de nada”, pp.43-44, ed. Boca, 2012. 



25/08/2013

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AS FREIRAS DE SANTA CLARA

As freiras de Santa Clara
Quando vão rezar ao coro
Dizem umas para as outras:
Quem me dera ter namoro!

Cebolório! Cebolório! Cebolório!
Bacalhau assado
Bacalhau cozido
Muito bem batido
Com seu dente d'alho

Resina pra tirar calos
Ora pro nobis

As freiras de Santa Clara
Quando vão rezar matinas
Dizem umas para as outras
Quem nos dera amar, meninas!

As freiras de Santa Clara
Quando vão tocar o sino
Dizem umas para as outras:
Quem me dera ter menino!

As freiras de Santa Clara
Andam numa roda viva
Ora no coro de baixo,
Ora no coro de riba.

As freiras de Santa Clara
Quando vão rezar à missa
Dizem umas para as outras:
De rezar tenho preguiça!

22/08/2013

Sábado 24 de Agosto às 17h00...




 As edições do Homem do Saco e a revista Intervalo irão estar na Gato Vadio 
para uma conversa acerca da sua actividade editorial.

Com a presença de 
Mariana Pinto dos Santos e Rui Miguel Ribeiro.


Não se esqueçam! Próximo Sábado, dia 24 de Agosto às 17h00 no Gato Vadio (Rua do Rosário, n.º 281 Porto)

21/08/2013

Quinta-Feira 2...




TER RAZÃO ÀS QUINTAS-FEIRAS

Se Vossas Excelências não se importam,
Excelentíssimas entidades superiores,
eu hoje,
que é quinta-feira,
gostava de ter Razão.
Sei perfeitamente que morrerei um dia
e que só na minha rua o vão saber.
Por isso se Vossas Excelências realmente não se importam
eu hoje, que é quinta-feira,
precisava muito de ter Razão.
De sete dias da semana pedir um para viver,
não é muito, convenhamos.
A não ser…
Ah! é verdade, a não ser…

Eduardo V. da Fonseca, “Tempo dos Manequins”, p. 14, ed. do autor, plaquete composta e impressa na tipografia frasco & companhia, Póvoa de Varzim em Janeiro de 1957. Capa de A. Matos.

20/08/2013

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FINO TRATO

Avança uma pedra
e as pernas abrem
falência
ou a chuva faz fortuna. Motores.
O mover das pedras pode ser verificado
não o resto,
quanto ao menos
mais.
Atrás não lhe ficaram os braços
que eram
andrajos dum corpinho
sem luz nem valor.
Os sábios não pagam, os galos não cantam.
Vão-nos descontando
dos nossos livros de contas:
lázaros brinquedos
fracos tambores
sapatos.
Oh pernas para que vos quero!

p.13


A FALA DOS CIGARROS

A vida encardiu-se
tocam as sinas
as unhas crescem
em curva, o buraco diz.

Os tiros rentes à ventania
reparam em nós.
Eis-nos ao abrigo
das doenças infantis.

Alguém nos recheou de verd
ades, assim Uma esconde Outra
e esse trabalho ingrato
na folha de papel se deita
e esse suor não molha
e essa pena não fere.

p.14


PENDURAR AS ARMAS

A dança traseira das portas
que nos voltam as costas e
a disciplina de confessar
de vento se fazem.

Mas pena de amor pousa frondosa
e o olhar proíbe os piropos de vento.

Minha dona vive sem casa
seu rol de armas seca
pendurado ao sol e dona minha sabe
dividir opiniões
mudar seus filtros.

p.28


Regina Guimarães in “O Extra-Celeste”, AEFLUP – Associação de Estudantes da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 1986.

11/08/2013

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Olha Jorge quando vier a morte

E virá cedo

«Não deixes fechar-me os olhos»

Eflorescências salitrosas me rebentarão das órbitas

Para queimar as mãos que fechar-mos queiram

- Não pode a luz negar-se a quem bêbado dela

Inventou em cada dia uma madrugada

E eis tudo quanto deixo a quem me herde

Não Jorge não deixes fechar-me a luz que em vida

Neles sempre tive

Estendido no caixão sereno e impoluto

Irei de olhos abertos

Porque eu quero e sei que hei-de morrer

Como quem vive.

Vasco Miranda in “Invenção da Manhã e outros poemas”, Livraria Morais Editora, Lx, 1963.

08/08/2013


Quinta-feira...


Domingo irei para as hortas na pessoa dos outros,
Contente da minha anonimidade.
Domingo serei feliz – eles, eles…
Domingo…
Hoje é quinta-feira da semana que não tem domingo…
Nenhum domingo. –
Nunca domingo. –
Mas sempre haverá alguém nas hortas no domingo que vem.
Assim passa a vida,
Subtil para quem sente,
Mais ou menos para quem pensa:
Haverá sempre alguém nas hortas ao domingo,
Não no nosso domingo,
Não no meu domingo,
Não no meu domingo…
Mas sempre haverá outros nas hortas e ao domingo!

Álvaro de Campos, “Poesias”, Editorial Nova Ática, p.58, 2007.

06/08/2013

Da «Cartilha (M/F)aternal»...




“Marialva é o antilibertino português, privilegiado em nome da razão de Casa e Sangue, cuja configuração social e intelectual se define, nas suas tonalidades mais vincadas, no decorrer do século XVIII.
No convencionalismo popular (ou antes pequeno-burguês) marialva é o fidalgo (forma primitiva de «privilegiado») boémio e estoura-vergas. Socialmente será outra coisa: um indivíduo interessado em certo tipo de economia e em certa fisionomia política assente no irracionalismo.”

José Cardoso Pires, “Cartilha do Marialva - ou das negações libertinas”, Editora Ulisseia, p.9, Lisboa, 1967.


“Por sua vez, a Política e a Administração, perdendo o estímulo da crítica activa, desligam-se gradualmente do cidadão, irresponsabilizam-no. Passam a construir uma actividade de clientelas que procuram formas de manutenção desse equilíbrio social à custa de soluções imediatas, de sobrevivência pelo dia-a-dia, como é uso tradicional dos providencialistas e dos caciques locais.”

José Cardoso Pires, “Cartilha do Marialva - ou das negações libertinas”, Editora Ulisseia, p.66, Lisboa, 1967.


“Fatalidade do tempo, a Ciência apresenta-se como desafio irrecuperável às verdades eternas, como heresia ou exibicionismo, aventura que tende a reduzir o homem à máquina sem alma. E a arte como exploração pretensiosa, ou ainda: ocupação para inadaptados. Hollywood, as biografias em série e os comic strips distribuem esse retrato exótico do intelectual: o sábio débil e lunático; Chopin compondo num acesso de fúria enquanto o vendaval lhe destelha a casa; Van Gogh, o pintor de uma orelha por uma prostituta; Bocage, o das anedotas e dos sonetos entre sécias.
Com isto, isola-se o intelectual do convívio comum, recusa-se-lhe o estatuto dos valores colectivos. Melhor dito: propõe-se-lhe uma disfarçada alienação, tolerando-a à margem e enaltecendo-lhe as irresponsabilidades. Dá-se-lhe o lugar dos predestinados ou a condescendência dos ingénuos semiloucos – e fica defendida a sociedade de ideias pelo menos ociosas. E simultâneamente «eternizada» a obra de criação.”

José Cardoso Pires, “Cartilha do Marialva - ou das negações libertinas”, Editora Ulisseia, p.105, Lisboa, 1967.


“Com tantas facetas e quase sempre genialmente expostas, Fernando Pessoa projectou o seu desejo de universalidade com ideias que permitiram explorações posteriores da parte dos pensadores menores que lhe sucederam. O irracionalismo dos passadistas soma D. Sebastião ao Supra-Camões e monta a sua interpretação providencialista da História. Daqui a uma teoria natural das elites («os génios de nascença») é um salto minúsculo e, vai não vai, está declarada a divinização do poder, a aceitação dos predestinados.
Agora, sim, pode falar-se da «missão do Estado que opõe obediência ao espírito de revolta e a renúncia à ambição» e estende-se esta palavra de ordem colectiva à manutenção da ordem doméstica. Bem entendido, Pessoa não foi tão longe. Mas nas viagens e contraviagens que fez no domínio da especulação deixou muitos sinais que os integralistas e outros aproveitaram como padrões de honra na sua restauração do Portugal Antigo.”

José Cardoso Pires, “Cartilha do Marialva - ou das negações libertinas”, Editora Ulisseia, pp.186-7, Lisboa, 1967.



Esta porta não existe no mundo
Mas na memória de alguém.
Os que querem entrar
São travados
Pelos que vão a sair.

Dez anos podem não deixar marca
Um olhar pode apontar a eternidade.
Não há «Perdão!»
Que soe mais melancolicamente.

A porta ali está ainda
Só virando a cabeça e revendo o passado
Se distingue claramente
Que é uma porta
Que leva à Divina Comédia.

Existe num vazio.
Podia estar num lado qualquer.

Zheng Min, in: "Chinese Literature", Winter 1994 op. cit. de Alberto Pimenta in: “A magia que tira os pecados do mundo”, Cotovia, 1995.

05/08/2013

Piolho 11...


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Revista Pé de Cabra nº 9


em júbilo pela oportunidade que nos deram,
estamos reconhecidos aos donos da vida.
E em romaria lhes beijaremos os anéis.
nos altares onde estiverem

nós, os que adoramos viver,
sentimo-nos na obrigação de agradecer.

aos patrocinadores, colaboradores,
a todos quantos nos emprestaram o riso e o ranho
aos que nos entusiasmaram encorajaram enrabaram e
aos que ainda estão para vir                      agradecemos,


, a colaboração
ao haxixe de Marrocos
à febre de malta
ao vinho da casa
à heroína

que casa c’o cowboy
lá para o fim do filme

agradecemos
     ao fim do filme
     por ter acabado
     às sombras da tarde
     por fazerem sombra à tarde
     aos caminhos d’aldeia

     por cheirarem a merda de vaca
     ao senhor padre por ser virgem
     nem ele sabe a importância que isso tem
     nós também não

agradecemos
     ao white horse
     royal label
     aos pudins flan
     aos maravilhosos momentos proporcionados

     à nossa namorada
     as incontáveis fodas
     e as que demos sem contar

     à mulher-a-dias
     pela religiosidade com que nos lavou as cuecas
     pela afeição com que nos viu crescer
     pela idiotice de nunca querer ter sido mais nada

agradecemos
     ao presidente da câmara
     ter perdido as autárquicas
     ao partidos no poder
     e aos que ainda nos hão-de vir foder
     às sogras tios e primas
     a paciência de serem há tantos anos da família

agradecemos
     ao sol à praia aos pardais ao ar lavado
     e a todos os outros heróis mortos em combate
     e imortalizados amortalhados em grandiosas
     estátuas muros de betão

agradecemos
     aos morcões e aos estúpidos
     trissómicos e outros produtos das aberrações cromossómicas
     a beleza com que são horríveis
     é aí que vemos a infelicidade de que escapámos
     é aí que temos a noção do tamanho bonito de existirmos assim

agradecemos
     à dor aos sofrimentos inú
     meros com que bordamos os nossos dias
     porque nosso será o reino dos céus
     aos ladrões e às putas
     aos corcundas aos paralíticos
     pela sensação de imprevisto quando caminhamos na rua
     por florearem o quotidiano
     por exibirem conceitos tão próprios de vida

e juramos
     passar a cumprimentar toda a gente
     estar infinitamente gratos
     infinitamente gatos
     piolhos porcos morcegos
     infinitamente coisos despidos ao frio
     vestidos ao sol
     saias casacos camisas gabardines de vénus tanta
     roupa tanta por sobre chãos corpos galácticos

juramos
     estar infinitamente gratos
     a todos os casais felizes
     uniões duradouras bodas de prata
     por demonstrarem o conceito de felicidade emparedada
     o valor da paciência
     o infinito do esforço

agradecemos
     à arte à ciência
     à história à sociologia à política
     à religião
     darem emprego a tanta gente

agradecemos
     à tecnologia aos motores
     pelo mesmo motivo
     às fábricas aos computadores
     idem
     e a tudo quanto faça barulho cheire
     mal foda a vegetação os
     rios
     os sóis a aragem
     porque inevitavelmente somos a favor
     duma poluição avançada,
     não dessa como nos países do terceiro mundo
     que é feita de gente magrinha feia
     de ver.
     Defendemos uma verdadeira poluição
     pesada d’acordo com os padrões europeus

agradecemos
     à tropa,
     verdadeira escola d’homens
     e à escola
     tropa de meninos

agradecemos
     a cristo     marx     reich
     pela inutilidade prática das suas demonstrações
     e agradecemos a todos os quantos
     fizeram demonstrações cheias de inutilidade prática
     terem tido tanto êxito

     não nos esqueceremos igualmente dos nossos teóricos
     já lhes basta a infelicidade de serem
     teóricos
     de se esquecerem de comer
     tudo a bem dos teoremas teóricos
     explanações metafísicas
     conceitos epistemológicos
     não podemos claro deixar de
     sentir ternura pelos nossos teóricos

agradecemos
     às entidades divinas
     a força que nos dão a garra
     o querer e o tesão

     e agora não agradecemos a mais ninguém
     porque vamos comer um bom bife
     talvez ainda assim devêssemos agradecer
     à defunta vaca
     porque sempre em tudo o que façamos sem dúvida contraímos
     obrigação comer um bom
     bife
     e foder uma garrafa de verde
     o que é um acto poético

     de incomensurável estética


João Habitualmente
in Revista Pé de Cabra nº. 9,
Porto/Bairro da Pasteleira, pp.5-9,
Junho de 1989




Revista Pé de Cabra nº 1

Diz aquele poema do 'mancho as noites e troco os dias'!...


Nada na mão
algo na v’rilha
remancho as noites

e troto os dias
entre tabaco
viris bebidas
fraco mas forte
de muitas vidas.

(Que eu já dormi
co’as duas mães
e as duas filhas
que vão à missa
com três mantilhas.)
Bebo contigo
cerveja, whisky
p’ra que se veja
mais rubra a crista.


                               Alexandre O’Neill