26/05/2013

Isso 'ravolta'...

Rui Knopfli


 «ARS POÉTICA 63»...

Como fazer versos?
                                     Sentar
numa cadeira à secretária,
papel à frente, caneta em punho.
Esperar. Esperar em vão. Esperar.
Esperar mais ainda. Esperar sempre.
Se é fumador, fumar então
antes, depois ou no decurso.
Se não, continuar a esperar.
Se ao fim de um certo tempo
o dito tempo exceder o tempo
que se achou ser justo esperar,
desistir. Para voltar em novas
arremetidas desesperadas e inúteis,
em dias alternados ou consecutivos.
Em dada altura, vai-se de avião,
e ela chega como no expresso
do Poeta de S. Martinho da Anta,
mais pobre, menos ritmada talvez
(não admira, vai-se de avião!),
mas vem, contudo, e é o que importa.
Pode começar por uma palavra bonita,
coisa rara e difícil. E arriscada:
nunca se sabe o que virá depois
 que pode ser bem pior e fracassar.
Há quem começa com irmãos,
o que tem vantagens inúmeras,
desde as garantias de escolas às conveniências
e conivências do correligionarismo fiel
que assegura um público bastante certo,
embora pouco amante da poesia
e, de ordinário, pouco esperto.
Desvantagens:
traz grandes dores de cabeça e pesadas
responsabilidades para com a humanidade
inteira e o Homem com H maiúsculo,
tarefa sempre ingente para quem começa.
O melhor ainda, o mais velhinho
e garantido é começar pela palavra
eu. Será umbilicalista, egoísta,
eu sei cá, mas é pequenina e humilde
 e não diz mais do que diz, não tem
mais responsabilidade do que as que convém
seu minúsculo e modesto universo. Será
pouco, mas é um mundo. Para quê
querer incendiar os astros se, dentro de nós,
ainda não acendemos todas as luzes?

Rui Knopfli

16/05/2013

«Be taken...»

Vitorino Nemésio
SER LEVADO

Tivesse eu sido o que não fui,
Hoje era o mesmo projectado
António, Pedro, Lopo, Rui,
Quatro semblantes num só estado.

Mas serei, ainda que a morte
Me faça amiba, verme, pó:
Agulha a Deus, íntimo norte,
Resto de tudo uma alma só.

De eterno levo o tempo em frente
Como o boi leva o feno visto:
Mas ele é rês, e em mim vai gente:
Levado embora, existo, existo!

Vitorino Nemésio in "O Verbo e a Morte ",1959.

14/05/2013

Ó il in can vas...

Manuel Ortiz de Zarate, Henri-Pierre Roché [de uniforme], Marie Vassilieff, Max Jacob e Picasso, diante do café La Rotonde, Montparnasse, Paris, 12 de Agosto. 1916. Foto de Jean Cocteau para ilustrar o livro de Max Jacob, “Le cornet à dés” (1917)]

05/05/2013

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Guillaume Apollinaire


A BRANCA NEVE


Os anjos os anjos no céu

Um está vestido de oficial
O outro faz de cozinheiro
Os restantes um coral

Belo oficial da cor do céu
A doce primavera depois do Natal
Condecorar-te-á com um belo sol
            Um belo sol

O cozinheiro depena os gansos
            Ah que caia a neve
            E eu tenha em breve
A minha bem-amada entre os meus braços

p.18 (Alcools)


O GATO


Na minha casa desejo ter
Uma mulher que imponha a sua razão
Um gato passeando por entre livros
E porque sem eles não posso viver
Amigos seja qual for a estação

p.20 (Le Bestiaire au Cortège d’Orphée)


AS JANELAS


Do vermelho ao verde morre o amarelo
Quando as araras cantam nos bosques natais
Destroços de pihis
Há que fazer um poema sobre um pássaro que
            tem uma só asa
Enviá-lo-emos telefonicamente
Traumatismo gigante
Faz com que os olhos se humedeçam
Eis aqui uma linda rapariga entre as jovens de Turim
O pobre rapaz assoava-se na sua gravata branca
Correrás a cortina
Abrirás depois a janela
Aranhas quando as mãos teciam a luz
Beleza palidez insondáveis violetas
Tentaremos em vão descansar
Começaremos à meia noite
Quando há tempo há liberdade
Caramujos Lota múltiplos sóis e o Ouriço do poente
Um velho par de sapatos amarelos em frente da
            janela
Torres
As torres são as ruas
Poços
Os poços são as praças
Árvores ocas que abrigam as cabritas vagabundas
Os Carneiros cantam árias agónicas
As Cabras castanhas
E o ganso uá-uá trompeteia no norte
Onde os caçadores de ratinhos
Raspam as peles
Diamante resplandecente
Vancouver
Onde o comboio branco de neve e de fogos
            nocturnos foge do inverno
Oh Paris
Do vermelho ao verde morre o amarelo
Paris Vancouver Hyéres Maintenon New York e
            as Antilhas
A janela abre-se como uma laranja
O belo Fruto da luz

pp. 24-25 (Calligrammes)



Guillaume Apollinaire nasceu em Roma, a 26 de Agosto de 1880. A sua mãe era de ascendência polaca. Aos vinte anos ei-lo em Paris, interessado pela actualidade literária revelando então simpatias anarquistas. Escreve, entretanto, novelas eróticas para sobreviver. O seu amor não correspondido está na base da «Canção do mal-amado». Entre os seus amigos em Paris nessa altura contam-se Picasso, Henry Rousseau, Henri Delaunay, André Salmon e Alfred Jarry. É em 1911, acusado de cumplicidade no roubo da Gioconda. Em 1912 sai a sua primeira recolha poética - «Alcools». Com o advento da Primeira Grande Guerra faz uma petição para ser incorporado no exército francês. Acaba por ser ferido na cabeça pela explosão de um obus. Em 1918 publica «A Linda Ruiva», uma espécie de testamento poético inspirado em Jacqueline Kolb, modelo de Picasso, com quem viria a casar-se. A 9 de Novembro 1918 sucumbe à gripe que assola Paris. É sepultado no cemitério Pére Lachaise. Tinha 38 anos.


Traduções de  Jorge de Sousa Braga in Guillaume Apolinaire, “O Século das Nuvens”, Hiena, Lisboa, 1989.