26/02/2013

"tristissimus hominum"(*)...


(*)"O mais triste dos homens". Foi o que Plínio, o Velho, chamou a Tibério na sua enciclopédia Naturalis Historiæ



Velhos livros Garnier bilingues latim-francês tornados penugentos pelo uso, a idade, o sol, o pó.

Li num desses velhos livros das edições Garnier que o imperador Tibério exigia – para guardar os rolos de imagens pornográficas que coleccionava – cilindros inteiramente amarelos e desprovidos de titulus a fim de que nada traísse a curiosidade que o obcecava.

Errava no império a que fugia.

Imperador desprezado, bicho-do-mato, detestando as cidades, que não queria império nenhum, que matou Deus, que fugiu da própria Roma.

Preferiu viver no mais alto de Capri, à sombra da rocha a pique sobre o mar.


*

Viver escondido – late – dizia Lucrécio.
Larvatus, dizia Descartes.


Pascal Quignard, “As Sombras Errantes – Último reino”, pp. 8-9, Gótica, Lisboa, 2003.
Trad. Maria da Piedade Ferreira.

22/02/2013

Das «Bestas Céleres»...


A LISTA DOS
MAIS VENDIDOS
o mercado e a produção da miséria subjectiva
por Marcia Tiburi

Na capa de um livro da classe de escrita denominada “autoajuda” encontramos a seguinte informação: “mais de 50 milhões de livros vendidos em 50 países”. A explicação numerária está curiosamente sob o nome do autor, bem no topo da capa, antes mesmo do título que, logo abaixo, parece ser relativamente menos importante do que os números que aparecem acima dele. Livros em geral, clássicos ou não, não trazem explicações dessa natureza que venham, como esta, sublinhar o nome do autor. Verdade é que escritores são valorizados por motivos estéticos e políticos que também podem representar algum tipo de capital. Mas justamente por implicarem outros valores não precisam apelar à quantidade vendida aqui ou acolá para despertar o desejo de compra.

Neste caso exemplar, o nome do autor está relacionado a uma quantidade, coisa que a explicação deixa claro. Trata-se de um best-seller, um livro muito vendido. Mas por que esta informação precisa estar em destaque?

Pelo mesmo motivo que jornais publicam listas de “mais vendidos”. E o que realmente importa nos chamados “mais vendidos”? É redundante, mas necessário dizer que os “mais vendidos” vendem mais. Que sejam lidos, ou não, é questão que não importa. Os mais vendidos não despertam o desejo de ler, mas o de comprar o que talvez até possa vir a ser lido.

O contraditório desejo das massas
Mais importante é entender que há uma manipulação das massas no ato de lançar e publicizar os números das vendas diante delas. Daí a função da lista estimulante. Massa é uma medida de quantidade populacional, sempre muita gente que pode ser manipulada porque, no contexto do todo, perde a sua capacidade de decisão no abandono de cada um à coletividade sem reflexão. Mas como isso acontece?

Assim como em uma eleição pesquisas de intenção podem mudar a orientação do voto, do mesmo modo, a lista de mais vendidos ajuda a vender qualquer coisa. A lógica é simples como aquela que verificamos ao ouvir do vendedor em uma loja: “essa camisa está vendendo muito”, “esse é o carro mais vendido da semana”. Frases como estas atingem um estranho desejo das massas localizado em cada indivíduo. O único desejo que sobrevive na massa deriva do medo de não fazer parte dela. Mas que desejo é esse que pode ser manipulado se desejo seria, justamente, aquilo que, no indivíduo concreto, não se deixaria manipular, enquanto a massa seria caracterizada pela ausência de desejo?

Ora trata-se do desejo que constitui a massa. Não o desejo de ter audiência para si, mas o desejo de ser parte da audiência de alguma coisa. O desejo de audiência é o desejo de fazer parte, de frequentar o clube, de entrar no estádio de futebol, de ver a novela que todos veem, de também ler o livro da lista dos mais vendidos. A lista aglutina a massa e assim conquista os indivíduos.

O pior dos livros, neste contexto, vende mais porque é, em algum sentido, mais barato. O mais barato é acessível a quem tem menos capital. Isso vale para a instância simbólica ou cultural. Quem não tem dinheiro, ou capital económico, não compra objetos caros. Quem não tem cultura, ou seja, capital cultural, não compra livros ou compra livros simbolicamente baratos, livros que cabem na sua ignorância do mundo dos livros.

O livro, que era um meio relativamente livre da indústria cultural, foi, como meio cultural, rebaixado à mercadoria e ao mercado. Há ainda livros simbolicamente muito caros que não podem ser comprados mesmo que custem apenas centavos ou sejam emprestados em bibliotecas. Livros que não cabem em listas porque exigem aquilo que se chamava alma e que hoje, na falta de nome melhor, pode ser compreendida como “riqueza subjetiva”, aquela que não vale nada no mundo da miséria inerente ao capitalismo.

Cada leitor tem o livro que merece e cada massa a lista própria de sua própria manipulação na qual cada um será subjetivamente enforcado sem chance de salvação. Aos mortos-vivos da cultura, boa leitura.

in revista CULT, nº175, p.19, Dezembro de 2012, São Paulo.
marciatiburi@revistacult.com.br


20/02/2013

«Pimenta à frente, e nus traseiros!... (*)»


(*) Foi a exclamação que tive ao deparar-me com o anúncio da nova exposição do Museu Leopoldo em Viena d'Austria... Após de há uns tempos atrás ter lido o poema do Alberto Pimenta que aqui reproduzo.

6

chama-se Tim
o homem
em exposição no museu
e adormece
depois do intervalo
do almoço

acorda-o
o vigilante
há um potencial comprador
que o quer ver
e ele acorda e
estende a língua

mas o interessado
não quer a língua
manda baixar as calças
quer ver o acabamento
da tatuagem das costas
que por morte do homem
é o que está à venda
com a pele das ditas

assim reza o contrato
talvez hoje ainda não
amanhã poderão ser milhões
para os artistas
Tim
o que forneceu
e Wim
o que adquiriu
grande gesto
aquela tela viva
que agora expõe no
L’
ouvre
mas ouvre o quê

a arte abriu
nos graffiti das cavernas
como abre
nos muros de hoje

nos museus
estão bens
da economia financeira
nem âme vivante

se além da pele
abrirem a cabeça destes dois
encontram um neuromealheiro
em forma de neuroporca
recém-parida

está bem
a arte de museu
foi até há pouco
carne à venda

por que não há-de sê-lo
outra vez

Alberto Pimenta, 
“De Nada”, pp28-29, Boca – palavras que alimentam, Lda., 2012.






info da expo: 


CENTRO NACIONAL DE CONTRACULTURA: UFFF finalmente cá estou eu no café Piolho em busc...

CENTRO NACIONAL DE CONTRACULTURA: UFFF finalmente cá estou eu no café Piolho em busc...: E STUPID A Ma ga zine é uma publicação Edições Mortas,  Black Sun editores e N edições. Colaboram neste primeiro número :   Al...

19/02/2013

Do homem da bicicleta...



Alfred Jarry

pormenor de OLFACTO dos "Cinco Sentidos" de Alfred Jarry ed- 100 cabeças da Landscape d'Antanho

OS CINCO SENTIDOS de Alfred Jarry
Tradução Luís França
Impresso por Luís Henriques, Luís França, Manuel Diogo e Ricardo Castro
edição 100 Cabeças

Ubu Rei
Pequena resenha: Alfred Jarry (1873-1907), escritor, poeta e dramaturgo francês, foi aluno de Henri Bergson, e o criador da 'Patafísica' definida no 'Gestos e Opiniões do Dr. Faustroll, Patafísico' como "a ciência das soluções imaginárias e das leis que regulam as excepções", algo que nem a física nem a metafísica podem responder. Depressa o caracterizaram como um homem sempre acompanhado por três atributos: a bicicleta, o revólver e o absinto (mas «merdre!», é preciso sempre desconfiar das caricaturas). Serviu de personagem a André Gide no romance «les Faux-Monnayeurs». A peça teatral "Ubu rei" é sem dúvida a sua obra literária mais conhecida. 

"- Merdre!" exclama o pai Ubu à mãe Ubu. «Merdre» é o termo que Jarry cunhou, um neologismo, milhares de vezes repetido. É também o décimo mês de treze no calendário patafísico.

18/02/2013

Ao contrário daquela editora que manda ler com um ípsilon...

A partir de hoje pode-se encontrar na Livraria Alfarrabista Chaminé da Mota títulos das Edições 50Kg. O que é um privilégio raro, pois segundo o Sr. Pedro Chaminé da Mota, "isto não é vocacionado para o  livro novo"... (Então para 'aqueles novíssimos' penso mesmo que «jamé!»). Tem bom gosto, mas isso já lhe advinhava...



16/02/2013

Sena dizia: a «Poetaria»...


cinco

poetria
sempre a poetria
a delicada hora da poetria
de preferência antes de jantar
porque a seguir
poetria bebe do fino
e depois às vezes
não sabe o que diz

de qualquer modo
a poetria
a que embala
as donas de casa
e tem banca no templo
ou vice-versa

essa
faz parte dos ciclos
menstruais nacionais
até o ministério gosta dela
porque ela é boa
doce como o porco e
trata as alterações biológicas
como coisa do espírito santo

quem aprecia congelados
tem ainda o festival
da poetria
pode-se vir
há muitas disputas
em directo
e também em playback

ah
aquela vida de artista
solene e graciosa
viajando com a mala
cheiinha de poetria
e de mash-ups
mais um grande festival
promete muitos rabos e orelhas

alguém disse uma vez
que a poetria está a anos-luz
que é uma supernova
quer dizer
brilha muito
aos olhos de todos
mas na verdade
já não existe

de facto ela
ainda dá ares de existir
meia moribunda
porque a sua função
era ampliar o mundo
não
reduzi-lo ao tamanho de cromos

não
não é uma supernova
tem a vida artificialmente prolongada

o que nos momentos próprios
chegou a fazer faísca
agora só faz bocejar
como andar em topless
entre nudistas
tal e qual queridos

adorais a valeta
a dos outros
a doença terminal
a dos outros
a loucura
a dos outros
daí a vossa melancolia de classe
a vosso medo de não ganhar
maior que a vossa tristeza de perder

a nós outros
o tempo
passa-nos por cima

a vocês
parece que não passa
fica em cima como o de Proust
o que costuma acontecer
nessa posição
é sabido
e é vossa conquista

se restassem deste mundo
só os livros de poesia
os arqueólogos mais tarde
pensariam
que neste tempo
não aconteceu nada
a não ser afiar os cabos das facas

as vossa leituras
são a ver o mar
mas a vossa poesia olha o mundo
como um ecrã de televisão
com um grande vazio de árvores

os pássaros quando aparecem
pousam no chão

com Schubert no ouvido
uma elegia
ao pássaro em cima do rochedo
podia vir a calhar
com os ecos uns dos outros

era bom
que o pássaro voasse

o problema é esse mesmo
ele não levanta voo

quando passar este tempo
de sombra total
do corpo e do espírito
vocês partirão
sem haver no cais
a despedir-se
nem terão já a quem acenar
com o vosso lenço de papel
manchado
de tinta de choco

o que nos divide é um véu espesso
não
não podemos ser amigos


Alberto Pimenta,
in “De Nada”, Boca – palavras que alimentam Lda., pp. 73-76, 2012.

«de nada»...


15/02/2013

«TRANSMIGRAÇÕES»


Perguntou-me outro dia uma jovem estudante – interpretando a minha indiferença pelos confortos e glórias do mercado como indiferença pela publicação – por que motivo não guardava eu os manuscritos na gaveta.
                
«As pobres criaturas iriam sufocar» – respondi. Esta frase ganhou entoações de susto. Para uma mera hipótese, pareceu-me bastante capaz de assassinatos. Descrevi a paisagem ressequida, as casas com bolores e vigas rebentadas, e as personagens hirtas, com as carnes desfeitas sobre esqueletos verdes, de boca aberta naquele grito uivante que sempre solta os emparedados já depois de lhes ter parado o coração.
                
Há algures, de onde emanam os poderes criadores, uma ficha trocada, um cabo mal metido. E essa gente, essas terras, essas cóleras, esses lugares transtornos amorosos – em vez de acontecerem no tempo e na matéria, com a sua existência benigna e humanal, vêm nascer parasitariamente dentro da minha ideia, desarranjando de tal modo as ordens, os fios naturais do pensamento, vivendo com tal folga à minha custa que o único remédio é atirar com elas para cima do papel, pô-las a circular e deixar que mereçam ternura, os despiques, o desprezo das várias sociedades que frequentam. Eu, quanto a mim, suspiro com alívio e penso nelas como em maçadores que no entanto alguma vez amámos: desejando que possam ser felizes e que não mais nos saltem ao caminho.
             
   Bem sei que isto parece perfeita impertinência: primeiro, porque vem a despropósito falar assim da escrita num tempo em que ao trabalho e à inteligência – e não à possessão por astros ignorados – é que usa atribuir-se a feitura de um texto; segundo, porque soa a desatino e de certa maneira a má educação pôr esta voz, num mundo em que as literaturas se transformam em coisas respeitáveis, a queixar-se da grande sem-cerimónia com que as personagens e os enredos se apresentam e dizem, tendo do bolo de Alice o modo imperativo: «Conta-nos». E eu, tão rapidamente quanto posso., lá as conto e as empurro para longe de mim.

Hélia Correia 
na nota introdutória a “Montedemo”, pp.9-10, Relógio D’Água, Lx, 1987. 

14/02/2013

Para Hoje e o Amanhã...

(...)
Doidejam besouros e abelhas nas rosas
volitam nas plantas as mariposas,
enquanto num tronco gargalha a cigarra.

José Apolinário Ramos, "Ontem e Hoje", p.38, Livraria Portugal, Lisboa, 1979. 

12/02/2013

«QUARTA-FEIRA DE CINZAS»...


Sonolências de palhaços,
Desvirgadas a chorar,
Olhos lentos, longos, lassos,
Serpentinas aos pedaços
Sonhos parados, cansaços,
Olhos de morta a cismar

– Pedaços de coisas mortas,
Esquecidos pelas portas –
Olheiras densas, cansadas,
Olhos de noites perdidas,
Serpentinas esmaiadas,
a baloiçar molemente,
E um frouxo riso murchando
Na boca de toda a gente.

António Pedro
in “Antologia Poética de António Pedro”, p.5,  Angelus Novus Editora, Braga, 1998.

10/02/2013

NATURAE, lembrar Olga Gonçalves...

Olga Gonçalves (Luanda, 1929 - Lisboa, 2004)

30 de Janeiro

                Os troncos afundam-se na escadaria no declive sumptuoso da superfície branca. São fantasmas, de costas geladas, vejo o lugar inteiro recolhendo os passos vagarosos da neve.

                A neve traz sucessivos dedos, figuras maiores como amantes fluídos que se concentram, se metem a caminho, para encontrarem fora dos astros a origem da fábula, da paródia, da tragédia do vaudeville.

                A neve escuta, e olha, regressa das cadeias abstractas onde também havia corações e noites de Agosto e a infância dos nomes em transformação.

                Na senda reclusa, o pinheiro argênteo feneceu. Dois homens hão-de chegar para cortá-lo. Desistiu, pensei. Cansou, atalhei remediando. Seria nas primeiras névoas de Novembro, foi nas branduras de Outubro. O pinheiro tornou-se num ramo de cabelos sem odor, irrompido de intrépida mudez. Mas agora, tão cândido por entre a cerração, grito de alvura, à despedida, sem nada já saber do apelo e da velocidade dos minutos, ainda os membros rendidos para o carambelo, asas púrpura de um cardeal a entrarem-lhe no corpo, ainda um pintarroxo a ver-se nos seus galhos, como em alcácer, como obra-prima no sítio de nascer.

                É meio-dia, bateu meio-dia no velho relógio sobre o jardim dos Prosoros. À distância, o sonho, com Moscow e a estonteada floresta passam, passa o limite lôbrego do rio. Abalada e giratória a luz vinda de todos os lados, a luz acordará Nicolai Lvovitch Tusenbach: «Uma árvore secou, mas eis que balança, a par das outras, tocadas pela brisa. Isto me diz que farei parte da vida mesmo depois de morrer»[1].

                O tempo caminhando, a flecha do tempo a consumar o fogo e a rebentar as trevas, tudo é terrível de ambíguo enojo, vamos decerto arder depois de florirmos íngremes de mensagens, voar na planície ignota, mas não seremos esquecidos, Olga Prosorov, o pintarroxo além, como em alcácer, a nossa ressurreição, vê.

Olga Gonçalves, ”Olotolilisobi”, pp. 65-66, Edições Afrontamento, col. Fixões/7, 1983, Porto.



[1] In “As Três Irmãs” de A. Tchekhov
Tradução livre de A.

06/02/2013

Novidades 50kg...


Título:  Bombo.
Autor: Rui Azevedo Ribeiro.
Editora: Edições 50kg
Local: Porto
Ano: Janeiro de 2013.
ISBN: 978-989-97891-3-5
Depósito Legal: 354145/13
PVP: €5
Tiragem: 100 exemplares

Pormenor de Bombo pág. 6

04/02/2013

A Badalhoca vai abrir sucursal na rua da Picaria, brevemente

sucursal da mítica taberna do Porto na Rua da Picaria... BREVEMENTE

Taberna 'A Badalhoca

"Se é apreciador de bom presunto, esta histórica taberna não o vai desiludir. Desde 1929 que a "Badalhoca" faz as delícias de clientes de todos os estratos sociais, que apenas procuram uma coisa: o pão estaladiço recheado com o saboroso presunto fatiado. Os preços são convidativos e o ambiente é descontraído. A decoração é rústica, com pernas de presunto penduradas no teto e não faltam referências ao Boavista, o clube da casa."

Fonte do texto: http://escape.sapo.pt/porto/taberna-badalhoca-4014891