31/12/2012

Pormenor de 'Cornadas' de Rui Caeiro in "Ruindade".

Pormenor de 'Cornadas" de Rui Caeiro, in "Ruindade".

Título: Ruindade.
Autores: Rui Caeiro, Rui Pires Cabral, Rui Pedro Gonçalves, Rui Miguel Ribeiro e Rui Azevedo Ribeiro.
Editora: Edições 50kg
Local: Porto
Ano: Dezembro de 2012.
ISBN: 978-989-97891-2-8
Depósito Legal: 372713/12
PVP: €7,50

30/12/2012

Fotografia de Aurélio Paz dos Reis no dia de inauguração da LIVRARIA LELLO, em 13 de Janeiro de 1906, na Rua das Carmelitas, Porto.

28/12/2012

...


LISBOA

No bairro de Alfama os carros eléctricos amarelos chiavam nas subidas.
Ali havia duas prisões. Uma era para ladrões
que acenavam através das grades.
Gritavam, queriam ser fotografados.

“Mas aqui”, disse o guarda-freio com um risinho de hesitação,
“aqui estão os políticos.” Olhei para a fachada, a fachada, a fachada,
e no último andar, a uma janela, vi um homem
com um binóculo a olhar para o mar.

Roupa que fora lavada secava pendurada ao sol. As pedras dos muros estavam quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos mais tarde, perguntei a uma senhora de Lisboa:
“Aquilo era mesmo verdade ou fui eu que sonhei?”
(1966)
p.21


O BARCO – A ALDEIA

Uma traineira portuguesa, azul, enrola um bocado do Atlântico.
Bem ao longe, um ponto azul, mas eu estou lá. Onde seis homens a bordo não veem que nós somos sete.

Assisti à construção de um barco destes, parecia um alaúde enorme sem cordas
na ravina de pobreza: a aldeia onde lavam e lavam sem parar, com fúria, paciência, melancolia.

A praia apinhada de gente. Era um comício que fora dispersado, os altifalantes confiscados.
Soldados levaram o Mercedes do orador por entre a multidão, apupos rufavam contra as chapas do veículo.
(1978)
p.29

Tomas Tranströmer, “50 Poemas”, Relógio D’Água, Lisboa, 2012.
Trad. Alexandre Pastor.

27/12/2012

HERMES JÁ NÃO INTERPRETA...


9.

Para quê, perguntou ele, para que servem
Os poetas em tempo de indigência?
A torre, o cemitério, o devaneio,
Tudo existia já, mas cada coisa
Desconhecia as outras, nada então
Albergava um projecto nem sequer
Um desígnio amoroso. Eram apenas
Coisas: pedras, doenças e paisagem
Cuja condição viva se traduz
Pela exalação da humidade
E por alguma quase imperceptível
Elevação do peito. Sossegado
Parecia o mundo.
p.15

16.

     Ele conhecia
A Grécia pela ardência, pelo toque.
E ocultava de todos o terrível
Esplendor da mão da escrita,
O que lhe enchia as noites de ilusão,
Fazendo-o crer, fazendo-o derramar
Sobre o papel um chamamento como
Se chama um prisioneiro, suplicando
Que nos faça algum sinal.
p.22

17

Para que servem poetas se não podem
Nem delirar, se os textos do delírio
Serão tomados pelo seu contrário?
A bela rapariga dos cabelos
Cor de violeta, Atenas, onde está?
Quem escavará o monte até aos ossos
Para que dele ressurjam esses que
Nos deixaram sozinhos?
p.23


20.

E veio outra miséria, em interlúdio:
A miséria da interpretação
Que tudo trai. Os textos, os tão belos
Carregavam os sacos dos soldados
Como pães doces, abolorecidos,
Alimentavam quem? Persas, de novo.
Persas vindo do Norte, equivocados
Com o som do poema, com a ira
Formosa do poema.
p.26

23.

A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.
p.29

Hélia Correia, “A Terceira Miséria”, Relógio D’Água, Lisboa, 2012.

20/12/2012

...

O Rapto da Europa - Rubens


COMEÇO A PERCEBER…

Começo a perceber. Nestes filmes
pornográficos de Europa não há nada
senão facas e gestos. As mulheres
não mostram mais que as tetas
e os homens nunca tiram as calças
mesmo ao fingir que as montam. Isto
é feito para quem acabe em casa
no doce imaginar da mão que aperta.
Na América vê-se tudo e a sério.
É feito para rapistas cujas mãos
só tocam apertadas os pescoços
das suas vítimas. Na Rússia
não há, é claro, estas coisas podres
do mundo ocidental que deixam
ou tudo ou nada ao doce imaginar.
Lá, as pessoas nem fazem nem pensam
tais coisas, credo. Como em Portugal
Pelas razões opostas nada sobra
de mais valia da cintura para baixo.
As facas (ou canivetes lusitanos)
fizeram previamente o seu ofício
mental, de sacristia.

 Londres, 4/2/73

Jorge de Sena, “40 Anos de Servidão”, 2ªed. rev., Moraes Editores, p.140, LX, 1982.

Outra espécie de Rapto da Europa!... de João Fonte Santa

16/12/2012

Poema 20


...

Entre o chio e a queda do pano, o sobressalto,
a antiquíssima verruga dita umbigo,
atávico regresso ao menos que um,
ao estrondo desmemoriado do silêncio.

Eram a sanguessuga e a toalha de rosto,
mas o poeta creu-as a gestação e o big-bang,
teve medo, tem sempre, e carcomiu-se
rente à folha A4, sua covardia.

O poeta é um feto assustado, um logro
rasteirando a sua espécie,
espécie de coisa, mais confusa que as reses,
e os ruídos são o seu Demónio.

Anseia, nostálgico, pelo silêncio que não lembra,
sossobra, passo a passo, a tudo o mais,
escrevinha, pouco lúcido, a derrota,
tosquia-se e morre com palavras nas mãos.

Miguel Martins

12/12/2012

NOCTURNO



Venho da rua. Subo a escada. Fecho a varanda
Acendo a luz. Abro a varanda. Apago a luz.

Porque ladram, sempre, todos estes cães?
E se calam, um após outro, até ao derradeiro
ladrido, agora subitamente submisso?

A noite acolhe-me, engalanada de águas,
e desdobra a praia, tão longe, do sono,
com cavalos negros que pisam a cintilação
da areia molhada.

A noite é âmbito, tiedro, silêncio.
Eh! Tu!

A voz de estanho me chama,
mortiça, do fim da rua
e o candeeiro que parece apagar-se.
A árvore e o vento escondem-o e devolvem-no
entre feixes de escuridão.

O estanho, o peltre, o zinco,
uma prata velada, rouca,
aquela rouquidão de sangue antiga.
Cristais, carvão.

Cada onda relincha e flameja crinas.

Eu finjo-me surdo. Ou também
sou o estorvo de estoupa na garganta do vento,
a rouquidão da prata.

– Se não fosse por mim…

Fecho a varanda. Acendo a luz.

Jordi Sarsanedas, “Quinze Poetas Catalães, pp. 31-32, Limiar, Porto, 1994.
Trad. Egito Gonçalves

NÃO POSSO DESESPERAR DA HUMANIDADE…



Não posso desesperar da humanidade. E como
eu gostaria de! Mas como posso
pensar que há povos maus, há maus costumes?
A américa é detestável. Mas deu – americanos –
Walt Whitman e Emily Dickinson. Posso
não confiar neles? A Rússia é
detestável. Mas Tolstoi é tão russo!
São maus os japoneses? Como podem
sê-lo, se têm Kurosawa e o Snr. Roberto
que me vendia hortaliças no Brasil?
E o meu Brasil tão infeliz amor, e tão
ridículo? Mas não são os brasileiros Euclides
e o coração dos meus amigos? E
Portugal, como pode ser mau e detestável
se mesmo eu que amo sobretudo o vário mundo,
o amo – ao mundo – como português?
A humanidade e as pátrias são uma chatice, eu sei.
Mas como posso desesperar delas, desde que
não sejam para mim o gesto ou as sardinhas,
o feijão ou o sirloin, ou a terrível capa
dos usos e costumes, da vaidade,
mas uma forma de ser-se humano e solitário
acompanhadamente?

Madison, 30/10/65

Jorge de Sena, “40 Anos de Servidão”, p.103, Moraes Editores,2ªed., Lisboa, 1982.

11/12/2012

A MORTE DO PAI...


A MORTE DO PAI

Toda a mulher adora um fascista…
Sylvia Plath


Aquela parte de mim que adorava um fascista
– ou o adora, quem sabe? –
jaz contigo, jaz contigo.

O túmulo não a espanta. Desde sempre chamada
ao mais escuro domínio,
morre contigo, vive de ti.

Oferenda trémula, sabe apenas seguir-te
e agasalhar-se no teu mal
como no porto mais seguro.

Medusa desossada, o que de mim resta
luta por completar-se
sem ti, longe de ti.

O bisturi vacila. Quem vive mais além?
E como poderei pensar-te
como se eu não fosse tu?

O meu amor sem casa.
A bala que atravessa a sombra do meu amor sem casa

As folhas que cobrem a bala que atravessa a sombra do meu
amor sem casa.
O vento que arranca as folhas que cobrem a bala que atravessa
a sombra do meu amor sem casa.
Os meus olhos que se agarram ao vento que arranca as folhas
que cobrem a bala que atravessa a sombra do meu amor sem casa.
O meu amor que se reflecte nos olhos que se agarram ao vento
que arranca as folhas que cobrem a bala que atravessa a sombra
do meu amor sem casa.

Maria Mercé Marçal, “Quinze Poetas Catalães”, pp. 75-76, Limiar, Porto, 1994
Tradução de Egito Gonçalves

Sísifos...



6. NOITINHA


Seca a saliva à boca do dia, seca,
nem para colares um selo no postal a tua mãe
e o pó colado às unhas e aos olhos
como o amargor à pele da memória.

Subimos-e-descemos a montanha
carregando às costas a pedra e a morte
sob a injúria e o chicote,
cantámos a água e a pedra,
a vida e a morte – acostumámo-nos,
minorou o infortúnio,
até mesmo a raiva minorou,
somente a determinação não minorou.

Por entre a picareta e a pá da noite
repousam os camaradas
com os dentes cerrados,
com o punho por travesseiro.


Giánnis Ritsos, “Antologia”, ed. Fora do Texto, pág.63, Coimbra, 1993
Tradução de Custódio Magueijo

07/12/2012

"MEMÓRIA DE LUÍS ABEL FERREIRA"...

António Barahona



MEMÓRIA DE LUÍS ABEL FERREIRA

Vejo-te, nessa noite, à beira do telhado
da clínica, tão perto das nuvens mais altas;
oiço o teu coração, o deslizar de lágrimas
                no silêncio suado.

Leio o teu pensamento…, último calafrio:
o murmúrio, de quem depressa se despede,
reflecte a luz frontal da morte que já mede
                o salto no vazio.

Morreste só d’amor, surpreso e imaturo,
menino apaixonado, ansioso, inocente
(sem norte o coração, talvez quase demente)
                tão grave, bom e puro.

Ao que morre d’amor, o Deus perdoa tudo.

20.VI.012

António Barahona,  in Telhados de Vidro nº.17, Novembro de 2012. 

06/12/2012

Homenagem...

Papiniano Manuel Carlos de Vasconcelos Rodrigues 
(1918-2012)

IMPROVISO NA MORTE DO SEMEADOR

Carregavas em teus ombros um navio
de relâmpagos, em teu coração a pedra
e a voz das cidades insubmissas.

Levavas em teu rastro uma aurora
de espigas, em teus lábios as palavras
que não temem fogo, frio ou morte.

Submerso no ódio e no terror, chegavas
em cada noite e, feroz, reconstruías
uma vez mais a esperança.

A terra semeavas e, por amá-la tanto,
(transforma-se o amador na coisa amada)
és agora, ó semeador, a própria semente
oculta e violenta.

Papiniano Carlos in "Sonhar a Terra Livre e Insubmissa...", pp.68-69, 1973.