31/10/2012

FAZ-ME FRIO ESTE OUTONO


FAZ-ME FRIO ESTE OUTONO

Faz-me frio este Outono
a boiar sobre o corpo,
a poesia sem ancas,
a música passada
por ovo e pão ralado,
faz-me frio este fender castanho
este horizonte ao espelho,
faz-me frio o esmalte descascado
a tapar
o interior
revelho.

Inês Lourenço, “Cicatriz 100%”, p.46, Cooperativa Editorial das Mulheres, Lisboa, 1980.

Al Berto... E assim acontece


30/10/2012

Satchmo...


“Minha senhoras e meus senhores,
vamos fazer uma viagem pela selva
e queremos que nos acompanhem.
O tigre corre tão depressa,
que vão ser precisos alguns acordes
para o apanharmos,
por isso quero que contem comigo.
Este trompete Selmer
vai escapar-vos, desta vez.
Atenção, malta, estou pronto!”
Louis Armstrong


24/10/2012

às aranhas...


XVI

Duas aranhas esperam a mosca
com radiadores ventiladores rosa-chá
passagem ao estado de amora
alguns coupons
e várias teses de combate moderno

A mosca
passa
ou não passa
é um pouco como todas as coisas
estão mas não aparecem
e podem levar anos nisso

Mas duas aranhas esperam a mosca
com serviço de Turismo Dlão
lume acesso
página de sentença judiciária

Ao fundo
o galo enerva-se e quebra a mobília
numa grande convivência francesa
co’a mosca que foge espavorida no vento

Agora à luz das baratas e dos apetrechos para campo
duas aranhas esperam a aranha
e esta é que não escapa
às honras amarelas
à ligeira tremura de ter vindo
pois nenhuma aranha escapou jamais às aranhas
nenhuma não sendo mosca fugiu
ao que mandam os deuses

Mário Cesariny, ‘Manual de Prestidigitação’, pp. 93-94, Assírio &Alvim, 2.ª ed. rev., Lx, 2005.

23/10/2012

...

RITOS 

(Versão de um poema de Nicanor Parra) 


De cada vez que regresso
Ao meu país
                          depois de uma longa viagem
O primeiro que faço
É perguntar pelos que morreram:
Qualquer homem é um herói
Pelo simples facto de morrer
E os heróis são os nossos mestres.

E em segundo lugar
                                       pelos feridos.
Só depois
                        não antes de cumprir
Este pequeno rito funerário
Me considero com direito à vida:
Fecho os olhos para ver melhor
E canto com rancor
Uma canção de começos de século.


José Miguel Silva in ‘Ulisses Já Não Mora Aqui’, p.68, &Etc, 2002.



NÃO É TARDE


O amor é como o fogo, não se propaga
onde o ar escasseia. Mas não te preocupes,
eu fecho mais a porta.

Gestos e paveias, acendalhas, o isqueiro
funciona! Poderoso combustível
é o corpo. Acende deste lado.

Ainda não é tarde, foi agora anunciado
pela rádio, são dezoito e vinte cinco.
Respira-nos, repara, a ilusão

de que a vida não se esgota, como os saldos
de verão. E a morte, à medida que te despes,
vai perdendo o nosso número de telefone.


José Miguel Silva in ‘Ulisses Já Não Mora Aqui’, p.71, &Etc, 2002.

22/10/2012

DEBAIXO DO VULCÃO




alguém atirou um cão
morto às profundidades
Malcolm Lowry

I

Malcolm
Lowry: vivo
mal como Lowry,
bebo
bem como Mal-
colm, como
mal como
Malcolm
come:
álcool
Malcolm, al
coolm,
ó
alcolmalcolm,



II

ó frídida
tequila
no sopé do vulcão
por onde
o vulnerável cão
do espírito
ladra
e lavra
a essência
recôndita
do álcool:
conte-a
a bebidíssima
exigência


III

do meu
último copo,
sempre o último,
cante-a
o ex-extinto
vulcão
e por instinto
o vulnerável
cão,
ou plante-a
o próprio Lowry,
frágil,
entre lava
e neve:


IV

tépido mescal
para inventar
a mescaligrafia
gémea do som
ou da sombria
pauta musical
onde as notas florescem
em breves,
compactas corolas,
e hastes
que sobem, descem
esguiamente
os degraus
dum jardim,


V

enquanto
os índios passam
depressa
mas de pedra,
ficam
antepondo-se
ao norte
que fabrica
os países
com vidro,
com vinho, com visões
de videiras vitais
debaixo
do vulcão,


VI

ó tépida tequilla,
existe ainda
o amor
e o vulnerável cão
do espírito
que lavra
cada palavra
oculta
por pudor
e a ladra
inultilmente
dentro
da garganta
vazia,


VII

frígido mescal
como um galope
na floresta
de vinho e vidro,
filtro
litro a litro,
animal,
animais,
e mais e só
o dorido espírito
do álcool,
Malcolm,
entre neve
e lava:


VIII

os índios passam,
bebo, ficam
na sombria
pauta musical,
e o vulnerável cão
do amor
sossega pelo menos
um instante,
enquanto
os índios
sobem, descem
esguiamente
os degraus
das pirâmides.


Carlos de Oliveira in ‘Micropaisagem’, Publicações Dom Quixote, Lx, 1968.

CENTRO NACIONAL DE CONTRACULTURA: Aì estão as novidades Edições Mortas: VIS de A. Da...

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21/10/2012

Café Com Vivo...


OS TEMPOS NÃO

Os tempos não vão bons para nós, os mortos.
Fala-se demais nestes tempos (inclusivé cala-se).
As palavras esmagam-se entre o silêncio
que as cerca e o silêncio que transportam.

É pelo hálito que te conheço  no entanto
o mesmo escultor modelou os teus ouvidos
e a minha voz, agora silenciosa porque nestes tempos
fala-se demais são tempos de poucas palavras.

Falo contigo demais assim me calo e porque
te pertence esta gramática assim te falta
e eis por que todos temos a perder e por que é
cada vez mais pesada a paz dos cemitérios.

Manuel António Pina in ‘ Ainda Não É O Fim Nem O Princípio Do Mundo Calma É Apenas Um Pouco Tarde’, p.11, 2ªed., ed. A Erva Daninha, 1982.

04/10/2012

Novidade 50kg


Do Lado de Fora de José Carlos Soares


Poesia
150 exemplares
24 pp.
PVP: €10
Setembro de 2012
ISBN: 978-989-97891-1-1
DL: 346067/12
Capa de Ana Ulisses
Edições 50kg
Porto

José Carlos Soares, Porto 2012

03/10/2012

Piolho 10...



PIOLHO 10

“É possível que a luz não seja, de facto, o sempre máximo da consciência.”
Maria Gabriela Llansol

COLABORAÇÕES: Vitor Silva Tavares, Paulo da Costa Domingos, Maria Estela Guedes, Zarelleci, m. parrissy, João Albuquerque, Álvaro de Sousa Holstein, José Guardado Moreira, João Vasco Coelho, Marcel Fernandes, Nuno Brito, Teixeira Moita, Marcelina Gama Leandro, Clara Pinto Caldeira, Maria Madalena Nobre, João Maria Castelo, Sérgio Pereira, Rui Azevedo Ribeiro, Raul Simões Pinto, Rui Costa, Ricardo Gil Soeiro,  Ricardo Álvaro, Ricardo Marques, Rui Esteves, Manuel a. domingos, A. Dasilva O., Fernando Guerreiro, António S. Oliveira, Stephen Crane e Ambrose Bierce.



Setembro de 2012
Coordenado por Sílvia C. Silva, Ricardo Álvaro, Meireles Pinho (ilustrações, capa e arranjo gráfico), Fernando Guerreiro e A. Dasilva O.

Edições Mortas & Black Sun Editores