21/03/2012

Próximo Sábado (24 de Março) pelas 17h...


Lançamento do número 8 da Revista de Poesia Piolho no Espaço-livraria Estratégias Criativas na Rua das Oliveiras, Vitória 155-159 Porto (Junto ao Teatro Carlos Alberto ver mapa). A las cinco de la tarde!...


 neste número:



Ana Ulisses(ilustrações), António Ramos Rosa, Ricardo Álvaro, Alexandra Antunes, Catarina Ulisses, José Luís Bértolo, Luís Serra, Miguel Sá Marques, Pedro Águas, Marta Peixoto, Oliveira Martins Roxo, Ricardo Marques, José Guardado Moreira, Raul Simões Pinto, Manuel Filipe, Pedro Calcoen, Sylvia Beirute, Cristina Aguiar, Sandra Filipe , rosa azevedo, Luís Pedroso, Rui Almeida, Luís Ferreira, José Emílio-Nelson, António Salvador, Teixeira Moita, Hugo Pinto Santos, A. Dasilva O.,Pedro S. Martins, António S. Oliveira e 
John Berryman



fazem mais ou menos por esta desordem este
número

o oitavo fevereiro 2012
Coordenado por Sílvia C. Silva, Ricardo Álvaro, Meireles de Pinho (capa e arranjo gráfico),Fernando Guerreiro e A. Dasilva O.




Pormenor das "Meninas" de Diego Velázquez (1599-1660)


EL PRADO

Os quadros são coisas completas
na engrenagem das salas
e nós vamos no rasto que eles deixam.

Comemos uma salada reles no buffet do Prado
e os “novos artistas de Espanha”
fumam-nos o tabaco todo com os cotovelos
fincados no mapa.

A beleza tem peso e consequência, as salas
parecem tão cheias que não sobra no espaço
um lugar para nós.

Velhas como as árvores,
as  Meninas.

Rui Pires Cabral in «A Super-Realidade», ed. Língua Morta, p.27, 2011.

E porque também tem ‘menina’, ‘árvores’ e ‘prado’ segue o seguinte soneto de Rilke:

II

E era menina quase, e eis se ergueu
desta ventura una de canção e lira
e clara brilhou através do seu véu
a Primavera e fez no meu ouvido a cama.

E em mim dormiu. E tudo foi seu sono.
As árvores, que de sempre admirei, esta
lonjura de sentir, o prado já sentido
e todo o espanto que me veio ferir.

Ela dormiu o mundo. Deus cantor, como é que
tu a completaste, que ela não te pedisse
pra acordar primeiro? Vê – surgiu e adormeceu.

E a sua morte, aonde? Oh, inventarás inda
este motivo, antes que o teu canto se consuma? –
Pra onde é que ela cai, de mim caída?... Menina quase…

Rainer Maria Rilke, in «Sonetos a Orfeu», ed. Inova, versão de Paulo Quintela, p.90.

Periclitam...

15/03/2012

À caça de borboletas e mari'esposas...

 Sousândrade 
Joaquim Sousa Andrade (Maranhão, 1832-1902)
"A última rosa desfolhava 
do ar sobre mim; e eu via então 
No tronco o nome iluminava 
E a imagem tua era a visão; 
No anagrama de Dog, God estava 
Do amor em que há nenhum se não. 

Sacrifício da espr'ança o inseto 
Entre os florões do roseiral 
Co'o alfinete "I am busy" penetro 
O verde-brando dorso, e qual 
Dela os cabelos no ombro abertos 
Tremem as asas do mortal" 

13/03/2012

«Ex pulsão da poesia...»

Óleo de Rufino Tamayo (1899-1991)

EXPULSÃO DA POESIA

Neste crepúsculo dos deuses que incendeia serenamente de púrpura
os massacres sem conta, e em que nada
é já significativo, porque tudo sempre significou alguma coisa
e não ressuscita ninguém (a ressurreição é
negócio individual, requerendo vítima, sepulcro emprestado,
alguns guardas, dedicadas mulheres, e vários fiéis
desinteressadamente interessados nela – enfim,
a ignomínia tratada com exemplar dignidade,
sem improvisos de última hora, nem excessivos
planejamentos ou ensaios, por modo a que
as imaginações possam com ela despersonalizar-se inteiramente
da sordidez sordidamente sórdida, etc.),
um fenómeno se verifica, observa, e que, ele, sim,
é altamente significativo.

Com efeito: ela cantou os tiranos, as revoluções proletárias,
as guerras todas de libertação nacional. Em séculos
e séculos, cantou ou chorou sempre nas
grandes horas. Ás vezes com atraso. Outras,
com adiantamento desagradável, sobretudo,
se era o caso de choro. Muitas outras vezes,
para dar-se importância, reles importância, inventou mesmo
as grandes horas. Quantas outras vezes,
se deixou matar de fome, de miséria e solidão,
para repetir com alegria infrene que
a imortalidade existe, que o céu existe,
e que a terra, só ela, a pobre terra, não existe.
Fizeram-se por esta letrada ciência os maiores sacrifícios
de vidas e papel impresso. Não comparáveis,
é certo, aos massacres habituais, em que
se molhava delicadamente a pena.

E, agora, neste delicioso crepúsculo que devia inspirá-la,
porque se cala, porque não canta nem chora?
Porque se limita a coçar o cu tranquilamente,
como prostituta honesta que se retirou da vida?
Com que então, a brincadeira acabou?
S. Excia já não serve? Já não é livre? Já não é
nem deixa de ser coisa nenhuma?
Então não era eterna, a voz da justiça,
a voz da liberdade, do mais profundamente humano,
não era imortal, mais que divina, mais
que o raio que a parta? Então
não era tudo isso e o céu também?

É que, meus amigos, a coisa está difícil.
A agonia chegou. O vómito que se não vomita.
Porque não se descobriu maneira de sair do beco:
a salvação é só de cada um, e diz respeito
a cada um, mas ninguém se salva sozinho,
nem se perde por própria culpa. E não é possível,
sem fazer cair as cotações da bolsa, ou a produção
que é necessário elevar para bater as potências capitalistas
na coexistência pacífica, que seja dado a cada um
o direito de arrastar os outros para
a sua pequena salvação pessoal.

A coisa está difícil, não é verdade, velha prostituta?
Como é difícil a paz! Como é difícil… –
Quanto veneno, quanta raiva, quanta miséria,
Quanta ignomínia, quanta falta de ressurreição
 – sobretudo isso dói muito… – é preciso engolir!
E o ódio de que se tem vivido ou morrido?
Que fazer dele? Transferi-lo aos pedantes,
aos cretinos, calinos, alarves, bestas, cavalos,
safardanas, que se ocupam dos teus piolhos?
E valerá a pena? Os teus piolhos chegaram
às universidades, são classificados lá por outros que,
conscienciosamente, fazem o seu currículo de aracnídeos
ensinando aos outros insectos como evitar o DDT
e continuar comendo em paz folhas de livros.

Vai, puta! Já não enganas ninguém!
Leva contigo a tua corte de semis de tudo,
o homem macaco, a mulher eléctrica, o que voltou
da Abíssinia, o que se enforcou na
Vielle Lanterne (não confundir o lampião
com  a rua), o que hipotecava casas
em Blackfriars, os que eram cegos
de um olho ou dois, o barbaças
das profecias, o soneteiro
suicida, o da picada
do espinho da rosa, ali!
(tecnicamente, um acúleo),
toda essa canalha solitária
de todas as cores e feitios,
tomando banho ou não,
fazendo a barba ou não.
Vai! Vai! Espoja-te no chão,
e pede humildemente que as crianças do mundo,
todas as crianças do mundo,
te mijem em cima.

Jorge de Sena em 26/5/1962

Óleo de Rufino Tamayo (1899-1991) 

06/03/2012

Chamada do Gregório...

Gregório de Matos (?-1695)


Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.


O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ornadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.


Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir, que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.


O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo o mar de enganos
Ser louco cos demais, que ser sisudo.


Gregório de Matos

03/03/2012

Hein?

Heinrich Heine (Alemanha, 1797 - Paris, 1856)

Legado

A minha vida chega ao fim,
Escrevo pois meu testamento;
Cristão, eu lego aos inimigos
Dádivas de agradecimento.

Aos meus fiéis opositores
Eu deixo as pragas e doenças,
A minha coleção de dores,
Moléstias e deficiências.

Recebam ainda aquela cólica,
Mordendo feito uma torquês,
Pedras no rim e as hemorroidas,
Que inflamam no final do mês.

As minhas cãimbras e gastrite,
Hérnias de disco e convulsões –
Darei de herança tudo aquilo
Que usufruí em diversões.

Adendo à última vontade:
Que Deus caído em esquecimento
Lembre de vós e vos apague
Toda a memória e sentimento.


tradução de André Vallias



02/03/2012

L's...



“Ana, salvé! Salvé, mas mesmo aí em Londres
não sei se você estará a salvo, porque aí também os
deve haver com certeza. Onde é que os não há? An-
dam no meio de nós, e acho que já são tantos que
nem sei se não seria melhor dizer que nós é que an-
damos no meio deles!”

                “Ah, Alberto, como você tem razão! Elles estão
de facto em toda a parte e por aqui também os há só
que, com o frio, e sobretudo com a chuva, elles retra-
em-se mais. Quer dizer, elles retraem mais os apên-
dices, e os caudais, esses, então nunca se vêem, a não ser
num excepcional dia de sol ou nalgum surto de
exibicionismo de parque.”



Tablets...



A NIONIO NOR...



Landarte...

s/t, watercolour on wood, 2012

01/03/2012

Este é o meu sangue...



Hoje, 1 de Março, pelas 22.30h, no Bartleby (R. Imprensa Nacional, 116B, cave do restaurante BS) será lançado o livro "Este é o meu sangue".



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