26/08/2011

Novidades das Edições 50kg


Para Setembro, em data e local a anunciar, as Edições 50kg irão apresentar o livro de poesia «Palinopsia» de Pedro S. Martins uma tiragem de 150 exemplares numerados e assinados pelo autor. A capa é uma reprodução de uma aguarela de Ana Ulisses. Composto em tipografia de caracteres móveis.

150 exemplares numerados e assinados pelo autor

Palinopsia de Pedro S. Martins, Poesia, 24 págs.

ficha técnica - numerado e assinado pelo autor

página 14
matriz tipográfica pag. 6 de "Palinopsia"
Mais informações sobre o autor aqui

21/08/2011

Cartucho


116 - Alexandre (António Franco); Pereira (Hélder Moura; Jorge (João Miguel Fernandes) & Magalhães (Joaquim Manuel). - Cartucho. - Lisboa: ed. autores, 1976. - 21 ff.; 215 mm.
Originalíssima edição limitada contendo poemas “amarrotados” de António Franco Alexandre, Hélder Moura Pereira, João Miguel Fernandes Jorge e Joaquim Manuel Magalhães. Peça de composição artesanal, provavelmente pelos próprios autores, cujos materiais - cartuchos, cordel e chumbos - foram oferecidos pelo Pai de João Miguel Fernandes Jorge. A concepção deve-se a Joaquim Manuel Magalhães. Cada um dos quatro poetas participou nesta publicação com cinco poemas, no total de 20 folhas impressas de um só lado, às quais se acrescentou ainda uma folha de rosto contendo os nomes dos autores, lugar e data de publicação. O papel comummente atribuído ao «Cartucho» é comparável ao de Poesia 61, facilitando a apreensão dos novos caminhos que se desenhavam para a poesia portuguesa na década de 70. O principal impacto do lance vanguardístico de «Cartucho» foi a estranheza que causou aos leitores devido ao amassamento dos poemas. O leitor é desafiado a posicionar-se diante de poemas amarrotados na sequência de uma tradição inscrita na modernidade por Baudelaire. Obra plurisignificativa, o «Cartucho» pode sinalizar correspondência colectiva, depósito de balas de revólver, explosivo, dessacralização, perda de aura do literário, ludismo ou festa (cartucho de fogo de artifício), etc. Famosa ficou a expressão de Fiama tratando a obra como “aquilo”. Objecto não-livro, as folhas amassadas veiculam as ideias de multiplicidade, fluidez, fragmentação, descentramento, escrita em companhia, escrita do prazer. Raríssimo.

 Retirado daqui (blog da Tertúlia Bibliófila)

20/08/2011

Para o censor desse “velho” tempo. E do novo… de novo!


ESTA FORÇA

"Um texto. Letra de forma com os outros na Imprensa. Todos para serem lidos. Este é para estar no Suplemento Literário do jornal «República». E assinado. Por mim. E eu sei que ele tem que ser lido. Até ao fim. E se não for lido até ao fim por todos, por alguns, é lido ao menos por um. Até ao fim. Aconselho pois aos todos e alguns que parem aqui. Porque eu estou só a obrigar que me leiam até ao fim sem que eu diga nada. Porque eu não estou a dizer nada. Estou a dizer o que estou a dizer. Mas pode ser que lá para o fim eu diga qualquer coisa que não deva dizer. Por isso isto vai ser lido até ao fim. E quem ler isto até ao fim, vai ver comigo o que é obrigado a ler quem é obrigado a ler isto até ao fim. Não é que eu tenha qualquer coisa de pessoal contra uma pessoa que, por qualquer razão, tenha que ler isto até ao fim. Eu até nem conheço nenhuma assim. Mas já que tenho de pensar numa só pessoa que não conheço quando estou a escrever coisas, acho que hoje vou pensar só nessa pessoa. Aliás sem prejudicar ninguém, porque eu já avisei que isto era para uma só pessoa que, essa, tem que me ler, e sempre vou ganhando o meu escrevendo isto até ao fim. E o fim da leitura disto é quando eu quiser, nem antes, nem depois. Porque eu aqui não digo absolutamente nada. Toda a gente que tenha lido até aqui, e uns é porque querem, e outro é porque tem de ser, vêem que eu não disse nada de nada. E se isto fosse um livro e eu quisesse e um editor tivesse um feitio desses e mo comprasse, trezentas páginas nisto, ainda assim teria de ser lido até ao fim. Esta é a força da escrita aqui – ser escrita e ser escrita e ter que ser lida aqui. Força reconhecida pela lei é só essa. E bom dia. Eu só queria que tivesse por lei que ler bom dia. E tem.
In República, 12.10.1972" 

Maria Velho da Costa, “Desescrita”, pp.65-66, Afrontamento, Porto, 1973.

09/08/2011

Oficiosamente d’ Agosto


OSSOS DO OFÍCIO
“Às vezes, se me encosto a esta terra, sinto um embate impetuoso que me arrebata como uma enxurrada e quer submergir-me. Uma voz, um odor, bastam para prender-me e atirar-me quem sabe para onde. Sou feito pedra, humilde, estrume, suco de fruta, vento. Do limite humano não me resta mais do que o instinto de me coagular em palavras, mas estas já não são nada e debato-me como uma árvore ou uma fera que tivesse sido homem e agora é incapaz de se exprimir. Cedo relutante porque sei que a minha natureza é outra e de cada vez encontro no fundo deste ímpeto uma vã saciedade. Todo o esforço para entumecer os sentidos mantendo a consciência conduz a esta derrota. Em suma, é um pecado, como a libertinagem, como o sadismo e a embriaguez.
                O limite humano – o meu – traz em si esta norma: o que quer e não se pode exprimir é pecado. Pior: é futilidade. É-lhe consentido só este perdão: a recordação. Através da recordação o que era desumano e bestial pode talvez resgatar-se e produzir um som de clara razão. Mas logo se tornando recordação deixa de ser tumidez dos sentidos.
                Falo aqui de tentações actuais. Paro diante de um campo desmemoriado, de um céu claro, de um curso de água, de um bosque, buscar a palavra que o traduza todo, até aos fios de erva, até ao odor, até ao vazio. Eu não existo; existe o campo, existe o céu. Existem os meus sentidos, escancarados como bocas a devorar o objecto. Duas naturalidades se defrontam: uma tensa, espasmódica; outra inexorável e bruta. Repito que fico todo tendido para o exterior. Não me sigo a mim próprio, não palpo uma ideia fugidia; em contrapartida, por dentro, o espírito está-me como que estrangulado. Na sua brutalidade este estado é, embora fútil, um esforço de endeusamento através da besta. Como beber ou matar. Se parece ser mais venial e quase meritório porque tende, em suma, para um fruto espiritual, é, todavia, mais venenoso porque é inexplicável da genuína vida interior e por isso sempre pronto a estragar o trabalho legítimo. É uma crise, um motim das faculdades boas que, enganadas por um choque de sentidos, julgam ganhar abandonando-se às coisas. E estas agarram, arrastam, tragam como um mar agitado, ilusórias, inagarráveis por seu turno, como espuma. Há nelas qualquer coisa de obsceno: exactamente o mesmo abandonar-se ao sexo e querer-lhe narrar as sensações secretas.
                Na recordação o tumulto se aplaca. Isto diz-se, bem entendido, da recordação-renúncia, da recordação que soube tornar-se senhora das coisas através da separação, a assunção do natural ao absoluto. De aqui em que o mais seguro viveiro de símbolos é o da infância: sensações remotas que se despojaram, macerando-se longamente, de toda a matéria e assumiram na memória a transparência do espírito. De aqui vem que aos talentos contemplativos nunca se recomendará suficientemente que tapem os sentidos diante da realidade e se contentem da que, filtrada pelos anos, aflora do fundo da fechada consciência. A ilusória riqueza do real não pode ser justamente avaliada senão por aqueles que sabem que só é nosso o que sempre possuímos; e isto explica porque são tão inenarravelmente aborrecidos os livros de viagens ou, como se diz, documentais. Um só documento nos interessa sempre e resulta novo: o que sabíamos desde crianças.
Por que, deveras, na infância éramos outra coisa. Pequenos brutos inscientes, o real nos acolhia como acolhe sementes e pedras. Nenhum perigo que então admirássemos e quiséssemos mergulhar no seu sorvedouro. Mas a história secreta da infância é feita precisamente de sobressaltos e dos arrancos que nos extirparam do real, pelos quais – hoje uma forma, amanhã uma cor –, através da linguagem nos contrapusemos às coisas e aprendemos a avaliá-las e contemplá-las. No fundo o que é preciso para nós é, portanto, esta concórdia discordante de encontros, de descobertas, de desenvolvimento. A tentação de reatingir como num abraço antinatural o universo pré-infantil das coisas, é o pecado. Se é possível, cabe-nos exercitar no oposto, repelir aquela naturalidade que à volta lhe restar, repeli-la para poder possuir. Mas bem pouco a vida adulta pode acrescentar ao tesouro infantil de descobertas. Pode-se, porém, trazer para a luz aquelas formas primitivas e contemplar-lhes o viço, como raízes que o terriço dos dias continuou a nutrir. Depois, de coisa coisa nasce e os dias futuros germinarão nestas cepas.”

Cesare Pavese, “ Férias de Agosto”, pp. 162-164, trad. Ana Hatherly, Quasi, Famalicão, 2008.


05/08/2011

Da América com amor...

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Nota: grafia antiga

“Vejamos porém o que nos diz Herbert Spencer[1] no seu Dialogo e no Discurso sobre os Americanos. Começa por louvar o enorme desenvolvimento da sua civilisação material: a grandeza e magnificiencia das suas cidades, o esplendor de Nova York; a actividade das gentes, o seu poder de trabalho, de invenção e de decisão; as suas riquezas mineira, a enormidade dos seus campos virgens e fertilíssimos. Nota depois que eles poderam lançar mão, e de facto lançaram, dos progressos realisados nas nações da Europa, corrigindo-lhe os defeitos e aproveitando a longa experiencia desses velhos paizes. Reconhece por fim que podem legitimamente aspirar a produzir, passado tempo, uma civilisação mais grandiosa do que todas as conhecidas até hoje. – Mas cita-lhes tambem a sua vida violenta, feita a alta pressão, a qual acarreta consigo os grandes desastres financeiros e produz o Surmenage, a incapacidade permanente e as correspondentes heranças para as gerações que se sucedem. Diz-lhes que o seu unico interesse está nos negocios, que esses são o fim superior de sua vida, e que eles se contrapõem naturalmente o enfado e a existência sem encantos. E condena o desprezo ilegítimo a que votam os seus competidores na luta desses negocios. Relativamente á politica, afirma e prova a intensa corrupção que lavra naquele paiz, a real negação da liberdade, a falta do respeito mutuo que faz a essência da vida ingleza, a luta tremenda, sem nobreza, dos interesses materiais. Numa sintese lapidar, o filosofo acaba por lhes aconselhar que substituam o poder intelectual pela beleza moral, e o desejo de serem admirados pelo de serem amados.”

Op. Cit in Antonio Arroyo, “A Viagem de Antero de Quental á America do Norte”, pp.67-69, Fac-smile da Estante Editora, 1992.



Herbert Spencer  (1820-1903)

02/08/2011

Se numa altercação alguém sobe o nível quando aquece...

   "Rara era a noite em que Antero e Germano não tinham uma discussão violentíssima que terminava duma forma sempre engraçada. Dormiam ambos no mesmo quarto e davam-se como irmãos (1). Chegados ao quarto, começavam conversando tranquilamente; mas a pouco e pouco iam perdendo a serenidade, já altercavam com calor. Do tu cá, tu lá, passavam ao você, até terminarem, no auge da contenda, em V. Exa. diz, faz ou acontece.

Nesse ponto intervinha João de Deus:
- Oh! menino, Oh! menino!...

Antero metia-se então na cama, apagava a luz e dizia sacudidamente:

- Boa noite.

E Germano, sentando-se á mesa, punha-se a encher linguados para o jornal.

Os seus temperamentos eram muito dessemelhantes. Antero ingenuo, leal e arrebatado; Germano por vezes aspero, mas sempre penetrante, e aproveitando cruamente as fraquezas ou ingenuidades do adversario. Entre o cajado de Antero e o florete de Germano, aparecia porém a Senhora da Graça, o João de Deus, a serenar os combatentes."

Antonio Arroyo in "A Viagem de Antero de Quental á America do Norte", pp.19-20, Fac-smile da Estante Editora, 1992.

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(1) As filhas de Germano Vieira de Meireles, como se sabe, foram herdeiras dos bens de Antero de Quental.