31/01/2011

Homenagem





Maria Aldina da Costa Neves Forte
(1939-2011)





Poema
Alguma coisa onde tu parada
fosses depois das lágrimas uma ilha,
e eu chegasse para dizer-te adeus
de repente na curva duma estrada

alguma coisa onde a tua mão
escrevesse cartas para chover
e eu partisse a fumar
e o fumo fosse para se ler

alguma coisa onde tu ao norte
beijasses nos olhos os navios
e eu rasgasse o teu retrato
para vê-Io passar na direcção dos rios

alguma coisa onde tu corresses
numa rua com portas para o mar
e eu morresse
para ouvir-te sonhar

António José Forte




30/01/2011

Para fazer uma ponte...


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TRANSFIGURAÇÃO

DEIXA-ME adormecer e não perguntes nada.
O mundo foi brutal e a vida comprida
nos seus desenganos de coisa perdida.

Deixa-me ficar nesta atitude sem gestos.
Leva para trás a hipocrisia das falas:
o silêncio é um corredor que vai dar a muitas salas.

E agora vai-te embora que eu quero ser sòzinho.
A morte não tarda e eu hei-de recebê-la
tão grave como o céu perante uma nova estrela.

Alberto de Lacerda in "Cadernos de Poesia", Lx, 1951.

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11/01/2011

Alexandre Grande


Alexandre Pinheiro Torres (1923-1999)

10

A VIDA: ÚLTIMAS TEIMOSIAS

À carne são permitidos todos os desastres.

Esta oliveira segura ainda

os próprios intestinos com as mão. Nada

veio de súbito preveni-la do fim.

Mas não há noites totais. Na mais escura

o peixe do fundo do rio vem até à superfície

fazer sinais com o seu semáforo. Penso

no sorriso da deusa ausente acaso do Olimpo

quando o monje veio procurá-la. Uma deusa

de seios tão firmes que neles se poderia partir

um martelo de bronze. E o Olimpo ensopado pela

[urina

doutros poetas e doutros monjes mesmo assim de

[bexigas cheias.

Tu vês? A vida insiste em excesso para que sobre-

[vivamos:

emprenhar deusas! Uma luz intensamente

brilha. Sim! Brilha! Brilha! É uma oliveira

teimando em dar azeite até ao desastre.


Alexandre Pinheiro Torres in “A Flor Evaporada”, p.45, D. Quixote, Lx, 1984.


13

OS NÁUFRAGOS

Os visitantes deixaram-se ficar até que o

soalho se tornou visível através

do tapete. E o que é mais: já não tinham

nada para dizer. As cabeças

tinham regressado a casa e as suas

línguas eram agora os polegares dos próprios

pés. Falavam para baixo mordendo a

carpete mordiam-na e ruminavam-na.


Alexandre Pinheiro Torres in “A Flor Evaporada”, p.51, D. Quixote, Lx, 1984.


14

O MORTO: A FLOR DE SI

A única coisa certa sobre o morto

é que já foi senhorio de carne:

agora é perdê-la flor que se

evapora e sorrir até aos ossos.


Amarante, tarde e noite de 10 de Julho de 1983


Alexandre Pinheiro Torres in “A Flor Evaporada”, p.53, D. Quixote, Lx, 1984.


Bibliografia:

§ Científico-Cosmogónico-metafísico de Perseguição,1942 (ensaio)

§ Novo Génesis,1950 (poesia)

§ Quarteto para Instrumentos de Dor, 1950 (poesia)

§ A Voz Recuperada, 1953 (poesia)

§ Programa para o Concreto, 1966 (ensaio)

§ O Mundo em Equação, 1967 (ficção)

§ A Ilha do Desterro, 1968 (poesia)

§ A Terra de Meu Pai, 1972 (poesia)

§ Vida e Obra de José Gomes Ferreira, 1975 (ensaio)

§ O Neo-realismo Literário Português, 1977 (ensaio)

§ A Nau de Quixibá, 1977 (romance)

§ Os Romances de Alves Redol, 1979 (ensaio)

§ O Ressentimento de um Ocidental, 1981 (poesia)

§ A Flor Evaporada, 1984 (poesia)

§ Antologia da poesia brasileira do Padre Anchieta a João Cabral de Melo Neto, 1984 (antologia)

§ Contos, 1985 (romance)

§ Tubarões e Peixe Miúdo, 1986 (ficção)

§ Espingardas e Música Clássica, 1987 (ficção)

§ Antologia da Poesia Trovadoresca Galego-Portuguesa, 1987 (antologia)

§ Ensaios Escolhidos I, 1989 (ensaio)

§ Ensaios Escolhidos II, 1990 (ensaio)

§ O Adeus às Virgens, 1992 (romance)

§ Sou Toda Sua, Meu Guapo Cavaleiro, 1994 (ficção)

§ A Quarta Invasão Francesa, 1995 (romance)

§ Trocar de Século, 1995 (poesia)

§ A Ilha do Desterro, 1996 (poesia)

§ Vai Alta a Noite, 1997 (romance)

§ O Meu Anjo Catarina, 1998 (romance)

§ Amor, Só Amor, Tudo Amor, 1999 (romance)

§ A Paleta de Cesário Verde, 2003 (ensaio)