26/10/2010

Uma ποιέω (Poiesis) do poema.



Poema

O primeiro verso é para começar,
O segundo é o penúltimo do fundo.
O terceiro dá terreno para avançar.
O quarto vai rimar com o segundo.

O quinto prega-nos uma partida.
O sexto abate os custos mais de um terço.
O sétimo é conversa distraída.
O oitavo seriíssimo. Ou o inverso.

O nono conta o mesmo por inteiro.
O décimo é, se calha, desilusão.
O undécimo é só o décimo primeiro.
O duodécimo é de nada a conclusão.

Gerrit Komrij in Contrabando: uma antologia poética, Assírio & Alvim, trad. do neerlandês de Fernando Venâncio, col. «documenta poética /101», Lx., pág.9, 2005.

11/10/2010

"à cata da melhor poesia alternativa". Hugo Xavier

Já está disponível o segundo número da revista Piolho com o subtítulo de "entre a pedra suja e o diamante de sangue" uma publicação das Edições Mortas que neste número partilha a edição com a Black Sun Editores. (Será que esta editora lisboeta está de regresso? Isso seria uma excelente notícia.)

LANÇAMENTO NO SÁBADO DIA 23 DE OUTUBRO CAFÉ PIOLHO ÁS 16H00.

Segundo número Setembro de 2010: Coordenado por Sílvia C. Silva, Meireles de Pinho (Capa e arranjo gráfico), Ricardo Álvaro, Fernando Guerreiro e A. Dasilva O.
Participações de: Mesuline de Matos, Sílvia C. Silva, Renato Filipe Cardoso, manuel a. domingos, Fernando Esteves Pinto, Zarelleci, Rui Costa, Ivar Corceiro, B. Duarte, Ricardo Álvaro, BiXinho, Raul Simões Pinto, Gilberto de Lascariz, Rui Azevedo Ribeiro, Meireles de Pinho (ilustrações), Luís Serra, Miguel Sá Marques, António S. Oliveira, Sérgio Almeida, Humberto Rocha, A. Dasilva O. e Théodore Fraenckel.

NO LANÇAMENTO DO SEGUNDO NÚMERO DA PIOLHO ESTARÁ À VENDA EXEMPLARES DO PRIMEIRO



Primeiro número Maio de 2010:
Coordenado por Sílvia C. Silva, Meireles de Pinho, Ricardo Álvaro e A. Dasilva O.
Participações de: António Barahona, Fernando Guerreiro, M. Parissy, Sílvia C. Silva, Suzana Guimarães, Teresa Câmara Pereira, Humberto Rocha, Pedro Águas, Nuno Brito, Ricardo Gil Soeiro, Raul Simões Pinto, A. Pedro Ribeiro, Miguel Martins, Zarelleci, B. Duarte, João Pereira de Matos, Ricardo Vil, Rui Costa, António S. Oliveira, Ricardo Álvaro, Meireles de Pinho, A. Dasilva O. e Jaroslav Seifert. + info Aqui ou Aqui

PIOLHO é uma revista de poesia
Uma sebenta que circula de mão em mão
Nesse charco que É o POEMA
COM NOVE BURACOS
QUE SANGRAM escárnio e maldizer
nesta época em que os poetas
se crepusculizam
António S. Oliveira

05/10/2010

Escritores Esquecidos 8

Virgílio Martinho (Lx, 1928 - Lx, 1994)

"Em 1941 houve um ciclone e eu conheci o senhorio da nossa casa. Tinha uma das pernas paralisada. Tinha uma voz que lembrava as notas mais esganiçadas da gaita de beiços. Tinha os olhos estranhamente deslocados para o lado das orelhas. Era um homem triste e viúvo. Tudo porque fora soldado da guerra de 1914-1918 e os estilhaços de um obus fizeram carambola no seu corpo, estropiando-o. Houve o ciclone e o vento arrancou algumas telhas do nosso telhado, razão porque o pai ferroviário me mandou a casa dele para lhe comunicar o sucedido e tomar providências. Fui e conheci-o. A seu mandado sentei-me na extremidade da cadeira de verga, ele sentou-se diante de mim ficando com a perna paralisada perpendicular ao corpo, dizendo eu o que tinha a dizer, perguntando ele: quantas? respondendo eu o que o pai me havia ensinado: seis e duas do beirado, foi o ciclone. Ouviu e abanou a cabeça várias vezes de cima para baixo, fixando o olho esquerdo no aparador, o direito na minha pessoa, porque a bem dizer era mais do que vesgo, tinha os olhos repuxados para os lados, como os do sapo, ocorreu-me na altura. Depois falou-me, não de telhas, de si próprio, dizendo-me com aquela sua voz: sabes, a mulher é um arrimo, um consolo; o que me deixou transido porque nunca ouvira dizer semelhante coisa. E via-o ali sentado diante de mim, com a perna doente na horizontal, pingando dos dois olhos, lamuriando que era um pobre senhorio, que perdera tudo no mundo: a perna, o sítio exacto dos olhos, a voz viril, a esposa e agora, em 1941, seis telhas e duas do beirado. Então comecei a pensar que ele não queria arranjar o nosso telhado e falei-lhe da chuva, do vento, do frio que por ali entravam, ao que me respondeu que a solidão é como um prego metido na cabeça, coisa que também nunca ouvira dizer. Foi nessa altura que olhei para tudo e vi que o retrato da esposa estava em todos os lados da saleta, repetindo-se igualzinho dentro de todas as espécies de molduras; que havia uma população de esposas naquela casa. Em cima dos móveis, penduradas nas paredes, postas aos cantos em pequenas mísulas, e todas com o mesmo rosto a três quartos, o mesmo penteado, o mesmo olhar para cima. E não só na saleta, também no quarto, na cozinha, no corredor. Também nele próprio, no anel, no alfinete de gravata, suponho que na carteira, nas gavetas, no sótão, na despensa, sei lá onde mais, enquanto ele não deixava de abanar a cabeça, de chorar, não por estar exactamente a fazê-lo, porque desde que fora ferido pelos estilhaços do obus ficara com aquela voz de gaita e os olhos não lhe retinham as lágrimas, eram uma fonte, uma desgraça na sua vida. Depois levantou-se e apoiando-se nas muletas levou-me ao quintal. Aqui, mostrou-me uma campa como as dos cemitérios, com mármore, retrato e cruz em cima, aprendendo eu no Barreiro que entre coisas vivas podiam haver coisas mortas, e um senhorio que embora não tivesse pago o arranjo do telhado ao pai ferroviário tinha no seu quintal uma sepultura inventada e dentro de casa uma esposa multiplicada em centenas."

Virgílio Martinho in "O Relógio de Cuco", pp-77-79, Editorial Estampa, Lx, 1973.


Bibliografia principal:
  • Festa Pública (1958)
  • Orlando em Tríptico e Aventuras (contos) (1961)
  • O Grande Cidadão (romance) (1963)
  • A Caça
  • O Concerto das Buzinas (romance) (1976)
  • Filopópolus (teatro) (1973)
  • Relógio de Cuco (1973)
  • A Sagrada Família (farsa) (1980)
  • O Herói Chegado da Guerra e outros Textos em Teatro (teatro) (1981)
  • O Menino Novo (contos) (1989)
  • 1383 (1976)
  • Rainhas Cláudias ao Domingo (1982)
  • O Grande Cidadão (1975)
  • A Menina, O Gato e o Robot
  • Fernão, sim ou não?
  • O Gelo na Mesa
clicar na imagem para ampliar
(A Regra do Jogo Edições,  col. «Os Olhos Férteis, Porto, 1974=


Homenagem a Virgílio Martinho:

Carlos Alberto Machado, 5 Cervejas para o Virgílio, &etc, Lisboa, 2009.