23/07/2010

A vida a pontapés...


Houve uma altura, no tempo em que se podia fumar nos comboios, que era "divertido" ir na parte de fora do comboio... Como também era "diversão" quando dois comboios se cruzavam dar pontapés para acertar nos penduras. Atesta esse divertimento o seguinte poema do José Blanc de Portugal.



NOVOS ESTUDOS BRASILEIROS E NÃO SÓ

1

O BRINQUEDO PERIGOSO OU OS PINGENTES DA PIEDADE

Em 29 de Maio deste ano de mil novecentos e setenta e quatro, na Piedade, Guanabara, encontraram-se dois trens; um, o passador, de Deodoro para o Rio; outro, de tarifa especial, directo, vindo de Nova Iguaçu; ambos se destinavam ao Rio; para D. Pedro II; para a Central. Pontapés entre pingentes que se cruzavam nos trens originaram quedas: 8 mortos e mais de uma dezena de feridos. Os leitores de O Globo (5.ª feira, 30-5-1974) opinam sob o título: «O Brinquedo perigoso».

Todos caímos de comboios que se cruzam
Como os pingentes dos trens da Piedade
- O nome da terra lhes deu a última verdade:
O fim das vidas que pouco ou muito se usam.

O jogo de viver e morrer a pontapés
Começa cedo já: dentro do ventre materno
Senhor Cristo que é do vosso Lava-pés?
Assim tereis salvo anjos do Inferno?

Maria Cristina Nogueira disse, bem pensante,
Que «eles» achavam «divertido» e «que se pode fazer?»
Vinte e um anos; é estudante
E não teve mais para dizer.

Manuel de Sousa, aposentado, sexagenário,
Declara que, «no seu tempo», «não havia disso não»!
«Querem mostrar que são homens, mas, pelo contrário,
Como se homem precisasse mostrar a sua condição»!

Rita de Cássia, dezassete anos, estudante, enfim,
Acha que é «vontade de aparecer. Só pode ser».
A vida é pra ser mostrada, sim;
Que toda a gente veja o que ela tem pra ver.

António Bento, trinta e um anos, operário,
Nota que «é costume e a viagem fica mais divertida assim».
Para quê mais um aniversário?
A vida pode ter este ou qualquer fim.

João Luís de Oliveira, comerciante, cinquentão,
Opina que se «malucos» eles parecem ser
É apenas porque eles, «coitados», não
Têm mais nada que fazer.

Jussara Gomes, dezasseis anos, estudante,
Joga no fulgor da ilusão:
Acha que chega, é bastante,
«No fundo» querem «chamar a atenção».

Do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem
Diniz Vieira, de quarenta e oito anos, funcionário é;
E diz apenas dos azares da vida na viagem
Que «falta de atenção das autoridades é que não, não é!»

José da Cruz, contínuo, idade oito mais trinta, é avisado.
Comenta que é perigoso o brinquedo, embora
Como «lá dentro é empurra-empurra danado»,
Sempre é bem «mais fresquinho lá fora»...

Outro Cruz, António, motorista, de cinquenta e cinco,
É um realista peremptório e delicado:
«Houvesse mais trens», não «eu não brinco,
Já de fora não ia o cidadão dependurado».

Pedro Santos, anos cinquenta e três e funcionário,
Tem os motivos e até a solução:
«São meninos a bancar o extraordinário»;
Falta «a campanha da educação».

Joaquim de Carvalho passa dos quarenta e é borracheiro,
Tem a última palavra no jornal da hora:
Toda a manhã vai cheio o comboio inteiro
«Às vezes é melhor mesmo ir do lado de fora»!

Carvalho, borracheiro, 'inda acrescentou:
...«Apesar dos riscos»...
_____Falou!
(A moral da estória
Fica nos limbos da memória...)


Rio, 30-5-74

José Blanc de Portugal, Descompasso, Moraes Editores, pp.54-56, Lx, 1986.

22/07/2010

Por causa de um inquérito que confirma o meu espírito estruturalmente desobediente - lembrei-me deste poema

DESTA MANEIRA FALOU ULISSES...

Falo por mim, e por ti me calo
De modo que fica tudo entre nós
Literatura que faço, me fazes
ó palavras! - mas eu onde estou ou quem?

É isto falar, caminhar? ("Ως ἐραὺ) - Volto
para casa para a pátria pura página
interior onde a voz dorme o
seu sono que as larvas povoam

Aí, no fundo da morte, se celebram
as chamadas núpcias literárias, o encontro do
escritor com o seu silêncio. Escrevo para casa
Conto estas aventuras extraordinárias

Manuel António Pina in "Ainda Não é o Fim / Nem o Princípio do Mundo /Calma / É Apenas um Pouco Tarde" ed. Erva Daninha, p.23, 1982, Porto.



21/07/2010

Dos tipos móveis...




A Oficina do Cego editou Isilda e a Mudez dos Códigos de Barras versão de Isilda e a Nudez dos Códigos de Barras de Manuel de Freitas. Agora em caracteres móveis e com ilustrações em ornatos de Manuel Diogo e Luís Henriques. 250 exemplares numerados e assinados pelos autores.

Uma homenagem neste deserto...



Levi António Malho




O Deserto da Filosofia, Edições Rés, Porto, 1987.
O Signo de Orfeu - Requiem por uma Estética Insular, Edições Afrontamento, Porto, 1984.


Co-incidências



e vice-versa...

Domingos Monteiro e Camilo Castelo Branco