20/06/2010

Escritores Esquecidos 4

Alberto de Lacerda (1928-2007)

ROBERT BRESSON

E súbito
No meio de partículas
Fortíssimas
Do mal
Surgiram as mãos honestas
Da mulher arrancando
Batatas
Da terra

A bondade sem medo
Da velha que se deixa acompanhar
Do jovem assassino
Até à pouco
Inocente

Dois desconhecidos

Olhar profundo
Entre mãe e filho
Que não são

São dois desconhecidos
Que o acaso aproximou
Há dias
Arrancando juntos
Batatas
Da terra indiferente

Londres, 19 de Janeiro 1991 in "Átrio", Imprensa Nacional - Casa da Moeda, p.102, 1997.

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Elefante


Não me aparecera ainda num poema


E surge a tromba


É um começo

Londres, 23 de Janeiro 1991 in "Átrio", Imprensa Nacional - Casa da Moeda, p.103, 1997.



SETE POEMAS

Só ficarão talvez sete poemas
De toda esta agonia caos e luto
(Amor eterno a que negaram fruto,
Não por estéril, mas por ínvias penas);

As alegrias grandes e pequenas,
Não do amor sòmente, rosto enxuto,
Foram raras, foi alto o seu tributo;
Secou a angústia as lágrimas serenas.

Fome, fome de pão, fome de amor,
Quebrou-me o píncaro de plenitude
A que só raro ergui asas de alvor.

Versos puros em vez de juventude?
Antes a vida, a luz o seu esplendor.
Versos? Paguei-os. Agonia e luto.

Alberto de Lacerda in "Exílio", Portugália, pp.94-95, 1963.



BIBLIOGRAFIA
1955 - 77 Poemas
1961 - Palácio, ed. Delfos.
1963 - Exílio, Portugália Editora.
1969 - Selected Poems
1981 - Tauromagia
1984 - Oferenda I, INCM-Imprensa Nacional Casa da Moeda.
1987 - Elegias de Londres, INCM-Imprensa Nacional Casa da Moeda.
1988 - Meio-dia
1991 - Sonetos
1994 - Oferenda II, INCM-Imprensa Nacional Casa da Moeda.
1997 - Átrio, INCM-Imprensa Nacional Casa da Moeda.
2001 - Horizonte, INCM-Imprensa Nacional Casa da Moeda.
???? - Mecânica Celeste




Escritores Esquecidos 3




José Blanc de Portugal (Lx, 1914 - 2000)

IX. 5
ÚLCERA CRÍTICA
(auto - e hetero-crítica)






Todos querem ser o que não são
E eu à regra não faço excepção.
Se acontece que eu mil vezes mudo
É só por querer depressa ser tudo
Tudo, entendamos exclui meio milheiro...
Em especial: académico e banqueiro.
Um porque sabe a mais o que é de menos
O outro sofre muito se os lucros são pequenos!
Ambos, porque sim e porque não
Esses querem bem ser o que são...
Admiro até, porém, as linhas rectas

Mas geometria é realmente coisa de poetas
Que eu entorto em letras p'ra fazer um dístico
Capaz de fazer passar até por aforístico
Mas nem sorte alguma.
Puras agulhas de pinheiro, simples caruma
secas como as rectas da geometria
-A grande irmã secreta da poesia-
Que faz as úlceras dos críticos

Em seus comentários analíticos...


22.2.67
José Blanc de Portugal in "Enéadas - 9 Novenas", INCM, col. Biblioteca de Autores Portugueses, p.10, 1989.